Everything is going to be okay!
3 Breathe
Notas iniciais
Liz e Tiago viraram bons amigos, praticamente melhores amigos, na verdade; a garota se assustou com a facilidade com que ele conseguiu passar algumas de suas barreiras sem perceber. Ambos tinham muito em comum, gostos em comum, por isso nunca sentiam falta de assunto. A amizade havia diminuído as aventuras da morena com seus amigos especiais, mas não havia feito ela esquecer e escapulir para outros universos algumas vezes.
(...)
— Vamos, Liz! Só falta um um! -
Nico gritava das arquibancadas da arena. Elizabeth desviou com uma cambalhota para trás, o ataque do cão do inferno que havia sobrado em seu treinamento, tinha ferimentos e arranhões no braço direito e rosto. Defendera outro ataque com o escudo e aproveitou a aproximação do cão para fincar a espada na garganta do monstro.
— Desculpe... -
Murmurou enquanto retirava a arma do corpo inerte do cão antes deste se desfazer em pó. Gostava desses monstros, por isso Quíron os escolhera, o desafio não era apenas derrotá-los, matá-los, era a lição que tinha que aprender: monstros serão sempre monstros; ela aprendeu com o primeiro cão que a acertou no rosto próximo ao olho esquerdo.
— Muito bom, Elizabeth, hesitou no começo, mas terminou rápido! -
Quíron se aproximou trotando orgulhoso, Nico veio logo atrás numa expressão misturada entre orgulho e preocupação, o garoto lhe entregou uma taça de néctar, e com um gole fora o suficiente para curar boa parte dos arranhões e ferimentos superficiais.
— Obrigada... Queria achar um jeito de prender eles... -
Deu um meio sorriso para os dois e terminou a frase olhando a espada de bronze celestial em sua mão. Em menos de dois minutos já não havia mais vestígios de ferimentos nela, além do sangue seco.
— Eles não são como nós, Elizabeth, não pode ter pena deles, sabe que não vão ter nenhuma de você. -
Ela torceu a boca enquanto seu mentor falava, claro que sabia da natureza dos monstros, mas isso não significava que gostava de ser tão violenta quanto eles, até porque, sua própria natureza não era violenta, a que herdou de seus pais, era totalmente o contrário, sua mãe havia se apaixonado pelo jeito pacifico de seu pai de viver e morrer, ele aceitou o que a vida lhe deu e acolheu a morte de bom grado, pronto para ir, pronto para descansar, paz. Odiava tirar uma vida pela violência, mesmo sendo a vida de uma criatura que um dia renasceria e voltaria do Tártaro.
— Eu sei... Vou para os chuveiros. —
Embainhou a espada e fez uma referência ao seu mentor logo saindo da arena, ouviu os passos rápidos de Nico para alcançá-la.
— Sei como se sente, Liz, é normal para crianças do mundo inferior, ainda mais pra você... -
A garota sorriu, ela e o filho de Hades tinham uma grande amizade. Mesmo depois das duas grandes guerras e com os pedidos dos semideuses para os deuses darem mais atenção para eles, que deuses menores reclamassem seus filhos para que ficassem em segurança em um dos acampamentos, poucas crianças de deuses do submundo apareceram, a maioria continuava a ser de Hipnos e Hecáte, mas alguns deuses diferentes também mandaram seus filhos que mais chamavam a atenção de monstros.
Havia dois filhos de Melinoe, que assim como Nemesis e Hecáte foi perdoada por ter apoiado os Titãs na primeira grande guerra; uma filha de Oizus, a deusa da angustia, miséria e tristeza, que havia levado um bom tempo para aprender a controlar seus dons que influenciavam no humor de quem estivesse por perto, não era muito bonito ver metade do acampamento chorando durante as refeições; um casal de gêmeos de Momo, a deusa do sarcasmo, pode-se dizer que eles se deram muito bem com alguns filhos de Hermes; Liz era a única filha de Macária, a deusa da boa morte, filha de Hades e Perséfone.
Ela e Nico sempre se preocuparam com seus "irmãos" do mundo inferior, os sete eram como uma mini família dentro de uma maior. Não que eles se excluíam dos outros campistas, (como dito, os filhos de Momo se davam muito bem com os de Hermes, e ainda tinham os filhos de Hécate, Hipnos e Nêmesis, que também eram considerados deuses do submundo) vamos dizer que é complicado para o acampamento, que um dia pertencia apenas aos doze olimpianos e crianças que nunca foram reclamadas, se acostumar com a ideia de ter sete pessoas com ligação direta ao mundo dos mortos e que ainda estavam aprendendo a usar seus dons, que, diga-se de passagem, são um tanto perturbadores. Pode-se dizer que eles também não ficariam muito confortáveis de soubessem que as crianças dorminhocas do chalé 15 (Hipnos) podiam matá-las em seus sonhos ou faze-las dormir para sempre, sem nem sair de suas camas. Você não teme coisas que não sabe que existe, mas todos sabiam que os filhos da deusa dos fantasmas podiam invocar cães fantasmagóricos e levar quem os visse a loucura; todos sabiam que a filha de Oizus poderia fazer qualquer um se contorcer com dores da alma ou deixar uma pessoa tão depressiva a ponto de definhar por dias; todos sabiam como as palavras ácidas nas pontas das línguas dos gêmeos de Momo poderiam machucar e deixar uma pessoa com baixa auto-estima pior do que a própria deusa da Miséria; todos sabiam como Liz, com seu cheiro doce e jeito amável, poderia por um fim a vida de alguém que estivesse dormindo.
