Fênix - Até as cinzas voarem
11 Memórias
A porta do quarto do hotel fechou em um clique seco. As paredes brancas refletiam a luz do sol prestes a se pôr atrás das montanhas do distante horizonte.
Gustavo entrou primeiro, olhando as duas camas de solteiro separadas por um uma cabeceira de mogno que ia de um canto para o outro, um abajur de lava em cada ponta. Em cima das camas, um ar-condicionado. Na frente o suporte para a televisão de 600 polegadas um pouco abaixo da altura do ventilador de teto. O piloto deixou suas malas no pé da sua cama e foi até a porta de correr, abrindo-a e parando na sacada, encarando o horizonte céu avermelhado de Sakhir, no Bahrein.
De lá, ele conseguia enxergar parte do paddock, o sentimento de frustração e decepção era nítido em seus olhos, já que, há 24 horas atrás, estava naquele lugar dentro do cockpit do seu carro, pronto para dar continuidade à sua carreira na Fórmula 1 apesar das dificuldades com o carro instável. E agora, de um minuto para o outro, estava sem nada. Sem carro, sem salário, sem carreira.
-Ficar aí só vai piorar, Gustavo — disse Rafael, surgindo na sacada com duas latas de refrigerante. Uma em cada mão e estendendo uma para ele.
-Melhor do que assistir pela televisão — respondeu ele, pegando a lata e a abrindo.
Rafael também abriu a dele.
-Não vamos precisar assistir. Nosso voo é amanhã de manhã. De lá, retornamos para o Brasil e nunca mais olhamos para trás.
-Como se fosse fácil né? Acabou a minha carreira.
-Não diga isso, nossos empresários são ótimos, de repente eles conseguem uma vaga para nós na Indy, ou na Super Fórmula. O importante é não desistir da carreira.
-Eu não tô desistindo da carreira. Foi o Eduardo que desistiu de mim.
Rafael suspirou. Deu um gole do seu refrigerante e entrou no quarto novamente.
-Seja lá quem for que ele contrate para pilotar aquele carro, não vai conseguir. A máscara do Santoro vai cair rapidinho — respondeu ele, frio.
Gustavo ainda ficou na sacada por alguns minutos, encarando o paddock ao longe enquanto bebia o refrigerante. Quando chegou na metade da lata, entrou no quarto de novo, encontrando Rafael sentado na cama, mexendo no celular.
Gustavo se sentou na cama dele, observando o colega.
A raiva de ter sido dispensado da Fênix após tudo o que enfrentaram dava lugar a uma exaustão profunda.
— Ele simplesmente jogou a gente na rua, Rafa — disse Gustavo, a voz rouca, sem encarar o companheiro. — Depois de tudo... Ele apagou o que a gente fez como se a gente não passasse de peça descartável.
Rafael, vendo a frustração do amigo, suspirou devagar. Ele não tinha a fúria visceral de Gustavo. O rosto dele trazia a frieza de quem já havia aprendido, muito cedo, que o mundo não tem pena de ninguém.
— O Eduardo tá desesperado, cara — respondeu Rafael, a voz calma. — Quando o barco afunda, as pessoas atiram qualquer um ao mar pra tentar boiar. Eu já vi essa história acontecer antes.
Gustavo levantou a cabeça, encarando o amigo.
— Como você consegue ficar calmo assim? A sua carreira acabou de ser destruída!
— A minha carreira quase acabou antes de começar — disse Rafael, virando-se para ele — Quando eu era adolescente e estava no kart, eu senti na pele o que é ser abandonado por quem você mais precisa.
Gustavo ficou surpreso, Rafael nunca te lhe contado nada assim.
-Sério? Como?
O sol da tarde queimava o asfalto, mas dentro da garagem escura e poeirenta do kartódromo, o ar parecia rarefeito.
Rafael, com apenas 15 anos, estava encolhido entre dois pneus velhos de kart e um macaco hidráulico. Ele ainda vestia o macacão suado, com o capacete arrumado no chão ao seu lado. O troféu de campeão estadual de kart repousava a poucos metros, reluzindo sob a luz que entrava pela fresta da porta.
