Ex(change) Girl
12 Capítulo 12
Notas iniciais
Domingo não era um dos meus dias favoritos. Não quando se está gripada e não se pode ir pra praia surfar. Não quando se está de ressaca.
Me sinto sufocada. Aquele catarro idiota que insistia em sair da forma mais nojenta possível, aqueles acessos de tosse, os espirros e o frio. Eu, definitivamente não esperava sentir frio em plena Califórnia. Me enrolo mais no cobertor felpudo, olhando através da janela do meu quarto, posso ver a praia, pessoas surfando e se divertindo, enquanto eu tentava controlar as minhas crises de espirro.
Pular na piscina gelada sob a fina garoa me parecia uma boa ideia ontem, quando eu estava meio cheia dos meus três copos de whisky. Hoje, porém, me pareceu uma coisa idiota pois a) meu adorado vestido de franjas estava manchado devido ao cloro; b) aquela gripe idiota estava me impedindo de ir surfar!
Controlo o novo espirro que estava por vir e alcanço o meu computador na mesa de cabeceira. Fazia anos que eu não olhava o facebook, além de que eu podia tentar falar com as meninas no skype. Enquanto o login entra pego o meu iPhone que estava embolado em algum canto pelo cobertor, e entro no Instagram.
Nossa. Nossa. Nooossa. Cerca de 300 pessoas queriam me seguir! 300 pessoas! Fala sério. Vou vendo as solicitações uma por uma, a maioria era de pessoas do colégio, algumas de conhecidos de festas, outros de total desconhecidos. Ao fim da operação seguidores eu havia pulado de 865 seguidores para 1410. Definitivamente eram mais de 300 seguidores.
Eu era popular no Brasil, afinal eu tinha muitos amigos no colégio e no condomínio, além dos que saiam pra surfar comigo. Mas isso? Nunca. Procuro alguma das minha últimas fotos pra postar, o meu iPhone estava atolado de fotos desde que cheguei. Em dois meses eu tinha mais de 1000 novas fotos. Encontro uma minha com Thalia, Katie e Silena e decido postar ela. Marco as três meninas, que surpreendentemente tem tantos ou mais seguidores quanto eu, e coloco uma frase fofinha e clichê como legenda.
A foto era de nós quatro na casa de Thalia. Era uma foto tão linda, tão natural, estávamos rindo tão espontaneamente de Connor que tentava bater a foto que mais parecia uma daquelas fotos que se encontra no Google. "Me and my girls! Love more than anything ♥" na legenda e posto.
7 minutos, 101 curtidas e 15 comentários depois o computador inicia. Entro no facebook e tenho novas solicitações. Por que será que isso não me surpreende? Dessa vez são tantas, mais tantas solicitações que simplesmente desisto de olhar de uma por uma e aceito todas de uma vez. Centenas de notificações e mensagens. Coloco uma mensagem geral pro pessoal do Brasil e posto uma nova foto. Uma foto minha e do pessoal da "minha família".
Quando volto a olhar pro meu Instagram tenho 357 curtidas, dezenas de comentários além do "Essa foto ta estranha, estou sorrindo demais" (em inglês, óbvio) de Thalia, "Amor maior que eu" de Katie o "Amo muito, muito, muito" de Silena, e muitos comentários raivosos das meninas do Brasil.
Entro no Skype e crio uma conferência, é domingo e eu espero que todos estejam em casa, fazendo nada e comendo brigadeiro como eu. 15 das 23 pessoas que chamo estão online.
"Parece que alguém se lembrou de nós! O que houve Annie? Brigou com as novas amigas?" "Caraca Annabeth, quem são aquelas gostosas ein?! Já tinha ouvido falar que as californianas são gatas mas..." "Annabeth como você está diferente! Como estão as coisas por aí?" são algumas das mensagens mais amigáveis que recebo. Não havia me tocado de como os meus amigos do Brasil poderiam ficar chateados e sentir saudades.
No fim ficamos apenas 6 pessoas no chat além de Helena e Bruno, meus melhores amigos. Passamos horas a fio conversando sobre assuntos aleatórios, até que aquele que eu mais tento evitar chega. "E o Gabriel? Já superou?"
Gabriel, aquele nome me dava arrepios. Ele foi o meu primeiro namorado. Namorado de verdade, quero dizer. Nós namoramos por 8 meses. Eu o amava, acho. Ele era do meu colégio, estávamos no penúltimo mês do primeiro ano do ensino médio, na festa de quinze anos de uma amiga nossa, eu era afim dele a milênios e então ficamos. Com uma semana ele me pediu em namoro. Oito meses depois, quando eu estava disposta a dar um passo a mais na relação, ele diz que quer terminar. Menos de quatro dias depois ele e Rebeca, uma das minhas melhores, amigas começam a namorar.
Foi duro, mas acho que pelo destino o meu intercâmbio já estava marcado. Com pouco mais de um mês embarquei para a Califórnia, e enfim, quase não me lembrava de tudo isso.