E todos esses dons os assustava, tanto os campistas filhos do Olimpo, quanto os próprios filhos do mundo inferior, por isso preferiam ficar juntos, como uma panelinha, porque entendiam o medo que tinham de passar dos limites, de não poderem se controlar. Eram uma pequena família que se apoiava e com a confiança que ganhavam um no outro podiam se aproximar do resto e agir como se fossem semideuses comuns, e somente com essa confiança os outros campistas também confiavam neles.
Liz foi a primeira dos outros seis a chegar no acampamento, por isso ela e Nico eram mais próximos, e por isso eram os que mais se preocupavam com sua pequena família.
— É... Acha que devíamos nos focar em tentar controlar eles? Quero dizer, nossos pais conseguem... Está em nosso sangue, não é? –
Nico deu de ombros, era um assunto complexo, a natureza dos monstros e como poderes divinos podiam influenciá-los, o filho de Hades as vezes conseguia controlar um cão do inferno, mas era como lidar com um cachorro assustado, que não sabia o que fazer na presença de um ser humano, os que não conseguia eram como cães raivosos, que já tinham sido maltratados tantas vezes que o único jeito que conheciam para se defender era atacar, sem contar a fome.
— Quem sabe um dia a gente consiga um curso ou algo do tipo. –
Ele sorriu quando ela o empurrou de leve, também não conseguindo conter o próprio sorriso.
— Idiota... -
— Está fazendo aquilo de novo. –
A falsa realidade foi quebrada e Liz se encontrou olhando para olhos castanhos, sorriu para o amigo e desviou o olhar.
— Desculpa, Ti, o que estava dizendo? –
O moreno suspirou, não podia deixar de se preocupar, a garota parecia mais feliz estando fora de área e quando “acordava” era como se tomasse um banho de tristeza.
— Não era nada importante, não se preocupe... Tá tudo bem? –
Ela piscou algumas vezes para a pergunta. O que ele queria dizer? O que será que ele via quando olhava pra ela?
— Sim... Por que? –
Respondeu sorrindo curiosa, Tiago não acreditou no sorriso e ficou em dúvida se deveria fazer essa observação, eram mais amigos que os outros que conheciam a morena por mais tempo que ele, passavam uma boa parte do dia juntos, na casa um do outro e ele aprendeu a ler pelo menos um pouco da garota, era como se tivesse dislexia, precisava se concentrar muito, mas conseguia entender o que estava lendo. Depois de algum tempo ficou mais fácil ler algumas expressões, e a primeira coisa que ele conseguiu diferenciar foi os tipos de sorriso. O de agora parecia ensaiado.
— Não parece muito feliz por ter acordado. –
Ela bufou uma risada sarcástica lembrando de uma frase que leu em algum lugar.
— É possível acordar em um pesadelo? –
Geralmente ela brincava com esse tipo de coisa com outros, as vezes eles riam e a chamavam de estranha, outras vezes, eles apenas a olhavam pensando no significado daquilo, mas nunca conseguiam entender, nunca perguntavam. Era diferente com Tiago, por mais que tentasse, mesmo se dissesse entre risadas, ou do modo mais sarcástico que pudesse, nunca parecia uma brincadeira, era como se ele pudesse ver através da máscara, e ela sabia que seria pior se a visse tentando disfarçar como com os outros.
— Acho que sim... O que você faz quando tem um pesadelo? –
Ele estava sério, mas falava do memso jeito como conversavam sobre Harry Potter e Game of Thrones. Ela sorriu, ainda para baixo, mas não forçado.
— Não lembro, faz tempo que isso não acontece... –
— Pesadelos? –
— Acho que sonhos em geral... Ou só não me lembro deles. –
Liz deu de ombros e deitou a cabeça no colo do amigo, estavam do lado de fora da sala de linguagens, a professora de inglês havia faltado novamente, os outros estavam dentro da sala ou na quadra poliesportiva invadindo a aula de educação física de outra turma.
— O que é bom, né? Seria pior acordar de um sonho pra viver um pesadelo... –
Tiago acenou com a cabeça concordando e começou a passar os dedos pelos cabelos da amiga.
— Estou bem, de verdade... Você é um bom amigo, deixa tudo mais fácil. –
Ela o olhou nos olhos e dessa vez Tiago acreditou no sorriso dela.
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