Everybody hates Pip
32 Coisas boas
O salão de festas não era o maior que Damien já tinha visto, até porque não havia a necessidade de muito espaço, mas a decoração não estava ruim, muito pelo contrário. Haviam todas essas pessoas que não conhecia muito bem, enquanto na sua mesa estava apenas Phillip, Gary Harrison e o Marsh, que surpreendentemente tinha conseguido entrar naquele casamento mesmo que um dos noivos não gostasse nada dele.
O casamento de Tweek e Craig ocorreu muito bem e a cerimônia foi realmente bonita, até um pouco brega se respondesse com honestidade. Conseguiu reconhecer uma ou duas pessoas no meio da multidão, apenas vagamente, já que também não lembrava do nome da grande maioria dos seus antigos colegas. Nenhum deles era tão importante assim.
Estava quieto, Stan também, enquanto Gary e Pip conversavam bastante à vontade um com o outro.
— Então vocês ainda estão morando em South Park? — O britânico perguntou e soou com essa curiosidade genuína.
— Sim, Stan e eu acabamos indo para a mesma faculdade e a gente decidiu voltar depois que terminou. — Damien não conseguia imaginar quem diabos gostaria de morar naquela cidade de fim de mundo, mas era tendencioso para julgar. — Conseguimos um apartamento alguns meses atrás.
Gary segurou a mão do Marsh e com isso ganhou um sorriso dele, mas só conseguiu continuar com aquele desinteresse óbvio diante da cena. Gary era legal, ele era agradável com Phillip, mas não poderia dizer o mesmo de Stan e ninguém poderia lhe julgar por guardar ressentimentos. Pelo jeito que ele olhou na sua direção quando descobriram que estavam na mesma mesa, com certeza lembrava.
Ao mesmo tempo, Pip agia como se não estivesse nada de errado em sentar na mesma mesa que um dos valentões mais frequentes da sua época de colégio e, se Damien não conhecesse tão bem o próprio marido, realmente diria que estava tudo bem.
Mas, apesar de aquele sorriso tão gentil e educado, ele não soltou a sua mão por debaixo da mesa nem por um instante:
— Isso soa como algo esplêndido.
— Certamente é!
As mesas mais próximas ao pequeno palco e distante de onde Damien estava eram reservadas para a família dos noivos e amigos mais próximos, então também não haviam tantas assim.
A situação para Tweek e Craig foi meio difícil durante um tempo considerável, desde o momento que os dois se assumiram um casal até a saída definitiva de South Park. Não tinha como saber dos detalhes, não era tão insensível para perguntar sobre isso de um jeito descarado, mas Damien ainda sabia do que poderia ser considerado básico.
Craig apanhou do pai, Tweek foi mandado para fora de casa e os dois viveram por algum tempo em uma caminhonete caindo aos pedaços. Damien não diria que foi tão ruim assim, Craig conseguiu um trabalho e a maioria das pessoas deixavam os dois em paz, mas isso apenas porque lembrava do que Phillip passou durante anos a fio.
Era uma comparação injusta que o moreno mantinha apenas para ele mesmo – os dois tiveram uma rede de apoio maior do que ele e Phillip jamais sonhariam.
Os amigos antigos dos dois estavam presentes no casamento, Tolkien, Jimmy e Clyde. Kenny surpreendentemente também estava aqui, em uma mesa com a irmã dele. Damien nunca soube dos detalhes, mas aparentemente Craig e Kenny são amigos desde South Park.
Ver tudo de fora, essas pessoas interagindo, causa um estranhamento difícil de descrever. Ele sabe que está aqui como convidado, mas se sente mais como acompanhante de Phillip do que qualquer outra coisa. É difícil de descrever, mas não é ruim. Damien só não liga para essas pessoas.
— Eles merecem isso.
Essa frase chamou a sua atenção no meio de uma conversa em que não esteve prestando atenção – porque não escutou Phillip falar muito. Foi Gary quem falou.
— Um casamento assim, depois de tudo que aconteceu, os dois merecem ser felizes.
