Talvez, mas só talvez, o universo estivesse fazendo um favor a Eric ao permitir que não fosse visto por nenhum conhecido. Ou talvez o tivessem visto, mas não quiseram questionar.

O frio o atingiu feito uma rajada quando caminhou novamente pelo quintal dos Black, com intenção de saída desta vez. Todos pareciam quatro vezes mais animados, esquecendo-se do clima com suas bebidas e novos colegas para conversar. Em meio à multidão que aproveitava a noite de Halloween, Eric era uma vampiro gordinho e de rosto vazio.

Não demorou muito para alcançar os portões. Agora, poucos chegavam, indicando que a festa logo estaria completa o bastante para verdadeiramente começar. Seus amigos, seus companheiros de classe, as crianças do primário ao sexto ano que ainda coletavam doces pela cidade... Todos passariam o resto da noite se divertindo. Exceto por ele, que não teria lugar melhor onde ir ou ficar. As memórias com Heidi, tanto as boas quanto as más, passavam por sua mente feito fantasmas.

Nesses quatro anos, pelo menos uma vez, tudo o que Eric Cartman gostaria era esquecer.

Na calçada deserta, convertendo toda a dor emocional em ira outra vez, o garoto em fantasia de vampiro caminhou a passos largos. Com toda a força que pôde impor, com todo o ódio que pôde infligir, chutou para longe uma pedrinha sobre o chão. Tão longe quanto poderia conseguir.

Teve certa satisfação ao ver que a pedra foi parar no outro lado da rua. Ao atingir uma lixeira de metal, fez um barulho que ecoou pela avenida inteira. Algum cachorro assustado começou a latir de seu quintal, seja lá onde ele fosse. Ao final, depois desse esforço, o garoto acima do peso respirava como se tivesse corrido meia maratona.

Repentinamente, sentiu vontade de tossir. Não por seu estado de exaustão corporal, mas por um cheiro intragável de fumaça de cigarro. Virando o rosto para o lado, seu olhar foi fincado no de uma garota que o observava a quatro metros de distância e sentada no meio fio. Tomado por vergonha súbita por ter pensado estar sozinho, seu corpo saiu da pose de fúria.

Ela o olhava com semblante impassível. As pálpebras caídas como se ele fosse insignificante. A pele pálida, as unhas afiadas porém curtas pintadas de preto, o cigarro preso a um suporte entre os dedos. Um sentimento de nostalgia passou por ele, pois a reconhecia. Tanto a ela quanto ao cheiro dos cigarros que ela fumava. Brincaram juntos contra os vampiros no Casa Bonita um dia.

Aquela era Henrietta Biggle. Gordinha, assim como ele. Uma “bruxa gótica”, terceira garota que decidiu brincar entre os heróis. Todos os seus poderes como bruxa usavam aquela porcaria de cigarro, e tinha uma amizade bem peculiar com Satã. Mas mesmo assim, ao contrário da Call Girl e assim como aquela menina de poucas palavras, Henrietta foi uma presença que não o incomodou. Gostou de provocá-la com insultos e se interessou em como ela sabia insultar de volta. Uma pena que tudo o que puderam fazer foi trocar algumas palavras.

Agora, cara a cara com ela novamente, Cartman só tinha uma dúvida: como diabos ela não estava usando preto?

Os braços dela, dos ombros às mãos, estavam enrolados em faixas brancas feitas de pano. Seu corpo, do pescoço aos pés, estava coberto por um vestido largo e sem detalhes de mesma cor, formando uma capa extensa sobre as costas. Seus lábios volumosos e mal humorados, que Eric por pouco não corou ao admitir para si que eram bonitos, estavam revestidos de batom preto. Comparada com o dia a dia, sua maquiagem escura era bem sutil ao redor dos olhos, e ao redor de seu maxilar estavam desenhadas cicatrizes costuradas.

O que mais o surpreendeu em todo o visual era seu cabelo: ao contrário do habitual, que era curto e rebelde, as madeixas negras desafiavam a gravidade totalmente penteadas para cima e na diagonal. Presas às têmporas, em cada lateral, estavam apliques de cabelo branco no mesmo sentido. Finalmente Eric conseguia reconhecer a personagem: estava fantasiada feito a noiva do Frankenstein.

