Eyes That I Love Both (REMAKE)
2 Um pesadelo e uma breve despedida
Notas iniciais
Enquanto dormia profundamente, Nico sonhou.
Estava em pleno céu, rodeado de nuvens brancas e disformes em contraste com o azul do céu. Ao seu redor três figuras o observavam com olhos vazios, e uma delas era sua irmã, Bianca Di Angelo, com seus longos cabelos soltos e sendo balançados pelo vento; seus lábios se mexeram pronunciando o nome de Nico; a outra figura que estava em pé ao seu redor, impotente, era sua mãe, Maria Di Angelo, também com os cabelos soltos e sendo esvoaçados pela leve brisa que soprava, porém, ao contrário de Bianca, seus lábios não pronunciaram seu nome, apenas lhe direcionou o mais terno e sincero sorriso. E a terceira figura o fitava com olhos de um verde-mar intensos e em seus lábios havia um puro e singelo sorriso. Nico andou na direção da figura flutuante e sorridente de sua mãe, com a mão estendida tentando tocá-la; mas quanto mais próximo ele chegava de sua mãe, mais as nuvens que o cercavam se tornavam densas e negras, e quando estava a passos de tocar a forma de sua mãe, ela começou a se dissolver em pó e estes eram levados pelo forte vento soprado ali. Uma gota úmida e fria acertou o rosto de Nico; ele olhou na direção da Bianca, que o fitava com olhos tristes e correu desesperado em sua direção, mas ela também se dissolveu em pó e foi levada pelo vento. A gota úmida deslizou por sobre a pele pálida de Nico, como o leve roçar do dedo de um cadáver. Nico olhou na direção de Percy Jackson: o filho do mar o olhava com aqueles dois rubis brilhantes; aqueles olhos que eu tanto amo, pensou Nico em sonho, se aproximando desesperado e de mãos estendidas tentando tocar Percy. “Eu não quero mais perder ninguém que é importante para mim!” Seus dedos tocaram a mão estendida de Percy, e ele sorriu; o coração de Nico se acalmou, mas por pouco tempo... O filho de Poseidon deixou de sorrir, desviando o olhar para o infinito tapete de nuvens negras onde pisavam, e então começou a se dissolver em pó. O desespero tomou conta de Nico, que tentava segurar as mãos de Percy, mas era em vão; logo Nico se viu sozinho, rodeado de nuvens negras e sendo alvejado por uma forte e constante chuva fria que se misturava às suas lágrimas quentes. Seu grito desespero ecoou dentro de sua própria mente, despertando-o do pesadelo.
Um grito subiu involuntário por sua garganta, mas Nico o impediu de sair com as mãos postas em concha por sobre a boca. Seu corpo estava quente e encharcado de suor, sua cabeça latejava levemente, seu coração batia descompassado e sua respiração era ofegante e profunda. Nico estava sentado no sofá em que dormira na casa de Percy. Um grosso cobertor estava por sobre suas pernas. Foi apenas um sonho, Nico. Acalme-se.
Nico levantou-se, tentando afastar as imagens do sonho que insistiam em lhe voltar à mente, e caminhou até o banheiro. Olhou seu reflexo no espelho por longos segundos antes de ligar a torneira e pôr e mão em concha em baixo da torrente fria, jogando em seguida a água por sobre o rosto pálido. Tateou a parede até encontrar o tecido da toalha e secar o rosto. Agora Nico se sentia desperto e podia distinguir a realidade de um sonho.
Foi a passos lentos até a cozinha, de onde pôde ver a esfera de luz que era a lua despontar, majestosa, no céu escuro e repleto de estrelas. Era madrugada, percebeu, olhando para um relógio digital que marcavam 4h36m AM. Nico respirou profundamente e sentou-se na cadeira de frente para a mesa e para a janela.
– Por que sonhei com ele? – se perguntou Nico em voz baixa.
Olhou novamente para a janela, procurando no céu alguma nuvem negra que trazia consigo uma forte chuva. Nada. Lembrou-se de Bianca; das noites em que acordava de um pesadelo e via a face de sua irmã, observando e cuidando dele, lhe dizendo em voz serena e calma que estava tudo bem.
A maninha ta aqui. Eu estarei sempre com você.
Uma onda de tristeza invadiu subitamente Nico, e ele deitou o rosto na superfície plana e fria da mesa, e a sensação era boa, mas não o suficiente. Sua mente era um turbilhão de pensamentos confusos e sem sentido.
