Extraterrestres -interativa

11 Yuri e Karina Broma


Notas iniciais
Capítulo narrado por Karina

Eu estava no meu quarto, fato que me frustrava. Odiava ficar ali, presa como um animal enjaulado. Mesmo que ele fosse enorme, ocupando o terceiro andar inteiro, cheio de plantas e fotos, decorado á minha maneira, ainda não me sentia bem entre quatro paredes. Infelizmente meus pais adotivos achavam que "depois de escurecer tem que se ficar dentro de casa, não no jardim". E aí eles me prenderam aqui dentro, falando que só poderia sair na hora do jantar.

Passei os meus dedos nos meus cabelos curtos e negros, que chegavam á altura do meu queixo. Peguei o meu pingente em forma de meia Lua, prateado, mexi ele de um lado para o outro, e logo o larguei em meu pescoço novamente. Levantei da minha cama, e comecei a andar em círculos com passos apressados, só para não ter que ficar parada, coisa que eu não estava conseguindo fazer. Eu tinha que me mexer, fosse o que fosse. Era uma necessidade.

Ouvi alguém bater na porta, e corri para lá, a abrindo, com tanta energia como se eu tivesse tomado meia dúzia de energéticos. Lá, vi meu irmão de sangue, Yuri, que fora adotado junto comigo. A maioria das pessoas não acreditava quando dizíamos que éramos irmão gêmeos de verdade, por motivos óbvios.

Ele tinha cabelos loiros perfeitamente penteados, olhos cinzentos fraco e a pele bem pálida. Era uns quinze centímetros maior do que eu, bem alto para sua idade. Vestia uma blusa branca, colete jeans, calça jeans com cinto, bem arrumada, assim como mocassins cor de café nos seus pés, limpos e bem engraxados. De alguma maneira ele parecia um professor na entrevista de emprego com aquilo. Não sei, talvez fosse a aura de respeito e inteligência que emanava dele. No pescoço, um colar de ouro com o pingente de Sol.

Muito diferente de mim, com meus shorts caqui, bata azul celeste larga de tecido fino, chinelos de dedo laranjas, cabelos cheios de nós, pele morena e super baixinha. Nós meio que completávamos um ao outro, como duas metades. Eu o amava muito, apesar de me desentender muito com ele, e o garoto ser um idiota de primeira categoria.

-O jantar está na mesa, Karina. -Ele disse, e eu sorri. Finalmente poderia sair daquele quarto abafado.

-Aleluia, Apolo. -O chamei pelo apelido que inventamos para nós mesmos quando pequenos, por causa dos nossos colares. Agora, até mesmo na escola o meu irmão era chamado pelo nome do deus do Sol e dos oráculos. Eu? Bem, não tenho muitos amigos, digamos, humanos. Gostava mais dos animais, eles eram bastante simpáticos, vivia conversando com eles. É, eu falo com animais desde que me conheço por gente. Estranho, não?

Desde pequena, lá no orfanato, eu conversava com os animais, os meus favoritos eram os coelhos. Eu me sentia a Alice no País das Maravilhas fazendo aquilo. Outros bem legais eram os cachorros, uma vez, eu tinha conhecido um cachorro vira lata super engraçado, que sabia ótimas piadas. Até o meu irmão chegar e me puxar para longe dele, assustado. Que bobo.

-Vamos, Ártemis. -Ele revirou os olhos, me chamando pelo nome da deusa grega da caça e da Lua. O segui, descendo as escadas para o primeiro andar, saltitando, meus dedos batucando sem parar no corrimão, fazendo um tac tac tac baixinho, pois as minhas unhas eram tão pequenas que nem se percebia de primeira vista que existiam. Fazer o que, quando eu ficava com a unha grande, eu a quebrava a toda a hora, e doía muito, pois eram duas, três vezes por dia. O mais fácil era deixar elas curtas mesmo.

Normalmente eu não era tão hiperativa. Só acontecia durante a Lua cheia, enquanto Yuri ficava lento e preguiçoso. Parecia uma doença lunar, como se nós fôssemos, hum.... Lobisomens de perigo mínimo e raros. É, mais ou menos isso. Ou eu só poderia estar ficando louca mesmo. Nenhuma das duas alternativas era legal, sendo que a primeira era impossível. A segunda era a mais provável, mas isso não me tranquilizava nem um pouco.

-Você sabe quando nós vamos de novo á Forks? As florestas de lá são lindas. -Tentei puxar assunto. Ele deu de ombros, e eu desisti de tentar conversar com ele. Quando meu irmão não queria falar, não havia uma pessoa no mundo que o fizesse dizer um "a".

De repente, ele me parou, e franziu as sobrancelhas. Depois de um tempo, pareceu assustado, depois muito confuso. Por fim, o medo genúino brilhava em seus olhos. Percebi que ele estava lendo os pensamentos de alguém.

É, meu irmão conseguia ler a mente de alguém e manipular as suas memórias, menos de mim. Incrivelmente, eu era á prova do poder do meu irmão, o que eu achava bem legal. Quer dizer, eu não achava que seria bom saber que o meu irmão pode dar uma espiadinha na minha cabeça sempre que quiser.

Depois, ele me virou, colocou o indicador sobre os lábios, e recomeçamos a subir de volta para o meu quarto, desta em vez em silêncio. Assim que tranquei a porta, o garoto desatou a falar, o que não era característico dele. Eu era a quem geralmente tagarelava sem parar.

-Têm quatro homens lá embaixo, trabalham para o governo. Sabem que nós dois temos poderes, mas não sabem quais são. Querem nos pegar por isso, acham que somos aliens, querem fazer experiências conosco. -Ele falou tudo junto, e eu mal consegui compreender o que ele disse. -Temos que fugir, não vão ameaçar nossos pais.

-Como? -Perguntei. Ele era um estrategista bem melhor que eu, que era bem melhor na parte da ação.

-Simples. Se transforme em um animal rápido, eu monto em você, e fugimos pelo jardim dos fundos, indo direto para a estrada. Antes, vamos pegar algumas coisas, e colocar tudo em uma mochila só. -Entreguei na mesma hora uma mochila minha para ele, que começou a encher de coisas que não prestei atenção.

Eu ia fugir de casa. Era bizarro como o dia começara de forma tão mónota, e agora eu descobria que era uma alíenigena, iria fugir de casa e que o governo estava atrás de mim. Normal, passo por essa rotina todo o dia, sabe?

-Venha! -Yuri me chamou, e eu percebi que ele tinha feito uma corda com os meus cobertores, que chegava até a grama. Desci por ali correndo, e assim que pisei no chão, comecei a imaginar no que eu iria me transformar.

Ossos alongados, pele dourada com manchas negras, rabo comprido, orelhas pequenas, dentes brancos e afiados, bigodes pálidos saindo do focinho preto, pelo macio e grosso...

Então eu já era um guepardo. Yuri montou em mim, meio temeroso, e eu acelerei, minhas patas se movendo com tanta rapidez que eu achei que ia ver tudo ao redor como um borrão, mas eu conseguia identificar cada detalhe.

Estava feito, não tinha como voltar átras.