Evil Love
14 Capítulo 14: Esqueça-o, receba-o e ouça-o.
Notas iniciais
Aqui eu estou, indefeso e deixado para morrer
Feche seus olhos, então muitos dias se vão
Fácil de se achar o que está errado
Difícil de se achar o que está certo (…).
Dance with the devil – Breaking Benjamin.
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“Olhinhos verdes cintilavam para a noite. Estava tão bonita... Podia admirar a lua através das barras em sua janela. Pontinhos brilhantes decoravam o céu em harmonia com o astro maior, e por entre eles a mente de Gaara vagava. Vagava e vagava sem qualquer destino. Contudo, o que seria comum para qualquer criança, como imaginar mil mundos observando a noite estrelada, era um raro momento para o pequeno garoto.
Sim, pequeno. O ruivo era muito menor que os garotos de sua idade. Porém, jamais havia os visto, era apenas o que diziam alguns vizinhos.
Nascera prematuro e, aos três anos de idade, era magro demais. Aliás, sentia fome. Muita fome.
Não haviam dado-lhe comida à tarde.
Ajeitou-se no chão como podia e prosseguiu contemplando a paisagem fora da janela. Ali passaria até o amanhecer, esquecendo-se de seu estômago ou das amplas marcas do cinto de seu pai em suas costas.
A janela o fazia esquecer.”
Gaara vestia a camiseta sem dificuldades. O jeans escolhido por seu irmão estava um pouco largo, no entanto, levando-se em conta que meses atrás aquele mesmo tecido descer-lhe-ia pernas abaixo, de nada poderia reclamar. Havia engordado muitos quilos, mas, apesar de seus esforços para sair o mais breve possível daquele quarto, ainda estava abaixo do peso ideal para sua idade. Um pouquinho abaixo. O que, certamente, era uma vitória para Kankuro, Temari e... Mesmo não admitindo muito... Para si próprio.
— Sabe que assim fica mais maneiro? — o comentário de seu irmão, que estava sentado na poltrona ao lado da cama, não o surpreendeu. Kankuro costumava usar calças largas com frequência.
Apenas olhou-o inexpressivo como de costume. Para ele, pouco importava com que roupas deixaria aquele lugar. Somente queria sair. Sair urgentemente.
— As garotas adoram! — exclamou o mais velho, erguendo um pouco de seu casaco negro para mostrar grande parte da cueca que, para Gaara, era ridícula. Kankuro definitivamente tinha que se livrar daquela maldita samba-canção amarela com um sinistro cão de olhos gigantes.
Temari, que acabava de adentrar o quarto, bufou em desgosto.
— Kankuro, já te disse que isso não é nada atrativo para as mulheres.
— Não é atrativo para as mal-humoradas como você, Temari. Mulheres gostam de caras engraçados, sacou? E o papai aqui... — apontava para si mesmo e sorria com malícia. _ … É muito engraçado.
Pela primeira vez, Gaara concordava com a expressão de nojo da irmã. Realmente, alguém tinha que parar Kankuro antes que fosse preso por atentado ao pudor.
— E então, Gaara, vai voltar para a clínica psiquiátrica? Sua alta já está assinada na recepção. — questionava Temari, que em função ao maciço esforço do ruivo para engordar, havia decido dar-lhe um crédito. Crédito esse que se resumia em escolher voltar para a clínica psiquiátrica ou não. Entretanto, se optasse pela segunda opção e não fosse morar com ela e Kankuro, colocariam a polícia atrás do caçula e nenhum outro voto de confiança seria concedido novamente.
— Ele não vai voltar. — Kankuro se intrometia, recordando-se da suspeita que Gaara havia sido torturado na tal clínica por mal comportamento.
— Quieto, Kankuro! Gaara está há um mês de fazer dezoito anos.
E era justamente aquilo que preocupava o mais velho. Gaara logo não estaria mais sob a tutela deles e poderia até matá-los facilmente se quisesse. O fato era que a personalidade instável do menor nunca deveria ser subestimada.
— Não posso voltar. — fora tudo que o rapaz respondera ao terminar de vestir o casaco cinza, colocando o capuz.
— Não pode? Pretende voltar a estudar? — interrogou Temari após a frase do ruivo que, a seu ver, apenas reforçava uma suspeita que vinha adquirindo com o passar dos dias. Gaara desejava ver a garota que havia sequestrado quando mudaram-se para Konoha.
— Pretendo. — estudar novamente... Aquilo era, no mínimo, muito estranho para Gaara. Detestava fortemente ambientes escolares. Mas, caso aquilo fosse mesmo verdade, tinha de vigiar Ino e seu filho vinte e quatro horas por dia. Não deixaria ninguém aproximar-se dela.
— Uou! Essa é nova! — Kankuro se empolgava. Havia conseguido um emprego em uma renomada loja de tatuagens e, caso Gaara conseguisse um também, a situação financeira dos irmãos Sabaku melhoraria consideravelmente.
