Evangelion: Shattered Thresholds

2 Episódio 2: Primeiras Impressões, Primeiras Conexões


Capítulo 8: Pulso Matinal / Um Novo Dia Começa

Apartamento de Kai, Manhã

A luz da manhã atravessava as persianas, projetando faixas douradas sobre o apartamento modesto de Kai. Do lado de fora, Tokyo-3 já começava a despertar—motores distantes roncando, tons metálicos dos anúncios públicos ecoando de leve pela cidade. Por baixo de tudo isso havia um zumbido estranho e constante, um som rítmico que parecia pulsar em ondas. Cigarras. O som era hipnótico, preenchia os silêncios com uma presença quase viva, mas ao mesmo tempo tão alienígena que fazia Kai parar por um instante. Mais uma peça estranha nesse quebra-cabeça chamado Tokyo-3—uma cidade que parecia qualquer outra metrópole, a menos que você soubesse o que se escondia sob ela.

Kai se remexeu na cama, os membros pesados com a tensão acumulada do dia anterior. Não era cansaço, exatamente, mas uma espécie de eletricidade sob a pele—antecipação, incerteza, a pressão de finalmente entrar na vida para a qual foi trazido até ali. Hoje começaria seu treinamento oficial como piloto de um Evangelion.

O celular vibrou no criado-mudo. Uma mensagem da Misato apareceu na tela.

“Acorda aí, novato! Quero você na sede da NERV até às 08:00. Dia importante pela frente! Ah, e COME ALGUMA COISA. Desmaiar dentro do plug de entrada pega mal. Te vejo logo! 😊

Kai soltou o ar, rolando para fora da cama. O corpo se espreguiçou numa resistência preguiçosa ao despertar. Na cozinha, preparou ovos mexidos—uma das poucas coisas que sabia fazer sem risco de desastre—e os engoliu com eficiência mecânica. Depois, um banho rápido, a água morna escorrendo pela pele e lavando os últimos vestígios de sono.

Vestiu uma camiseta verde-escura e jeans, depois parou diante do espelho. Seu porte, que sempre chamava mais atenção do que ele gostaria, uma altura que o fazia se destacar especialmente quando preferia passar despercebido. O cabelo escuro continuava indomável, e os olhos verdes refletiam alguém tentando parecer mais confiante do que realmente estava.

“Você consegue,” murmurou para si mesmo.

Lançou ao espelho um último aceno incerto, depois se virou e saiu para a manhã fresca de Tokyo-3.

Capítulo 9: Encontros e Desencontros / Tropeços e Saudações

O caminho até a sede da NERV parecia diferente à luz do dia. A cidade, banhada pelo brilho suave da manhã, usava sua normalidade como uma máscara—crianças conversando nas esquinas, trabalhadores apressados cruzando faixas de pedestre, o tráfego fluindo com cadência. Mas quanto mais Kai se aproximava da sede em forma de pirâmide, mais aquela máscara parecia se desfazer. Havia algo maior pulsando sob a superfície de Tokyo-3.

Ele entrou pela entrada principal já conhecida, onde o ar frio e clínico o recebeu como um tapa no rosto. O contraste com o calor do lado de fora era imediato. Dentro, o zumbido das máquinas, murmúrios baixos de conversas e o som de botas e sapatos no chão polido faziam parecer que, por todos os lados, havia engrenagens girando, sistemas despertando e monstros se escondendo no escuro.

Kai seguiu pelo mesmo caminho do dia anterior, cruzando corredores estéreis em direção à ala de testes. Seus passos ecoavam levemente nas paredes, sua confiança correndo atrás da ansiedade que apertava o peito.

Então, ao virar o corredor—uma voz.

“Ora, ora, olha só quem chegou no horário!” chamou Misato, mãos na cintura com uma expressão de falsa aprovação. “Pelo visto não vou precisar te arrastar da cama.”

Seu sorriso característico já o esperava.

Ao lado dela estava uma garota que parecia ter saído de outro mundo.

Cabelos azuis curtos. Pele pálida. Olhos vermelhos que se fixaram em Kai sem piscar. Não havia expressão em seu rosto. Nem desinteresse. Nem tédio. Apenas... nada.

“Ah,” disse Misato, gesticulando entre os dois, “Kai, essa é a Rei. Rei, esse é o Kai—nossa novíssima Quarta Criança.”

A mente de Kai voltou ao encontro desajeitado com Shinji no dia anterior. Dessa vez, prometeu a si mesmo, faria melhor. Deu um passo à frente com um sorriso caloroso, se inclinou e—

Beijou as bochechas dela. Uma, depois a outra. “Prazer em te conhecer, Rei!” disse com alegria sincera. “Primeira Criança, né? Então você é a mais experiente! Alguma dica?”

