Everybody hates Pip
7 Coisas não muito normais - Parte 1
A casa de Damien ficava a trinta minutos do colégio e ocupava quase um quarteirão inteiro, mas aquela "casa" estava mais para uma mansão. Ela deveria ter quatro andares e era feita de pedras no estilo castelo mal assombrado, provavelmente era um pouco menor do que o colégio em que os garotos estudavam. Porém o que deixou Pip verdadeiramente intrigado do que a mais ou menos há uma semana aquele local era um terreno cheio de mendigos, que de uma hora par outra se transformou em uma mansão digna daqueles filmes antigos de terror.
–Damien, o que aconteceu com as pessoas que ficavam aqui?
–Estão no inferno. –Respondeu como se fosse a coisa mais normal para se falar no mundo, enquanto destranca a porta da frente.
–Uau...
A mansão era tão grande por dentro quanto por fora, com duas escadarias ao lado das paredes dando acesso ao segundo andar, a sala um pouco mais a frente com uma televisão que cobria boa parte da parede pintada de preto e um sofá vermelho em formato de "L" para unas oito ou nove pessoas. Só aquilo era praticamente a metade do refeitório do colégio.
–Os velhos não estão em casa –Damien comentou. –demos sorte...
–Se você esta falando...
Damien subiu rapidamente as escadas e Pip o seguiu um pouco mais lentamente por conta do vestido, temendo tropeçar nas saias. Os dois subiram até o ultimo andar onde aparentemente ficava o sótão, ignorando todas as entradas para os outros andares.
–Isso é sério Damien? –Pip falou. –Essa casa aparenta ser bem grande.
–Eu preferia estar no porão. Mas o bastardo do Saddan achou que lá era o lugar perfeito para guardar suas malditas bombas, tive que me contentar com o sótão.
–Eu não quis dizer isso, não seria mais agradável e simples ficar em um quarto normal?
–Talvez. –Respondeu desinteressado, puxando um tipo de escada que dava acesso ao sótão. –Não repare na bagunça e no sangue.
–Sa-sangue?
–Longa estória...
O lugar se parecia mais com um quarto do que Pip imaginou, sendo apenas um pouco mais espaçoso e vazio. Uma cama com lençol preto pequena demais para ser de casal e ainda grande demais para solteiro, mais ou menos depois da entrada uma mesa baixa com uma televisão, o teto era meio alto demais e feito de madeira assim como o piso, uma mesa com computador no canto esquerdo, um armário no canto direito, o loiro pode identificar algumas peças de roupas negras em alguns cantos e no chão um grande pentagrama feito de sangue. Fora o pentagrama, estava tudo normal demais para um adolescente que também era o anticristo.
–Tenho quase certeza que vai ficar grande demais... –Damien já mexia nas roupas dentro do armário. –Por que você é tão... pequeno?
–Desculpe.
–Não se desculpe por isso. –O anticristo fechou o armário e jogou duas peças de roupa negras em cima da cama. –Acho que essas não vão ficar muito grandes.
–Ok, mas você faria a gentileza de me ajudar? –Pip perguntou meio inquieto. –Não consigo alcançar direito o zíper...
–Tudo bem.
Pip não era para estar envergonhado nem nada do tipo, afinal eles eram dois homens e somente amigos, mas quando Damien começou a puxar o zíper para baixo –de modo um pouco hesitante pelo que pode perceber– mais ou menos até a metade o loiro tentou se afastar, mas antes que o fizesse Damien puxou-lhe pela cintura –que era fina demais para um garoto– e o loiro pode sentir a respiração dele próxima ao seu pescoço. A sensação dava-lhe arrepios.
–Da-damien? -Gaguejou. -O que você está fazendo?
–Eu nunca falei, mas o seu cheiro é bom Pip... -Sussurrou.
Por Deus! Aquilo havia saído de forma tão repentina que Pip mal soube como reagir, o que Damien estava fazendo? Ou melhor, o que ele pretendia fazer? O loiro nunca pensou em cogitar possibilidades de situações como aquela e agora o anticristo havia falado aquelas coisas estranhas para ele!
–Me solta. –Pip sentia seu rosto arder em vergonha. –O que vo-você esta fazendo?!
Damien soltou Pip e se afastou alguns passos para trás. O loiro virou-se segurando desajeitadamente à parte de cima do vestido, mas os olhos do outro garoto fizeram com que o britânico engolisse qualquer coisa que pudesse falar. Estavam com um tom brilhante e vivo de vermelho, um pouco mais intenso que o de costume, e Pip quase pode dizer que eles ardiam em chamas. Era algo aterrorizante e, ao mesmo tempo, bonito demais para se desviar o olhar.