Ele tinha acabado de vencer a corrida mais importante da sua vida. Tinha ultrapassado na última volta, cravado a volta mais rápida e conquistado o título.
Mas ele não estava comemorando. Ele estava paralisado de pavor.
Na mente de Rafael, cada pequeno erro que cometeu nas primeiras voltas — uma travada de pneu na Curva 1, uma espalhada na saída do miolo — era motivo suficiente para o pai aparecer, pegar o troféu da sua mão e impor mais um castigo humilhante na frente de todos. O pavor de ouvir os passos do pai o fez fugir do pódio direto para o lugar mais escuro da garagem.
Para o pai de Rafael, o automobilismo não era um esporte ou uma paixão — era uma extensão do próprio ego. Um segundo ou terceiro lugar no pódio do kart não era um resultado comemorado; era encarado como uma afronta familiar.
A lembrança do garoto sendo abandonado no estacionamento escuro do kartódromo, esperando até a madrugada com a bolsa de equipamentos no ombro, criou nele o pavor do abandono. O castigo do cartaz sob o sol e a chuva foi a tentativa cruel de quebrar sua autoestima, ensinando-o a esconder qualquer vulnerabilidade.
O ápice da perversidade veio quando o pai, incapaz de aceitar que o filho cometia erros como qualquer jovem piloto em formação, falsificou um teste de DNA para rejeitá-lo, usando a mentira como um golpe final para justificar seu próprio desprezo.
O medo da mãe em enfrentar o marido gerou em Rafael uma sensação contínua de desamparo, moldando o comportamento do piloto que, mais tarde, aprendeu a resolver tudo sozinho e a não esperar resgate de ninguém.
A porta de metal da garagem rangeu. Rafael encolheu os ombros, fechando os olhos e esperando o grito ou o puxão no braço.
— “Rafa? Meu filho, você tá aí?”
A voz não era do pai. Era uma voz mansa, trêmula, preocupada.
Rafael abriu os olhos devagar. Seus avós maternos, que quase nunca iam às corridas por causa do clima tenso que o genro criava, estavam parados na entrada, procurando por ele com os olhos cheios de lágrimas.
Quando o avô se aproximou e se ajoelhou no chão sujo ao lado dele, o garoto de 15 anos que tentava ser "durão" e "perfeito" desmoronou completamente. Em meio a soluços convulsivos, Rafael tirou do fundo do peito tudo o que guardou por anos: Os abandonos no estacionamento no frio da madrugada; As doze horas seguidas sob sol e chuva segurando o cartaz na rua; E a dor mais profunda: o teste falso de DNA que o pai usou para rasgar sua identidade como filho.
A avó de Rafael cobriu a boca com as mãos, em choque, enquanto o avô, com os punhos cerrados e lágrimas de raiva no rosto, abraçou o neto com uma força que o garoto jamais tinha sentido na vida.
— “Acabou, Rafa” — disse o avô, a voz firme como um juramento. — “Você não volta mais para aquela casa. A partir de hoje, a sua história é com a gente.”
Naquela mesma semana, os avós acionaram a justiça, para conseguirem a guarda de Rafael e cortarem qualquer vínculo com o pai tóxico.
Sabendo que as feridas emocionais eram profundas demais para serem curadas apenas com carinho, o avô fez questão de buscar a melhor estrutura profissional possível antes de enviar o neto para a Europa: contrataram um especialista em psicologia esportiva e automobilística.
Durante meses, o trabalho com o psicólogo desconstruiu a mentira que o pai implantou na cabeça dele. Rafael aprendeu que:
O erro na pista é dado de telemetria, não falha de caráter. Ele não precisava ser perfeito para merecer respeito. O automobilismo era a paixão dele, não a ferramenta de validação de um abusador.
-Sinto muito cara — suspirou Gustavo, quando Rafael parou de falar por um instante, limpando as lágrimas.
-Nem todo mundo que eu conheci era cruel. No meio do medo e do isolamento que o meu pai impunha, alguém surgiu como um herói resgatando uma pessoa indefesa, ou como um pequeno farol de empatia, uma daquelas pessoas simples que enxergam a injustiça e fazem o que podem para proteger uma criança — continuou Rafael.