Depois de segundos olhando fixamente um para o outro, com toda a doçura que poderia extrair de seu ser, o garoto antissemita perguntou:

— Ta olhando o quê, porra?

...É. Talvez não tão doce assim. A gótica de branco, no entanto, em nada modificou sua cara. Virou o rosto de volta para o horizonte lentamente, voltando a tragar seu cigarro logo em seguida. Expeliu a fumaça como se nada tivesse acontecido.

Agora ela o estava ignorando. Sentindo-se um pouco idiota por isso, Cartman bufou em irritação de forma audível. Andou calmamente até a beira da calçada, onde se sentou assim como ela mantendo grande distância.

Desta vez irritado por duas questões, tinha as pernas separadas e os cotovelos sobre os joelhos para olhar para o asfalto. As músicas temáticas na festa do Token tocavam distantes. Fechava cada vez mais a cara, bufando mais uma vez para conseguir atenção. Nenhum resultado.

Tirando a música longínqua e abafada, tudo o que Eric ouvia eram o movimentos suaves e o tragar e expelir fumaça da gótica ao lado. Além da agonia do silêncio sepulcral, estando com alguém numa rua deserta e sem dizer nada, estava a agonia de ser ignorado. Iria enlouquecer se continuasse assim.

— Cadê seus amigos? — perguntou. O queixo se apoiando nas mãos.

Aspirando mais do vapor tóxico, com olhos fechados como se assimilasse esta pergunta, Henrietta não moveu o rosto centímetro algum. De forma calma, sem qualquer pressa em responder, lançou para o ar mais uma carga de nicotina.

— Lá. — referiu-se à mansão Black. — Com os outros.

Tentando digerir essa informação, Eric fez uma pausa. Continuou:

— Não sabia que os góticos participavam de festas de gente normal. Pensei que todo mundo fosse “conformista” pra vocês.

— E são. — Henrietta torceu os lábios. Apertava um pouco mais o suporte entre o médio e o indicador. — Nós não participamos. Ou, pelo menos... Não costumávamos participar.

Isto dito, voltou ao que fazia. Novamente, desprezava a presença dele para se concentrar em fumar. De forma sutil, Eric virou a cabeça na direção dela para olhá-la.

Cartman estava fragilizado naquele momento. Sem ânimo algum para trocar ofensas, fossem estas ou não saudáveis. Seria uma boa hora para mandá-la se ferrar e ir para casa, porém havia uma questão que o incomodava. Se ela só vive andando com os outros góticos...

— Por que ta aqui sozinha? — perguntou como quem não queria nada.

E, no mesmo instante, a garota tirou o cigarro dos lábios. De um semblante habitualmente morto, como se a maquiagem sempre pesasse ou sua face fosse projetada para não expressar emoções, a garota gótica contraiu as sobrancelhas e moveu os olhos para baixo.

Com certa discrição, estava demonstrando tristeza. Uma reação que ele não esperava.

Em seu normal, Henrietta teria dito que não era da conta dele. E não era mesmo, afinal. Eric seria um completo desconhecido para ela se não fossem as breves provocações trocadas no passado. Tudo o que sabia sobre ele era que já apanhou de uma garota, seu egocentrismo e seus muitos atos inteligentes de crueldade. Tais atos capazes de dominar o próprio Cthulhu, a entidade cosmo-dimensional que ela costumava adorar (e que seu “querido irmão” expulsou).

Mas, francamente... Ela também estava fragilizada. Sentia-se mal, e com bons motivos. Em seu íntimo, mesmo que não estivesse acostumada com isso, sabia que faria bem desabafar. Remoer a dor em silêncio ou expressá-la através de um poema era o que a subcultura gótica indicaria, mas sabia mais do que ninguém que isso não iria ajudá-la. Escrever não ajudou Edgar Allan Poe a superar sua esposa morta por tuberculose em seus braços, ou Howard Phillips Lovecraft a lidar com o fato de que o consideravam um autor medíocre enquanto em vida.

Deixando o orgulho de lado, Henrietta teve um profundo suspiro.

