Everybody Hurts
1 Capítulo Único
Título: Everybody Hurts
Categoria: Bandas
Fandom: the GazettE
Casal: Escolha do leitor
Gênero: Romance/Yaoi/UA
Classificação: + 18
Sinopse: ‘Eu estava perdido dentro de mim, andando em círculos, desesperado por algo que pudesse me fazer voltar a ver a vida com outros olhos, que não fossem aqueles vazios que me encaravam de volta no espelho’
Direitos autorais: Eles são todinhos meus. E eu também sou o Bozo.
Informação 1: Homenagem distorcida ao Dia dos Namorados.
Everybody Hurts
Eu odiava o Dia dos Namorados.
Era uma droga de uma data puramente comercial e mais um motivo para ouvir meus amigos de trabalho perguntando se eu estava sozinho naquele dia.
Se eu estava só o ano todo, como estaria acompanhado justamente naquele dia?
Totalmente sem sentido.
Todos os anos era a mesma história, repetida como se fosse um disco arranhado e alguma vitrola velha.
Não que eu sentisse orgulho de estar todos os anos sozinho, que eu me sentisse bem por absolutamente nenhum ser humano na face da terra apreciar minha companhia a ponto de querer algum tipo de compromisso.
Na verdade, aquilo me incomodava, mesmo que não quisesse que soubessem disso.
Quem gostaria de chegar em casa todos os dias e só ser recepcionado pelo silêncio?
Sabia bem que a culpa, durante todos aqueles anos, era somente minha. Não poderia apontar dedos e tentar responsabilizar alguém por tudo aquilo.
Eu havia ficado sozinho por todos aqueles anos simplesmente porque era incapaz de me aproximar o suficiente para que alguém pudesse me conhecer.
A princípio, eu realmente não queria aquilo.
Um relacionamento era sinônimo de perda de liberdade, de compartilhar coisas que eram só minhas, de ter que dividir meu tempo, ter que dedicar certos dias somente para uma pessoa.
Me parecia restritivo e sem sentido.
Mas o tempo passou, impiedoso como só ele sabia ser, e a total liberdade e todos os dias apenas pra mim passaram a me preencher com um vazio quase sufocante.
Não importava quão clichê fosse, mas aquela era a verdade.
Eu desejava – sempre em silêncio – ter alguém pra compartilhar certos momentos.
No começo, não tomei conhecimento total do que estava acontecendo comigo. Eram apenas alguns momentos, algumas horas em que algo acontecia e eu pensava como seria bom ter alguém ali, apenas... do meu lado.
Mas os momentos vinham e iam embora com a mesma rapidez e a vida seguiu o curso sempre do mesmo jeito.
Os dias de semana, os finais de semana, os feriados... sempre a mesma rotina, sempre os mesmos hábitos.
Meu telefone não tocava, eu não recebia correspondências, nem mesmo um email aparecia na minha caixa de entrada.
A vida passou sem que eu notasse.
E o Dia dos Namorados só servia para salientar ainda mais isso.
Eu era solitário.
E... depois de um tempo deixou de ser por apenas opção.
Não sabia mais como agir, o que buscar, nem sabia ao certo o que querer.
Estar sozinho não era mais a melhor coisa do mundo e ter todo aquele tempo disponível, só servia para deixar ainda mais claro a situação em que me encontrava.
No começo, eu havia sentido falta do sexo. Do contato, do prazer, dos toques e dos gemidos.
Mas depois... depois foi quando tudo realmente começou a fazer sentido.
Já não tinha mais graça dizer que o frio podia ser espantado com um cobertor. Porque não era mais aquele tipo de frio que me afetava.
As pessoas sumiram ao meu redor, foram substituídas por outras, e eu não mais notava.
Não importava com quem dividia meu tempo no trabalho ou se alguém da família havia casado ou estava envolvido com alguém.
Nada a minha volta tinha cores vibrantes ou algo em especial que me fizesse dignar um segundo olhar.
Eu vivia meus dias como havia vivido o anterior.
E as noites eram sempre iguais.
Talvez um filme, um jogo no computador, alguma conversa vazia por algum programa on line que não permitia mais do que a proximidade das palavras com meus olhos.
Deitado, todas as noites na minha cama, não conseguia determinar quando a minha vontade tão grande por liberdade foi substituída pela restrição da minha solidão.
Eu estava perdido dentro de mim, andando em círculos, desesperado por algo que pudesse me fazer voltar a ver a vida com outros olhos, que não fossem aqueles vazios que me encaravam de volta no espelho.
Não importava o quão clichê fosse... eu tinha me matado por dentro, não sabendo controlar quando um desejo por ser livre havia se tornado o recipiente vazio para o meu desespero silencioso.
Havia tentado com tanto afinco afastar as pessoas, classificá-las como não suficientes pra mim, que finalmente havia conseguido.
Insisti tantas vezes que alguém não poderia ser o suficiente, que ligar minha vida a de outra pessoa era absurdo e ilógico que me perdi dentro das minhas próprias afirmações vazias.
