Experiências.
1 Oneshot
Notas iniciais
-Não te disse que meu cavalo era mais rápido? – Limpou o suor com as costas da mão, encarando o adversário com um sorriso de deboche.
-F-Foi sorte! O meu deve estar se sentindo indisposto hoje! – Retrucou o outro com as bochechas coradas, pela vergonha e também pelo calor típico de uma tarde de verão.
Ambos seguiam por uma planície castigada pelo ardente sol, a grama alta escondia as patas dos cavalos malhados. Poucas árvores se erguiam pelo terreno plano e os rebanhos de gado encontrados no local procuravam refúgio do calor debaixo delas.
O vencedor da corrida seguia a frente, com o cabelo loiro esvoaçando pela brisa abafada. Cavalgava com uma postura de cavaleiro, satisfeito consigo mesmo por ter vencido aquela disputa tola. Todas as disputas tolas valiam à pena quando se era contra Luciano que disputava. Este seguia logo atrás por opção, não queria cavalgar ao lado de Martín e aguentar seu sorrisinho e piadinhas irritantes.
-Deve ter um rio por aqui perto, os cavalos devem estar com sede. – disse, umedecendo os lábios. Era ele quem estava com sede, mas não gostava de transparecer suas necessidades na frente do argentino. Às vezes era tão tolo quanto ele.
-Hum, não deve estar longe... – Não seria uma má idéia darem uma pausa no passeio para deixarem os cavalos descansarem assim como eles próprios.
Martín e Luciano eram amigos desde que os irmãos Antonio e Miguel os encontraram. Inicialmente visitavam um ao outro, mas quando o relacionamento entre seus colonizadores tornou-se tenso tiveram que se encontrar às escondidas. Jamais admitiriam que sentiam a necessidade da companhia do vizinho ao lado. Riam e brigavam, brincavam e até dormiam debaixo da mesma árvore em algumas tardes frescas. E competiam. Competiam por tudo, desde quem conseguia pegar a fruta mais bonita da árvore até quem conseguisse contar mais estrelas antes de ser levado pelo sono. Agora estavam mais crescidos, o corpo se preparando para transformá-los em homens feitos embora ainda agissem como verdadeiros pirralhos .
Luciano avistava Martín uns cinco metros a sua frente. A camisa branca colada nas costas devido ao suor denunciava a pele clara do argentino. Jamais contaria a ninguém que quando via parte do corpo de Martín exposto, seu coração acelerava, querendo sair pela boca. Afastava tais pensamentos com as orações que Miguel lhes ensinou quando era menor, mas elas nunca funcionavam.
Mas ele não sabia que não era só ele quem sentia essas coisas estranhas.
O outro latino não conseguia mais tomar banho no riacho com o brasileiro. Quando o fazia, permanecia o tempo todo distante, olhando para uma árvore, pedra, qualquer coisa que mantivesse seus olhos afastados do corpo do moreno. Porque se ele soubesse o que o fazia sentir quando seu corpo estava exposto...
-Ei, perdedor, o riacho está logo ali! – Gritou Martín.
Luciano mordeu o lábio inferior, segurando-se para não disparar uma ofensa ao loiro. Podia ver o riacho brilhando sob o escaldante sol a algumas dezenas de metros.Sorriu.
-Que tal apostarmos uma corrida até o riacho, hein, Martín?! – Acelerou o equino, ficando lado a lado do outro.
-O que há? Quer perder de novo, idiota?! Gosta tanto de ser derrotado por mim?!
-VALENDO! – Luciano berrou, esporeando o cavalo que relinchou alto enquanto cortava o vento em direção ao pequeno rio.
-BASTARDO! – Gritou Martín em resposta, também esporeando sua montaria seguindo logo atrás do brasileiro.
Os cavalos e os cavaleiros eram dois borrões naquele mar verde abrangido pelo outro mar azul claro. Ouvia-se apenas os cascos pisoteando a grama. O brasileiro chegou primeiro, saltando do cavalo antes que o mesmo parasse de trotar e se jogou no riacho, ficando completamente molhado, sem se importar com as roupas.
-Ganhei! – riu, olhando para Martín que chegava logo atrás, com o rosto vermelho de raiva e com o olhar irritado.
-IDIOTA! Isso foi injusto! Eu nem tive tempo para-- Tentou saltar do cavalo em movimento assim como vizinho fez, mas um de seus pés agarrou no estribo e acabou por cair na parte rasa do rio.
-Haha! O “idiota” aqui pelo menos sabe montar e desmontar de um cavalo direito! E você- Martín?- Luciano empalideceu. Martín continuava com a face virada para o chão sem se mover. – Martín!
O brasileiro correu até o argentino, virando seu corpo de barriga para cima temendo que houvesse desmaiado e se afogado. Martín estava com o rosto machucado devido a queda na parte rasa do rio, onde havia pequenas pedras. Fios de sangue escorriam pelo seu rosto, misturando-se com a água.
-M-Martín!
-I-Idiota!– Abriu os olhos, limpando a águia misturada ao sangue.- E-eu me machuquei! — Aumentou ligeiramente o tom de voz, tentando sair das mãos de Luciano que o segurava firmemente. – Me solte! Foi só um tombo!
-Mas tem sangue!- Luciano aproximou o rosto, ainda pálido, ficando quase com o nariz colado ao de Martín. – Eu...pensei que...