— Eu nem queria estar aqui, pra início de conversa. — começou. — Sempre detestei todo e qualquer tipo de festa. Preferia mil vezes me reunir num ambiente tranquilo com meus amigos como sempre fizemos, mas eles quiseram vir. Tive que escolher entre acompanhar os idiotas ou ficar sozinha.

Enquanto falava, seu cigarro queimava abandonado. Suas feições, antes duras, agora se inclinavam para a raiva. No fim, ficou sozinha do mesmo jeito.

— O bastardo do Firkle está aproveitando que ficou mais alto que eu pra se misturar entre o pessoal do sétimo ano. — prosseguia. — Michael veio se encontrar com Liza Nelson, a nova namorada asiática e retardada dele. Karen ainda tem uma garotinha conformista dentro de si, e esperou a semana inteira pela “festinha” de Halloween. E Pete... — com uma perceptível queda de humor, fez uma longa pausa em lamentação. — Bem...

O mesmo gesto de olhar para o solo. A mesma demonstração sutil de tristeza. Considerando que havia falado o bastante, Henrietta jogou fora as cinzas soltas na ponta do cigarro e voltou a fumá-lo.

Para o rapaz ali presente, tudo estava bem claro: Henrietta gostava do gótico com cabelo de duas cores.

Em primeiro lugar, Eric agradecia pela brisa não estar levando essa fumaça repugnante direto para sua cara. Em segundo lugar...

— Por acaso ele veio como um cafetão vitoriano ou alguma merda assim? — foi a vez dele de se mostrar desolado. Com raiva, ao mesmo tempo.

Como quem olha para dentro de si, Eric pôs sua atenção visual no além. Henrietta, em contrapartida, foi quem passou a fitá-lo. Estava começando a ligar os pontos.

— Você e a garota vegana... — se interrompeu no meio do caminho. Moderadamente abismada, associava toda uma coleção de memórias. — Vocês estiveram juntos.

Como afirmação, Cartman apenas inspirou. Ainda parecia irritado, mas ela não poderia julgá-lo. Também confundia suas angústias com o ódio de vez em quando.

Estavam, quase que literalmente, num mesmo barco. E este barco estava afundando. As pessoas que respectivamente gostavam não só estavam com outras, como também estavam um com o outro. O acaso costuma pregar peças, às vezes.

Na necessidade de um apoio... De um calor humano, talvez... Pararam pra pensar nos metros de distância que os separavam. Pareciam tão longe um do outro, de repente...

— Me lembro que vocês viviam juntos. — Henrietta viu-se no direito de mencionar. — Enquanto todos os casais da escola se separavam por uma “guerra dos sexos”, vocês estiveram juntos. Viviam de mãos dadas e andando por aí. Pareciam... Felizes. Se as coisas estavam indo tão bem... O que aconteceu?

Como esperava, o garoto hesitava em responder. Fechou os olhos para pôr a mente em ordem. Sua respiração era tão densa que formava uma pequena nuvem no tempo gelado.

— Eu estraguei tudo. — para a própria surpresa, confessou com toda a calma. Pensava que mais doloroso que a culpa seria ter que admitir isso em voz alta, mas saiu com grande naturalidade.

— Poderia definir “estragar”?

— Bem... — pensava em por onde começaria. — Heidi sempre foi legal comigo. Desde o dia em que fizemos o trabalho do ovo juntos. Ao contrário das outras garotas, nunca me rejeitou ou sentiu nojo de mim. Eu fui bom pra ela no início, sei que fui. Tentei virar vegano e ter hábitos saudáveis, até tentei ser uma pessoa melhor e me preocupar mais com os outros. Mas, de um dia pro outro... Eu só queria ficar sozinho. E, ao mesmo tempo, não queria ficar sem ela. Então eu fiz um monte de merda... Me fiz de vítima, ameacei me matar várias vezes caso ela não continuasse comigo, até fiz ela comer carne.

— Não me parece tão ruim.

— Eu tentei matar ela.

— Ah. — piscou sem emoção.