É nessas horas que Damien fica consciente de que ninguém sabe. Ele não está tentando comparar sofrimentos, falar que Craig e Tweek não merecem algo que eles obviamente merecem muito. O moreno só pensa casualmente em como a história dele e de Pip são só deles. A história real, não o que os amigos deles sabem.
Ele não se arrepende de nada, nada é realmente um sacrifício quando é para ficar com Phillip. Mesmo assim, foi uma longa jornada.
— Sim. Eu vi que os pais deles estão aqui. — O seu marido comentou. — Realmente está tudo bem agora?
— Está. Os pais de Tweek pediram desculpas há alguns anos e o pai de Craig… admito que não sei sobre essa história, mas parece que eles estão bem.
— Isso é realmente ótimo.
O Marsh está tão quieto quanto Damien e o moreno não consegue se perguntar de quem foi a ideia de deixar todos na mesma mesa. Claro que Gary e Pip são amigos, mas os noivos desse casamento sabem de muita coisa da história, eles viram e estiveram presentes algumas vezes.
Sim, isso é rancor e ele não tem vergonha alguma de admitir isso, especialmente não quando Pip ainda está segurando a sua mão por baixo da mesa.
Stanley Marsh não abriu a boca para falar em momento algum. Parece que ele criou vergonha na casa, ou a convivência com Gary está fazendo bem. No fim, não importa.
Os noivos da noite estavam cumprimentando os convidados nas outras mesas e, eventualmente, eles chegaram nessa. Os dois estavam com ternos tradicionais de tons escuros, só as gravatas tinham cores diferentes – Craig com uma verde e Tweek com uma azul.
Eles falaram um pouco com todos à mesa. Craig lhe cumprimentou com um aperto de mão firme e Tweek deu um abraço rápido em Phillip. A conversa foi breve, um agradecimento por terem vindo.
— Vocês foram para o meu casamento, Tweek. — Não precisa falar que Pip sorriu educadamente, ele sempre sorri assim, mas o sorriso dessa vez é genuíno. Damien entende. — Eu não perderia por nada.
Eles também falaram com Gary e Stan Marsh. Com o mormom não houve estranhamento, mas a forma rápida que eles falaram com Stanley deixou uma coisa muito clara: eles não eram amigos. Claro que não, como poderiam ser?
Os noivos logo voltaram para a mesa deles, junto com o restante da família e parentes.
Damien passou o braço ao redor dos ombros de Pip, enquanto o loiro arrastou a cadeira mais para perto, feliz. Ser um observador não ativo do ambiente era bem entediante, mas necessário nesse momento.
Marsh falou algo com Gary, se afastou e foi falar com o McCormick, os dois se abraçaram e ele, Stanley, ocupou um lugar à mesa, muito claramente mais à vontade lá.
Então, algumas luzes acenderam no palco e um homem subiu as escadas até lá. Ele era mais velho, sem cabelo nenhum no topo da cabeça e o que sobrou estava grisalho. A semelhança com um dos noivos também é bem óbvia e Damien tinha visto o homem perto de Tucker. O pai dele, de Craig, foi até o pedestal do microfone:
— Boa noite, eu gostaria de fazer um brinde aos noivos. — O homem mais velho começou, ele realmente tinha uma taça de champanhe na outra mão. Não parecia ter bebido, as palavras eram claras. — Deus sabe que eu não fui o melhor pai ou sogro que poderia ser, que eu ressenti coisas por anos, coisas que hoje eu me envergonho de ter feito e dito. Eu quase perdi um filho para o orgulho. — Não era segredo para ninguém que ele olhava para Craig, cada palavra carregada de emoção. — Então eu sou muito grato por estar aqui, nesse momento tão importante, e desejo toda a felicidade do para vocês, Craig e Tweek.
Alguém no meio dos convidados bateu palmas e alguns outros seguiram, inclusive Phillip. Damien, por outro lado, apenas ficou olhando. Em partes, porque não queria se afastar do esposo.
A festa continuou pouco tempo depois, com mais música, conversas, risos e gente dançando. Damien mal conseguiu conter a decepção quando o esposo se afastou.