–Pip, eu... –Damien deu uma longa pausa, seus olhos ainda queimavam. –Desculpe.
O anticristo saiu do sótão deixando um Pip envergonhado e confuso para trás. O que Damien estava pensando?! Ele via Pip daquela forma?! Se é que demônios realmente têm sentimentos! Tudo bem que nos últimos dias parecia que o loiro ia para o colégio apenas para ver o outro garoto, mas aquilo era normal para amigos, certo? Além disso, Damien nunca havia demonstrado qualquer tipo de interesse! Se bem que ele sempre me protege, Deus, o que isso significa? Poderia ser que ele somente se importava com Pip, como amigo é claro, mas Damien é o anticristo! E o anticristo não era para se importar com um simples mortal...
–Jesus Cristo, o que eu faço?
Agora precisava trocar de roupa, mas isso era o obvio.
~ DIP ~
A blusa era preta e de mangas compridas, sendo apenas um pouco larga e comprida demais para Pip. A calça longa também era um pouco larga e ficava caindo, o loiro precisava puxá-la para cima de dez em dez minutos. Pip deveria sair dali? O loiro estava sentado na cama de Damien há alguns minutos pensando se seria certo descer sem ser chamado, além disso refletia em como encarar o anticristo. Mas no final Pip tirou a conclusão que aquele incidente não faria com que tratasse Damien diferente de antes, essa pessoa continuava sendo seu único amigo!
Quando Damien apareceu subindo as escadas Pip se levantou rapidamente da cama.
–Pip você já... –Parou de falar para olhar o loiro de cima a baixo. –Você fica bem de preto.
–Não fico muito pálido?
–Não, eu gostei.
–Obrigada. –Corou. Ninguém nunca elogiava-o.
–Então... quer comer alguma coisa?
–Se não for um incomodo, sim, séria ótimo.
Ambos desceram as escadas até a sala de início, do lado esquerdo da escada existia uma porta a qual o loiro não havia notado mais cedo, e la ficava a cozinha.
–O que você quer?
–Qualquer coisa esta boa.
–Almas enlatadas? –Damien pegou uma latinha transparente do armário em cima da bancada, com uma cara cínica.
–Er... Não –Murmurou. –isso não.
–Então não fale qualquer coisa! -Damien rosnou.
–Desculpe...
–Ok –Disse mais tranquilamente. –Alguma preferência?
–Pipoca.
–Sério?
–Sim... isso realmente são 'almas enlatadas'?
–Experimenta abrir para ver o que acontece. –Jogou a latinha na direção de Pip.
Pip pegou a lata ainda no ar e aproximou do seu rosto, dentro dela havia uma espécie de névoa branca e o loiro conseguiu distinguir um vulto, mas quando um rosto tentou sair da lata Pip quase a derrubou e deixou a idéia de abrir aquilo de lado.
–Micro-ondas ou panela?
–Micro-ondas?
–Ok.
Eram mais ou menos dois minutos e meio para a pipoca ficar pronta. Durante o primeiro minuto os dois garotos ficaram em silêncio.
–Pip. -Damien chamou.
–Sim?
–Em que parte da cidade você mora?
–Centro...
–Lá é tão perigoso quanto todo mundo fala?
–Sim. –Na verdade era bem mais perigoso do que qualquer de seus colegas pudessem saber, porém não diria isso a Damien. –Mas existem alguns lugares mais seguros que outros.
A conversa terminou com o sinal vindo do micro-ondas avisando que a pipoca estava pronta, Pip se encarregou de pegar o pacote enquanto Damien vasculhava outro armário a procura de uma vasilha de vidro funda o suficiente.
–Quente... –Pip murmurou soltando o pacote na mesa de centro.
Damien pegou o pacote recém tirado do micro-ondas como se não fosse nada e despejou o conteúdo na vasilha.
Sem realmente esperar por Pip Damien saiu da cozinha levando a vasilha cheia de pipoca consigo, mas o loiro logo o seguiu pelo mesmo caminho e viu o anticristo ligar a televisão e se sentar no meio do grande sofá vermelho. O britânico sentou-se lentamente ao lado do outro garoto, um pouco longe, porém ainda perto o suficiente para alcançar a pipoca. O anticristo mudou de canal algumas vezes até parar em um filme do gênero de terror que havia acabado de começar, sem verdadeiramente notar a careta de Pip ou – talvez por falta de costume– perguntar se o loiro queria ver alguma outra coisa em particular.
Pip apenas não era muito fã de terror, mas ninguém havia perguntado.
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