Eyes That I Love Both (REMAKE)
10 O Dia Seguinte e a Despedida
Notas iniciais
Nico acordou com um feixe incandescente de luz dourada alvejando-lhe os olhos fortemente cerrados. Estendeu o braço direito na frente dos olhos para protegê-los da luz forte que os ofuscava, lembrando-se do sonho que tivera enquanto tentava ignorar a dor que sentia nos quadris e pernas. Sua visão estava desfocada e meio embaçada, com pontos amarelos dançando loucamente diante de sua visão, e os olhos lacrimejavam involuntariamente.
Apoiou a palma das mãos ao lado do corpo e fez força com elas, empurrando-o para cima enquanto se sentava no colchão macio e quente que estava deitado, apoiando as costas na cabeceira de madeira polida e de cor de vinho, quando uma súbita fisgada de dor fez com que Nico recolhesse automaticamente a mão direita ao peito, envolvendo-a gentilmente com os dedos da esquerda, e olhou para o local onde latejava e parecia queimar, vendo as camadas de pano de curativo que envolvia a palma pálida de sua mão, deixando apenas os dedos finos expostos; o tecido branco tinha uma mancha grande e rubra que cobria toda a palma, e Nico não conseguia fechar a mão em punho. Olhando confusamente para o ferimento, lembrou-se da noite passada: da louça; o sangue; a água; os curativos feitos por uma mão quente e gentil; o brilho dos olhos verde-mar; o sorriso simples e puro; a declaração e a reação; as lágrimas quentes e salgadas; a confusão nas palavras... O beijo... E tudo que aconteceu depois; percebendo que o que ele achava ser um sonho não passava de uma lembrança de tudo que eles fizeram tão calorosamente, reclusos a seus momentos de prazer mútuo, durante a madrugada de... De quando? Nico não tinha noção de tempo.
Olhou para a cintura, vendo que um fino cobertor lhe cobria as pernas, e viu que estava sem camiseta, expondo seu corpo que não era nem de longe tão escultural e sedutor como o de Percy, mas tinha suas qualidades; levantou o fino tecido que lhe cobria as pernas e viu que estava completamente nu, e sentiu seu rosto sendo inundando por uma onde involuntária de calor e vergonha, e tão rápido quanto se achava capaz se cobriu com o tecido fino e branco até o pescoço, com o coração martelando no peito.
Nico não conseguia acreditar que tudo realmente havia acontecido, por mais que sua mente gritasse insistindo que era tudo real e não fruto de sua fértil imaginação. Ele deveria estar feliz, e realmente estava, porém estava demasiado confuso para sorrir consigo mesmo por fora, de forma que a felicidade estava trancada a sete chaves dentro de seu subconsciente confuso.
A forma de Percy se materializou na porta: estava sem camiseta, usando apenas um short de praia com estampa de pranchas de surf e pequenas ondas espumantes, um modesto e simples chinelo branco nos pés e trazia nas mãos uma pequena pilha de tecidos. Quando o filho do mar viu Nico, sorriu e disse enquanto entrava no quarto com o seu habitual tom brincalhão de voz:
– Finalmente acordou! – andou em direção à escrivaninha de madeira escura próxima à porta e depositou a pilha de... Roupas? Sim, e depositou a pilha pequena de roupas em cima da superfície opaca do móvel, encaminhando-se em seguida em direção da cama onde Nico estava deitado, com o fino cobertor puxado até o nariz.
O rosto do filho de Hades estava corado e seu coração palpitava com a aproximação de Percy, mas não pôde deixar de ficar feliz por ele ter aparecido. Percy inclinou o corpo na direção de Nico, com a mão esquerda apoiada no colchão macio, e a direita afastando os cabelos negros da testa do garoto e o beijou suave e demoradamente ali numa demonstração de carinho e afeto, afastando os lábios em seguida enquanto examinava o rosto do garoto.
– Boa Tarde – disse ele, com um sorriso no rosto, os olhos brilhando com a luz ambiente. Esses olhos... Não, espera...
– Tarde? – perguntou Nico sobressaltado, abaixando o lençol até a cintura num movimento rápido e automático.
– Sim – respondeu gentilmente Percy; afastou o rosto do de Nico, e apanhou o relógio digital que estava em cima do criado-mudo ao lado do abajur, dizendo: — Dormimos meio tarde ontem, sabe? – Colocou uma mão atrás da cabeça e bagunçou os cabelos, com um sorriso constrangido no rosto, acrescentando em seguida: — Eram quase quatro horas da manhã quando eu olhei no relógio antes de cair no sono. – Ele estendeu o mostrador digital na frente dos olhos de Nico, continuando: — Viu? São quase duas horas da tarde.
