Notas iniciais
Contém palavrões!

O celular começou a tocar desesperadamente. Fui aos poucos saindo do meu estado de inconsciência até perceber de onde vinha o barulho irritante. Meu primeiro impulso foi pegá-lo e apertar o botão da função soneca, só percebendo que não era o despertador quando ele não parou de tocar. Era o Augusto, o cara que trabalha comigo na loja. Por alguma razão ele tinha esquecido de me avisar com antecedência que hoje era aniversário do Vitor e iam fazer uma festa surpresa para ele. E eu estava encarregada de levar o bolo.

— Pirou que eu vou conseguir fazer um bolo antes de ir pro trabalho, né?

— Claro que não, jumenta! A gente encomendou numa padaria que fica perto da sua casa. Você passa lá antes de ir pra loja. Fica difícil pra você?

Deixa eu pensar... Ser acordada com uma hora de antecedência sem a menor cerimônia, ser chamada de jumenta logo cedo, perceber que não tenho autonomia para dizer que ele ter me avisado de última hora tinha sido sacanagem, além de descobrir que meus colegas de serviço combinam festinhas pelas minhas costas, e ainda por cima uma festinha para o chato do Vitor. Difícil pra mim? Nem um pouco, a gente acostuma com essa vida de coadjuvante barra figurante. Dei uma suspirada que mais pareceu uma bufada e respondi que tudo bem.

— Ótimo. Ah! E tem como você passar no mercado e comprar uns pratinhos também?

— Você tá de brincadeira?

— Agora tô. E vê se melhora esse humor, credo... Não quero ninguém de cara feia nas fotos da festa.

— Augusto, se eu te mandar pra puta que te pariu você vai ficar muito magoado?

— Isso vai ajudar a melhorar seu humor? Se for ajudar, pode mandar, só não garanto que eu vá porque agora ela tá dormindo.

Se tem uma coisa que eu admiro no Augusto é que ele está sempre de bem com a vida. Até em situações difíceis, como quando o avô predileto dele faleceu, ele continuou com um sorriso no rosto. Foi nessa ocasião que nos aproximamos bastante — eu não mandaria um colega qualquer pra puta que pariu. Ele desabafou comigo, falou sobre o quanto sentiria falta do avô e contou sobre algumas coisas que aprendeu com ele. Até chegou a ficar com os olhos marejados, desabando em lágrimas e mais lágrimas quando lhe dei um abraço. E foi só isso, logo depois ele estava bem e dizendo que guardaria as boas lembranças do avô sem ficar lamentando por muito tempo, pois o velho não gostaria de vê-lo daquela forma. Ele é três anos mais velho do que eu e mora com a mãe. Os pais dele são divorciados e o pai mora em outro estado, prometendo que vai bancar uma faculdade para ele assim que puder, já que ele precisa usar o próprio salário nas despesas da casa. Mas essa promessa não se cumpre nunca.

Peguei o carro da minha mãe emprestado e deixei a moto com ela. Ela reclamou um pouco, mas entendeu que seria impossível eu levar um bolo numa moto. E ainda aproveitou para vir com o velho discurso sobre o quanto esse tipo de veículo é inútil e perigoso: "você não pode sair na chuva, você não pode carregar compras, não pode levar mais de uma pessoa, se você sofrer um acidente você morre muito mais fácil, blá blá blá". Eu sei mãe, concordo com tudo isso, mas meu salário não comporta um carro e eu preciso conseguir chegar no serviço sem depender de ônibus. Os primeiros dois meses trabalhando foram complicadíssimos, até que minha própria mãe resolveu ser legal e me ajudou a financiar essa moto.

Cheguei na padaria 8h30. Já comecei bem sem conseguir encontrar uma vaga para estacionar, e quando encontrei, não tinha moedas para o parquímetro. Seja o que Deus quiser! Pegar uma encomenda não seria demorado, e os fiscais devem se preocupar mais com os lugares mais próximos do centro.

Não seria demorado? Acho que tinha umas doze pessoas na fila para serem atendidas. Esse povo não compra pão pro café as 6 não? Lá vou eu, um olho na fila e outro no carro. E outro olho no relógio, pois preciso estar na loja às 9h. O Vitor não abriria mão do sermão se eu atrasasse, a menos que eu contasse o motivo, mas se eu contasse o motivo, ouviria sermão de todos os outros funcionários. O relógio faz de nós um bando de escravos. Estamos o tempo todo contabilizando os minutos, preocupados com a hora de levantar, a hora de ir trabalhar, quanto tempo temos para almoçar, quanto tempo temos para dormir... Fiquei nessa de fiscalizar o relógio e o carro e já eram 8h48 quando fui atendida.

