Notas iniciais
Essa fic aborda o relacionamento entre mulheres. Não existe uma abordagem de teor sexual, mas vale o aviso.

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Ela estava atrasada.

Como sempre Jane estava atrasada.

Ela deixou Barry conversando com o café que tinha em mãos quando se deu conta das horas.

Ela violou mais regras de trânsito do que seria prudente a qualquer civil, quanto mais uma policial.

Ela chegou arfando e mal sendo capaz de formular sentenças que começassem a explicar seu atraso.

Mas nada disso fez a menor diferença.

Maura Isles tinha um sorriso em seu rosto.

Um sorriso que nem mesmo mais um dos atrasos de Jane seria capaz de apagar.

Assim, quando ela viu a detetive lutando para capturar o ar em seus pulmões, ela apenas se levantou da cadeira da sala de espera, esperou ela se recompor e, diante da expressão confusa de Jane, a cumprimentou com um beijo longo e demorado nos lábios.

Quando Maura se afastou da detetive, o sorriso ainda dançava em seus lábios.

Inabalável.

Jane não precisou perguntar.

A resposta estava nos olhos de Maura. E dentro de meses, estaria em seus braços. Um bebê. O bebê delas.


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Ela acordou com a cama vazia e fria. Seus instintos se aguçaram e imediatamente Jane se pôs de pé. Ela procurou primeiro no quarto e no banheiro da suíte. Nenhum sinal de Maura.

Seu coração passou a bater mais rápido com o passar dos minutos. Ela buscou a arma na gaveta do criado mudo e com os pés descalços saiu do quarto. A luz vinha do final do corredor e de alguma forma Jane se sentiu ridícula com a arma pesando em suas mãos. Era óbvio que Maura estaria ali.

Ao se aproximar da porta ela avistou a médica legista sentada na cadeira de balanço que o pai de Jane havia montado há alguns dias. Ela tinha os olhos fechados e se embalava ritmicamente, acariciando a barriga que então ostentava seis meses de gestação, quase sete.

Sobre a barriga um enorme fone de ouvido produzia um som que Jane não era capaz de identificar, mas que deduziu ser música clássica. Jane se recordou das palavras de Maura. "Você sabia que embora não tenha sido comprovado que disponibilizar música clássica para o feto o torne mais inteligente, a influência nos primeiros cinco anos de idade da criança pode ter efeitos permanentes? Mesmo antes do nascimento, a música ajuda a criar paz e harmonia para a mãe e a criança. O que resulta em uma quantidade menor de noites de insônia para os pais".

Não, Jane não sabia. Mas é claro que Maura saberia.

Desde que descobrira estar grávida, Jane estava certa de que Maura havia lido absolutamente tudo que estava disponível sobre gravidez e bebês e coisas do gênero. O que não era de forma alguma uma surpresa. Após três tentativas e o imenso investimento (financeiro e emocional) que as duas haviam feito, era óbvio que a Dra. Maura Isles estava mais do que preparada para o que estava por vir. Pelo menos teoricamente.

"Eu estive pensando sobre a escolha dos nomes." — Maura disse reconhecendo a presença de Jane sem ao menos abrir os olhos.

"Não dava pra fazer isso na cama? Ou quem sabe com a luz do dia?" — Jane perguntou com um pequeno sorriso.

Maura abriu os olhos e lhe ofereceu um sorriso absolutamente radiante. Jane se pegou desejando que o bebê herdasse esse sorriso.

"Embora ainda não me seja claro o motivo de sua forte objeção quanto ao nome que sugeri mais cedo--" — Jane a interrompe.

"Maura, Edgar não é, nem nunca será uma opção."

"Eu tomei a liberdade de fazer um novo levantamento."

"É claro que você tomou." — Jane fala sem surpresa. Os olhos de Maura a estudam momentaneamente analisando o significado do seu tom de voz. Ela procura por sarcasmo, mas encontra apenas a afeição da mulher que a conhece melhor do que qualquer outra pessoa no mundo.

