Estava chovendo e Pip ia a pé para o colégio com um guarda-chuva azul claro em mãos. Talvez fosse mais vantajoso ir de ônibus naquelas condições climáticas, porém ainda não sentia-se exatamente confortável dentro daquele automóvel depois de quatro anos indo todos os dias da mesma forma. Era um luxo que, apesar de tudo, Pip não fazia questão de ter. E além disso chovia pouco, apenas o suficiente para fazer a neve derreter e formar algumas poças d'água pelo chão e isso não era um incomodo nem nada assim.

Sem falar que Damien não estava ali, muito provavelmente jogariam Pip para fora do ônibus pela falta da proteção dele. E o loiro preferia não arriscar quebrar uma perna nem nada do tipo.

Fazia mais ou menos três semanas desde a última vez que havia visto Damien. Não era realmente muito tempo, mas Pip preferia que ele voltasse logo. Sentia falta de Damien, não apenas da proteção que ele tinha contra pessoas como Trent e Stanley, Pip de fato gostava gostava da companhia do filho do diabo.

Mesmo sendo algo extremamente questionável, mas achou melhor não pensar nisso.

Naquelas três semanas várias coisas haviam acontecido. O time de South Park iria paras as finais nacionais e Stan, Trent e Clyde iriam junto, então Pip poderia respirar um pouco mais aliviado por algum tempo. Um rumor envolvendo Craig e Tweek estava tomando proporções catastróficas, aparentemente os pais do Tucker haviam lhe expulsado de casa por descobrirem que ele era gay, enfim, nada que ninguém pudesse provar... Porém as pessoas daquela cidade eram bem preconceituosas e cruéis, podiam ser apenas rumores, mas os dois não estavam sendo tratados muito bem nas últimas duas semanas, principalmente Tweek.

Com Pip, bem, as coisas voltaram a ser iguais a época em que Damien ainda não havia voltado para South Park. Não era como se a vida do loiro fosse interessante nem nada do tipo... Porém também não era exatamente agradável de se viver. E Pip em geral também não era alguém muito interessante. Ele tinham seu conhecimento sobre artes e música clássica, mas nada que ninguém no colégio pudesse de fato valorizar, nem mesmo os professores.

O colégio não estava muito longe e Pip apressou o passo, ainda estava cedo e com um pouco de sorte não esbarraria com ninguém relevante. Olhou rapidamente para os dois lados do corredor vazio e abriu o seu armário para pegar alguns cadernos, livros e guardar o seu guarda-chva, o loiro não havia feito uma lição de biologia e para não receber uma advertência do professor teria que fazê-la na biblioteca, o lugar mais deserto e reservado do colégio.

Caminhou mais um pouco notando que o colégio estava deserto demais até mesmo para aquele horário da manhã e entrou rapidamente na última porta daquele andar. A bibliotecária aparentava estar muito ocupada dormindo para notar Pip, então o loiro apenas caminhou entre as estantes dos mais variados livros até os fundos do lugar, onde existiam algumas mesas para estudo.

–H-hey Pip.

Pip não pensava que alguma outra pessoa pudesse estar na biblioteca tão cedo, mas apenas respirou aliviado por ser somente Tweek.

–Olá companheiro. –Respondeu educadamente como o de costume, sentando-se na mesma mesa que o outro loiro. –O que lhe trás aqui?

–Eu e-estou fugindo. –Tweek mordia seu polegar nervosamente. –E vo-você?

–Acabei de chegar. –Abriu o livro de biologia. –Se me permite perguntar, de quem você esta fugindo, Tweek?

–Do t-terceiro ano...

Pip franziu o cenho. Se você esta fugindo daqueles brutamontes do terceiro, não acho recomendável se esconder na biblioteca. Aquela era uma lição que o loiro havia aprendido ao longo dos anos, e achou que Tweek também precisava saber dela.

–Sem querer ser grosseiro Tweek, eu tenho quase certeza que você poderia esconder-se em um lugar melhor.

–E eu n-não acho que você e-entenderia, Pip. –Tweek estava nervoso, Pip poderia jurar que ele iria cortar um pedaço do polegar fora.

–Talvez eu não entenda, mas sei que se continuar aqui logo será achado.

–Como você tem t-tanta certeza?

–Falo por experiência própria...

Tweek murmurou um "entendi" e desviou o olhar de Pip, provavelmente lembrando-se de que o britânico possuía experiência até demais naquele assunto em particular.

–Então o que você su-sugere?

–Apenas... Não fique parado. –Abriu um dos cadernos e foi a procura da matéria de biologia. –Você é rápido Tweek, logo eles vão se cansar.