O nome dele era Seu Zé. Um senhor de cabelos grisalhos, jaqueta gasta da pista e um rádio de pilha sempre no bolso do peito.
Enquanto o pai de Rafael arrancava com o carro e cantava pneu na saída do estacionamento, deixando o garoto de onze ou doze anos sozinho na escuridão após um resultado ruim, era o Seu Zé quem aparecia caminhando devagar com uma lanterna na mão.
Ele não fazia perguntas difíceis. Sabia exatamente o tipo de monstro que o pai do garoto era, porque já tinha visto as broncas e o terror psicológico na mureta dos boxes.
O Refúgio na Guarita: Nas noites frias de sábado, o Seu Zé levava o Rafael para a salinha do portão principal. Ligava um aquecedor antigo, servia um copo de chá quente de saquinho com biscoito de água e sal e improvisava uma cama com colchonetes velhos do pódio no cantinho da guarita.
A Segunda-Feira de Manhã: Quando a corrida acontecia no domingo e o pai o abandonava no circuito, o Seu Zé esperava o dia clarear, tirava do próprio bolso o dinheiro da passagem e levava o Rafael de ônibus até a porta da escola pública antes do primeiro sinal tocar. Ele garantia que o garoto tivesse o uniforme limpo e um prato de comida no almoço da cantina.
A presença do Seu Zé ensinou algo fundamental ao Rafael ainda garoto: o mundo não era feito apenas de pessoas tóxicas e abusivas.
Enquanto o pai representava a crueldade e a mãe a omissão, o vigia do kartódromo representava a bondade silenciosa e sem segundas intenções.
Foi com o Seu Zé que Rafael aprendeu que empatia e respeito não dependem de status, dinheiro ou troféus no pódio. Essa vivência tornou Rafael um homem atento aos bastidores — o tipo de piloto que, no futuro, tratava cada mecânico, lavador de peças e cozinheiro da Vortex com a mesma dignidade e consideração com que tratava os engenheiros.
Gustavo continuava calado, ouvindo tudo. Rafael continuou.
O ar condicionado da 3ª Vara da Infância e da Juventude parecia insuficiente para amenizar o peso sufocante daquela sala. O zumbido fraco das lâmpadas fluorescentes dividia o silêncio com o bater ritmado das teclas do computador da datilógrafa do juiz.
De um lado da mesa, o pai de Rafael mantinha a postura ereta, vestindo um terno alinhado que escondia com perfeição o homem que abandonava o próprio filho em guarita de kartódromo. Ao lado dele, a mãe mantinha os olhos fixos nas próprias mãos cruzadas no colo, os ombros encolhidos na mesma postura de omissão que adotou durante anos.
Do outro lado, os avós de Rafael permaneciam de mãos dadas. O avô, com o rosto marcado pelo tempo e as mãos calejadas de quem trabalhou a vida inteira, encarava o genro com uma firmeza serena. Entre os dois, Rafael, aos 15 anos, vestia um casaco simples, os braços cruzados sobre o peito para disfarçar o tremor sutil nos pulsos.
O Juiz de Direito, um homem de cabelos grisalhos e olhar cansado, ajustou os óculos e folheou o relatório do Conselho Tutelar.
— “Estamos aqui para analisar o pedido de guarda provisória em caráter de urgência pleiteado pelos avós maternos, Sr. Arthur e Sra. Helena” — começou o magistrado, com a voz grave e pausada. — “O relatório anexado contém laudos médicos, depoimentos e cópias de registros do próprio kartódromo regional. Quero ouvir as partes.”
O advogado do pai pigarreou, ajeitando a gravata com arrogância:
— “Excelência, meu cliente é um provedor exemplar. Um homem de negócios respeitado que investiu centenas de milhares de reais na carreira esportiva do filho. O que os avós chamam de 'maus-tratos' nada mais é do que disciplina rígida necessária no esporte de alta performance. Garotos da idade dele precisam de limites e cobrança para não se tornarem medíocres.”
