Na primeira semana, Darcy cumpriu o que disse: mal parava em casa. A rotina atarefada do jornal também não dava muito tempo pra Elisa, que se sentia uma péssima irmã e uma madrinha ainda pior por se ausentar tanto de casa, mas a gravidez de Jane ainda estava no comecinho e a irmã parecia feliz e contente de tê-la em casa para o jantar, já que Jane acordava mais tarde, e Elisa estava feliz também, pois Jane tinha puxado as habilidades de dona Ofélia de transformar qualquer cantinho num lar; ela sempre tinha sonhado em sair do Vale do Café, mas sentia uma falta quase absurda do lugar.

Camilo voltou do Vale numa noite chuvosa e quando Elisa chegou em casa do trabalho encontrou Camilo na sala, com Jane e, surpreendentemente, Darcy. O inglês estava alegre, contando dos enormes problemas que a ferrovia estava apresentando, mas satisfeito por estar perto do amigo. Elisa não queria ficar no mesmo ambiente que Darcy, mas não conseguiu achar uma saída educada para fugir da companhia do cunhado que também estava servindo de anfitrião – contra sua vontade, é bem verdade, mas ainda assim.

Ela guardou sua bolsa no quarto e se sentou pra conversar com Jane, mas ela estava entretida na conversa de Camilo e Darcy, então Elisa pegou um livro pra ler, mas acabou não prestando muita atenção no que estava diante dos seus olhos.

— As coisas estão muito complicadas na ferrovia, como você sabe, e eu preciso da ajuda de dona Margareth para conseguir a aprovação da lei com o prefeito de São Paulo. Lá no Vale do Café sua mãe prometeu me ajudar com isso. – Darcy estava desabafando com o amigo e também com Jane, mas evitando observar Elisabeta. – Estou analisando outras possibilidades que não dependam dela.

— Dona Margareth pode ser um pouquinho complicada Darcy, mas tenho certeza que você consegue conversar com ela e que ela consegue ser minimamente razoável.

— Não é esse o problema. – Darcy limpou a garganta. – Ela... bom, ela fica tentando fazer com que eu aceite sair com sua filha, Briana, diz que nós dois seríamos um bom par e que apenas uma moça da alta sociedade paulista seria um bom par pra um rapaz com o meu... er, você sabe... porque nós somos ricos.

Camilo deu uma gargalhada alta. – Graças a Deus não tenho mais que passar por isso. Está mesmo na hora de você arrumar uma noiva, meu amigo.

Elisa estava ouvindo a conversa atentamente, mas fingindo ler algo muito interessante – ela já tinha lido a mesma página duas vezes. Claro que os problemas dele seriam envolvendo a nobreza da sociedade paulista. Típico. Ao ouvir a sugestão de Camilo ela olhou rapidamente pra Darcy e ficou surpresa ao encontrar o olhar dele. Desvencilhou rapidamente, mas ficou incomodada.

— Eu sei, Camilo... eu sei. Já sei mais ou menos o que fazer. – Darcy respondeu pensativo e desconversando e Elisa decidiu que era hora de ir dormir. Inventou uma dor de cabeça e foi embora.

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O fim de semana chegou e Elisa decidiu que era dia de aproveitar a cidade que ela tanto amava, mas antes que pudesse se despedir de todos, o telefone tocou.

Jane atendeu contente e, óbvio, era Ofélia no telefone. Depois de saber como estava a vida das irmãs e concordar com uma visita em breve (o que fez Elisa fingir que estava brava), Jane respondeu várias perguntas apenas fazendo afirmações e contou pra mãe que Elisa também estava em casa e Ofélia pediu pra falar com a primogênita. Depois que passou o telefone pra irmã, Jane se dirigiu até a sala, sorrindo como se estivesse no meio de uma piada interna com a mãe.

— Oi mamãe!

— Elisabeta! Quando você vai voltar pro Vale? Eu sei que está ai há muito tempo e está com um emprego, mas você pode facilmente arrumar alguma coisa por aqui. – Elisa revirou os olhos com o discurso já conhecido da mãe. – Veja bem, Elisa, estou deixando você trabalhar! Mas volte pra casa, por favor!

— Mamãe, estou ajudando Jane a se preparar pra receber o bebê! E aqui está tudo bem, obrigada por perguntar!

— Mas Elisa, você precisa arranjar um marido, não ficar de babá da sua irmã! O menino Edmundo voltou recentemente da Europa e ele é irmão de Rômulo, então já é da família, vocês podiam fazer os acertos.

— Mamãe, eu já te disse que eu só me casarei por amor e... – naquele momento ela viu Darcy descendo a escada. Elisa limpou a garganta. – E eu já tenho alguém! Mas eu não posso te apresentar ninguém se você vai agir como uma louca e botar o rapaz pra correr na primeira vez que o conhecer!

— Você já tem alguém? – Ofélia gritou e ela afastou o telefone do ouvido. – São José, padroeiro das famílias não ia deixar minha Elisa morrer solteira. Amém. – o tom de Ofélia mudou da água pro vinho.

— Mãe, você tem que mudar esse discurso... – Elisa não sabia pra onde essa conversa estava encaminhando ou o que tinha acabado de fazer, mas viu Darcy se dirigir a sala pro café da manhã rindo, provavelmente da cara dela por ter uma mãe tão obcecada com casamento, um assunto que eles já tinham discutido em outra ocasião...

— Elisa, espero que você não esteja brincando comigo! Como já informei a Jane, vocês tem que estar aqui...

— Mãe! – Elisabeta interrompeu – Eu sei que você está com saudades, mas Jane não deve ficar fazendo viagens pro Vale, você sabe.

— Então você não vai vir pro meu casamento? – a voz de Mariana invadiu o telefone.

— Como assim casamento? Já? Vocês noivaram outro dia! – Elisa parecia exasperada.

— Minha irmã, quando a gente ama a gente não quer passar tempo longe da pessoa amada nem por um segundo! – ela baixou a voz. – E eu preciso parar de acordar de madrugada pra voltar pro meu quarto. Vamos nos casar daqui três semanas e eu exijo você e Jane aqui comigo! – ela finalizou.

— Mas Mariana...

— Jane já concordou, pare de fazer gracinha, estou com saudades. Por mim o casamento seria amanhã mesmo, mas mamãe exige que seja uma cerimônia tradicional, já que eu sou a penúltima Benedito a se casar, e o vestido vai demorar um pouquinho. – ela baixou o tom de voz – E olha... é bom que seu pretendente não seja de mentirinha, pois mamãe agora tem todas as forças matrimoniais e santas jogadas na sua direção... Tchau Elisa! Beijos pra todos!

Elisa ficou segurando o telefone mudo desnorteada. Ela não esperava que Mariana fosse se casar tão cedo e agora tinha que arrumar uma alma piedosa e caridosa o suficiente pra acompanhá-la ao casamento da irmã.

Elisa chegou na sala com cara de enterro e Jane ficou assustada.

— Elisa, o que aconteceu?

— Mariana vai se casar...

— Credo Elisa, isso são ótimas notícias, ora essa.

— … e eu disse pra mamãe que tinha um pretendente e agora ela quer conhecer o meu namorado. Daqui três semanas.

Jane soltou uma gargalhada, mas logo percebeu que a irmã estava falando sério.

— Meu Deus Elisa!

— Eu sei! – ela abaixou a cabeça na mesa, com o olhar derrotado e só Camilo percebeu o olhar de Darcy para a moça, como se ela fosse a solução de todos os seus problemas.

Notas finais
Obrigada pelos comentários fofos no último capítulo :D