–Sim... –Levantou-se da cadeira nervosamente, puxando sua manga esquerda com a mão. –Onde eu d-devo ir agora?

–Acho que –Pip pensou um pouco antes de falar. –eu iria para perto das salas. Vários corredores e portas, é mais fácil de se esconder e fugir.

–Obrigado Pip. –Agradeceu antes de sair rápido da biblioteca, sem dar chances do outro loiro responder.

Pip esperava que aquelas pessoas não achassem Tweek. Os alunos do terceiro ano sempre foram os mais violentos, quase sempre tinha uma posse de superioridade e eram fortes até demais. Pip considerava menos doloroso uma bolada dada por Trent do que ser encurralado por dois estudantes homens do terceiro ano.

Passaram-se alguns minutos de um silêncio agradável até outras pessoas entrarem na biblioteca, os quais faziam um pouco mais de barulho que o permitido. A princípio Pip não prestou atenção, ocupado demais respondendo a lição de biologia, mas quando alguém pousou uma mão em seu ombro o loiro virou-se um pouco para olhar. Lá estavam três alunos do terceiro ano, provavelmente procuravam por Tweek.

Porém naqueles breves segundos Pip teve certeza que eles não iriam mais procurar pelo o outro loiro.

Principalmente depois do tapa que o mais forte dos três deu em sua cabeça, fazendo a sua boina cair em cima da mesa.

~ DIP ~

–Eu honestamente estou bem, Gary.

–Você não me parece muito bem, Phillip...

Os três alunos do terceiro haviam batido um pouco demais em Pip, somente haviam achado o loiro e decidido que o fato da sua existência ja era motivo suficiente para que ele levasse uma surra. Não que de fato precisasse justificar realmente tal ato, pois ninguém precisa de razão qualquer para bater em Pip. E como se não bastasse a surra sem motivo aparente, aquelas pessoas ainda haviam trancado-lhe em um dos armários no corredor.

Pip ficou lá dentro, ferido e com dor, por uma hora e meia até Gary lhe ajudar.

–Apenas, se não for um incomodo, me ajude a segurar isso, sim? –Pip puxou os seus cadernos e livro, estendendo para Gary.

–Não é incomodo algum! –Pegou o material didático do loiro. –Se você quiser eu posso te levar na infernaria ou algo assim.

Pip ainda sentia o gosto metálico do sangue na boca, porém achou melhor recusar a gentileza de Gary.

–Não, obrigado... Deixe-me apenas ir para a primeira aula, estou quase me atrasando.

–A sua também é física?

–Exatamente.

–Então vamos juntos, tudo bem?

–Não tem problema –Pip sorriu.

Gary era uma pessoa tão gentil com tudo e com todos, quase livre de preconceitos e inteligente demais para ainda estar estudando em um colégio público na cidade que era South Park. Pip nunca havia falado muito com ele, mas pelo pouco soube que o loiro mais alto não deveria ser uma pessoa ruim.

O corredor já estava meio cheio de gente e Pip sentia-se mais acostumado a dor, mas como não estava prestando muita atenção tropeçou no pé, propositalmente colocado no lugar onde estava, de Eric e a queda foi inevitável. A onda de risadas de quase todos ali presentes foi instantânea e o loiro teve que reprimir um gemido de dor. Apoiando as mãos no chão tentou se levantar ignorando os risos, porém seus braços falharam um momento e antes que caísse novamente Gary ajoelhou-se no chão para lhe ajudar.

–Isso não tem a menor graça, Eric. –Gary olhou para o garoto meio gordo.

–Claro que tem, você que é idiota demais para ajudar esse francês.

–O Phillip já não está machucado o suficiente? –Pip não conseguia entender o motivo de Gary estar lhe defendendo, mas não reclamaria.

–Não. –Sorriu sádico.

Naquela altura Pip ja estava de pé com seu material em mãos desviando das pessoas que ainda riam cruelmente, com o objetivo de chegar até o banheiro masculino, até que uma pessoa aleatória colocou o pé para que o loiro tropeçasse e ele quase o fez, mas conseguiu se apoiar na porta de um dos armários no último segundo. Então andou um pouco mais rápido do que antes entrando no banheiro, o qual felizmente estava vazio, colocando seus cadernos e livro na bancada da pia para finalmente se olhar no espelho velho com algumas manchas verdes nas suas extremidades.

Pip viu o sangue seco que tempos atrás descia do nariz e ligou a torneira para lavar o seu rosto.

Eu sinto sua falta, Damien...