O tempo parou.

Rei não reagiu. Não se moveu. Seus olhos vermelhos o encaravam com neutralidade absoluta, como um computador esperando um comando que não entendia.

Atrás dele, Misato engasgou. “Meu Deus.”

Kai olhou ao redor—é, os técnicos por perto com certeza pararam o que estavam fazendo.

Finalmente, Rei piscou. Lentamente. Sua voz saiu plana, sem emoção.

“...Não compreendo essa ação.”

Misato caiu na gargalhada, inclinando-se enquanto enxugava uma lágrima. “Kai! Meu Deus, isso foi—uau. Eu não tava pronta pra essa!”

Ainda rindo, acrescentou: “Tá, só pra avisar—não fazemos isso por aqui. Mas olha, tenho que admitir, você tem coragem.”

Kai sentiu as orelhas queimarem.

Aperto de mão. Eu devia ter ido com o aperto de mão. Coçou a nuca, sem graça. “Ai, desculpa, Rei. Eu—”

Rei respondeu: “Está tudo bem.” Parecia sincera, ou pelo menos indiferente.

Ela continuou encarando Kai em silêncio. Então, quase como se estivesse voltando à pergunta original, disse com calma: “Não há dicas. Você deve sincronizar com o Eva. Só isso.”

Misato balançou a cabeça, ainda sorrindo. “Bem-vindo a Tokyo-3.”

Ela deu um tapinha nas costas de Kai. “Não se preocupa, Kai. Com certeza todo mundo vai esquecer essa primeira impressão.”

Ela sorriu de lado. “Mas olha, pelo menos agora sabemos que você leva as saudações a sério. Respeitável.”

Sem dizer mais nada, Rei se virou. “Vou me preparar para o teste.”

Enquanto ela se afastava, Misato a observou, rindo baixinho. “A Rei é única. Mas relaxa, Kai. Você é novo por aqui, e sinceramente? Aquilo foi hilário.”

Ela olhou para o visor na parede. “Certo, hora de se aprontar. O Shinji e a Asuka devem chegar logo, e depois vamos direto pros testes de sincronização.”

Kai soltou um gemido. “Agora eu tô realmente nervoso. Como será que eu devo cumprimentar a Asuka? Aperto de mão? Reverência? Reverência dupla?!”

Misato riu tanto que quase caiu de tanto rir. “Ahhh, Kai, se você tentar beijar a bochecha da Asuka, ela te mata na hora.”

Ainda rindo, enxugou outra lágrima. “Sério, se você achou a Rei difícil? A Asuka te chutaria até o outro lado da NERV.”

Ela deu um tapinha no ombro dele. “Só... tenta existir perto dela sem deixá-la irritada. Já é um desafio.”

Kai assentiu, tentando não imaginar o próprio funeral. “Agora você fez parecer que é realmente um desafio...”

Os olhos de Misato brilharam. “Acredite, com a Asuka tudo é um desafio.”

Depois de um momento, Kai balançou a cabeça. “Certo, melhor ir me aprontar!”

Ela o conduziu pelo corredor até a área de troca. O clima foi mudando enquanto andavam—da energia descontraída para algo mais focado. Ainda assim, ela lançou um olhar de lado. “Sabe... agora eu tô curiosa pra ver como vocês dois vão interagir. Pode ser divertido.”

Ela piscou. “Mas primeiro—vamos te colocar nesse plugsuit e ver do que você é feito. Prove que você é mais do que charme e gafes culturais, ok?”

Kai fez continência, brincando. “Sim, senhora! Pilotar um Eva talvez seja mais fácil que essas interações sociais.”

Misato gargalhou. “Você não faz ideia do quanto isso é verdade.”

Chegaram à área de troca, e sobre o banco estava o plugsuit designado a ele—elegante e estranho, diferente de tudo que já tinha visto. Painéis prateados metálicos refletiam a luz em placas segmentadas pelo peito e membros, intercalados com tecido escuro quase preto e detalhes em vermelho-sangue na gola. Parecia uma fusão de roupa de mergulho com traje de voo—afiado, funcional... e apertado. Muito apertado.

Ele encarou a roupa por um instante, a realidade pesando.

Então é isso.

Quando voltou já vestido, com os nervos um pouco mais sob controle, Misato já o esperava, braços cruzados e um sorriso maroto.

“Tá estiloso, novato. Beleza—vamos te colocar no plug e ver do que você é feito.”