Não poderiam sobreviver para sempre da herança família, apesar dessa estar longe de acabar. Deveriam poupá-la e mantê-la guardada para alguma emergência.
— Gaara... — chamou Temari, que em resposta do ruivo obtivera um olhar de canto, diante da porta. _ … Não vá atrás daquela garota. Ela não deve querer vê-lo.
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Fitas azuis perdiam-se nas canelas da Hyuuga. As sapatilhas, de mesma cor, estavam devidamente postas lado a lado, moldando-lhes os pés pequenos e delicados. Estava a ajudar Ino há aproximadamente trinta minutos. Tinham de escolher o vestido para o Baile de Inverno da escola, do qual sempre sonharam desde o primeiro colegial. Contudo, com o sonho prestes a tornar-se realidade, Hinata não sentia metade do entusiasmo e da ansiedade que, aparentemente, passava pelas veias da amiga loira.
— Ino-chan... — finalmente, começou.
— Sim? — respondeu a Yamanaka, virando-se por entre o amontoado de vestidos que localizava-se no centro de sua cama.
— Não acha que o vestido roxo é o ideal? Não vejo-lhe com outras cores no baile... É a sua marca. — opinou Hinata que, não negava, estava estranhando aquela busca minimalista de Ino.
— Eu amo roxo, mas queria mudar um pouco, sabe? Às vezes o Sai diz que outras cores ficam mais bonitas em mim.
— Não. — afirmou Hinata, convicta. Não acreditava que estava mesmo ouvindo aquelas palavras.
— Hã? Como assim? — desentendida, Ino sentou-se sobre a beirada da cama, encarando diretamente a outra.
— Ino-chan, você se ouviu? Sei que está tendo uma boa relação com o Sai, mas... A Ino que eu conheço jamais deixaria um cara influenciar no seu visual e... — não poderia deixá-la terminar:
— A Ino que você conhece mudou muito, Hina. O Sai tem estado todo tempo comigo e não vejo mal em agradá-lo um pouco. Se não fosse por ele... Eu... — agora, não conseguia completar o que dizia. Tudo levava à ele. Tinha de esquecê-lo.
De pé, Hinata emitiu um suspiro. Não podia adiar mais aquele momento. A Yamanaka estava mais do que preparada para ouvir e sentia-se no dever de falar. Passara todos os anos de que se lembrava apaixonada por Naruto, no entanto, nunca fizera nada, de fato, para que ele soubesse. Sempre escolhia o caminho errado; era tão negativa. Porém, nunca envolvera-se com outro com o loiro ainda ocupando seus pensamentos. Não era correto e tampouco justo.
— Eu sei que você tem informações dele. Atendi seu telefone aquele dia em que bebeu demais e nós a trouxemos para casa. — despejou, firme.
Ino sentiu um frio preencher-lhe a espinha. Petrificada, arregalara os olhos para a Hyuuga.
— Hina... E-Eu...
— Não se explique. Eu não vou entender.
— Hina, por favor, não conte sobre isso para o meu pai! Eu juro que tudo que eu queria era só... Só saber se ele estava bem e... — em pânico, praticamente tropeçava nas sílabas e já tinha, sem perceber, as mãos apertando os ombros de Hinata.
— Se acalme, Ino-chan! Eu não vou contar nada! — exclamou Hinata, surpresa com o desespero da loira. Com esmero, retirou as mãos dela de si, segurando-as. _ O que eu disse é que não entendo. E, realmente, não entendo como pode ligar para saber daquele cara todos os dias... Mas não a julgo, Ino-chan. — os olhos perolados, em Ino, focaram-se no chão. _ Se você... Se preocupa com ele, quem sou eu para julgar.
— Hina... — balbuciou Ino, emocionada com a compreensão lhe estendida.
— Só não fique com o Sai-kun sem gostar dele.
— O quê? De onde tirou isso? Eu gosto dele. — assegurou a Yamanaka, gesticulando com as mãos em seguida. Claro que gostava de Sai.
— Não. Você é grata a ele. Gratidão e paixão são coisas muito diferentes, Ino-chan. — não soubera o porquê, mas não negara prontamente a declaração de Hinata, prosseguira apenas ouvindo-a. _ Isso pode ser insano, mas... Você sente algo pelo Sabaku?
— Não! Ele me sequestrou, Hina! Abusou de mim todos os malditos dias que fiquei naquela casa! Eu só tive um pouco de pena pelo estado de saúde dele! Você sabe que eu não consigo ignorar o sofrimento das pessoas. É somente isso.