— “Disciplina?” — a voz do avô de Rafael cortou o ar, baixa, mas carregada de uma indignação que fez o advogado do pai pausar. — “Deixar um menino de doze anos num estacionamento escuro às duas da manhã porque ele rodou na curva é disciplina? Fazer meu neto segurar uma placa na rua sob chuva é criação?”
— “Senhor Arthur, por favor, aguarde sua vez” — interveio o juiz, erguendo a mão. Em seguida, o magistrado voltou seu olhar para a mãe de Rafael. — “Sra. Mariana, a senhora presenciou esses fatos?”
A mãe estremeceu. O pai ao seu lado deu um leve pigarro, um sinal não verbal de controle que não passou despercebido pelo juiz. Mariana abriu a boca, hesitou, e com a voz quase inaudível respondeu:
— “O... o meu marido só queria o melhor pro futuro do Rafael, Meritíssimo. Às vezes as coisas saíam um pouco do controle, mas...”
— “Ela não vai dizer a verdade, Excelência” — a voz de Rafael ecoou pela sala.
Todos os olhares se voltaram para o garoto. Era a primeira vez que ele falava desde que entrara na audiência.
O juiz inclinou-se para a frente, suavizando o tom de voz:
— “Pode falar, Rafael. Você está seguro aqui.”
Rafael olhou diretamente para o pai. Não havia raiva em seus olhos, nem a raiva cega que o pai costumava cultivar nele. Havia apenas a clareza de quem tinha sido resgatado da escuridão.
— “Ele nunca quis o meu melhor. Ele queria o troféu dele” — disse Rafael, mantendo a voz firme, embora a respiração fosse curta. — “No dia em que eu não ganhava, eu não tinha pai. Eu tinha um carcereiro. Se não fosse o Seu Zé, o vigia da pista que me dava um colchonete e me levava pra escola na segunda-feira, eu nem sei como teria chegado aos quinze anos.”
O garoto tirou do bolso do casaco um envelope pardo dobrado e o colocou sobre a mesa do juiz.
— “O teste de DNA falso que ele imprimiu pra dizer que eu não era filho dele quando eu fiquei em terceiro lugar no regional. Ele deixou na minha mochila pra eu ler antes de ir pra pista.”
O silêncio na sala tornou-se absoluto.
O juiz pegou o envelope, abriu e examinou o documento. Em seguida, olhou para o pai de Rafael. O homem, pela primeira vez na tarde, perdeu a cor do rosto, desviando o olhar para a parede.
O magistrado fechou a pasta do processo com um golpe seco que ecoou pela sala como uma sentença definitiva.
— “Este juízo já viu muitas formas de rigor parental, mas o que está documentado aqui ultrapassa qualquer limite da razoabilidade humana. Trata-se de abuso psicológico continuado e degradação da dignidade de um menor.”
O juiz assinou a folha de despacho com traços rápidos e precisos.
— “Defiro a guarda provisória imediata aos avós maternos. Determino a busca e apreensão dos bens e documentos do adolescente na residência dos pais, a ser cumprida por oficial de justiça ainda hoje. Fica fixada uma medida protetiva de afastamento: o genitor está proibido de se aproximar a menos de quinhentos metros de Rafael, de sua escola ou de seus locais de treino.”
O magistrado olhou para o advogado do pai:
— “Encaminharei cópia integral destes autos ao Ministério Público para apuração dos crimes de maus-tratos, falsificação de documento e alienação parental grave.”
O pai tentou se levantar para protestar, mas seu próprio advogado o segurou pelo braço, balançando a cabeça em sinal de derrota.
Rafael respirou fundo. Pela primeira vez em anos, o ar entrou rasgando seus pulmões de forma leve, sem o peso do medo.
A avó puxou o neto para um abraço apertado, chorando baixinho contra o seu ombro, enquanto o avô segurou a mão do garoto com firmeza. Na porta da sala, a mãe de Rafael viu o filho caminhar para fora ao lado dos avós, sem olhar para trás uma única vez.
Ali, na sala fria do fórum, o piloto que um dia conquistaria o mundo começava a vencer a corrida mais importante da sua vida.
Quando Rafael terminou de contar, Gustavo suspirou:
-Pelo menos você teve seus avós e o vigia para te apoiar. Acredite em mim, não foi o meu caso — disse ele.
