Ex(change) Girl
22 Capítulo 22
Notas iniciais
Eu estava tentando tirar a minha mochila daquele cubículo minúsculo que eles chamam de compartimento de bagagem. Sinceramente, eu acho que nem uma sacola de supermercado caberia ali, quanto mais mochilas de 37 adolescentes.
Estávamos no ônibus fretado pelo colégio, a caminho de Santa Mônica, que não ficava muito longe de Carmel. O motorista disse que a viagem levaria cerca de três horas, das quais duas já haviam se passado. Thalia ronca como um porco na poltrona ao lado da minha, o contraste de Silena, que dorme feito um anjo na cadeira da janela. E eu simplesmente não consigo dormir.
Sempre tive problemas de enjoo e coisas do tipo, não importa quantos comprimidos ou seja lá o que for eu tome, nunca consigo relaxar o suficiente para cochilar ou parar de sentir aquele desconforto no estômago.
Quando finalmente consigo retirar a enorme bolsa azul marinho do "mochileiro" e me sento, Percy diz:
–É uma pena mesmo que você tenha já tenha conseguido, daqui temos uma ótima visão da sua bunda, não é Travis?
–Com certeza! Estilo camarote VIP!
–Muito engraçado, de verdade -digo irônica- Estou rindo tanto que o meu pâncreas está prestes a sair.
–Então é melhor parar de rir, pelo que eu sei o pâncreas é bem útil...
Bufo irritada e reviro os olhos. Coloco os fones de ouvido e finjo não escutar as besteiras que os dois falam. Meia hora depois já estamos na cidade.
–Meninos, já chegamos em Santa Monica! Estamos bem próximo do hotel e antes de vocês se instalarem eu tenho algumas instruções para dar.
Enquanto a treinadora procura as anotações em seu bloquinho, cutuco Thalia para que ela acorde, mas ela dorme feito uma pedra. Tento de tudo: cutucar, beliscar, fazer cócegas, bater e nada, só quando tiro os seus fones de ouvido e estou prestes a gritar diretamente no seu tímpano, ela acorda de sobressalto.
–O que você está fazendo?! Essa é a melhor música! -ela grita
–Chegamos sua anta! E você nem sabe que música é, porque estava dormindo sua bocó!
–Nossa Annabeth, esses seus palavrões me amedrontam, sua boba!
Reviro os olhos e digo:
–Sério, a treinadora vai falar e...
–Achei! -a treinadora grita ao encontrar suas anotações-Muito bem gente, são algumas instruções básicas: 1º Meninas não podem entrar no quarto de meninos e vice verso, isso é óbvio. 2º Vocês já devem ter escolhido seus companheiros de quarto e afins, a reserva no hotel já foi feita e vocês deverão apenas informar os seus dados. 3º Vocês não devem ficar fora por muito tempo, o dia amanhã será livre, assim como a noite de hoje, mas o horário de recolher é á meia noite, então estejam aqui. 4º Nada de festas na casa de estranhos ou aceitar qualquer favor de alguém que não seja do colégio. 5º Estejam no hotel, domingo as 11 da manhã, e então iremos para o jogo. Certo, é isso, e nada de drogas ou bebidas alcoólicas por favor. Esse é o nosso hotel, eu preciso de alguns meninos pra ajudar a retirar as malas, Percy, por favor?
–Claro, treinadora.
Descemos do ônibus e damos de cara com um hotel maravilhoso, simples, mas incrível. Era um prédio de no máximo dez andares, todo de vidro, com vista para a praia. Não parecia em nada com um daqueles hotéis cinco estrelas, mas as enormes janelas de vidro tinham lá o seu charme.
Me aproximo do porta malas do ônibus, e espero até que tirem a minha mala, e como ela foi uma das primeiras a ser colocada, será uma das ultimas a ser retirada. Quando finalmente avisto a mala azul celeste de bolinhas roxas já não havia mais quase ninguém no estacionamento. Apenas eu e o garoto que estava tirando as malas, além de algumas meninas conversando perto da entrada do hotel.