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Penteando os cabelos com lentidão, Ino mal concentrava-se em sua imagem refletida no espelho. No fim, havia optado por manter seu roxo costumeiro. O violeta cintilante brilhava sob a fraca luz do luar que atravessava as cortinas leves e quase transparentes. O tecido era macio, marcando sua fina cintura com graça. Deveria estar sentindo-se bonita e radiante, porém, após a visita de Hinata, toda a vivacidade que estava construindo novamente em si dissipara-se como pó.
Ele... Só conseguia pensar na pergunta que a amiga havia lhe feito: “Isso pode ser insano, mas... Você sente algo pelo Sabaku?”
Ressentimento; medo; agonia. Em contrapartida, havia aquele bizarro apresso. Temia que ele falecesse por desnutrição, que sofresse mais do que já havia sofrido. Não tinha ideia do que poderia tê-lo transformado naquele ser radioativo, como gostava de caracterizar a si mesmo, mas apenas hipóteses terríveis e doentias, disso tinha certeza.
“Sou como um elemento radioativo, apenas transformo as pessoas. Para pior. E vou alterar você”.
Sentiu pequenos tremores tomar-lhe a pele acetinada. Demorara meses para que as marcas feitas por ele desaparecessem. Ou, ao menos, a grande maioria delas.
Tentou focar-se em finalizar sua maquiagem, passando um pouco de rouge nas maçãs do rosto, visando um aspecto saudável. Já estava pronta. Tinha de somente aguardar a chegada de Sai.
— Papai!!! O Sai já está aí em baixo?! — chamou pelo mais velho, obtendo a resposta do primeiro andar:
— Não, minha flor!!! Mas pode deixar que o recebo!
— Obrigada! — sibilou, levantando-se do banquinho de sua atual penteadeira branca, antes pertencente a sua mãe. Havia ganhado-a de presente há uma semana. Inoichi tinha repintado-a e moldado-a com a ajuda de Shikamaru e Naruto.
Sentando-se na ponta direita de sua cama, a Yamanaka moveu o tronco ao chão para calçar as sandálias prateadas, medianas, perfeitas para sua estatura já considerada alta. Mas, ao colocar as mãos no calçado, uma esguia sombra assombrara-a.
Virou num rompante. Seu coração, por um incalculado tempo, começou a bater desenfreado. Era uma alucinação...
Ele, ali há alguns minutos observando-a se arrumar, afrouxou os punhos. Não poderia tomá-la, apesar do desejo e ansiedade altos.
— Está bonita... Aonde vai? — questionou-a, apático, apertando as mangas de seu casaco cinza. Repentinamente, era tomado pelo desconforto ao tê-la encarando sua face não recuperada por completo. Suas bochechas, ao contrário das dela, ainda estavam fundas.
Ele havia entrado pela janela, escalado sua janela e, mesmo com seu pai no andar de baixo, tinha surpreendido-a. Sua visão ficava um tanto turva, perdia a força nas pernas e na coluna. Não acreditava que ele estava em seu quarto. “Bonita”, o ruivo, certamente, deveria ter levado muitos choques para proferir tal elogio.
— Não desmaie. Vou acordá-la aos tapas se desmaiar.
Ou talvez nem tantos assim. Uma parte da loira, contanto, sorriu.
Tão insano... Tão bizarro... Eles tinham algo imaculado.
Em segundos, ela sentiu as sempre gélidas mãos dele ampará-la nas costas. O toque, por outro lado, a despertou. Ele poderia levá-la novamente.
— Vá embora!!! — gritou, desvencilhando-se de Gaara na intenção de correr na direção da porta.
Ele a deteve. A deteve encostando-a na parede ao lado da penteadeira e, então, soltou o ar que nem sabia prender nos pulmões. Ah, como sentira falta daquele perfume floral! Chegara a sonhar com ela consideráveis vezes e, em cada uma, aquele cheiro fazia seu peito estranhamente se agitar. Doer. Mais do que tudo, seus sentidos o enganavam para, talvez, mantê-lo vivo.
As pálpebras tampavam as opacas íris verdes e, tendo-o tão perigosamente próximo outra vez, não conseguia reagir. Apenas fechara os olhos também, buscando dar a sua razão a explicação de que estava perdendo a sanidade. No entanto, ela já não a havia perdido quando ele a sequestrara? Sabia que a resposta era sim.
Nunca tinham estado assim. Acalmando-se juntos, como duas crianças que, após escaparem do escuro, ansiavam em desespero por uma fresta de luz. Sentia a testa dele encostar-se a sua e permitia. Permitia pois, por mais que houvesse tentado enterrá-lo, ele havia emergido da terra, de seu caixão, e certamente não tinha saído dos hospitais sem esforçar-se.
Prosseguia com seu corpo doente, cheirando a soro e vaselina, mas os braços que deslizavam por seu ventre, encontrando-se em sua cintura, demonstravam vitória. Sim, estava claro que ele tinha esforçado-se para sair.
Seria por ela?
— Não quero ser um pai como ele. — falou, embargado, nauseado, trêmulo.
Pai?!
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