Explorers
1 Explorers
A pequena partícula tão significante quanto o pó de uma estrela andava por cima de mais partículas tão importantes quanto lascas de meteorito – essas mesmas partículas eram de um verde com sombra, macios e ásperos, com vida e sem vida. O nome era grama.
A outra pequena partícula que andava na grama era a junção de dois membros superiores e mais dois inferiores, um tronco pequeno para o padrão da espécie, uma maça de partículas de cor marrom no topo da cabeça, pele alva e grandes esferas azuis no rosto chamado olhos. Para a espécie, o ser era chamado humano do sexo feminino – uma garota.
A garota carregava nos braços (membros superiores) um objeto de aspecto cilíndrico de cor preta com um visor transparente no fim do corpo alongado onde apontava para o alto — o céu povoado de luzes de estrelas. Ela depositou o objeto — que parecia ser pesado demais para seu corpo pequeno — no chão em exaustão, respirando longamente.
De algum lugar – ou estava com ela o tempo todo – ela estendeu na grama uma coisa macia e maleável de cor clara (cobertor) onde se sentou. A garota ajustou o objeto cilíndrico através da entrada oposta do espelho de observação longínqua (nome lembrado: aquilo era um telescópio). Ela colocou um dos olhos no visor em ansiedade, como se esperasse por algum acontecimento extraordinário, o que não aconteceu.
Era uma noite de verão comum na Terra – brisa suave e quente, espécies engraçadas e verdes que pulavam e faziam barulho conhecidos como grilos; outras ainda que voavam com asas minúsculas tanto quanto seus corpos – mosquitos e abelhas – explorando seus pequenos mundos de sobrevivência. Havia espécies maiores e mais interessantes (ou não...) que não achavam o mundo tão grande assim como os mosquitos e as abelhas, mas que corriam na cadeia de sobrevivência tanto quanto os seres humanos.
E havia pequenas garotas que gostavam de observar o céu durante a noite com seus telescópios a espera de algum acontecimento importante, mais relevante do que a corrida espacial.
Outra figura apareceu no cenário para se juntar a garota: mais alta e atlética; robusta e de traços pouco mais grosseiros com a maça de partículas na cabeça da mesma cor dos da garota, porém mais curta e aparada – cabelos. Era do sexo masculino chamando um homem.
Ele carregava uma bandeja com biscoitos, uma garrafa de leite e copos (culinária típica da Terra), sentando-se ao lado da garota.
— Eu ia trazer o telescópio para fora, querida, se você tivesse me esperado – desferiu o homem numa voz macia e sonolenta, totalmente oposta e chocante para a aparência dele. Um sorriso brindou o comentário, correspondido pelo sorriso da garota enquanto os dois pegavam um biscoito e bebericavam o leite.
— Desculpe pai. Mas eu não conseguia esperar mais.
Ela respondeu de boca cheia saindo um som engraçado e abafado pela comida.
— Algum sinal?
— Nada até agora – a menina suspirou. – Será que ele vai demorar muito para aparecer?
— Talvez sim, talvez não. Ninguém sabe precisamente a que horas. Pode ser agora, mas também pode ser no meio da madrugada. Essas coisas são imprevisíveis.
O pai sorriu serenamente para a filha que fez uma cara emburrada nada satisfeita com o comentário.
— Por que ele tem que demorar tanto assim? – ela indagou – O que o impede de simplesmente aparecer?
O homem a fitou com uma expressão mais séria e filosofal, como se aquela perguntava assumisse diversos significados e respostas.
— E eu pergunto a você, minha querida, por que o mundo está devastado? Por que existe um muro que divide a Alemanha em duas? Por que há tantas guerras do outro lado do mundo? Por que o petróleo é mais importante do que tudo? Por que somos pobres?
A garota ficou em silêncio encarando o pai sem saber como responder aquelas indagações. Por que, afinal de contas...? A cabecinha minúscula ocupada pelo pequeno cérebro tão grande quanto o Universo em expansão trabalhava arduamente naquelas perguntas... Até chegar a uma conclusão.
— Porque a mamãe nos deixou e tudo ficou uma bagunça.
Surpresa transpareceu no rosto do pai, seguido de uma tristeza antiga que ele tentava superar sem grande sucesso.
— Não é isso o que dizem – continuou a menina excitadamente – que um simples bater as asas de uma borboleta pode mudar o curso natural das coisas? Mamãe é a borboleta. Ela se foi e tudo virou um caos.