Eles não iam ficar sentados a festa inteira, nada disso. Quando Pip se afastou, também buscou a mão de Damien e levantou da cadeira. Ele olhou na sua direção, confuso, e o loiro abriu um sorriso pequeno:
— Eu quero dançar?
Isso arrancou uma careta engraçada dele:
— Dançar?
— Só uma música?
Se ele realmente não quisesse, não iria insistir. Quem ensinou Damien a dançar foi Pip depois de muita insistência e isso não é algo que os dois faziam com muita frequência, tanto pelo seu marido não gostar, quanto pela falta de oportunidade. Um casamento assim era o momento perfeito, nenhum deles tinham muitos amigos para marcar outros casamentos.
Damien suspirou dramaticamente e sorriu. Ele levantou da cadeira e segurou a sua mão com mais firmeza:
— Tudo bem.
Phillip não demorou para puxar Damien até a pista de dança. Tinham outros casais, mas ele não prestou tanta atenção assim. A música que começou era romanticamente brega, começou a soar como um ruído de fundo no instante que ele segurou sua mão e guiou os passos. Ele não era o melhor dançarino de todos, mas já não pisava mais nos seus pés e, honestamente, era a única pessoa que Pip queria dançar com.
Os dois trocaram olhares e o jeito intenso que Damien olhava Pip nunca mudou todos esses anos, sempre era o suficiente para lhe deixar encabulado. Ele apoiou a cabeça no ombro do moreno e fechou os olhos, porque eles tem sintonia o suficiente para dançar sem precisar olhar para os pés.
Logo a música terminou. Pip abriu os olhos e levantou a cabeça, para ver que Damien ainda olhava na sua direção. Ele sorri.
~ DIP ~
Estava nevando lá fora.
Tem menos carros no estacionamento agora do que quando Phillip e Damien chegaram, mas é o esperado, a festa já acabou. A noite é escura e o vento gelado faz o loiro se aproximar do marido enquanto eles caminham para o carro. É um semi-novo que eles conseguiram comprar depois de muito trabalho, preto e simples, mas perfeitamente funcional.
O loiro só se afasta para andar até a porta do banco de passageiro.
— Você pode dirigir, Damien?
— Claro.
Ele também entra, coloca a chave na ignição. Pip veste o cinto de segurança e mexe nos botões do rádio, procurando algum canal com música. Ao mesmo tempo, Damien muda a marcha e o carro sai do lugar.
— O que você achou?
Damien perguntou e Pip não respondeu imediatamente. Ele tira um tempo antes de parar de trocar as estações de rádio até uma música baixa preencher o ambiente.
— Da festa? Foi a primeira vez que eu fui em um casamento assim, então eu gostei. — O loiro se recosta no banco confortavelmente e olha para a estrada escura. Não tem uma alma viva nas ruas essa hora noite. — Foi divertida.
— Só não sei porque deixaram a gente na mesma mesa que o Marsh…
— Acho que foi uma escolha técnica... Acredito que a intenção era deixarem amigos dividindo a mesma mesa, Stanley estar lá foi consequência?
Damien não insistiu no assunto. O aquecedor ligado deixou o carro mais agradável e a música quase deixou o ronco do motor imperceptível. Pip encostou a testa no vidro gelado e olhou para o lado de fora, mas sem ser capaz de ver nada.
Isso foi estranhamente cansativo, mas igualmente divertido. Ver Tweek e Craig começando um capítulo novo da vida deles lhe deixou genuinamente feliz, eles merecem ser felizes, mas presenciar isso também fez o loiro se perguntar se ele e Damien também não podiam começar algo novo.
Não foi algo que surgiu agora, faz alguns meses que Phillip pesquisa sobre adoção, ele só teme que Damien não seja tão aberto assim a ideia de ter uma família que não seja só os dois. Ao mesmo tempo, ele só vai saber isso depois de perguntar. Será que é a hora certa de falar sobre isso?
Pip hesita um pouco antes de começar, mas ele virou o rosto na direção de Damien.
— Damien, eu estava pensando-
Nesse instante ele viu uma luz, que ficou cada vez mais perto até estar perto demais.
Foi tudo tão rápido.
Porque coisas boas nunca duram para Pip.
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