Everybody hates Pip

9 Coisas não muito normais - Parte 3


Pip observava Damien mudando os canais da televisão rapidamente sem aparentemente achar nada de interessante, mas o loiro não prestava verdadeira atenção ao ato ou qualquer coisa nos canais. Ele pensava no que havia ouvido de Satã a minutos atrás, agora sabendo que Damien não o tratava como costumava tratar seus poucos amigos e ficando estranhamente feliz por isso, mas o motivo não era pelas torturas e uma possível morte... não, era algo além disso.

Mesmo que não soubesse explicar exatamente o que.

Depois de mais algumas mudanças de canais Damien parou em um noticiário de South Park que falava sobre uma súbita ameaça de ataque da Mecha-Streisand. Pip não gostava muito daquela mulher, uma vez ele quase havia sido esmagado por ela. Tudo bem que entrar na frente de um monstro e pedir–educadamente, por sinal– para que ele parasse de destruir sua cidade não era algo muito inteligente de se fazer. Porém ele precisou pelo menos tentar fazer algo, mas no final tudo se resolveu sozinho e o loiro ficou apenas internado no Passo para o Inferno por um longo tempo. Podia ter sido pior, Pip poderia ter morrido.

–Não tem absolutamente nada bom na tv. –Damien comentou.

–É, eu percebi. –Pip voltou a olhar para a tela da televisão. –Nunca tem nada bom em uma sexta de noite.

A conversa morreu quando a apresentadora começou a falar sobre o clima e como sábado não seria um dia bom para sair de casa por causa de uma tempestade. Então por um momento Pip quase agradeceu mentalmente a Trent, Stan e Cartman pelo acontecimento anterior, o loiro odiava precisar enfrentar tempestades e nunca conseguia se aquecer o suficiente onde morava, pois de fato lá não tinha aquecedores. A próxima notícia foi sobre uma possível descoberta de como anular os efeitos do glúten sobre as pessoas, já fazia algum tempo que South Park adotou a "pirâmide alimentar invertida" e as pessoas começaram a ficar diabéticos, ter pressão alta e ter outras coisas ruins envolvendo saúde com bem mais facilidade.

Pip bocejou. Eram 11:45 da noite e até mesmo em fins de semana o britânico não tinha o costume de dormir tarde e Damien pareceu ter notado quando desligou a televisão e levantou-se do sofá.

–Hey Damien, desculpe por perguntar, mas onde eu posso dormir?

–No meu quarto. – Damien respondeu como se fosse obvio.

Pip não soube explicar o motivo de ter ficado tão terrivelmente envergonhado, mas tentou argumentar.

–M-m-mas realmente não tem outros quartos? Aqui parece ser tão... Desproporcional. –Falou a última palavra sem pensar.

–Por que desproporcional?

–Quero dizer, só você, o Saddam e o Satã moram aqui, então eu achei que...

–Bem, por enquanto sim. Mas na semana que vem a casa, infelizmente, vai ficar cheia. –Damien interrompeu o loiro fazendo uma careta e colocou as mãos nos bolsos. –Eu tenho vários tios e um par de primos, todos desagradáveis, se você quer saber.

Damien começou a caminhar na direção das escadas e Pip se levantou em um pulo para segui-lo.

–N-não tem nenhum quarto que eu possa ficar por enquanto? –Pip insistiu.

–Não. –Encolheu os ombros. –Ao menos que você não se importe de dormir no chão.

–Eu já durmo. –Pensou um pouco alto demais.

–Você o que? –O anticristo parou de andar.

–O que? –O loiro fez-se de desentendido. –E-eu não falei nada...

Pip ainda não pretendia tocar naquele assunto com Damien, ele não precisava ter conhecimento sobre seus problemas financeiros e outros afins. Depois que o anticristo voltou a andar ninguém falou mais nada, o silêncio ali era incomodo e não natural, longe de ser reconfortante ou agradável. Mesmo quando entraram no quarto/sótão nenhum dos dois disse nada.

~ DIP ~

Pip pode ver o fogo.