Ela apontou à frente. A câmara de testes os aguardava.

Capítulo 10: Faíscas Vermelhas / Entra em Cena Asuka

As portas da área de testes se abriram com um chiado suave, e Kai entrou num espaço carregado de tensão silenciosa. O tom brincalhão de antes tinha sumido—o ambiente agora era mais frio, mais clínico. Técnicos estavam posicionados em seus consoles, vozes baixas enquanto analisavam leituras. As luzes fluorescentes zumbiam. Monitores piscavam. Tudo ali era projetado para precisão.

E então ele os viu.

Shinji estava de pé ao lado, já com o plugsuit, mãos ao lado do corpo e uma expressão incerta. Ao ver Kai entrar, ergueu levemente o queixo num aceno tímido—hesitante, mas amigável. Um tipo de desconforto familiar.

E então, havia ela.

Plugsuit vermelho vibrante. Cabelos cor de chama que caíam como uma declaração silenciosa de poder. A postura era firme, braços cruzados, pernas afastadas como a de uma soldada pronta para se impressionar—ou se decepcionar. Seus olhos azuis se fixaram em Kai no instante em que ele entrou, estreitando-se com um interesse calculado.

Definitivamente Asuka Langley Soryu. A Segunda Criança. Era impossível ignorá-la.

Misato bateu palmas, sua voz cortando a tensão no ar. “Muito bem, crianças, atenção! O teste de sincronização de hoje é simples—entrem, fiquem confortáveis e vamos ver como vocês estão se saindo.”

Com um sorriso de canto, ela gesticulou em direção a Kai. “Ah, e Asuka—esse é o Kai. Nossa novíssima Quarta Criança.”

Asuka inclinou levemente a cabeça, mantendo o olhar fixo nele. A boca se curvou num sorriso torto, os olhos se tornaram desafiadores.

“Hmph. Já era hora de trazerem carne fresca,” disse ela, com uma voz que soava ao mesmo tempo desprezível e provocativa. “Tenta não passar vergonha, novato.”

A mente de Kai disparou. Ok, ok. Primeira impressão. Não estrague isso.

Ele se aproximou com um sorriso tenso e estendeu a mão. “Oi, Asuka, né? Eu sou o Kai, prazer em te conhecer!” Pausou. “Ouvi coisas horríveis sobre você! Quer dizer—incríveis! Incríveis!”

Seu coração afundou imediatamente.

Houve um momento de silêncio absoluto.

Então Asuka soltou um ronco de riso. Nada de risadinha fofa. Nada de risinho contido. Um riso escancarado, incontrolável. Ela mudou o peso para um dos quadris, sobrancelhas erguidas em puro espanto.

“Meu Deus, você é um idiota!” declarou com uma risada carregada de escárnio. “Coisas horríveis, é? Nossa. Você é péssimo nisso!”

Ela não apertou a mão dele. Em vez disso, se aproximou um pouco mais, olhos afiados. “Deixa eu adivinhar—Misato te disse que eu era ‘um desafio’, né?”

Do outro lado da sala, Misato fez um joinha exagerado. “Tá indo muito bem, garoto!”

Shinji suspirou baixinho. “Lá vamos nós…”

Asuka jogou o cabelo para trás. “Tanto faz. Só tenta não atrapalhar no teste de sincronização, novato. Não tenho tempo pra ser babá.”

Ela se virou e caminhou em direção ao plug de entrada como se a conversa já tivesse acabado.

Kai soltou o ar. “Bom… prazer em te conhecer.”

Ele se virou para Shinji, desesperado por um recomeço. “E aí, Shinji. Mandei bem, né?”

Shinji lhe lançou um olhar—meio pena, meio vergonha alheia.

“Ah… foi… alguma coisa.”

Atrás deles, a voz de Asuka ecoou. “Chega de cochicho, idiotas! Vamos logo!”

Misato deu uma risada, mãos nos quadris. “Certo, certo, já chega de desastres sociais por hoje. Todo mundo pros plugs!”

Kai suspirou e rolou os ombros, tentando espantar o constrangimento. Ao subir no plug de entrada, o chiado familiar do sistema de LCL o envolveu, preenchendo o cockpit com o fluido âmbar. Ele fechou os olhos por um instante enquanto a sensação de leveza retornava—estranha, mas agora um pouco mais familiar.

“Iniciar teste de sincronização,” veio a voz da Ritsuko, fria e objetiva pelos alto-falantes.

Os monitores se acenderam, exibindo a silhueta de cada piloto. Rei. Shinji. Asuka. Kai.