A Biggle não sabia bem o que dizer. Em termos práticos, Eric estava atolado até o pescoço num fosso de merda. A menina gótica não via lá grandes problemas em assassinar pessoas ao se tornarem inconvenientes demais – já sugeriu assassinarem Mike Makowski e “sumir” com seu irmão com poderes de fruta, diga-se de passagem. Mas quando essa pessoa é a queridinha de todos e todos sabem que você tentou matá-la... Tem-se um problema seríssimo em mãos.

— Ela foi o meu mundo. — com o tom mais melancólico já tido em sua vida, Cartman se permitiu continuar a desabar. — Heidi era perfeita e tentou me fazer ser melhor, mas eu não consigo. Sei que se não for ela ninguém nunca vai gostar de mim. Heidi foi o meu mundo, e eu fodi tudo.

— Ela não te amava.

Após todo esse tempo, Eric ergueu o rosto. A declaração o pegou de surpresa. Pela segunda vez estavam se olhando nos olhos, mas esta seria a primeira em que manteriam uma conversa com contato visual.

— O que disse?

— Eu disse o que você ouviu. — o tom e expressão dela eram os mesmos. Neutros. — Heidi não te amava. Ela amava o que você fazia ela sentir. Amava o que ela achava que você deveria ser, e o que ela poderia te tornar. A Turner é a “senhorita perfeição”, sim, e ela não poderia encontrar essa perfeição em você. Você teria que ser outra pessoa. — apagou o cigarro gasto na calçada, arrancando-o em seguida do suporte e jogando fora os restos. — Te fazer vegano, te tornar bonzinho... Você se culpa por tê-la manipulado, enquanto tudo que ela fez, mesmo sem perceber, foi tentar mudar você.

Silêncio. Para Henrietta, estava bem explícito que havia conseguido atingi-lo. O narcisista, que sempre sabia o que dizer, foi deixado sem palavras. A garota aproveitaria esta deixa para expor sua mais recente teoria.

— Você até tentou ser o que ela queria. Tentou, até começar a se sentir infeliz. De tanto ter que se mostrar diferente do que é de verdade, sentiu falta da liberdade de estar sozinho. Quando percebeu que nesse ritmo perderia a única pessoa que achava que conseguiria te amar nessa vida, começou a abusar das emoções dela pra continuarem juntos. — enviou um olhar tão penetrante que quebrou o escudo sobre seus sentimentos. — Ou estou errada?

Tentando dizer alguma coisa, Eric somente separou os lábios. Algumas palavras soltas até passavam por sua mente, mas não conseguia dizê-las. Henrietta inspirou;

— Pode falar alguma coisa, não quero sentir como se eu estivesse te intimidando.

— Não estou intimidado. — Eric proferiu na mesma hora. No entanto, sua máscara de orgulho se dissipou facilmente ao ver os cantos dos lábios dela se erguerem um milímetro. — ...Você está certa. Eu acho.

Fechando os olhos, Henrietta assentiu com a cabeça uma vez. É claro que estava.

— Você errou com ela, Eric. Errou, e errou com força. Mas, se quer uma opinião imparcial, você não foi o único que errou entre os dois. Não foi um relacionamento saudável pra nenhum de vocês. — sem se distrair do que dizia, começou a procurar por outro cigarro entre os bolsos internos do vestido. Não estava encontrando. — “O rebelde e a certinha”, “o malvado e a boazinha”... Isso não é um livro de romance adolescente, não dá pra estar com alguém que não te aceita como é. Amor nenhum se sustenta assim.

E, usando estas palavras, a menina gótica terminou sua tese. E terminou com um grunhido de raiva, pois seus cigarros tinham acabado.

Eric Cartman, feito um tolo, ainda estava sem fala. Porém, estranhamente, isso era um bom sinal.

Sabia que ainda era um digníssimo filho da puta. Sabia que não deixaria de sê-lo nem tão cedo, e que sua culpa ainda existia. Mas já não doía mais. Se sentia... Purificado. Só queria que Heidi seguisse tranquilamente com sua vida e que ele pudesse fazer o mesmo, sem repetir seus erros. Ela merecia a felicidade, ele um pouco menos... E estava tudo bem. Nada como reaprender o ritmo das coisas.

— Você é mais esquisita do que eu pensava. — Eric se deu ao luxo de sorrir. Os dentes vampíricos e pontudos expostos. — Fala bem demais pra alguém da nossa idade.