No Brasil já era quase de noite, então a maioria dos meu amigos saíram ou estão comendo, restamos apenas Bruno e eu.
"É duro fazer prova sem você, sabichona. Quem vai me passar cola agora?" ele diz
"Eu sei! Sinto tanto a tua falta!" digito
"É horrível ir pra aquela escola e não ter uma risada escandalosa pra te fazer despertar, não ter uma carona diária, não ter com quem jogar tênis no condomínio, ir pra praia e não te ver surfando"
"Para com isso Bruno! Ta afim de me fazer chorar? É isso?" falo
"Eu nunca te disse isso Ann, mas eu te amo. Você é a melhor amiga que eu poderia ter, você sabe né?" ele diz
"Eu também te amo idiota, eu nunca, mas nunca mesmo, vou encontrar um amigo melhor que você!" falo
"Sem essa de sensibilidade, chega, to me sentindo meio gay agora. Tenho que ir Annie, vê se não se esquece de nós, beleza? Te amo" e com isso fica off line.
Simplesmente não posso controlar, choro. Choro tanto que os soluços vem quase que instantaneamente. Eu havia chorado nas primeiras semanas, quando falava com a minha mãe ou a família. Mas falar com o meu melhor amigo foi pior. Ele sabia tudo, tudo sobre mim, me conhecia tão bem quanto eu mesma. Eu sentia tanta falta dele!
Um torpedo chega e simplesmente ignoro. Mais um. E outro. Uma ligação. Tento disfarçar o choro e atendo.
"Aleluia! E aí? Ta afim de fazer alguma coisa, vir almoçar comigo ou sei lá" Diz Thalia
"Não sei não, to meio gripada" falo
"Percebi, parece até que tava chorando. Sem essa Annabeth, só um almoço, por favor! Preciso de uma desculpa pra fugir desse dia em família com Zeus" ela súplica "Além de que eu tenho uma novidade e só falo pessoalmente"
"Isso é golpe baixo Grace!" falo "Sabe que eu sou muito curiosa! Me pega que horas?"
"Chego aí em uma hora. Tenho certeza que você não vai se arrepender, afinal é sobre o DiAngelo"
Solto um gritinho esganiçado
"Eu sabia! Sabia! Sabia! Até já" desligo
Se ela estava disposta a falar sobre o misterioso Nico DiAngelo, o garoto pelo qual Thalia era afim a um século, eu não podia desperdiçar a oportunidade.
*
Eu adorava aquele restaurante. De verdade. O estilo rock and roll anos 80/90 e o cheiro de carne assando era demais. Fotos e posters de bandas e cantores estavam espalhados por todo lugar, guitarras pendiam do teto, aquilo quase poderia se parecer com o Hard Rock Cafe se não fosse pelos preços bem mais acessíveis.
–Achei alguns daqueles comentários da sua foto bem ofensivos! O que quer dizer branquela metida a punk? -Thalia pergunta com um sotaque português terrível.
Solto uma gargalhada alta. Se Thalia achava aquele comentário ofensivo eu não queria saber o que ela iria pensar dos "vadia" "puta mal comida" e o resto, enfim.
–Não é nada demais Thalia! Eles só estão com ciúme, ok? Relaxa -digo
–Nada disso, não posso fazer nada se você gostou tanto de mim que se esqueceu deles! -ela diz convencida
–Thalia! Eu não esqueci deles! -digo- Agora, você pode por favor me falar a tal novidade que me fez sair de casa com um moletom horrível e o nariz escorrendo?
–Eca Annabeth, credo! -ela fala enquanto coloca a franja perfeita pro lado- Tudo bem. Ontem, na festa na casa do Eilm, enquanto você tomava todas e se agarrava com o Tritão, eu estava fazendo nada. Eu não tava nem um pouco afim de ir naquela festa e só fui porque você me obrigou e ainda me fez ficar segurando vela o que foi...
–Vamos Thalia! Direto ao ponto por favor, antes que eu espirre no meu bife -falo.
–Iga, ta bom. O DiAngelo também não estava fazendo nada, então nós ficamos conversando...e rolou! Quero dizer, rolou mesmo, com direito a quarto e tudo! -ela diz
Minha boca se abre em O maiúsculo perfeito. Então começo a soltar gritinhos agudos e agarrar a mão de Thalia.
–Não acredito, isso é demais Thalz! Como foi? Fala, fala! -digo
–Bem, ele me ligou de manhã, e a gente vai jantar hoje...
–Aí.Meu.Deus -solto
–Acho melhor ir ao banheiro antes que suje tudo de catarro, eca -ela fala
Saio pisando duro. Como pode eu estar super animada por ela e receber um
"Acho melhor ir ao banheiro antes que suje tudo de catarro, eca"?
Que bela melhor amiga eu fui escolher ein!
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