O moreno colocou novamente o relógio ao lado do abajur, e andou lentamente em direção a porta, onde parou e olhou por cima dos ombros para Nico — que ainda não sabia o que dizer — apontando para a pequena pilha de roupas em cima da escrivaninha.
– Eu tomei a liberdade de lavar suas roupas, se não se importa. – disse ele, com o rosto corado e olhos inquietos que olhavam para os olhos escuros de Nico e logo se desviavam para outro lugar qualquer; acrescentou, olhando na direção da cozinha: — Eu estou fazendo o almoço para nós, então tome um banho refrescante e venha me acompanhar. – e atravessou a porta em direção à cozinha, fechando-a atrás de si.
Nico se levantou lentamente, sentindo todos os músculos do corpo gritar de dor. Pôs os pés quente e levemente trêmulos na superfície fria e lisa do piso que cobria o chão, andando a passos vagarosos em direção à escrivaninha, onde examinou a pilha de roupas: uma cueca-boxe – minha cueca-boxe, percebeu Nico – dobrada cuidadosamente em cima de uma camiseta preta que por sua vez estava também dobrada com perfeição acima de sua calça jeans preta, que estava impecavelmente passada; um agradável cheiro de flores silvestres exalava de suas roupas. Nico caminhou em direção à porta de pintura branca do banheiro, que estava entreaberta, empurrou-a e entrou.
O chão era coberto de pisos brancos e a parede era um mosaico de azulejos azuis perfeitamente alinhados. Pendurou as roupas em um apoio de aço que estava na parede, fechou a porta atrás de si e andou na direção do chuveiro, percebendo que o piso estava levemente úmido, o que provavelmente significava que alguém já havia tomado banho algum tempo atrás, e esse alguém era Percy Jackson. Antes de girar o mecanismo metálico e deixar a água quente deslizar sobre sua pele, Nico teve de tirar o curativo que envolvia sua mão direita, e quando o fez percebeu que o ferimento estava com uma aparência um pouco melhor, com uma fina pele rosada cobrindo o corte transversal que enfeitava sua palma, cortando todas as suas chamadas linhas de vida, amor e dinheiro ao mesmo tempo; e área ao redor do ferimento estava tomada por uma coloração levemente avermelhada, e Nico não conseguia fechar a mão em punho sem emitir um agudo grunhido de dor, mas tirando esse detalhe era algo bom, porque em breve poderia empunhar sua espada novamente e assim voltar a treinar e a lutar. Girou o mecanismo metálico frio e deixou a água morna cair por sobre seus cabelos negros e desgrenhados, deslizando sobre sua pele pálida, quente e suada.
Nico saiu do banheiro acompanhado de uma nuvem de vapor, com o corpo brilhando com as quase invisíveis gotículas de água que resplandeciam como diamantes quando a luz os acertava; os cabelos pingando água. Quando havia terminado de se lavar em baixo do chuveiro, Nico percebeu que havia apenas uma única toalha posta ali, e que ela já estava úmida. O garoto apanhou a toalha de tecido macio e espesso, levando-a automaticamente ao nariz, inspirando o cheiro profundo que habitava o tecido. É o cheiro dele; o cheiro salgado e excitante de maresia; pensou ele se dando conta de que a toalha percorreu todo o corpo molhado do filho do mar, secando cada mínima gotícula de água de seu corpo e até sendo comprimido contra suas partes – não tão – íntimas. Nico apertou o tecido contra o nariz, sentindo os seus sentidos se extasiarem com o suave cheiro, de olhos fechados.
Caminhando a passos rápidos em direção a escrivaninha onde suas roupas estavam colocadas, Nico percebeu que o lençol da cama havia sido tirado, assim como o próprio colchão, deixando apenas os travesseiros, também sem suas fronhas. Depois de tudo que houve, não é pra menos que tenha que lavar. Vestiu as roupas e abriu a porta do quarto, e em seguida caminhou em direção à cozinha, onde um cheiro delicioso fez a barriga de Nico roncar sonoramente e sua boca se encher de água. Apressou os passos.
Percy estava diante do fogão, cuidando de quatro panelas ao mesmo tempo, e era possível ouvir um som mecânico baixo e distante que Nico supôs que fosse da maquina de lavar batendo o lençol sujo com os resquícios de suas essências e seus suores. Nico, sentindo os quadris e as pernas doerem, se sentou na cadeira de frente para a mesa, de forma que pudesse ver Percy enquanto ele cozinhava. Seja lá o que for o que ele estava fazendo, cheirava muito bem.
– Eu não sabia que você sabia cozinhar, Percy. – Disse Nico, apenas para quebrar o silêncio e para que o moreno soubesse que ele havia chegado. Nico tinha o costume de andar furtivamente onde quer que fosse, assim como um fantasma, segundo seus poucos amigos diziam.
