Everything will change
2 Capítulo 2
Ela estava atrasada.
Como sempre, Jane estava atrasada.
Ela deixou Korsak com sua pesquisa no google sobre lares adotivos para cachorros abandonados quando se deu conta das horas.
Ela dirigiu como se estivesse em uma pista de corrida e não cruzando as ruas de Boston, ultrapassando sinais vermelhos e transformando-os em meros borrões em seu caminho.
Ela chegou com o coração descompassado e mal sendo capaz de formular sentenças que pudessem de alguma forma desculpar o seu atraso.
Mas nada disso fez a menor diferença.
Milo Isles-Rizzoli tinha um sorriso em seu rosto.
Um sorriso que nem mesmo mais um dos atrasos de Jane seria capaz de apagar.
Um sorriso reservado para sua mãe, a detetive mais forte e valente de todo o esquadrão policial de Boston.
Assim, quando ele viu a mãe lutando para controlar seus batimentos cardíacos, ele apenas se levantou do degrau no qual estava sentado, esperou ela se recompor e diante da expressão incrédula de Jane, a recebeu com um abraço apertado e um beijo estalado e sincero.
Milo se afastou então da detetive e fixou sobre ela seus olhos curiosos e sempre atentos. Olhos amendoados como os de Maura. Jane não precisou se desculpar. Aos olhos dele ela nunca estava errada. Era como se, por algum motivo que fugisse à sua compreensão, Milo fosse incapaz de ver a mãe como uma pessoa capaz de cometer erros.
Aos olhos de Milo, Jane Rizzoli era muito melhor do que qualquer super herói.
"Você táva pegando bandidos?" Ele pergunta com a voz rouca.
Ela o estuda com uma expressão de intriga em seu rosto. Não existe nenhum menino como o seu. Ele é pequeno para a idade. Menor do que a maioria dos meninos. Seus cabelos são de um castanho muito claro, quase loiros, ligeiramente compridos e rebeldemente ondulados nas pontas.
Ele é magrelo e esguio, o que deixa a nonna Rizzoli louca da vida. Sua pele é muito branca e na ponta do nariz ele exibe uma coleção de sardas, como uma constelação de estrelas. Seus olhos são grandes e parecem enxergar dentro de sua alma.
Ela não consegue mentir, mas também se recusa a partir seu coração deliberadamente.
"É, algo do tipo." Ela se ajoelha diante do menino, procurando diminuir a distância entre os dois. "Você está pronto?"
"Claro! Só tenho que pegar a minha mochila lá em cima e me despedir do vovô." O menino fala visivelmente excitado.
"Vai lá então. Vou esperar por você aqui fora, okay?" Milo sai correndo sem esperar por uma segunda ordem e Jane se contenta em apenas observá-lo desaparecer atrás da porta.
Ela senta na escada e observa a tranqüilidade suburbana da rua na qual cresceu. A voz que anuncia sua companhia não a pega de surpresa.
"O que você está fazendo aqui fora? Se escondendo?" Angela Rizzoli fala sem meias palavras. Jane esfrega os olhos com a palma da mão, procurando resistir à própria impaciência.
"Oi , Ma" — Ela cumprimenta sem emoção.
"Ele está te esperando há pelo menos duas horas. Você não poderia ter feito o esforço de chegar no horário pelo menos?"
"Desculpa Ma, eu fiquei presa no trabalho."
"Trabalho, sempre o trabalho. E enquanto isso seu filho cresce longe dos seus olhos. Grande trabalho esse seu." Angela resmunga de uma forma bastante audível. Jane respira fundo. "Ele provavelmente não vai dizer nada pra você, mas essa semana vai ter uma feira de ciências na escola. Ele se preparou a semana toda. Vai ter um grande prêmio para o ganhador. Seria bom se você pelo menos desse as caras. Se esse seu 'trabalho' permitir, é claro."
Jane está prestes a responder quando os passos de Milo denunciam seu retorno. "Tô pronto mamãe!" O menino anuncia empolgado. Jane se permite um pequeno sorriso diante da empolgação do garoto.
"Não se esqueça de se despedir da nonna." Ela fala e espera ele se despedir de Angela. Milo solta a mochila no chão e abraça Angela com vontade, que retribui o abraço com o mesmo entusiasmo.
"Addio nonna, ti amo!" Ele fala em italiano e Jane não é capaz de identificar a resposta embargada que ele recebe de Angela. Somente Milo era capaz de fazer sua avó durona amolecer por completo.
Dentro do carro Jane ajusta o cinto de segurança de acordo com a compleição franzina do menino. Ele aguarda pacientemente. Durante o trajeto, Jane se pega espiando pelo retrovisor do carro a figura de seu filho. Ele parece não perceber, observando a paisagem através da janela, distraído pela música que chega até ele através de seus imensos fones de ouvido. Sua preferência pelos clássicos é mais uma herança de Maura, junto aos olhos amendoados, o amor por documentários e o vocabulário e Q.I. avançados demais para sua idade.