–E aí? O que pretende fazer na sua primeira noite em Santa Mônica? -Percy pergunta
–Nada programado, não conheço bem a cidade, acho que preciso de um guia...
–Prazer, Percy Jackson, o seu mais novo guia pela Califórnia -é tudo que ele diz antes de passar pelas portas espelhadas.
♡
Jogo o cabelo para trás em uma tentativa falha de me proteger contra o vento forte daquela cidade. A brisa marinha dali era intensa, o que fazia o meu cabelo voar contra os meus olhos.
Caminho lentamente, aproveitando a quentura da areia sob os meus pés descalços. Era domingo, por volta das quase 10 horas e estávamos aproveitando o oceano pacífico na Costa Leste da Califórnia.
Pego uma canga para secar os cabelos e me sento ao lado de Nico.
–Acho que faz anos que não vou a uma praia se não for pra surfar -bufo irritada. Como eu sentia falta da minha prancha...
–Te entendo totalmente -diz Percy, passando os braços ao meus redor e molhando sua camiseta verde- Sinto falta da Sebastiana...
Arqueio uma sobrancelha.
–Sebastiana? Você colocou o nome da sua prancha de Sebastiana?
–Por que não? Ela precisava de um nome e Sebastiana estava disponível... -ele da de ombros
–Eu realmente acho que está na hora de irmos, falta pouco mais de uma hora para sairmos para o jogo, além de que esse sol pode causar tantas rugas que eu nem quero imaginar... -diz Silena
–Silena está certa, essa areia está me dando nos nervos, além de que só tem um banheiro para três pessoas...
–Eu tomo banho primeiro -interrompo Thalia
–Ah não, eu ainda tenho que fazer chapinha e a maquiagem...-diz Silena
–Eu disse primeiro -cantarolo e pego o cartão que funciona como chave- Vejo vocês daqui a 15 minutos, quando sair do banho- digo e mando um beijo no ar, antes de sair correndo em direção ao hotel
Pouco mais de vinte minutos depois eu já estava passando delineador. Thalia cantava, ou gritava, sei lá, alguma música do U2 no banheiro e Silena resmungava algo como "Não vai dar tempo de eu ao menos secar o cabelo!" ou "Ela está estragando a música".
–Você tem gloss Si? Eu só tenho um batom vermelho e acho que não vai combinar muito com...
–Dentro da necessaire rosa -ela diz e faz um gesto de descaso com a mão.
Escolho um gloss rosa claro qualquer entre as dezenas que Silena carregava e o passo. Dou uma ultima retocada no rímel e calço os tênis brancos do uniforme. E agora a tarefa impossível vai começar.
Paro de frente ao espelho e respiro fundo antes de encarar a juba de leão que eu chamo de cabelo. Ele geralmente cooperava, e ficava comportado, caindo em ondas perfeitas sobre os meus ombros. Mas ele parecia ter um comportamento diferencial quando se trata da água do mar, pois depois que eu saia da água salgada, não importa o que eu fizesse, ele ficava mais armado do que traficante do Morro do Alemão.
Me olho no espelho e verifico que ele está quase seco, as pontas duplas totalmente destacadas pelo ressecamento. Passo um pouco de óleo e seco resto da umidade com o secador, o prendo em um rabo de cavalo firme.
Me jogo na cama de casal que eu dividia com Silena, Thalia já estava quase pronta e se maquiava calmamente na pequena penteadeira cor de romã, e Silena estava tomando banho.
–Eu nem consigo acreditar que as provas acabaram! Sinceramente, estou prestes a dançar de felicidade só de pensar que as próximas só vão começar no fim do mês que vem! -digo
–Nem me fale, tenho certeza que vou me fuder na prova de matemática 2 e química...
–Estooou pronta! -Silena grita ao sair do banheiro enrolada na toalha branca do hotel
–Aleluia! -Thalia diz e joga as mãos para o alto- Agora só falta se vestir, maquiar, fazer chapinha, e blá blá blá blá...