– Não me subestime, Nico. – disse ele em resposta, num tom de voz firme que Nico soube se tratar de mais uma brincadeira, logo em seguida explicou: — Como pôde perceber, não temos pratos que se enchem com o que quisermos comer o quanto que quisermos comer; por isso tenho de cozinhar. Ainda bem que minha mãe sempre pegou no meu pé para eu aprender. – e riu; um riso espontâneo que fez Nico se sentir feliz. Percy olhou por sobre os ombros até seus olhos verde-mar encontrarem os olhos escuros como obsidianas de Nico, e disse num tom de voz alegre e com um meio sorriso no rosto: — Já está quase pronto, só mais alguns minutos.
– Sem problema – disse rapidamente Nico, não querendo apressá-lo; gostava de vê-lo concentrado. — Não estou com tanta fome assim. – acrescentou; quando disse isso, seu estomago roncou alto, como se um dragão selvagem e faminto estivesse habitando o interior de suas entranhas vazias. Percy riu alto e Nico pensou consigo mesmo que até seu próprio corpo fazia questão de deixá-lo constrangido; seu rosto foi tomado por um rubor involuntário que lhe esquentava as maçãs pálidas do rosto, dando um leve tom avermelhado à sua pele.
Após alguns minutos Percy enfim terminou de cozinhar o que Nico chamou de banquete: uma grande tigela branca repleta de purê de batata meio consistente e meio cremoso coberto de um caldo avermelhado e escaldante de carne moída com pequenos pedaços de cebola macia e ervas que lhe davam um cheiro e uma aparência deliciosa. Nico se sentia faminto, por isso encheu o prato com três generosas colheradas grandes de purê com caldo, espalhou arroz branco ao redor da massa do purê; e havia dois copos grandes de vidro pesado, cheio de coca-cola que trincava de tão gelada, com dois cubos de gelo flutuando na superfície, para acompanhar a refeição. Nico comeu avidamente para recuperar as forças que gastara nas tantas viagens pelas sombras, e a energia que usara com Percy durante a madrugada, e dessa vez a louça ficou por conta do moreno alto.
Depois de ele lavar a louça, se sentou de frente para Nico, e ali conversaram sobre varias coisas; riram, trataram de assuntos sérios. Percy contou a Nico sobre a reação de Annabeth quando ele falou o que sentia pelo filho de Hades, e também sobre sua ameaça, e Nico riu; Nico, por sua vez, contou sobre o pai, sobre como ele ajudara o filho dando-lhe um pó mágico e sobre ele já saber o que Nico sentia em relação à Percy, e a isso o filho do mar estremeceu, temeroso. O garoto decidira omitir a aparição de Afrodite e o sonho que tivera, por medo, mesmo não sabendo exatamente de quê.
Percy trouxe novamente a caixa de primeiros-socorros e fez um curativo mais simples, vendo que o ferimento estava melhor e deu, hesitante, duas pequenas folhas de ambrósia para Nico mastigar e no mesmo instante o garoto sentiu a ardência e a dor do ferimento sumirem.
– Daqui a poucos dias isso vai estar totalmente melhor... – começou Percy, indicando a mão de Nico.
–... E então poderei lutar novamente. – terminou Nico. Percy assentiu com um sorriso no rosto, inclinando a cabeça na direção da mão ferida e pousando levemente os lábios quentes no tecido que envolvia o ferimento. Saiu para guardar a pequena caixa e voltou alguns segundos depois; foi quando Nico percebeu que estava há muito tempo na casa do garoto.
Era hora de ir embora.
Ele se levantou e estava prestes a dizer a Percy que tinha que ir embora, mas a fala entalou em sua garganta, pois Nico tinha medo que sua voz soasse enganosa, já que ele mesmo queria continuar ali, ao lado do seu... Agora eram namorados, não? Esse pensamento fez o coração de Nico se acelerar e esquecer o que estava prestes a dizer, o rosto corado e os olhos brilhantes. Reuniu coragem e tentou ignorar a voz que gritava alegremente eu sua mente, dizendo com a voz mais firme que pôde encontrar:
– Eu tenho que ir Percy.
O moreno olhou para ele e seus olhos e rosto se tornaram tristes, e ele disse com voz baixa:
– Eu temia que essa hora fosse chegar. – Nico não soube o que fazer, exceto ficar parado em frente a ele. – Mas tudo bem – ele voltou a dizer com a voz quase normal -, porque eu sei que você não vai me esquecer e sumir por aí.