— Ou talvez você só precise ler mais. — sorriu discretamente abraçada aos joelhos. — Te recomendaria Ann Radcliffe ou Poe, mas sei que não seriam sua praia.

— Parece o tipo de coisa que me faria dormir.

— Não duvido disso.

Antes de desviarem seus olhares, permitiram-se sorrir um para o outro.

Todo o clima parecia infinitamente mais calmo. Mesmo a música ao longe parecia suave, talvez um pouco mais baixa. Sons noturnos antes imperceptíveis, como o chilrear de uma coruja e a oscilação das luzes de um semáforo, passaram a ser ouvidos. Ficaram tão imersos na calmaria da noite e tão confortáveis um com o outro que se esqueceram que estavam calados.

— O que você viu nele? — curioso, Cartman quebrou o silêncio.

— Hein?

— O seu amigo com cabelo emo. — a olhou. — O que tem de interessante nele pra você?

Sem perceber, um ligeiro toque de frustração apareceu em sua voz. Definitivamente, não quanto à Heidi dessa vez.

Ao menos Henrietta não poderia diferenciar. Na verdade, ela sequer pensaria no assunto. Estava mais concentrada no quê e em como poderia responder. Se sentia bem melhor ouvindo e compreendendo os problemas dos outros do que falando dos seus, mas Eric merecia uma resposta.

— Foi ele quem eu beijei pela primeira vez. — iniciou como mais se sentia confortável. Pôde sentir a garganta secar. — Pete é meu melhor amigo há anos. Sempre o vi com outras garotas. Ele era sempre tão... Carinhoso e romântico. O tempo todo ele se mostrava como um cara chato que reclama de tudo, até mais do que um gótico normal. Mas com elas... Era diferente. Pensei que um dia ele poderia gostar de mim também.

— Então ele te beijou e depois não quis mais saber de você.

Henrietta arregalou os olhos.

— Como você sabe?

— Eu passei pelo mesmo. — mostrou um sorriso amargo. — Não é difícil adivinhar.

Outra pausa. Palavras não eram estritamente necessárias. O sofrimento em comum tende mesmo a unir as pessoas, só não imaginavam que seriam tantos.

Por mais sombrio que o estilo de Henrietta seja, não queria que voltassem ao clima melancólico agora que estavam curados. Deixaria este papo de lamentação para os emos. E com sorte, não voltaria a ser uma.

— Sabe — iniciava. — Não posso julgar o Pete. Seria injusto esperar que ele goste de mim, vamos deixar os “perfeitinhos” ficarem juntos.

— Injusto? E por que seria injusto?

— Porque eu sou... — parou um momento. Digeria mais uma vez o que considerava como verdade. — Feia. Ninguém nunca gostou de mim, se Pete me aceitasse com toda a certeza seria por pena. Eu não quero isso, não vou morrer se ficar sozinha.

— “Feia”? — ignorando todas as outras palavras, o garoto piscou aborrecido. Ouvi-la dizer isso lhe soou como um completo absurdo. — Você não é feia, Henrietta.

Uma expressão de choque contida foi a sua reação. Demonstrar com clareza as emoções não estava entre seus hábitos, assim como não costumava dizer o que pensava de sua aparência aos outros.

Se falasse sobre o que pensava de si mesma aos seus amigos, sabia que as respostas poderiam não ser verdadeiras. Poderiam mentir para não vê-la para baixo; afinal, era o que amigos com alguma piedade faziam. Ou apenas diriam que insegurança com a aparência é uma atitude conformista, o que seria bem mais provável.

Mas Eric Cartman não era seu amigo. Ou, pelo menos, não era até então. No entanto, sua declaração pareceu ter tanta... Veemência...

Apesar da ansiedade em seu coração, Henrietta não pôde responder logo de cara. Não poderia se ajudar, estava completamente sem graça. Do mesmo modo, Eric mudou o olhar para outra direção. Considerava esta mais uma das muitas horas onde devia ter ficado calado.

Henrietta deveria dizer alguma coisa? Querer ela queria, mas ela deveria? Não estaria sendo conformista e demonstrando sentimentos ao dizer o que pensava?