Talvez o sol estivesse muito forte e a queda tivesse sido muito feia, mas o argentino jurava para si que viu os olhos verdes do vizinho se acumularem de lágrimas. Sentiu um aperto no peito, aproximando mais ainda o rosto do moreno, os lábios quase se tocando.
-...eu tivesse morrido? É mesmo um idiota, Luciano... – Sorriu. Mas não aquele habitual sorriso de escárnio e irritante, era um sorriso suave. Na verdade, Martín estava surpreso pela tamanha preocupação de seu vizinho. Não que um desejava ver o outro morto (embora dissessem isso quase todos os dias), ele apenas não sabia que mexia tanto assim com ele.
O brasileiro corou e diminuiu a distância entre os lábios até os dois se encontrarem. Pressionou com mais força, como se pedisse passagem, que o argentino deu sem resistir. Segurava o corpo de Martín com força e sentia sua nuca sendo alisada e empurrada por uma mão molhada, como se aquele beijo não estivesse sendo o suficiente.
Não sabia o que fazer. Nunca havia beijado. O rosto ardia como se tivesse ficado horas e horas exposto àquele sol forte, parecia que seu peito havia ficado mais leve. Aninhava o argentino em seus braços, com tamanho carinho que ele mesmo nunca havia imaginado que pudesse dar a alguém.
-N-não faça mais isso! – pediu, apartando o beijo, encarando os olhos azuis. – Me assustou de verdade.
Martín sorriu em resposta, erguendo seu corpo e beijando-o para a surpresa de Luciano. Mas era um beijo mais ávido de desejo, mais intenso que o primeiro. As mãos brancas percorriam as costas do moreno, mas não procurando apoio no corpo e sim o trazendo mais para si.
Agora os corpos estavam colados, unidos naquele simples (e ao mesmo tempo complexo) ato de beijar alguém que gosta. As mãos nervosas desabotoavam as camisas simples que foram jogadas no rio. As mesmas mãos tateavam o peito um do outro, ora escorrendo até as costas, arranhando-as de leve. Tinham necessidade de explorar um ao outro, uma vontade que latejava há anos e que agora não podia ser mais reprimida. Tal como uma réstia de pólvora acendida por uma centelha.
Martín mordeu o lábio inferior de Luciano, escorrendo para seu pescoço, chupando-o e mordiscando-o. Embora não soubesse muito bem o que fazia, estava gostando e continuaria ainda mais. Alisava o peito do moreno, com seus lábios escorregando , roçando na pele úmida.
-M-Martín, p-pare! –Luciano gemeu alto, arqueando as costas.-I-isso é estranho...!
Martín interrompeu o que fazia, ligeiramente irritado, mas logo compreendeu o que o brasileiro falava. Foi como se acabasse de acordar de um sono profundo. Arregalou os olhos e empurrou o corpo de Luciano, fazendo-o cair sentado na água límpida. Mil coisas passavam pela cabeça do loiro e não conseguia organizar seus pensamentos.
Ficaram alguns segundos ali, olhando um ao outro, sem ter o que dizer. Constrangidos e surpresos pela nova experiência. Foi Luciano quem se levantou, pegando sua camisa, enxugando-a e aproximando-se de Martín. O argentino estremeceu quando o brasileiro se aproximou novamente.
-É melhor estancar o sangue. – disse, pondo a camisa molhada, agora embolada, no corte da testa.
-“É melhor estancar o sangue”?! É tudo o que tem para me dizer? –Afastou Luciano, mas manteve a camisa no ferimento, que agora latejava. Desviou o olhar.
-O que?! Quer que eu te beije mais uma vez? – Cruzou os braços, ficando de pé, olhando Martín de cima.
-C-Claro que não! Vamos para casa! Aliás, eu vou para a MINHA casa e você vai fazer o mesmo! Antonio não pode suspeitar de nada.
-Suspeitar de que o pupilo dele se rendeu aos charmes do filho de seu ”amado” irmão?! – Luciano riu e acabou recebendo uma camisa embolada e suja de sangue na cara como resposta. – Ei!
-ADIÓS, IDIOTA! – Gritou, levantando-se, ainda meio tonto, esquecendo-se de sua camisa, subindo no cavalo. As costas eretas. O nariz empinado.
Começou a cavalgar lentamente, xingando não só o brasileiro, mas também a si mesmo. Ainda não compreendia como poderia ter deixado aquilo acontecer.
-ESPERA, MARTÍN! – Luciano gritou, com a voz e o semblante sério, subindo em seu cavalo, colocando a camisa amarrotada sobre um dos ombros.
-O QUE FOI AGORA?! – Virou-se, irritado. Estava quase indo lá dar uma boa surra no brasileiro.
-TEMOS QUE MARCAR A DATA DO CASAMENTO! SACUMÉ, NÉ?! ‘CÊ VAI FICAR LINDO NUM VESTIDO DE NOIVA! – Riu, esporeando seu cavalo, sabendo que estaria em apuros caso o argentino o alcançasse.
-HIJO DE PUTA! –levantou o punho de modo ameaçador, mas Luciano não o avistava mais.
Martín levou os dedos à boca, ficando completamente avermelhado. Ainda podia sentir os lábios do vizinho ali, sua língua explorando o interior. A inexperiência de ambos era excitante.
-Brasileiro desgraciado...
Tomou as rédeas da montaria e, ao invés de perseguir o outro, seguiu calmamente para casa.
Nem Antonio nem Miguel deveriam saber do que ocorreu ali.
Notas finais
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heh, quem sabe na próxima?
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