Eu nunca vou te esquecer, idiota. Nico riu e deu um soco leve no ombro do garoto, e ambos riram. Percy foi até seu quarto e trouxe a espada de lâmina negra de Nico e entregou-a a ele, e juntos caminharam até a porta e Percy e abriu para o filho de Hades, não querendo que ele fosse embora. Nico virou-se para encarar o filho do mar no fundo de seus olhos que mais pareciam esmeraldas, e o moreno perguntou num tom de voz baixo, não querendo o deixar ir embora:
– Para onde você vai agora?
– Não sei – respondeu Nico e, respirando fundo, decidido a começar o que poderia ser a maior fala que ele uma vez já pronunciou: — Antes eu não tinha lugar para ir, exceto o mundo inferior que era um lugar onde eu podia ficar sozinho com minha tristeza e os fantasmas do meu passado, e de vez em quando visitar o meu soberano e frio pai. – Uma pausa, o garoto estudando o rosto de seu amor parado no umbral da porta, com o coração martelando no peito. – Havia o chalé no Acampamento, mas ele era grande e eu estava só, então eu não gostava muito de ir lá, e as poucas vezes que o fazia era... Pra te ver... E matar a saudade dos outros campistas. Pode-se dizer que eu não tinha nenhum lugar para ir; nenhum lugar que eu pudesse chamar de lar, onde tivesse pessoas que realmente me amassem. – Outra pausa, e uma respiração funda. Nico hesitou em continuar, mas enfim tomou coragem e continuou: — Mas agora é diferente. Tudo que aconteceu ontem e hoje mudou tudo isso, e agora eu tenho um lugar pra voltar. – Nico estendeu as mãos e tocou o rosto de Percy à sua frente; os olhos dele brilhavam como se tivessem sido instalados ali um mini-holofote, e Nico podia ver a si mesmo no fundo dos olhos claros dele. Continuou: — Onde você estiver Percy, é onde eu quero estar. – E se inclinou na direção dos lábios dele, envolvendo-os em um beijo amoroso e repleto de carinho, e todos esses sentimentos dentro de Nico, que estavam sendo transmitidos através desse beijo eram recíprocos, isso ele pode perceber. Percy segurava a cintura de Nico enquanto o beijava, querendo de toda forma adiar a despedida, totalmente alheios aos olhares confusos e enojados dos vizinhos. Nico afastou os lábios e completou: — Agora eu tenho um lugar para voltar.
O filho do mar o abraçou, envolvendo o corpo pequeno e frágil de Nico com seus braços fortes num aperto gentil e protetor, e novamente o garoto pôde sentir os batimentos rápidos de Percy com o rosto apertado contra seu peito robusto.
– Eu te amo, Nico. – disse ele, com a cabeça aninhada no ombro de Nico.
– Eu também te amo, Percy. – Nico ouviu a própria voz dizer, e sentiu o rosto quente novamente, pela milésima vez. Percy riu e disse logo em seguida, afastando os braços do corpo de Nico:
– Você conseguiu.
Sim, eu finalmente consegui; pensou Nico, eufórico e envergonhado, mas isso é o máximo que consigo. Nico fitava os olhos verdes de Percy com um leve sorriso no rosto.
– Você não me contou como é em Tokyo – e eu me esqueci de perguntar. – disse Percy, quebrando o silêncio constrangedor que havia estagnado entre eles.
Tokyo, pensou Nico, lembrando-se dos tantos lugares belos que vira: as árvores de cerejeira com suas folhas rosas e vividas; as grandes e densas florestas de vários tons de verde; os templos de madeira erguidos em montanhas; o mar com seu brilho e sua extensão imensa. Um belo lugar.
– E nem contarei. – disse Nico em resposta; Percy olhou incrédulo para o garoto em sua frente, mas quando estava prestes a dizer algo, Nico continuou com um sorriso no rosto: — Vou mostrar; em breve. – O moreno assentiu fervorosamente com a cabeça em maneios rápidos para cima e para baixo.
E o momento pelo qual ambos tanto temeram chegou, e foi longo e cheio de hesitação. Nico virou as costas para Percy, o garoto que ele amava, e andou em direção ao lance de escadas que desciam à saída, acenando lentamente com a mão boa. Percy retribuía o aceno, com um sorriso de felicidade por ter Nico ao seu lado como o garoto que ele amava, e triste por ter de ficar longe dele. Voltou a entrar no quarto e fechar a porta atrás de si.
Nico caminhava a passos lentos, lembrando-se de tudo que acontecera durante a madrugada em demorados flashes. Ele se sentia como se uma fogueira queimasse intensamente dentro dele, espantando toda sua tristeza com suas línguas vermelhas incandescentes. Nico queria voltar correndo e se enterrar nos braços de Percy; sentir o calor dele; sentir os lábios dele nos seus; ouvir a voz melodiosa do filho do mar ecoar em seus ouvidos. Não podia esperar o momento de vê-lo novamente. Iriam juntos para Tokyo.
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