Ela se importava?

— Você disse que um dos motivos pra Turner ser perfeita era que ela não sentia nojo de você. — ao pensar melhor no que pretendia dizer, sentia um calor estranho subir às bochechas. — Eu também não sinto nojo de você, Eric. Nem de você como pessoa... Nem de como você se parece.

Após ouvir isso, o garoto se encolheu superficialmente. Jamais imaginou que ouviria isso um dia, sequer sabia como reagir. Estava feliz de uma forma que não conseguia lidar, não sabia como poderia expressar isso sem parecer ridículo.

Sob o smoking vampírico, podia sentir o aquecimento em seu peito. Não pôde fazer nada senão sorrir discretamente consigo.

Atacada novamente por sua ansiedade, Henrietta bolava algo para quebrar o clima esquisito.

— E, com “como você se parece”... — não podia acreditar em si mesma por ter bolado uma piada. — Eu quis dizer que você parece ter bebido um banco de sangue inteiro.

— E você parece ter engolido o Frankenstein — voltou rapidamente ao normal, erguendo uma sobrancelha.

A rapidez e tranquilidade que ele teve em responder acabou por fazê-los se encararem com expressão quase nula. Bastaram somente dois segundos para, causando a total surpresa de Eric, ambos rirem abertamente da situação.

Ver Henrietta sorrir, mesmo que minimamente, já era inusitado; vê-la rindo era quase um paradoxo. Mas deveria ter imaginado: se os outros estavam errados em considerar que ele não era capaz de sentir, seria errado pensar que góticos não sentiam.

E o mais interessante de tudo: por ter sido outra pessoa gordinha a fazer uma brincadeira com seu peso, Cartman não ficou nem um pouco ofendido. Não teria deixado barato se tivesse sido alguém com menor tipo físico.

— Agora que tocou no assunto — o garoto lembrou de algo repentinamente. — Estou surpreso que não odiou minha fantasia, pensei que detestasse vampiros.

— Só se forem os vampiros de Hot Topic. — recuperando seu humor usual, ou a falta dele, parou para analisá-lo nos pormenores. — Vampiros clássicos são os melhores. Você se parece com Bela Lugosi no Drácula de 1931, além da fantasia ter ficado muito bem feita. Tenho que te parabenizar pela escolha.

— Obrigado — apresentou falsa modéstia. Sabia que cedo ou tarde seu empenho seria elogiado. — Também não sou chegado nos vampiros atuais.

— Por que? Algum já mordeu você? — brincou. — Além dos que te atacaram o tempo todo no Casa Bonita.

— Hã, não — por dentro da gola alta, esfregava acanhadamente o pescoço. Decidiu mudar de assunto. — Tem uma coisa que me surpreende mais ainda. Nunca pensei que te veria usando branco.

— Eu já usei até rosa, isso não é nada. Quer algo surpreendente de verdade? Eu estar usando uma fantasia de Halloween. Nunca fiz isso na vida e nem achei que faria.

— Pensei que góticos adorassem o Halloween.

— Pra um gótico, todo dia é Halloween. — sorriu de canto, dando de ombros com as mãos erguidas.

Com um meio sorriso, a reação de Eric foi um riso curto. Devia ter pensado nisso. Henrietta usava preto e símbolos ocultos todos os dias, enquanto pessoas comuns esperam um único dia do ano para fazer isso.

Então algo lhe ocorreu à mente.

— Ei, ei, ei, espera aí. — foi a vez dele de erguer as mãos no ar, movendo-as como quem pede tempo. — Você nunca usou uma fantasia de Halloween, certo?

— Sim, e daí?

— Daí que também nunca te vi pedir doces.

— Bem, é. — franziu o cenho, não entendendo o que ele queria. — Eu nunca pedi.

Parecendo aborrecido absolutamente do nada, Eric se levantou do meio fio de forma rápida. De pé na calçada, olhava-a de cima indignado.

— Como você nunca saiu pra pedir doces no Halloween?! Que tipo de bicho é você?

— Quem se importa com isso, cara?

— “Quem se importa”?! — levantou os braços de forma brusca, fazendo a capa voar. — Todo mundo se importa!