"Mas antes de lhe falar eu gostaria que você ao menos se dispusesse a ouvir o que eu tenho a dizer, desarmada de críticas. Eu sei que isso é um desafio para você Jane, mas esse bebê tem que ganhar um nome mais cedo ou mais tarde. E se você continuar a descartar todas as sugestões, eu temo que isso não seja possível antes que ele complete cinco anos de idade. No mínimo."

"Eu estou aberta. Mas eu não vou dar um nome a essa criança que resulte em anos de perseguição na escola."

"Para a sua informação estudos sugerem que embora alguns nomes possam ser mais sugestivos, praticamente todos os nomes podem ser alvos de provocações, não devendo ser este, portanto um fator determinante na seleção de um nome. Muitas crianças com nomes comuns podem ser alvo do mesmo mal."

"Aham, diga isso para os ‘Jacintos Pintos’ da vida."

"Quem?" — Jane não se preocupa em explicar.

"Qual é o nome?"

"Milo." — Maura fala e aguarda com ansiedade a reação de Jane.

"Milo." — Jane repete sem revelar qualquer emoção. Verdade seja dita ela é pega de surpresa.

Desde que o sexo do bebê fora revelado pelo ultrassom, há pouco mais de 2 meses, Maura a bombardeara com inúmeras sugestões as quais Jane tinha dificuldade para a levar a sério. Edgar nem era tão pior em comparação à Émile, Eugene, Ralf, Arnold, Bernard ou Thaddeus. O pior, Angelo, ela desconfiava bem de onde tinha vindo.

Milo era diferente de todos esses. Milo Isles-Rizzoli. Não era um nome comum, Jane não esperava que qualquer um que Maura sugerisse fosse, mas era até então o único que Jane chegara ao menos a considerar.

Já de volta ao quarto do casal, com Maura em seus braços e as luzes apagadas, a detetive em Jane se manifesta.

"Você vai me dizer que o motivo pelo qual estava acordada de madrugada era a indecisão sobre o nome do bebê?"

"Bem, você sabe como eu me sinto sobre incógnitas."

"Eu sei." — Jane se aproxima e inspira o perfume dos cabelos de Maura. Ela não precisa falar mais nada, além disso.

"Eu tive um pesadelo." — Jane não responde, apenas espera. — "Eu sei que pesadelos nada mais são senão uma resposta emocional provocada por uma situação de stress que resulta em um desconforto emocional ou psicológico. Ainda assim, senti a necessidade de distrair minha mente com qualquer outro pensamento."

"Você podia ter me acordado. Eu conheço um jeito ou outro de te manter distraída." — Jane fala casualmente e Maura sorri.

"Você precisava descansar. Foi um dia longo. Frankie Jr. me colocou a par do andamento das investigações quando me trouxe mais uma encomenda da sua mãe na hora do almoço."

"Ela ainda está fazendo isso?" — Jane fala ligeiramente irritada.

"Ela só quer se certificar de que o neto virá ao mundo bem nutrido e saudável. Eu acho o gesto muito amável da parte dela."

"Bem, eu acho que é irritante. Mas você sabe, minha mãe tem esse efeito sobre mim. E quanto ao caso, Frankie não tem o direito de ficar te perturbando com essas notícias. Nós já temos uma rádio patrulha e até onde eu sei, ele não trabalha nesse setor. Agora, sobre descansar, muito me admira que a senhorita não saiba que eu só consigo fazer isso com você ao meu lado." — Maura suspira satisfeita.

"Eu sei. Me desculpe." – Maura se aconchega e sente o corpo de Jane relaxar ao seu toque. O efeito é recíproco.

"Maur?" — Jane pergunta após alguns minutos de silêncio.

"O quê?"

"Sobre o que era o pesadelo?"

"Oh. Nada demais."