-Sério? Como assim? — quis saber Rafael.
Gustavo não gostava de lembrar, mas se Rafael confiava tanto nele a ponta de lhe contar aquilo, ele também tinha que contar o dele.
O ar na sala de estar da casa dos pais de Gustavo estava pesado, denso e sufocante, carregado por uma tensão que parecia prestes a explodir a qualquer segundo.
Gustavo, com apenas dezoito anos, vestia uma camisa regata preta que mostrava seus braços suados e jeans desbotado, o olhar ainda cansado de um final de semana inteiro de treinos e a corrida na Europa. Ele havia acabado de ganhar o campeonato de Fórmula 3 e estava animado para comemorar com sua família, mas o silêncio mortal que encontrou ao cruzar a porta o fez parar no meio do corredor.
No centro da sala, a cunhada — esposa de seu irmão mais velho — estava sentada no sofá, chorando de forma dramática, com um lenço amassado entre os dedos. Ao lado dela, a filha de doze anos mantinha a cabeça baixa, encolhida, encenando um silêncio assustado perfeitamente calculado.
O pai de Gustavo estava de pé no meio do cômodo, com o rosto vermelho de raiva e os punhos cerrados ao lado do corpo. A mãe, pálida, olhava para Gustavo com uma mistura de choque, nojo e negação.
— “O que... o que tá acontecendo aqui?” — perguntou Gustavo, a voz falhando diante do olhar gélido do pai.
— “Seu canalha!” — o brado do pai ecoou pelas paredes, fazendo os copos de vidro no aparador vibrarem. — “Você não tem vergonha na cara? Dentro da minha própria casa? Com a sua própria sobrinha?”
Gustavo deu um passo para trás, completamente desorientado.
— “O quê? Do que você tá falando, pai? Eu acabei de chegar do aeroporto!”
A cunhada levantou a cabeça devagar, soltando um soluço soluçado e ensaiado, apertando a mão da filha:
— “Não finge, Gustavo... A garota me contou tudo! O jeito que você olhava pra ela, as coisas que você falava quando ninguém tava olhando na cozinha... Você aproveitou que seu irmão tava trabalhando pra tentar tocar nela!”
O chão pareceu sumir sob os pés de Gustavo. O ar fugiu de seus pulmões como se tivesse levado um soco no estômago. Ele olhou para a sobrinha, tentando encontrar qualquer resquício da verdade no olhar da garota, mas a menina apenas se encolheu mais, seguindo à risca a mentira orquestrada pela mãe — motivada pela inveja doentia que a cunhada tinha da atenção e do dinheiro que a família começava a investir no futuro de Gustavo no automobilismo.
— “Isso é mentira!” — gritou Gustavo, o desespero rasgando sua garganta. — “Mãe, pelo amor de Deus, você me conhece! Eu estava na Europa correndo de Fórmula 3 a semana toda! A senhora sabe que eu nunca faria uma nojenta dessas!”
Ele deu um passo em direção à mãe, buscando qualquer fio de socorro ou dúvida em seus olhos. Mas a mãe deu dois passos para trás, cobrindo a boca com as mãos, recusando-se a tocar no próprio filho.
— “Não chega perto de mim, Gustavo...” — a voz da mãe veio fria, trêmula, sem qualquer espaço para ouvir o lado dele. — “Como é que você teve coragem? A gente te apoiando, torcendo por você, comemorando cada conquista sua... e você se torna esse monstro?”
— “Pai, me escuta! Ela tá inventando isso! Pergunta pra equipe, liga pro meu empresário!” — implorou Gustavo, as lágrimas de raiva e impotência finalmente transbordando.
— “Tá chamando minha filha de mentirosa, seu calhorda?”
Gustavo bufou.
— “Pai, elas estão mentindo! Ela tá com raiva porque o dinheiro dos patrocinadores está caindo na minha nova conta que eu cuido e não na conta que ela cuidava e ostentava luxo! Ela quer se vingar...”
