É muita informação em tão poucos minutos. Tudo ronda em minha cabeça como um furacão de conclusões. Não sei o que fazer. Opto por me deitar na cama e deixar que os meus sonhos me levem para um lugar melhor, com pessoas melhores, sem qualquer problema que eu precise resolver.

Acordo-me com a luz do sol entrando pela janela e indo além dos meus olhos. Não sonhara com nada esta noite, pelo menos, não que eu me lembre. Recordo do que acontecera na noite anterior. Olho no relógio e vejo que ainda são 10:34, ou seja, faltam aproximadamente 3 horas para que meu pai chegue do trabalho.

Levanto da cama e vou direto para o banheiro. Escovo meus dentes e penteio meu cabelo num rabo de cavalo. Provavelmente tenho muita coisa para fazer hoje. Natalie sempre me manda fazer as mesmas coisas todos os dias, o que me deixa muito cansada no final do dia. Não cruzei com ela hoje, o que me surpreende. Talvez ela tenha ido ao mercado, ou ao shopping, ou somente está lá fora, apreciando o lindo dia ensolarado, mesmo considerando que isso não é algo que ela costuma fazer. Mas pensando por outro lado, gostaria que ela estivesse no meio de uma rodovia, e que um carro estivesse passando no meio dessa rodovia no mesmo segundo que ela.

Balanço a cabeça desesperadamente tendo noção da maldade que acabara de desejar.

Desço as escadas e preparo meu próprio café. Como sempre, meu café da manhã é sempre a mesma coisa. Pão com manteiga. Eu tento mudar um pouco, fazer algo diferente. Pão com manteiga assado, pão com manteiga na sanduicheira, pão com manteiga até onde eu não tiver mais onde colocar. Depois de comer, começo meu trabalho lavando a louça, o banheiro e finalizo passando pano na casa . Olho para o relógio que marcam 13:43. Exatamente quando termino meu trabalho, meu pai chega do dele.

Ele trabalha numa industria de alimentos e é chefe de expedição. Ele passa a maior parte do tempo conferindo os produtos. Todos os dias, menos nos fins de semana.

— Oi, Megan.

— Oi, pai.

Ele é um pouco frio. Sempre foi. E apesar de todo sofrimento que já me causara, ele era o que restava. Ele era a minha família.

— Onde está Natalie? — ele pergunta.

— Ainda não a vi hoje. — respondo.

Ele me olha desconfiado, dirige-se até a porta e sai. Volta 3 minutos depois.

— Não fez o almoço. Não está aqui. Não está lá fora.

Ele suspira e sobe as escadas, como se não acreditasse quando dissera que não a vi hoje.
Menos de um minuto depois ele volta.

— Por que você não liga para o celular dela? — pergunto.

— Mas ela não tem...

Ele para e faz um movimento com a cabeça e olha para mim com uma expressão confusa.

— Celular? Ela tem um celular? — ele pergunta.

Percebo que acabo de cometer um erro. É claro. Eu nunca a vira com um celular. Meu pai sempre me disse que eu era proibida de ter um. Mas não sabia que a mesma regra servia para ela.

— Bom ela deve ter comprado um recentemente — eu falei, ele me olhou com um estranho olhar de desconfiança.

— Não, é claro que não. — ele resmunga.

— Toda vez que ela chega, traz algumas bolsas, talvez seja roupas, acessórios, em alguma delas pode ter vindo o celular, não sei. — falei, um pouco trêmula.

— Você já viu tais bolsas quando foi limpar o quarto? — ele pergunta.

— Algumas vezes — respondo.

— Então, acredito, você poderia me mostrar.

— Não, é, digo, hoje quando limpar as bolsas já não estavam mais lá. Acho que ela as jogou fora para não acumular algo sem necessidade no quarto.

— Você está mentindo.

— Não estou, pai, não estou.

Ele sobe as escadas novamente e eu o sigo. Empurra a porta de seu quarto com tanta força que cheguei a pensar que iria derrubá-la.

— Pai — falo, com os olhos lacrimejando.

Ele me ignora e começa a revirar tudo. Meu pai nunca aceitara que ninguem, além dele, que usava para fins do trabalho, tivesse um celular. Acredito que pelo fato de Natalie não ter cumprido a regra, ele suspeita de que ela esconde algo. Nesse instante, ele está retirando as caixas de sapato do guarda-roupa. A caixa. A arma. Não.

— Não pai, não, você não vai achar nada, esse celular não existe, foi só um mal entendido, não — grito, e ele me empurra para trás e caio ralando o cotovelo na porta.

Ele pega na caixa que a arma estava guardada. Eu fecho os olhos. Respiro fundo. Abro-os novamente, e ele abre a caixa.

Mas ali não tem nada. A arma não estava mais ali. Desço as escadas, aliviada, nervosa, confusa. Dez segundos depois meu pai volta a sala. Ele está de frente para mim.

— Fala agora! — ele fala, calmamente, palavra por palavra.

— Não sei de nada, pai, eu juro. — minto. Me sinto mal por isso, mas não há mais nada que eu possa fazer.

Ele me empurra na parede próxima a cozinha.

— Me fala, sua vadia. Me fala! — ele grita, apertando meu pescoço.

— Não vai ser necessário — diz uma voz atrás de meu pai.

Meu pai se vira, e uma bala evacoa no ar, atingindo-o.

Ele cai em meus braços.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.