"Foi o suficiente pra tirar o seu sono."

"Eu te disse, sonhos são apenas reflexos de ansiedade e stress se manifestando através do inconsciente ou até mesmo uma posição desconfortável durante o sono. E isso é tudo o que eles são."

"Aham. E o que o seu inconsciente andou manifestando?"

"Apenas meus medos...” – Jane espera e Maura acaba confessando – “de não estar aqui pra você e pro bebê. De não ser uma boa mãe. Você sabe como essas coisas instintivas não vêm naturalmente pra mim."

"E é por isso que você lê tanto. E se prepara tanto. Eu sei disso. Mas confie em mim Maura esse bebê não poderia estar em melhores mãos." — Ela beija Maura com delicadeza. — "Você sabe disso não sabe?" — Maura parece incerta.

"Enquanto nós estivermos nisso juntas, sim."

"Então pronto: não precisa mais perder o sono. Na verdade, aproveite todo o sono que puder antes que o bebê nasça, porque eu posso lhe garantir uma coisa: eu não vou a lugar nenhum sem você."

Por mais irracional que seja a promessa, ela é capaz de apaziguar o coração de Maura. O suficiente para que ela não conteste sua validade ou acuidade.

"E você?"

"Eu?" — Maura pergunta, confusa.

"Promete?" — Jane pergunta em meio a um bocejo, o sono presente em sua voz.

Maura se pega prestes a contestar a validade de tal promessa. Afinal não é possível estabelecer qualquer tipo de garantia quanto ao futuro quando tão pouco se sabe sobre ele ou sobre todas as variáveis capazes de estabelecê-lo. O futuro é incerto e imprevisível e qualquer afirmação diante de tais elementos é imprudente e simplesmente inválida.

Ainda assim, não são essas as palavras que escapam de sua boca.

"Prometo." — Ela diz a Jane, a voz quase um suspiro.

Enredada pelos braços da detetive Maura sente seu corpo finalmente se render ao sono, as preocupações esquecidas. Adormecida, Maura não escuta quando a voz de Jane se manifesta uma última vez em meio a noite.

"Eu gosto de 'Milo'".

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Era véspera de Natal e o trânsito estava impossível.

Elas estavam se dirigindo para a casa dos pais de Jane. O asfalto estava coberto por uma fina e deslizante camada de gelo. No aparelho de som tocavam músicas natalinas. Maura repetia as palavras atentamente, o que para um observador desconhecido poderia ser visto como uma simples tentativa de mergulhar no espírito natalino. Jane, no entanto conhecia bem a esposa que tinha.

"Querida, você não precisa memorizar essas músicas.” – O impacto acontece antes que a resposta de Maura chegue aos seus ouvidos.

Ao abrir os olhos Jane tem dificuldade para distinguir o que está acontecendo. Ela escuta sirenes e vozes, mas todos os seus sentidos estão ocupados à procura de Maura. Tudo o que ela precisa é ouvir sua voz. O mundo virou de cabeça pra baixo e em meio aos estilhaços de vidro e a neve que parece estar em toda a parte, os olhos alertas de Jane encontram Maura.

Quando sua mão a alcança, Jane sente sua pele gelada pelo vento que entra pela janela quebrada e o contato com o chão. Ela vê o sangue que escorre pela testa da médica legista e sua voz arrebenta as cordas vocais como se Jane tivesse engolido vidro.

“Maura” – Ela diz o nome, mas mal é capaz de ouvir a própria voz. Sua mão está prestes a encontrar seu rosto quando Jane é puxada para fora do carro. Uma dor dilacerante faz com que ela perca a noção de tempo e espaço.

Quando as imagens ganham algum foco, Jane enxerga tudo branco. Existem duas pessoas se movendo sobre seu corpo e suas palavras não são de todo claras. – “Maura--” – Jane repete sob a máscara de oxigênio antes de perder os sentidos.

Notas finais
Continua...