O estalo seco cortou o ar antes mesmo que Gustavo pudesse terminar a frase. O tapa do pai foi tão forte e cheio de raiva que o impacto fez a cabeça de Gustavo virar de golpe. O garoto perdeu o equilíbrio, o capacete rolou pelo piso de madeira e ele caiu pesado no chão, com a mão sobre a face queimando de dor.
O pai, tremendo de fúria e cego pela raiva, apontou o dedo na cara do jovem caído.
— “Cala a boca!” — urrou o pai, apontando o dedo na cara do garoto. — “Você tem dezoito anos, já é homem feito perante a lei! Você não é mais meu filho. Pega as suas coisas e some da minha casa agora antes que eu chame a polícia e te jogue na cadeia!”
— “Pai...”
— “FORA!” — o homem avançou, pegando Gustavo pelo colarinho do macacão e empurrando-o com força em direção à porta da rua. — “Nunca mais pisa neste chão! Você é uma vergonha! Um lixo!”
A porta de madeira bateu com um estrondo seco, e o som da tranca girando ecoou como uma sentença de morte.
Gustavo ficou parado na calçada sob a luz fraca do poste de iluminação. A mala no chão, o capacete na mão e o macacão sujo de graxa. Lá dentro, ele podia ouvir o choro falso da cunhada sendo consolado pelos pais que o geraram, mas que preferiram condená-lo sem dar a ele o benefício de uma única pergunta.
Sem ter para onde ir, sem dinheiro no bolso e sem conhecer o Eduardo ou a estrutura da Fênix — que só cruzariam seu caminho anos mais tarde —, o garoto de dezessete anos caminhou sozinho pela noite fria, carregando o peso da mentira que tentou destruir sua vida antes mesmo que sua história nas pistas começasse.
Quando Gustavo terminou de contar, Rafael arregalou os olhos de choque:
-Caramba! Sério cara? Tudo isso porque ela queria usar o seu dinheiro pra ostentar luxo? — perguntou.
-Exatamente. Eu era criança quando comecei, por lei não podia ter conta bancária, então deixei meu irmão mais velho cuidar de tudo, já que ele foi o que me ajudou a conseguir o primeiro patrocinador. Mas quando eu fiz dezoito e queria comprar um carro, vi que não tinha dinheiro, descobri pelo banco que estavam sacando em luxo e futilidades, fiz outra conta e pedi pra depositarem o meu salário lá. Mas ela descobriu e praticamente mandou que eu "consertasse" aquilo. Mas eu recusei, então, não foi difícil de perceber que foi armação — bufou ele.
-E como conseguiu desmascarar ela?
O escritório da imobiliária de alto padrão ficava no trigésimo andar de um prédio espelhado na Avenida Paulista. O ar condicionado central mantinha o ambiente frio, e o som dos teclados dividia o espaço com o aroma de café caro.
A cunhada de Gustavo ajustava uns papéis na mesa de acrílico quando os passos firmes no piso de porcelanato a fizeram levantar os olhos.
Gustavo estava parado na frente dela. Ele vestia um jeans simples, jaqueta escura e trazia apenas uma caneta de metal pesada presa no bolso superior do casaco.
— “O que você tá fazendo aqui, Gustavo?” — perguntou ela, a voz baixa, cheia de nojo instantâneo. — “Se o pessoal da recepção souber quem você é, chamam a segurança na hora. Some da minha frente.”
— “Eu só quero entender...” — disse Gustavo, com a voz embargada, mantendo as mãos nos bolsos. Ele parecia derrotado, abatido, exatamente o papel que precisava atuar. — “Você destruiu a minha vida. Meus pais me expulsaram de casa, apanhei na sala, perdi meu contrato... Por quê? O que eu fiz pra você?”
Ela olhou ao redor, garantindo que os colegas de trabalho estavam longe o suficiente. Um sorriso debochado e vitorioso começou a se desenhar nos lábios dela. Ela se encostou na mesa, cruzando os braços com a arrogância de quem se julgava intocável.
— “O que você fez?” — ela soltou uma risada curta, cheia de amargura. — “Você destruiu a minha vida de luxo, seu moleque! Aquele dinheiro dos patrocinadores era pra ser nosso! Eu tinha direito àquela conta! Viagens, roupas, o padrão que eu merecia! Mas você resolveu dar uma de espertinho, mudar a conta bancária e me cortar de tudo.”
