Eyes
3 Espaço vazio
Notas iniciais
Minhas esperanças, se já não acabadas, estavam por um fio. Duas semanas se passaram. Tentei todos os horários imagináveis, mas não a encontrei. O atendente, um garoto magricela de cabelo raspado, sorriu largo quando ouviu o nome de Aime, e ficou quieto em alguns segundos de delírio particular. Depois que voltou a realidade, revelou que fazia mais de um mês desde que ela não aparecia ali. Para mim, era óbvio que era um tipo de paixão platônica. Mesmo assim eu tive ciúme dele. Só pelo fato de ter trocado mais do que uma dúzia de frases com ela. Só pelo fato de Aime não correr para longe dele como correu de mim naquela noite de Halloween. Eu sei, é incompreensível. É como eu disse a Gael, numa dessas noites em que estávamos afundados nas poltronas do meu apartamento. Cada um com uma garrafa de cerveja pela metade nas mãos.
— Sabe — Comecei. — Já teve a sensação de conhecer alguém que preenche um vazio que você não sabia que existia em você E quando ela vai embora, você sente a dor do espaço vazio?
Ele só riu de mim como resposta, e perguntou se eu estava bem. Respondi que estava brincando. Ninguém poderia entender o que eu estava sentindo. A dor da qual eu falei era real. E o medo — Ah, o medo! — de nunca mais encontrar aquela mulher de novo. Como eu pude tê-la tão perto e perdê-la tão depressa? Essa sempre foi Aime. Me enlouquecendo. Me tirando do mundo em que eu costumava conhecer. Desviando o meu caminho e acabando com minha vida.
Estava decidido: Aquela seria a última vez que visitaria aquela cafeteria idiota. O café poderia até ser muito bom, porém, o sabor da frustração não era nada agradável. Além do sentimento de humilhação a cada olhar de pena recebido que vinha do garoto do balcão. Ironicamente, o quadro que ficava de frente para o lugar onde eu sempre me sentava exibia a foto de Sharbat Gula, a famosa capa do National Geographic de 1985. Uma garota afegã de doze anos com olhos verdes fantásticos imortalizados pela lente de uma câmera. Os olhos da minha Aime eram ainda mais bonitos, mas Sharbat foi uma boa companhia durante esse tempo. Dei adeus a ela mentalmente, e em voz alta ao garoto do balcão. Tomei meu lugar no trem, e não escondia minha tristeza. De cabeça baixa. Expressão fechada. Ombros caídos. Por algum motivo, deixei meu olhar se perder na janela da porta para o outro vagão, onde alguém havia desenhado um número oito de cabeça para baixo no vidro. Então vislumbrei Aime, por um instante. No reflexo. Ela estava ali, no mesmo lugar que eu. Com uma revista nas mãos.
Não tenho certeza de quanto tempo fiquei apenas parado, boquiaberto olhando na direção dela. Os cabelos loiros estavam quase completamente cobertos, graças à um capuz de moletom que ela usava por baixo de uma jaqueta de couro preta, cheia de spikes espalhados nas ombreiras. Um suéter laranja, um cachecol cor de rosa, luvas vermelhas, uma saia justa escura por cima de uma meia-calça da mesma cor, e coturnos. Eu estava sorrindo, quando ela ergueu os olhos e me viu. Suas mãos baixaram a revista, fazendo a luz refletir num colar com um grande pingente do olho de horus prateado. Estava tão diferente da primeira vez que a vi Tão mais bela, sendo simplesmente quem ela era. Cheia de cores e detalhes.
Ainda que sua expressão não fosse muito convidativa, eu corri para me sentar no espaço que acabara de ficar vago a seu lado. Me senti estranho por um tempo. Havia buscado aquele momento durante dias e mais dias e, de repente, não fazia ideia do que dizer. Aime apenas tirou da bolsa azul uma embalagem de Mentos sabor morango, oferecendo-me um. Coloquei na boca depressa e levantei para segui-la até a porta do vagão. Ela ficou ali, com uma das mãos erguidas apoiada na porta. E eu estava tão perto, que podia sentir seu cheiro doce e quente. Tirei os fones do meu Walkman e coloquei sobre seu capuz. Estava tocando "Every Breath You Take", do The Police. Por acaso, era a música que tocava no momento em que descemos as escadas juntos, na noite daquela festa. Consegui ver um sorriso brotar em seu rosto através do reflexo na porta. O trem parou. Ela saiu. Eu a segui.
Se Aime estava determina a me deixar para trás, eu estava mais determinado ainda a jamais deixá-la partir outra vez. Ela estava andando depressa pela plataforma, com os fones ainda na cabeça, enquanto eu apressava o passo com o braço estendido para que o fio que lhe transmitia a música também pudesse se estender. Subitamente, ela se virou na minha direção, e nós nos chocamos. Seus olhos procuraram os meus, profundos, revirando tudo em busca do meu motivo. Só conseguia pensar em como ela era linda. Eu a beijei. E ela me beijou de volta.
***
Estávamos sentados em uma mesa de piquenique ao ar livre, enquanto uma das responsáveis pelo centro comunitário se prestou à buscar por Mia Wust. Minha acompanhante continuava a falar sobre a garota. Erin era uma voluntária no centro comunitário, e costumava ficar com as crianças menores. Mas também conhecia alguns dos poucos mais velhos, e Mia estava incluída. Ela disse que aquele era um comportamento próprio da jovem garota, sumir dos olhares dos mais velhos para ficar imersa em um mundo particular. Erin achava que boa parte de seu comportamento recluso se dava a perca do pai. Por outro lado, não parecia deprimida ou profundamente abalada com o acontecimento, e costumava ser uma garota calma e alegre em certas ocasiões.