— Bom dia, vim buscar uma encomenda de bolo.

— Em nome de quem?

— Augusto, Anne ou da loja que a gente trabalha, Paraíso Colorido.

— Vou dar uma olhada no caderno das encomendas, só um segundo.

Na verdade ela demorou quinze.

— Moça, não tenho nenhuma encomenda de bolo nesses nomes não. Tem certeza que não tá em outro?

Pronto, era só o que faltava. Liguei para o Augusto.

— Meu filho, em que nome tá a encomenda do bolo?

— No seu, por quê? Algum problema?

— A moça aqui tá falando que não tem encomenda nenhuma com meu nome.

— Em que padaria você tá?

— Na Doces Goulart, ué... É aqui que eu sempre venho por ser perto da minha casa.

— Ué por quê??? Você vai sempre aí, mas é a única padaria perto da sua casa por acaso? Isso porque eu te avisei no telefone que NÃO era aí, e sim na Fofo Pão. Você ainda tava dormindo, cacete?

Contei de 100 a 0 em dois segundos e respirei fundo. Sim, na verdade eu ainda estava dormindo! E ele era um imbecil por ter me avisado de última hora sem combinar as coisas direito. E eu queria mandar ele, bolo, Vitor e até a infeliz da atendente que disse que não tinha nada no meu nome pros quintos dos infernos.

— Você vai pegar o bolo no lugar certo? — ele perguntou mais gentilmente, provavelmente percebendo que meu grau de irritação tinha atingido um alto nível graças ao meu silêncio.

— Você prefere isso enquanto você enrola o Vítor pra ele não perceber meu atraso ou o quê? Porque se ele me encher o saco, vou estragar a surpresinha de vocês, heim... Tá avisado!

— Fica tranquila. Ele ligou dizendo que chegou uma tia lá pra cumprimentar pelo aniversário e que ele precisa dar uma atençãozinha pra velha porque ela tá caduca e não tem muita noção de hora. Ele vai chegar só depois das 10.

— Pelo menos isso, né? E viu, se tiver multa no carro da minha mãe por eu não ter colocado o bilhetinho do parquímetro, quem vai pagar é você!

Cheguei na padaria certa às 9h12. Felizmente lá estava bem mais calmo e consegui pegar o bolo em menos de cinco minutos. Mas quem disse que seria fácil assim sair da padaria? Precisava encontrar justamente a vizinha mais fofoqueira da história da minha existência.

— Anne, quanto tempo... Como você tá?

— Oi dona Vilma. Na verdade eu tô um pouco atrasada agora...

— E sua mãe? Ah, sinto uma saudade de quando morava naquela rua e dos tempos que ficava fofocando com ela no portão. Ficou sabendo que o Juca morreu? Dizem que foi do fígado, mas eu acho que foi desgosto, aquela mulher dele nunca prestou. E o Paulo? Lembra dele? Moço, bonito... Virou viado, minha filha! Que desperdício...

Ela é o tipo de pessoa preconceituosa que adora falar da vida dos outros. Minha mãe, apesar de também não ter muita paciência com ela, sempre foi educada e atenciosa, pois dona Vilma é uma mulher solitária e carente. Por que será?

— Olha dona Vilma, eu ADORARIA ficar aqui ouvindo a senhora falar da vida dos outros, mas realmente tenho que ir cuidar da minha.

— Mas pra quê pressa, querida? A loja não vai fugir não.

— Ah, fugir realmente não vai, mas minha bunda o Vitor pode chutar. Tô indo nessa, desculpa. Ah! E não é desperdício nenhum o Paulo ser gay não, viu? Sei de muito homem por aí que vai adorar aproveitar de toda aquela gostosura dele.

— Que isso, menina!!! Isso é jeito de falar? Que horror, parece que o moço é um pedaço de carne. Misericórdia!!!

— Tchau, dona Vilma!

Nada melhor do que falar de safadeza para assustar essas senhoras — como se elas também não pensassem nessas coisas. Tô até vendo ela encontrar outra conhecida nossa e dizer pra ela que eu sou tarada e mal educada por ter deixado ela falando sozinha. Paciência! Só sei que depois de tanta luta, consegui chegar na loja 9h35 com o bolo e o carro sem multas. O Augusto estava esperando na porta e foi até o estacionamento da loja me ajudar. Tinha sido uma manhã turbulenta, e eu realmente espero que a tal festinha compense o esforço.

— Que bom que deu tudo certo e a senhora chegou com o bolo inteiro. Festa de aniversário sem bolo não é festa de aniversário!

— Olha, só tenho uma pergunta pra te fazer sobre essa festa: vai ter cerveja?

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.