— “Aquele dinheiro era pra pagar minha carreira, minhas corridas...” — sussurrou Gustavo.
— “Você devia ter pensado nisso antes de se recusar a dar o dinheiro pra mim!” — disparou ela, inclinando o corpo para a frente, a voz carregada de veneno. — “Achou mesmo que ia ficar impune? Eu montei tudo com a minha filha, detalhe por detalhe. Ensinei exatamente o que ela tinha que falar, como tinha que chorar na frente dos seus pais. Foi tão fácil... Seus pais acreditaram em cada palavra sem nem pensar duas vezes. E agora olha pra você: um indigente sem carreira.”
Gustavo deu um passo para trás. O olhar de desespero sumiu do seu rosto, dando lugar a uma calmaria fria e absoluta.
Ele tirou a caneta de metal do bolso, apertou o botão na parte superior e o pequeno LED azul se apagou, salvando o arquivo de áudio.
— “Obrigado pela confissão” — disse Gustavo, a voz impecavelmente firme.
A mulher franziu a testa, o sorriso congelando no rosto.
— “O quê? Que palhaçada é essa...?”
Antes que ela pudesse terminar a frase, a porta de vidro do escritório se abriu. Matheus — o companheiro de equipe que abrigou Gustavo em seu pequeno apartamento nos últimos três meses, dividindo a comida e o sofá da sala — caminhou a passos largos pelo corredor.
Logo atrás dele, dois policiais militares e o advogado contratado com a ajuda dos pais de Matheus entravam no recinto.
— “Tá tudo gravado, dona Sônia” — anunciou Matheus, parando ao lado de Gustavo e olhando para a mulher com o mais puro desprezo. — “A placa de áudio dessa caneta envia o sinal em tempo real por Bluetooth. O delegado ali fora acabou de ouvir cada palavra do seu golpe.”
O rosto da mulher perdeu toda a cor instantaneamente. Os braços caindo ao lado do corpo enquanto a equipe do escritório parava para assistir à cena.
— “Senhora Sônia” — disse o policial, aproximando-se da mesa e sacando as algemas. — “A senhora está presa em flagrante por denunciação caluniosa, extorsão e corrupção de menor.”
— “Isso é armação! É mentira dele!” — gritou ela, desesperada, recuando até bater as costas na parede enquanto o policial puxava seus braços para trás. — “Gustavo, fala pra eles! Você tá me armando uma cilada!”
Gustavo ajustou a jaqueta, olhando nos olhos da mulher que quase destruiu seu futuro por ganância.
— “Você disse que eu devia ter pensado antes” — respondeu Gustavo, calmamente. — “Agora é a sua vez de pensar. Na cadeia.”
Matheus colocou a mão no ombro de Gustavo, puxando o amigo para fora do escritório enquanto os policiais conduziam a mulher algemada sob o olhar em choque de todos os seus colegas de trabalho. Ao sair para a calçada da Paulista, sob a luz do sol, Gustavo respirou fundo: a mentira tinha acabado, e a sua volta por cima estava apenas começando.
Rafael riu.
-Boa. Excelente plano e execução! — disse ele.
-Pois é. E o escândalo meio que manchou a minha reputação. Muitos patrocinadores me deixaram de lado. Por isso eu não era tão conhecido na Fórmula 2. O Eduardo foi o único que viu meu talento e era nele que eu via a grande chance de me reerguer de verdade — suspirou Gustavo.
— Então você entende — disse Rafael, encarando o amigo nos olhos. — A gente veio da lama, Gus. O Eduardo pode tirar nosso contrato, tirar nosso carro e nos colocar pra fora do Paddock hoje. Mas ele não pode tirar o que a gente aprendeu no chão da pista. Se a gente sobreviveu ao nosso próprio passado, essa demissão não vai ser o nosso fim.
E foi ali, no fundo daquele quarto no Bahrein, a aliança entre os dois deixava de ser apenas uma parceria de equipe para se tornar uma fraternidade forjada na dor.
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