Tudo em que acreditava antes e proclamava com tanto orgulho, se voltava contra mim, rindo, zombando, mostrando seus caninos afiados que destroçavam o pouco de mim que restava em mim.
Eu não me bastava.
Eu nunca havia sido o suficiente pra mim.
E nunca seria.
Havia colocado um espelho na minha frente por todo o caminho, apenas enxergando tudo em mim e esquecendo tudo envolta, me recusando a acreditar que as minhas qualidades não eram exclusivas. Que havia pessoas a minha volta que possuíam características parecidas ou ainda que superassem as minhas.
Mas quando notei, já era tarde demais.
Tudo que levava em mim era um vazio infinito e uma fome que jamais seria saciada.
Fome por tudo que havia perdido, tudo que havia deixado de viver. Por todas oportunidades que passaram, pelos sorrisos ignorados.
Pelas pessoas que haviam passado pela minha vida sem deixar marca alguma, porque eu não havia permitido, porque não me permitiria ter marcas de alguém que logo iria partir.
Mas ser um livro vazio havia me consumido por inteiro.
Um livro com uma capa grossa, decorada com figuras que só serviam para afastar qualquer um que tentasse abri-lo.
Pintada com sarcasmos e palavras duras.
Não me surpreenderia que, depois de tanto tempo, não houvesse tentativas de abri-lo novamente, já que eu mesmo já me encontrava tão amargurado com o rumo que minha vida havia tomado que simplesmente não me importava mais em olhar as páginas vazias ou tentar escrever algo nelas.
Odiava o caminho que havia seguido.
E odiava ainda mais não ter tido a coragem de ceder e me enveredar nas muitas curvas que haviam surgido.
Me recostei no sofá, balançando o copo de whisky na mão, ouvindo o gelo bater contra o vidro, a garrafa quase vazia ao meu lado, meio caída no estofado escuro e macio.
Mais um ano e o dia seguinte daquela maldita data seria preenchido por conseqüências do desejo estúpido de preencher o vazio dentro de mim com doses de álcool.
O relógio na parede mostrou que já passava das dez da noite.
Mais um maldito Dia dos Namorados estava acabando.
Só lamentava que a minha solidão e minha amargura não acabavam junto com ele.
_____
Ouvi o barulho na porta e apoiei o copo ainda cheio na mesinha ao lado, olhando na direção do som.
-Desculpa a demora, koi... o editor não entende nada de Dia dos Namorados! Acredita que ele teve a coragem de dizer que era uma data puramente comercial e que eu era um tolo de estar com pressa de vir te ver?
-Oh, ele não disse isso...
-Ele disse, amor! – E sua revolta parecia genuína, enquanto deixava o casaco sobre a poltrona, se aproximando sorrindo. – Não é absurdo?
Deixei um sorriso escapar e assenti, abrindo os braços como se o chamasse e ele veio, parecendo contente ao se aconchegar no meu colo, os lábios beijando os meus com carinho.
Eu cedi aos beijos, da mesma forma que havia cedido quando ele invadiu minha vida, como uma tempestade, varrendo tudo para longe.
E só o que havia restado era eu.
Todas as máscaras haviam sido levadas pra longe.
E ele havia se apaixonado ainda sim.
Deslizei meus dedos pelas curvas de seu corpo, sentindo a pele macia, fazendo-o rir baixinho contra meus lábios.
-O que estava fazendo, koi? – Senti seus dígitos traçando o contorno do meu rosto e me permiti fechar os olhos.
-Lembrando de como passei o último Dia dos Namorados... – Respondi, baixo.
E logo envolvi sua cintura com os braços, como se a mera lembrança pudesse fazê-lo desaparecer e me jogar de volta ao vazio que me abandonava aos poucos desde que ele sugira.
-E como foi? – Indagou, em seu tom curioso.
-Sozinho... bebendo...
-Não está sozinho hoje... por que a bebida? – E seu tom era de uma reprovação carinhosa. – Não gosto que beba...
-Velhos hábitos são difíceis de serem esquecidos, amor...
-Não quando são substituídos por outros, não é? – Sorri ao sentir um beijo ser depositado em minha testa.
-Mesmo assim, eu...
-Todo mundo sofre... – Sussurrou, contra meus lábios. – Só temos que determinar quando isso precisa parar...
Suspirei, balançando a cabeça e assentindo, o aperto envolta do seu corpo ainda mais forte, mas ainda sim ele não reclamou, envolvendo meu pescoço com seus braços, a testa encostada a minha, a respiração quente contra meus lábios.
O ouvi sussurrar todas as declarações com as quais havia sonhado e desejado em silêncio, durante todo aquele tempo, deixando que palavras gêmeas as dele deixassem meus lábios.
Não haviam mais espelhos na minha frente.
Apenas seus olhos.
E eu não estava mais sozinho.
-Amor...? – Chamei, carinhoso.
-Hum?
-Feliz Dia dos Namorados...
Fale com o autor