Erin espiou algumas fotos que estavam saindo para fora de minha pasta — fotos dos olhos de Aime — e então comentou:
— A janela para a alma.
Apenas balancei a cabeça, e forcei um sorriso. Uma das brigas que tive com Lucy, enquanto ela tentava me convencer de partir nessa viagem, surgiu em minha mente.
— E se os olhos forem realmente uma janela para a alma?
— Alma?! — Gritei. — Alma, Lucy? A minha esposa está falando sobre alma? — O pequeno Jake chorou no quarto ao lado.
Erin despertou-me de meu transe relâmpago quando continuou a falar:
— Sabe, Doutor Saunders. Um cientista uma vez perguntou ao Dalai Lama: O que você faria se uma prova científica derrubasse suas crenças religiosas? E ele disse, depois de pensar bastante: Eu olharia todos os papéis e revisaria toda a pesquisa e realmente tentaria entender as coisa. E no final, se ficasse claro que a prova científica desmente minhas crenças espirituais, eu mudaria minhas crenças.
Havia um homem no hotel quando cheguei. Nós pegamos o elevador juntos. Ele estava vestido de preto socialmente, com uma gravata azul marinha. Era um religioso americano, que me perguntou o que eu estava fazendo ali, e contou que estava na Austrália para "levar a palavra do pai" até as pessoas. Erin era quase como esse homem para mim. Mas naquela altura, eu já havia criado uma certa simpatia por ela e suas sentenças religiosas não mais me incomodavam. Sorri sinceramente.
— É uma boa resposta.
Algum tempo depois, Erin precisou se retirar ao ser chamada, e fui deixado sozinho. Havia um jardim muito bonito ao redor das mesas de piquenique. Algumas trilhas pavimentadas por onde eu começava a caminhar. No fim de uma trilha, muitas árvores se aglomeravam numa escuridão densa, diferente das fileiras perfeitas ao longo do caminho. O sol brilhava num ponto, porém, e eu consegui ver. O contorno de um corpo deitado entre as raízes, folhas e grama. A garota estava encolhida, e eu me abaixei e instintivamente retirei meu casaco, colocando sobre ela. Seus olhos se abriram para os meus, e tudo ao meu redor havia desaparecido num borrão de cores de um mundo que eu abandonei.
— Mia?
Ela não respondeu. Continuou a me olhar nos olhos, quieta, apenas piscando. Eu nem conseguia piscar. Só desviei o olhar por sentir os olhos marejados, meu coração explodindo na tentativa de quebrar minhas costelas. A menina começou a se erguer nos cotovelos, aos poucos. Olhei para ela novamente. O rosto redondo. Os cabelos desgranhados, loiros escuros. Sobrancelhas curvadas tornado seu olhar profundo e feroz. E lá dentro, reluzindo em minha direção, os olhos roubados da minha amada Aime. No rosto de outra pessoa. No corpo de outra pessoa.
— Eu estava apenas dormindo.
Sequer sua voz era parecida com a de Aime. Apesar de ser tão suave quanto a dela Havia um tom agudo e infantil embalando suas palavras. Suas sobrancelhas se ergueram, os olhos se arregalaram. Como se perguntasse o que eu tanto olhava. Um pouco constrangido, me levantei e dei a mão para que ela fizesse o mesmo. Ela tinha pernas compridas, e sua altura quase alcançava meus ombros. Outra diferença de Aime, que apesar de sua profissão, era pequena perto dos meus um metro e noventa.
— Estão procurando por você.
— Eu sei — Sua voz soou baixa, um pouco receosa. Era claro que aquele seu comportamento não agradava muito seus responsáveis. Continuei observando enquanto a garota batia no jeans para tirar algumas folhas secas fixadas ali.
— Eu estava procurando por você.
Mia voltou a olhar para meu rosto. Segurou a gola do meu casaco, puxando-o mais para cobrir o corpo enquanto tombava para trás, se apoiando no tronco da árvore que escolhera para ser seu teto. Não consigo imaginar como minha expressão parecia, mas sei que tudo estava ali. O choque, a saudade, o medo, a agonia, a insanidade, o desejo. Eu não conhecia Mia. Ela não era Aime. Mas aqueles olhos estavam em seu rosto. Seu rosto lindo. É como se eu estivesse parado na estação de trem. Completamente disposto a seguir essa garota diante de mim, deste dia em diante. Cada respiração, cada movimento, cada passo. Quero beijá-la.
Ela sorri. Como se pudesse ler minha mente. Como se concordasse. Pelo menos, era o que eu queria que fosse.
— Doutor Jacob.
— Apenas Jake.
Meu celular tocou, e era Lucy. Me puxando para a realidade e para longe do meu devaneio. Mia ficou hesitante, enquanto dava alguns passos na direção da trilha. Fiz que sim com a cabeça. Momentos depois, ela tinha partido. Eu estava novamente sozinho, perturbado e destruído. Nem na minha melhor tentativa consegui esconder toda a confusão que me fazia gaguejar.
— Jacob?! — Lucy pareceu chamar pela décima vez.
— Ela está aqui. Eu a encontrei.
— Que fantástico! — Houve um silencio gigantesco enquanto ela procurava alguma palavra certa. Era uma pena não existir tal palavra. Lucy sabe, ou pelo menos desconfia, do peso desse momento para mim. — Fantástico. — Repetiu. Então houve um silencio mais curto. — São exatamente iguais?
— Exatamente. — Pigarreei. — Você verá. Vou levá-la para o hotel, e vamos prosseguir com o teste. Até mais.
Mia estava esperando por mim na mesa junto de Erin quando eu abandonei as árvores. O pior estava por vir. Portanto, dei um jeito de manter a calma quando me sentei junto à elas.
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