Evite
6 Relatório
Início de relatório
Data do relatório: 30 de abril, 10º pré-Revral
No dia 21 encontrou-se um casulo de memória nas areias praianas de Lima, na região de Gran Steam. A Governante Alice Tondello finalmente concedeu permissão para que fosse o primeiro casulo a ser estudado na região por uma empresa privada com conhecimento acerca de recuperação de memórias; a empresa selecionada foi a Evite.
Testemunhas dizem que trata-se de uma cápsula de barro e vidro com desenhos feitos a mão por todo o corpo, de não mais que 15 centímetros, incompatível com os leitores que os laboratórios da empresa dispõem, o que não dá opção aos empregados senão traduzir manualmente os códigos. Identifica-se por estes que o casulo é originado de Doxur, uma ilha selvagem com nativos irracionais e agressivos, desvinculada a ambos os Grãos-Continentes.
Pela falta de cooperação dos selvagens religiosos, a questão de como foram capazes de armazenar memórias em casulos permanecerá sem resposta por tempo indeterminado. Uma divisão de da cidade de Ethel já foi designada para tentar contato com o arquipélago Doxur.
Uma pequena parte do casulo já foi decifrada e está sendo enviada por anexo para a Sede. Nossos pesquisadores encontram dificuldades em traduzir o restante devido à falta de contato com os selvagens para compreensão completa da língua, mas logo não será problema. O texto utiliza muitos termos desconhecidos e metáforas.
Responsável pelo contato: Professor Alencar; Columbia Bel.
Fim de relatório
2 de Agosto, 137º pré-Revral
Quando retornou a sua casa, a escuridão já havia tomado todo o lugar, insistindo em não se esconder por baixo dos móveis ao ligar a luz. Agora uma Doxur (tradução aproximada), Amelia não tinha muita escolha senão servir aos seus deuses.
"Isso é uma honra" sua companheira explicara, enquanto tentava amansar o medo no coração de Amelia, "as (...) disseram que tu, amada Amelia, estás vinculada a grandes feitos para o bem do nosso povo".
Mas ela não tinha tanta certeza sobre isso. O mal estar no seu estômago poderia afirmar que a moça não seria um bom (...). Porém, o que as (...) determinam deve tornar-se lei, portanto Amelia deveria humildemente obedecer. Fahisa---Não, era agora Lariat, devido a sua própria jóia. Lariat prestaria assistência para que ela se tornasse uma Doxur (tradução aproximada) mais habilidosa, para controlar as sombras (tradução aproximada) assim como elas controlam a Escritora.
Mas e se ela falhasse? Os (...) têm um senso de humor retorcido, é sabido. Elas poderiam influenciar alguém a pular de um precipício num bater de coração. Quem sabe sobre o que mais as (...) brincariam? Talvez até nomear um novo Doxur (tradução aproximada), apenas para então matá-lo.
"As (...) são benevolentes" Lariat segurara sua mão e beijara seus nós, como tantas vezes antes, "elas não rasgam a costura que as mantém em contato com nosso povo. Tu és necessária, e deves cumprir Seus desejos e espalhar Sua mensagem, como todos nós".
Amelia sorriu para a memória, mais cedo naquele mesmo dia, quando a (...) se manifestara pela primeira vez, marcando Sua presença na mulher com um par de chifres no topo de sua cabeça, rasgando-lhe a carne e criando uma dor de cabeça que passou pouco antes de abrir a porta, mas agora havia voltado com o dobro de força. Ela colocou a mão neles, ainda duvidosa da veracidade do acontecimento, e acidentalmente cortou sua palma. Não estava acostumada a isto – ser alguém na sociedade além do que a companheira de sua Lariat. Tinha medo que nunca estaria.
A nova Doxur (tradução aproximada) observou a escuridão lentamente se afastar ao adentrar a sala. Não era capaz de parar de pensar em como sua transformação se tornaria cada vez mais radical, os chifres eram apenas o início. Amelia sabia que, ao longo dos anos, ela se tornaria menos e menos do que fora há algumas horas.
A moça desejaria saber se sua querida Fahisa sentiu o mesmo quando Elas a escolheram.
Provavelmente não. Sua Lariat é sempre tão encantadora e habilidosa. É quase como se as (...) se curvassem ao seu coman-– AH.
Ela caiu no chão pela blasfêmia antes mesmo de completá-la. Elas estavam em todo o lugar, Amelia sabia bem. A escritora pediu o perdão e finalmente foi permitida a se mover novamente.
Amelia foi até seu escritório e sentou-se perante a máquina de escrever (tradução aproximada). Não poderia deixar seu trabalho por um mero imprevisto que perturbou a sua rotina. Era uma Escritora, o título lhe foi dado ao nascer, e deveria honrá-lo até que sua alma voltasse às sombras (tradução aproximada).
(...)
— Mo’cesicie.
Vestida de negro, contrastando com a pele pálida, Lariat voltara da cerimônia. Amelia não era experiente o suficiente para participar; acabara de ser escolhida.
— Já fizeram contato? – Sua voz era doce e melodiava as palavras.
— Ainda não, já se completou dois sóis. Temo que tenham mudado de ideia. Ou chegado à conclusão que não sou apta.
A Doxur (tradução aproximada) mais experiente encarou a recém-nomeada e mostrou as presas, repreendendo o pensamento da Escritora.
— Ainda tens os teus chifres, Amelia – Lariat segurou-lhe a mão e beijou seus nós – És tão digna quanto eu de ser a porta-voz dos nossos deuses. (...)
Lariat piscou com dois de seus olhos e Amelia assentiu, aceitando o conhecimento da mais velha e puxando sua (...) pelo pescoço num abraço. A portadora da Larimar envolveu seus braços ao redor da nova Doxur (tradução aproximada) e permitiu que Amelia apoiasse a cabeça em seu ombro.
— Já decidiste qual pedra desejas, cara Amelia? – A dos cachos cianos perguntou, puxando Amelia para mais perto.
— Pensei que poderias ajudar-me na decisão – A morena sussurrou contra a pele do seu pescoço – Idocred já representa minha jóia nata, portanto não tenho uma opção em mente.
— Veja, caso não escolheres, Elas escolherão por ti. Algo à tua altura de teu potencial, decerto. Reza e encontra a resposta.
À noite, com Lariat a dormir e Amelia a terminar seus relatórios, a Doxur (tradução aproximada) parou.
A visão escureceu.
Elas estavam lá, teve a certeza.
— Mo’douror.
Não sabia como comunicar-se com os deuses, então a voz ecoava o pensamento.
— O que devo fazer? Sim, mas--- Sei bem. É vossa palavra final? Entendo.
E então ela soube o que fazer. Como fazer. Quando fazer. Foi seu segundo contato com as (...).
Ao romper a aurora, escolheria sua gema.
De acordo com o ensinado.
Esperava não estragar tudo.
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