Ver como o fogo consumia violenta e rapidamente as velhas paredes de madeira com papel de parede que a pouco tempo era de um azul claro como a cor dos seus olhos, mas que naquele momento refletiam apenas as chamas alaranjadas que dançavam perigosamente para perto do loiro. Ele tentou caminhar para a porta mas o fogo lhe forçou a andar para trás e gritar algo que não foi ouvido por ninguém que era para estar dentro da casa, talvez estivessem todos mortos, mas Pip preferiu pensar que não.

As lágrimas não paravam de descer pelo seu rosto, ele era apenas uma criança pequena, frágil e assustada no meio de um incêndio devastador. Ele não poderia fazer absolutamente nada para impedir o que viria de acontecer em seguida e se lembraria desses momentos traumáticos pelo resto da vida.

O chão parecia estar perto de desabar, o calor era insuportável- tão quente quanto o inferno- e a fumaça já estava dificultando imensamente sua respiração quando uma mulher apareceu na porta gritando algo que o loiro não conseguiu ouvir. Sua mãe era uma mulher bonita, loira dos olhos azuis com uma aparência extremamente jovial para sua verdadeira idade, mas agora com as madeixas chamuscadas e sangrando ela não parecia tão jovem quanto de costume. Pip pensou em correr para os braços da sua mãe, mas quando um pedaço do teto pegando fogo desabou diante dos seus olhos ele sequer pensou em temer pela própria vida.

–CORRA!

Foi a última coisa que Pip conseguiu gritar antes de ver sua mãe sucumbir a uma grande viga de madeira ardendo em chamas, em um grito sofrido e estridente.

E foi naquele dia que a visão de um futuro feliz queimou diante dos olhos azuis de um inocente garotinho.

O inferno estava apenas prestes a começar para Pip Pirrup.

~ DIP ~

Pip acordou chorando compulsivamente e se levantou o tronco da colchão para olhar assustado o que se encontrava ao seu redor, sem ter a intenção despertou Damien junto, o qual olhou assustado para o garoto ao seu lado aparentando não saber o que fazer. O loiro soluçava sofridamente murmurando algumas palavras incompreensíveis, agarrando entre os dedos os lençóis negros com uma força completamente desnecessária, ato que serviu apenas para deixar o anticristo ainda mais nervoso. Não importava quantas vezes Pip tivesse aquele sonho –ou mais precisamente, pesadelo– nunca iria se acostumar, nunca. Era como se estivesse revivendo aqueles momentos de tão fiéis que eram os detalhes, e ele odiava precisar se lembrar do dia em que perdeu a pessoa mais importante da sua vida na maioria das noites, enquanto na verdade era para estar dormindo.

O loiro escondeu o rosto com as mãos finalmente lembrando-se que não estava sobre o seu fino colchão de molas, sim na mesma cama que o anticristo, sem verdadeiramente ouvir os sussurros do mesmo. Ele sabia que ficaria chorando por um longo tempo até conseguir se acalmar, isso antes Damien toma-lo em seus braços em um abraço firme e um pouco apertado.

Pip realmente estava precisando de um abraço naquele momento.

O loiro sequer pensou em como aquela era uma atitude estranha, muito estranha, vinda daquela pessoa em especial. Não passou pela sua cabeça em como era algo vergonhoso abraçar o pescoço de Damien e chorar em seu ombro... Pip não pensou em nada disso, por que o abraço daquela pessoa era morno e aconchegante, ou talvez pela forma que ele passava uma mão pelas suas costas em um apelo para tentar lhe acalmar e em como a junção de tudo trazia-lhe um sentimento bom, porém não o suficiente para que o choro cessasse.

Aquele sentimento de perda estava fincado em seu peito de uma forma que Pip não sabia explicar, e não desapareceria de lá tão facilmente.

–Shhh, vai ficar tudo bem... Foi apenas um pesadelo.

Damien sussurrou perto do ouvido de Pip carinhosamente demais para alguém que mantinha o título de anticristo e o loiro quase acreditou. Mas infelizmente as cenas daquele dia permanecia fresca em sua memória.

Além disso, estava terrivelmente longe de tudo ficar bem.