Gloriosos 27 minutos depois estávamos sentadas no estofado vermelho do ônibus, a caminho do jogo contra o Rangers. Silena havia conseguido se arrumar em tempo record e só isso já era motivo para comemorar.
Percy e eu estávamos sentados juntos nas últimas poltronas do ônibus, conversando sobre assuntos aleatórios e tentando não ficar nervosos em relação ao jogo, que era decisivo para chegarmos as quartas de final do campeonato estadual. Quando o ônibus finalmente para, em frente a um enorme prédio térreo de paredes verdes, aperto a mão de Percy com força, era a nossa hora.
–Vai dar tudo certo, você vai arrasar, e a gente vai ganhar -ele diz, antes de levantar e me puxar ônibus a fora.
♡
Eu andava meio sem rumo pelos corredores esverdeado e bege da escola. Eu havia saído para ir atrás de alguma lanchonete ou refeitório, mas simplesmente não sabia me localizar naquele colégio. Entro em um corredor paralelo a esquerda e finalmente encontro o café, uma garota peituda, de cabelo ruivo pintado e com um enorme sinal no canto da boca me atende e me manda ir até o outro lado, o caixa.
Peço uma Coca normal e quando escuto um pequeno burburinho a uma pequena distância de mim, me viro e encontro todo o time de futebol da casa, além de algumas líderes de torcida, sentados a poucas mesas de distância de mim, próximo a porta.
Ignoro a presença deles e a voz enjoada da atendente do café, e saio tomando a minha Coca. Sou parada por uma voz incrivelmente rouca e forçada.
–Cuidado, amorzinho, Coca Cola da celulite.
Me viro, dando de cara com uma menina do time de torcida, que me lembra muito a Rachel. Dou um sorriso meio cínico para ela e saio, ouvindo a risada das outras garotas ecoando mesmo ao longe.
Me perco mais um pouco nos corredores e consigo chegar ao vestiário feminino, aquela garota idiota só me fez ter mais vontade de ganhar.
–Meninas! Meninas -grito- Nós temos que ganhar isso! Acabei de dar de cara com algumas das cheerleaders daqui e bleh -imito uma pessoa vomitando- são as patricinhas mais nojentas do mundo, até pro nível Silena de "patricisse". Sem ofensas Si, eu te adoro. Então, só nos resta uma coisa a fazer: mostrar pra essas filhinhas de papai idiotas e metidas a gostosas, que as filhinhas de papai de Carmel são mil vezes melhores!
***
"You better work, bitch"
Rebolo até o chão em um feeling perfeito e quando a voz da Britney Spears começa a soar, indicando que a ultima frase está por vir, jogo o cabelo para o lado.
"You better work, bitch"
Dou um enorme sorriso para finalizar. Todas as meninas gritam junto comigo e damos um abraço em grupo.
Olho de relance para a equipe da casa, que havia se apresentado ao som de Sweet Nothing, do Calvin Harris, a garota que falou comigo hoje nos olha emburrada, era mais do que óbvio que nossa coreografia tinha sido muito melhor.
Nos sentamos, esperando o resultado sair. Os meninos haviam ganhado o jogo de 34x27, então só faltava sabermos se havíamos passado ou não, e então poderíamos voltar para Carmel.
1 nova mensagem chega ao meu celular, pensei que fosse de Tritão, afinal ele mandou 13 SMS, 7 ligações e 3 mensagens de voz. Que eu havia feito questão de não ver, atender ou escutar. Quase ao mesmo tempo uma mensagem chegou no telefone de Thalia, e depois no de Clarisse, Silena, Katie, Bianca e assim por diante.
Decido abrir a mensagem, que era de um número desconhecido, para ver o que havia.
E então eu soube.
Ela havia realmente se vingado.
"E o resultado vai ser bem pior do esse roxo na sua perna."
Mas ao encarar aquela foto, de Rachel e Tritão juntos, fazendo coisas que eu prefiro não citar, eu não sentia nada.
Aliás, por ele, eu nunca sentira nada.
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