Exceção
1 One shot
Notas iniciais
A tarde estava tão ensolarada quanto de costume no acampamento. Era quase um dia de folga para todos os chalés, sem nenhuma atividade obrigatória para nenhum deles, então todos os campistas estavam se divertindo com as mais variadas formas de "fazer nada". Para Nico, meio obrigado a sair, isso era ficar sentado à sombra densa e quase fria de uma bela arvore, observando seus amigos se divertirem ao sol e pensando em como essa palavra, "amigo" ainda lhe parecia estranha.
Havia passado tanto tempo sozinho, tanto tempo vagando pelas sombras, que até mesmo observar a vida normal (ou tão normal quanto pode ser para um meio-sangue) ainda lhe parecia irreal. Ainda se sentia distante, e estranho em meio a aquilo, e sentia falta de Bianca, e as mesmas preocupações que o acompanhavam a tempo, mas algo estava diferente.
Agora todo aquele mundo parecia ao seu alcance.
Com um suspiro, abraçou as próprias pernas, apoiando a cabeça nos joelhos e afastando as costas da arvore. De certa forma, tudo aquilo, toda aquela normalidade, era mais difícil de lidar do que as duas grande guerras nas quais se meteu. Ao menos, durante elas, ele sabia como lidar com as coisas. Bem, ao menos na maior parte do tempo. Ele sabia contra quem estava lutando.
–Já cansado de tanta vida, Garoto-morte?
–Cale a boca, Solace...
Sua resposta, quase como um rosnado, só fez o loiro rir mais ainda. Nico não precisou abrir os olhos para saber que ele havia se sentado ao seu lado, nem mesmo para imaginar a pose largada como o tinha feito, nem o brilho do sorriso bobo em seus lábios.
Nos últimos dias, mesmo depois de ter sido liberado de seus tres dias na enfermaria, O filho de Apolo continuava aparecendo, quase impondo sua presença. Ele era tão insistente em afirmar sua vontade de ter a companhia do menor que, as vezes, só por alguns pequenos segundos, o filho de Hades se perguntava se teria alguma chance. Por alguns míseros instantes, se permitia um fiozinho de esperança.
Um fiozinho bem assustador. As chances de acontecer o mesmo que com Percy eram grandes demais. Não era como se pudesse evitar suas respostas agressivas. Não podia evitar tentar se afastar, por mais que estivesse tentando mudar esse habito com todos os outros. Will Solace era outra história.
–O Sol não está tão forte, então, por que está aqui? Ainda tendo problemas pra se aproximar das pessoas?
A pergunta feita tão alegremente foi respondida com uma espécie de rosnado baixo enquanto Nico se levantava. Não estava com cabeça para as provocações do mais velho naquela hora, então iria apenas se afastar, SE, o outro não tivesse segurado seu braço, o puxado e feito com que caísse sentado bem a sua frente.
Antes que se desse conta, os braços magros, porém fortes, o envolviam enquanto Will apoiava a cabeça em seu ombro e quase o obrigava a apoiar as costas em seu peito. Tentou se libertar, alternando pragas em grego e em italiano, apenas para ser abraçado com mais força enquanto ouvia o riso quase musical do filho de Apolo.
Nico estremeceu, parando de lutar enquanto seu rosto adquiria uma cor rosada, felizmente invisível para o loiro. Devido ao calor, estava usando uma regata folgada, que deixava exposta uma boa parte da região de seus ombros. Will, por sua vez, havia simplesmente abandonado a camisa.
Mesmo que tão pouco, a pele do outro, agradavelmente quente, parecia queimar os lugares onde tocava a sua, fazendo-o levar alguns segundos para tentar se controlar antes de responder, voltando a tentar se libertar, com bem menos vontade que antes.
–É Solance. Ainda tenho sim problemas com isso... Pode me soltar?
–hunn... Tudo bem...
Ao invés de soltá-lo, Will o abraçou melhor, aconchegando-se direito em seu ombro. Sua respiração fazendo o menor se arrepiar.
–...não tem problema continuar com essa coisa de "sem contato físico". Contanto, é claro, que isso não valha pra mim. Na verdade, seria melhor ainda se eu fosse a única exceção...
Will estava dizendo que gostaria de ser o único a poder tocá-lo. Will estava dizendo que gostaria de ser o único a poder tocá-lo. Will estava dizendo que gostaria de ser o único a poder tocá-lo. Will estava dizendo...
O pensamento continuou a se repetir em sua mente enquanto tentava processá-lo. O fiozinho de esperança pareceu crescer em seu peito e tentar arrastá-lo sabe-se lá para onde, fazendo seu coração disparar e seu rosto passar de levemente rosado para vermelho. Quando finalmente conseguiu entender direito aquela frase e se recompor, já era tarde demais. Apoiado em seu ombro, Solace havia caído no sono.
Nico suspirou em desistência. Não podia mais tentar negar seus sentimentos para si mesmo, nem tentar recusar aquela proximidade. Deixou-se relaxar, apoiando as costas no peito do rapaz atrás de si e fechando os olhos, dormindo também depois de poucos minutos.
–-X--
Will abriu os olhos de vagar. A luz do sol poente não era nem de longe um problema, mas talvez, se os abrisse muito rápido, poderia desfazer a magica que criava a visão a sua frente. Levou alguns segundos para perceber que era real.
Havia realmente caído no sono abraçando o filho de Hades, e tinha plena consciência de que o havia soltado pouco depois disso. No entanto, ali estava ele, dormindo tranquilamente. A expressão quase angelical contrastando de forma engraçada com as roupas e o cabelo completamente negros, e a pele pálida de seus braços sobre os de Will, que ainda o abraçava frouxamente.
Não muito longe, alguns dos poucos amigos de di Angelo o encaravam, sorrindo. Algum deles, ao perceberem seu olhar, aumentaram ainda mais o sorriso. Jason e Percy até fizeram um joinha.
O filho de Apolo escondeu o rosto no pescoço do garoto ainda adormecido a sua frente, com um sorriso bobo e contende incontrolável em seus lábios. Se sentia vitorioso. Ao que parecia, finalmente o filho de Hades o deixaria se aproximar, e, esperava Will, finalmente o deixaria amá-lo.
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