Jane estava segurando sua mão quando sentiu os olhos de Maura estudando seu perfil, seu olhar transbordando com afeto, preocupação e algo mais. Algo que não poderia ser descrito como qualquer outra coisa que não fosse amor. Jane se viu sorrindo sem qualquer controle de suas emoções ou mesmo das lágrimas que insistiam em lhe escapar, talvez em busca do peso que acabara de abandonar seu coração.

Era uma quarta-feira a tarde quando Maura Isles finalmente acordou.

E isso era tudo o que Jane precisava saber.

–x-

Ela estava atrasada.

Como sempre Jane estava atrasada.

Ela deixou Korsak e Frost discutindo sobre o fato de Milo ter Bass, um cágado, como bichinho de estimação ser apropriado ou não.

Ela derramou café em um senhor que andava distraidamente pela calçada e mais do que rapidamente enfiou seu cartão de contato no bolso de seu casaco, se propondo a pagar pela lavagem. O homem nem viu o que o atingiu.

Ela estacionou em uma manobra rápida e perigosa sob o olhar desconfiado dos demais pais e professores que se encontravam na entrada da escola particular a qual Milo frequenta.

Mas nada disso fez a menor diferença.

À sua espera, diante da escadaria central, com um copo de café e um sorriso estava Maura Isles. Ao reconhecê-la, Jane apertou o passo. O maior de todos os sorrisos estampados em seu rosto.

Um sorriso que nem mesmo mais um de seus atrasos seria capaz de apagar.
Maura lhe estendeu o copo de café.

"Eu já disse que te amo hoje?" Jane fala pegando o copo em uma das mãos e aproveitando a oportunidade para roubar um demorado beijo. Ao que Maura não faz a menor objeção.

"Por mim, ou pelo café?" Maura pergunta quando os lábios de Jane deixam os seus.

"Os dois. Mas você principalmente." Jane responde, o rosto tão próximo de Maura que ela é capaz de sentir sua respiração. "Desculpe por chegar atrasada."

"Você não chegou" Maura fala com um sorriso satisfeito.

"O que?! Como? O alarme que você colocou no meu celular disparou há pelo menos 40 minutos."

"45. Mas quem está contando?"

"Maura..."

"O que você faria se eu dissesse que deliberadamente troquei o horário do compromisso em sua agenda, prevendo seu atraso e prevenindo o mesmo através de tal gesto?" Jane finge refletir por alguns instantes.

"Eu diria que você é maquiavelicamente brilhante."

"Eu tenho de fato um Q.I elevado."

"Sua humildade ainda me assombra." Jane fala com um sorriso debochado. Maura se faz de ofendida, mas cede ao sorriso de Jane. "Cadê ele?"

"Lá dentro, fazendo os últimos preparativos. Eu estou muito confiante de suas chances nessa disputa."

"Tenho certeza que sim. Afinal vocês dois colocaram muito esforço nesse projeto."

"Eu sei! Quem diria que explorar a influência da música enquanto forma cognitiva de interferência durante os estudos seria tão igualmente trabalhoso e fascinante?"

"Loucura né?" Jane não contem o sarcasmo. Maura revira os olhos.

"Eu acho que ele tem grandes chances de ganhar o primeiro lugar." Maura fala orgulhosa "É melhor entrarmos. Seus pais já estão lá dentro."

"O que eles estão fazendo aqui??"

"Milo os convidou, é claro."

"E por que ele faria isso??" Jane não esconde sua falta de entusiasmo.

"Jane..."

"Tá bom, tá bom, não vou falar mais nada." Jane faz uma careta emburrada e Maura se aproxima e sussurra ao seu ouvido.

"Se você se comportar eu prometo recompensá-la hoje à noite."

"Você está falando sobre o que eu acho que você tá falando?" Maura apenas sorri enigmaticamente. Jane não esconde sua satisfação. "Ótimo! Mal posso esperar pra ver o jogo esta noite. Eu amo você e Milo, mas juro que não aguento mais ver documentários sobre as disfunções eréteis dos cangurus pernetas ou sobre os cavalos marinhos e sua partidas de pólo aquático."

"Você está inventando esses nomes." Maura afirma descrente.

"Você me conhece bem demais." Jane dá de ombros e as duas entram no prédio de mãos dadas.

No final do dia Milo leva o troféu para casa e como prêmio, Maura faz um de seus pratos favoritos no jantar: o nhoque da nonna Rizzoli. Jane começa a assistir ao jogo, mas acaba trocando de canal no segundo tempo. A família assiste a um documentário que no dia seguinte Jane descreverá no trabalho como "um especial sobre os trajes de gala dos pinguins".

Podia ser pior, pensa Jane ao observar Maura e Milo sentados em posições quase iguais assistindo atentamente ao programa, e um sentimento que não pode ser descrito como algo além de felicidade a aquece por dentro. Podia ser o documentário sobre o homem árvore, Jane se recorda do filme e sente seu estômago embrulhar automaticamente.

Nada contra o pobre homem, mas ela definitivamente preferia a companhia dos pinguins.

Especialmente nas noites de nhoque.


fim.

Notas finais
Nada como um final feliz ein :)
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!