Ele não deveria se surpreender por aquela afirmação vinda de uma garota de sete anos, porém não pôde evitar. Não compreendia totalmente como ela pensava e falava coisas tão além da própria idade. Talvez ele tivesse culpa nisso, pois sempre a estimulou a pensar e refletir em todos os sentidos. Eis o resultado.
— Então você me sugere que o mundo é um caos por causa de sua mãe. Precisamente você deve sugerir uma solução para o caos.
A garota pescou mais um biscoito mastigando devagar, enquanto olhava para as estrelas procurando o grande acontecimento com os olhinhos infantis. O pai a observava amorosa e ansiosamente. Que conclusão ela chegaria?
Ela olhou mais uma vez através do telescópio por alguns minutos. Depois se virou encarando o pai.
— Liberdade do caos. Isso só é possível fugindo para as estrelas. Fugindo desse mundo... Libertando-se daqui.
O pai sorriu em satisfação pela resposta inteligente da pequena garota. Controlando a excitação pelo diálogo, ele desferiu:
— O que você espera encontrar nas estrelas?
— Felicidade junto com você, papai, e junto com a mamãe... Mas eu acho que não encontraremos a mamãe nunca mais, porque ela já virou poeira e a alma dela está presa...
Ela abaixou os olhos em tristeza e o pai sentiu a culpa. Aquela afirmação não era originária da filha, mas sim dele – o que disse várias vezes durante todos aqueles anos em explicação da ausência da mãe. Era o que dizia para a filha acreditar e tentar convencer-se a si mesmo, seguindo em frente com a vida comum de qualquer pessoa: trabalhar e sobreviver. Entretanto ele sempre quis mais do que isso — fugir da rotina de pessoas comuns, fugir para as estrelas... Era esse o sonho infantil daquele homem, plantando nos desejos da filha.
Ele a abraçou confortando-a e sentindo a paz que somente aquele pequeno ser poderia lhe proporcionar.
— Não pense assim. Há lugares maravilhosos no Universo para se conhecer. Poderíamos construir uma nave e viajar por milhares de galáxias e planetas.
— Poderíamos ir junto com o cometa que está para chegar? – era evidente a alegria na voz da menina.
— Sim, por que não? Poderíamos pegar uma carona pelo cometa, seria bem mais rápido. Quem sabe não tenhamos sorte quando ele chegar?
De forma séria, a garota encarou o pai:
— Vamos precisar de mais biscoitos e leite se formos viajar pelo Universo.
Ele riu gostosamente e a menina olhou pelo telescópio longamente. Era noite alta e o silêncio era quase completo se não fosse pelas partículas de grilos e mosquitos zanzando pelo quintal de onde eles estavam (era assim que os humanos chamavam o local).
Sem sinal do grande acontecimento que era a chegada do cometa — enquanto o resto do mundo brigava por aquela propriedade do solo chamado petróleo e consumia energia sem fim, sem olhar para os céus.
De repente, sem nenhuma expectativa imediata, um barulho se ouviu dos céus seguido de um clarão que cortou a atmosfera. A menina rapidamente olhou pelo telescópio enquanto o pai contemplava o rápido espetáculo a olho nu, os dois com um enorme sorriso no rosto. Esperaram muito por aquele momento e estavam tão felizes que parecia que era o aniversário de um deles.
— Tão lindo! – exclamou a menina – Ele vai nos levar junto com ele, papai! Não ficaremos mais presos aqui e você não precisará mais trabalhar naquele lugar horrível onde você sofre tanto... Seremos livres.
Os grandes olhos azuis brilhavam de emoção, a mesma que se refletia nos olhos lacrimejantes do pai que olhava para ela transbordando em amor.
— Sim, minha querida... Estamos livres.
***
A mulher piscou e respirou tentando relaxar o corpo preso à cadeira. Estava tudo pronto. Seria a qualquer momento. O estômago estava cheio de borboletas e as mãos suavam frio. Era expectativa, medo e alegria todos misturados. Ela tentou fechar a mente povoada de pensamentos, mas era impossível não pensar no pai. Um nó formou-se na garganta. Ele estaria tão orgulhoso dela se a visse naquele instante, pronta para explorar as galáxias da forma que ele tanto desejou para si e para ela.
O pai não a veria libertar-se do mundo como ela o viu quando ele partiu tão cedo. Ele foi à frente para abrir o caminho, então ela o estava seguindo através do mesmo caminho já aberto pelo cometa na noite de sua chegada. A nave estava pronta.
3... 2... 1...
E ela libertou-se do mundo, correndo pelos céus como um cometa, desligando-se da Terra para sempre.
Shh, vá dormir...
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