O Sol está se pondo quando eles chegam ao seu destino. Ele corre na frente, já sabe o caminho. Quando Jane o alcança, Milo está entretido, procurando algo em sua mochila.
"O que você está procurando?"
"Eu fiz um presente pra ela." Ele fala e tira uma folha cuidadosamente dobrada de dentro de sua mochila. Ao desdobrá-la, Jane se reconhece retratada pelos traços perfeitos de seu pequeno artista.
No papel, Milo também desenhou Jo Friday, Bass e a si mesmo. Jane sente falta de Maura. Milo parece ler seus pensamentos. "Eu queria desenhá-la, mas não me lembrava como ela era. Então pensei que ela talvez também tenha esquecido. Por isso fiz esse desenho pra ajudar ela a se lembrar." Em toda a sua inocência, mesmo ele é capaz de reconhecer as lágrimas que borram os olhos escuros de Jane. "Você acha que ela não vai gostar?"
"Ela vai amar." Jane fala com a voz ainda mais rouca e embargada pelas lágrimas que não ousa derramar. "Ela também vai ficar muito orgulhosa de você. Sua mãe sempre foi uma grande apreciadora das artes."
Milo parece satisfeito com a resposta e coloca o desenho sobre a lápide, com uma pedra em cima para que o vento não o leve para longe. Os últimos raios de Sol se insinuam no céu. O menino se põe de pé e espera que sua mãe se despeça de sua outra mãe.
Na lápide, Jane lê a inscrição: Maura Isles, amada esposa e mãe. Sua falta será para sempre sentida. Sua presença jamais será esquecida. 1977 — 2011.
...
É com o coração acelerado e um sentimento de pânico que Jane recobra a consciência sobre a cama de hospital.
Eternos minutos se passam até que as recordações dos últimos dias preencham as lacunas de sua memória.
Quatro dias se passaram desde o acidente. Com diversas fraturas, traumatismo craniano, escoriações e cortes profundos espalhados por todo seu corpo, sua recuperação é lenta e dolorosa.
Toda sua dor, no entanto não é maior do que sua angústia diante do fato de que Maura ainda não acordou. E a possibilidade de que talvez ela nunca acorde.
...
Nothing goes as planned
Everything will break
People say goodbye
In their own special way
Ela parece estar apenas adormecida.
Seus cabelos estão espalhados pelo travesseiro. Sua fisionomia é serena. Se isso fosse um contos de fadas, Jane roubaria um beijo e esperaria a mágica acontecer.
Mas isso é a vida real.
Jane não é um príncipe.
E a cadeira de rodas na qual Jane está sentada certamente não é um cavalo branco. "Normas do hospital", lhe diz a enfermeira que a traz todos os dias.
Jane suspira e busca algum conforto nas mãos de Maura. Ela estuda seus dedos e observa sua mão sobreposta sobre a mão de Maura. Isso é algo que Maura costumava fazer. Estudar suas mãos. Acariciar suas cicatrizes. Jane leva a mão da médica legista aos seus lábios e beija sua palma. Seus olhos se fecham procurando não enxergar as grossas lágrimas que teimosamente escapam contra sua vontade.
A enfermeira é gentil o bastante para inventar uma distração qualquer, deixando Jane e Maura à sós. Jane ainda tem os olhos fechados quando sua voz rouca se sobrepõe aos barulhos das máquinas.
All that you rely on
And all that you can fake
Will leave you in the morning
But find you in the day
"Maura, você sabia que dizem que a pessoa em coma é capaz de ouvir tudo o que a gente diz?" Um pequeno sorriso nasce em meio às lágrimas de Jane "Que que eu tô dizendo? É claro que você sabe. Você provavelmente deve estar lembrando de algum estudo a respeito nesse momento. E por incrível que pareça, eu ficaria mais do que feliz em ouvir tudo o que você tem a dizer sobre isso. Ou sobre qualquer coisa. Eu só quero te ouvir de novo. Então, por favor, me escuta: eu preciso que você acorde. Eu preciso de você aqui. Todo mundo sabe que você é o cérebro dessa relação. E sem você, nada faz sentido. Eu não entendo. Eu não entendo o que está acontecendo e porque tudo isso está acontecendo. Eu não entendo e preciso que você acorde e me explique tudo. Como você sempre faz. Então, por favor, acorda tá? Eu vou esperar. Se você precisar de mais tempo, eu vou esperar. Mas eu preciso que você cumpra a sua promessa, okay?"
Jane escuta a enfermeira se aproximar e enxuga as lágrimas de seu rosto desajeitadamente. Ela se despede de Maura com um beijo na palma de sua mão e promete voltar no dia seguinte.
Oh you’re in my veins
And I cannot get you out
Oh you’re all I taste
At night inside of my mouth
Oh you run away
Cause I am not what you found
Oh you’re in my veins
And I cannot get you out
.
.
.
Everything will change
...
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