Ele via os olhos brilhantes de Percy. Ele via os lábios do filho do mar e sentia a mesma sensação que sempre sentia quando se lembrava dele. Eu estou apaixonado por Percy. Nico colocou ambas as mãos na cabeça, em meio ao caos desordenado que eram seus cabelos, e amaldiçoou a si mesmo por alimentar tal sentimento. Por que tudo estava contra ele? Se ele desejava algo que não poderia ter estava fardado a sofrer? Isto era injusto.
Nico sentiu uma vontade imensa de sair dali, do mesmo lugar que Percy estava. Se o que ele sentia era realmente real, — e ele tinha quase certeza que era — quanto mais próximo Nico ficasse dele, mais sofreria. Tinha de se afastar, de novo. Mas ao mesmo tempo em que não queria ficar próximo do filho do mar, ele ansiava por sua presença. Percy era uma das poucas pessoas – se não fosse a única – que conseguia fazer Nico sorrir. Percy era tudo o que lhe restava. Lembrou-se do sonho...
Levantou-se, decidido a ir embora, e não voltar enquanto esses sentimentos não tiverem desaparecido por completo. A luz da cozinha se acendeu, cegando parcialmente Nico.
– Você está acordado? – perguntou uma voz, que Nico concluía ser a de Percy, pois nada via com a luz ofuscando seus olhos.
– S-sim – disse ele, tapando com a palma da mão o forte brilho. – A luz... Dói. Apaga.
Percy atendeu ao pedido de Nico e, depois de apagada a luz, sentou-se à frente de Nico.
– Você realmente gosta da escuridão, neh? – perguntou-lhe Percy. Estava escuro, se não fosse o brilho intenso da lua, nada poderia ser visto; mas, mesmo na escuridão da noite e desprovido de luz alguma, os olhos de Percy brilhavam. Nico assentiu, mas lembrando-se em seguida que provavelmente Percy não via praticamente nada, disse:
– Sim. Me sinto mais confortável.
Ficaram em silêncio por um longo tempo, até que Percy lhe perguntou após um bocejo disfarçado e quase inaudível:
– Um mau sonho?
– Um verdadeiro pesadelo. – respondeu Nico, a tristeza transparente em seu tom de voz.
– Bianca?
– Sim, e minha mãe... – Nico hesitou, estava prestes a incluir ele na contagem, mas deteve a língua. Percy nada disse, e Nico o amou mais ainda por saber o que fazer em momentos certos. Não dizer nada às vezes é o melhor consolo que se pode oferecer. Nico se levantou e disse à Percy:
– Eu vou indo.
Houve um arrastar súbito de cadeira e uma exclamação vinda de Percy; provavelmente bateu com o pé na mesa.
– M-mas... – ele hesitou, preocupado só de imaginar Nico sozinho em meio à madrugada. – É tarde. Por que não passa a noite e vai pela manha?
– Não... – mesmo sabendo que estava desgastado por causa da viagem de Tokyo até à casa de Percy, algo dizia constantemente dentro dele que deveria ir embora. – Eu... Quero ir. – Nico olhou para os olhos dele, mesmo em meio à escuridão completa. Percy era apenas uma silhueta escura. – Por favor, não me impeça.
Percy pôde identificar a tristeza na voz do filho de Hades, e não insistiu. Acendeu novamente a luz, só que desta vez Nico não se cegou com o brilho da lâmpada. Percy foi até algum lugar em seu quarto e trouxe nas mãos o casaco de Nico; entregou-o a ele e ficou a fitá-lo com expressão preocupada. Nico andou a passos largos e apressados até a escadaria de incêndio por onde entrara e Percy o seguiu a passos lentos. Nico passou por sobre a janela e virou na direção de Percy.
– Nos vemos em breve, Percy – despediu-se ele, descendo a escadaria, pois ainda não se achava suficientemente forte para viajar nas sombras; quando estava prestes a sumir da vista do filho do mar, ele disse:
– Se cuide, Nico – havia um misto de tristeza e melancolia em sua voz, e isso fez com que o coração de Nico doesse. – Aparece aqui a qualquer hora. – Nico não viu, mas imaginou o sorriso dele despontando de seus lábios. Acenou levemente com a cabeça, e desceu as escadarias rumo à rua.
Em frente ao prédio em que Percy Jackson morava, uma limusine preta extremamente luxuosa estava estacionada estrategicamente, escondida pelas sombras densas de uma árvore.
Quando um garoto vestido completamente de preto, à exceção do casaco, passou do outro lado da rua, apertando fortemente o casaco contra o corpo, o vidro escuro e esfumaçado deslizou lentamente, oferecendo uma melhor visão à mulher que observava. Vários pensamentos passaram pela cabeça dela, e seus lábios vermelhos, finos e sedutores se contorceram em um sorriso sensual.
Nico Di Angelo.
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