— Eu não sou todo mundo. — cruzou os braços, mostrando que não dava a mínima.

Cartman não podia crer no que estava ouvindo.

Andou até ela em passos duros, acabando com toda a distância que tinham. Parou bem ao seu lado, sem ter quebrado o contato visual em nenhuma parte do caminho, ainda a olhando de cima. Estendeu a mão imperativamente, esperando que ela a pegasse. Henrietta o encarava sem compreender.

— Vamos pedir doces. — o antissemita não estava pedindo, estava decretando.

— Eu pareço estar a fim? — eliminou do rosto todas as emoções.

Com alguma impaciência e cem por cento de insistência, ele mesmo a segurou pela mão. Ajudou-a a se levantar, grato por mesmo a contragosto ela ter cooperado. Estando suas mãos gordinhas firmemente reunidas, a fez andar cinco passos pela calçada até que finalmente a soltasse.

Antes preocupado em parecer maduro parando com os velhos costumes, Eric agora estava pouco se importando. Que se fodessem os adolescentes e suas malditas festas.

— Se andarmos rápido ainda vamos conseguir os doces caros, são sempre os primeiros a acabar — caminhava apressadamente, esperando que estivesse sendo seguido. — Nossas fantasias ficaram boas, sempre dão mais doces pra quem tem fantasias legais.

Percebendo que a sentia cada vez mais longe, parou no meio da trajetória e se virou para trás. Henrietta estava parada no lugar, com seu olhar indiferente e seu aspecto fúnebre acentuado por sombras suaves. Tinha sido ingênuo em achar que ela o seguiria por conta própria.

— Vamos. — fez um gesto cortês com a mão, indicando para onde deveriam ir.

Resoluta, a garota voltou a cruzar os braços enfaixados.

— Não. — empinou o nariz, disposta a não se mover mais.

Agora com uma expressão fechada, Eric também ficou parado onde estava. Encontravam-se voltados um para o outro, porém bem mais distantes que antes. Encaravam-se mutuamente, como se em algum momento algum deles fosse ceder. Como convencer alguém com esta teimosia de mula, sendo ele mesmo tão teimoso quanto?

Um surto de inspiração passou por sua cabeça. Não era como se estivesse preocupado com uma reputação a zelar. Segurou a capa por um ponto, de forma que parte dela se ajustasse ao seu braço, e então a estendeu à frente do rosto. Deixou somente os olhos à mostra, e neles carregava um ar maligno – ou pelo menos era sua intenção. Tendo todo o corpo escondido pela capa negra, levantou o braço oposto, estendendo a mão numa pose sinistra em direção a Henrietta.

A Biggle, por sua vez, deixou os braços caírem aos lados do corpo. Sem saber o que estava presenciando, fitava-o desconcertada.

— Que merda você está fazendo? — um vinco de dúvida apareceu em sua testa.

— Usando meus poderes vampíricos para controlar a sua mente — movia os dedos pateticamente, incorporando o personagem.

— Isso é babaquice.

— Vampiros clássicos têm o poder de controle psíquico, estou controlando a sua mente.

— Não, não está não.

— Vamos pedir doces, Henrietta... — continuava. Desta vez, com mais persistência e eloquência. Quase, quase, como num ato de hipnose. — Vamos pedir doces antes que acabem...

Timidamente, Henrietta olhou para a sarjeta. Era a situação mais ridícula já presenciada em sua vida.

Sabendo disso, e sabendo que esse tipo de besteira não tem nenhuma graça... Por que diabos ela estava segurando um sorriso? Mesmo sua boca se apertava e contorcia, lutando para não mostrar que estava se divertindo.

Não podia acreditar que iria se render. Que garoto mais idiota.

Antes de abraçar seu papel, a garota Frankenstein suspirou. Ergueu ambos os braços, deixando as mãos caídas, e começou a marchar num ritmo lento na direção do vampiro. Como se estivesse sob seu domínio.

Detrás da capa, Eric tinha um discreto sorriso. A gótica ainda se continha.

Era como ser criança por mais um dia.

— Sabe que estamos patéticos, não sabe? — Henrietta comentou.

— E você se importa?

— Eu, não.

* * *