Conectados. Quatro mentes, quatro máquinas. Uma única operação.

Kai respirou fundo e se concentrou, permitindo que seus pensamentos se alinhassem com o Eva. Dessa vez, sem pressa. Sem forçar. Com o plugsuit moldado ao seu corpo como uma segunda pele, a conexão parecia mais fluida, mais natural. Mas ele se manteve cauteloso, à beira da imersão completa. Não deixaria a máquina tomá-lo de novo.

“Taxas de sincronização estabilizando,” reportou Maya.

Kai olhou para os gráficos. Os dados da Rei estavam estáveis, como sempre. A linha de Shinji tremia um pouco—ansioso, mas focado. E Asuka? A curva dela era confiante, quase arrogante. Como se o plug fosse sua casa.

A voz da Misato soou, aprovada. “Muito bem, Kai. Controle bem melhor hoje.”

Asuka bufou. “É, é, tanto faz. Só não atrapalha a gente, novato.”

A voz de Ritsuko veio logo depois. “As leituras são promissoras. Vamos continuar monitorando a estabilidade.”

Kai estreitou o foco. Tudo estava indo bem.

Então—

Um lampejo.

Uma sensação breve—vinda não da máquina, mas de dentro. Algo profundo, algo familiar.

E então desapareceu.

O teste continuou, mas aquele instante permaneceu, corroendo a borda dos pensamentos de Kai.

Capítulo 11: Laços em Formação / Ressonância Inesperada

O que foi isso?

A pergunta zunia no fundo da mente de Kai, mas ele a empurrou para longe. Não podia se dar ao luxo de perder o foco—não agora, não aqui. Talvez tivesse sido só um pensamento aleatório. Um reflexo nervoso. Nada demais.

“Taxas de sincronização estáveis,” a voz de Maya ecoou mais uma vez pelos alto-falantes da sala de controle. “Os níveis do Kai estão melhorando.”

A voz familiar de Misato soou pelo comunicador com sua típica irreverência. “Viu só? Você é um verdadeiro prodígio! Agora, se conseguisse sincronizar com interações sociais tão bem quanto com o Eva...”

Kai gemeu. “Golpe baixo, hein.”

Asuka riu com deboche. “É, talvez da próxima vez ele não tente beijar ninguém.”

O rosto de Kai esquentou de novo. “Ei! Quem contou pra Asuka sobre... aquilo? Isso não foi legal! Nada legal!”

Misato caiu na gargalhada. “Kai, meu caro... Esse é um mistério que nunca vamos resolver.”

Asuka cruzou os braços com um sorriso malicioso. “Ah, por favor. Você achou mesmo que algo tão constrangedor não ia se espalhar feito fogo no mato?”

Shinji piscou. “Eu não falei nada...”

Rei, claro, permaneceu em silêncio.

Asuka balançou o cabelo para o lado. “Sinceramente? Até deveria ficar chateada por ter perdido, mas pelo menos posso rir da vergonha alheia.”

Misato tentou acalmar o clima. “Certo, certo, chega de zoar o novato. Mantenham o foco.”

Apesar das provocações, Kai notou algo. Asuka lançava olhares furtivos para o monitor—especificamente para a taxa de sincronização dele. Não dizia nada, mas havia um olhar atento, calculado. Por quê?

Ele não tinha certeza.

Kai voltou a se concentrar na conexão. Permitiu-se mergulhar mais fundo, guiado pela estranha sensação de estar dentro do Eva. Era como flutuar e estar ancorado ao mesmo tempo. Intenso, mas agora ele estava preparado. Mantinha o controle. Não deixaria a máquina tomar conta.

Tudo estava funcionando.

Seus movimentos respondiam com precisão. Um tipo de memória muscular começava a se formar, mesmo que nada daquilo fosse físico. Ele sentia o Eva respirar com ele—como um segundo corpo esperando por ordens.

Estava provando seu valor.

Então, após o que pareceu uma longa e controlada sessão de sincronização, a voz de Ritsuko cortou a névoa mental.

“Certo. Já temos dados suficientes por hoje. Iniciar sequência de desligamento.”

O LCL começou a drenar, a sensação de fusão com algo imenso se dissipando como uma segunda pele sendo removida. O mundo exterior retornava. O silêncio do plugue deu lugar aos murmúrios da sala de controle. O peso do próprio corpo voltou.

Kai abriu os olhos, firme e presente. Saiu do plug de entrada sentindo-se... bem.

Com os pés no chão.

Misato o recebeu com um sorriso largo e um tapinha sólido nas costas. “Nada mal, novato. Parece que acertamos em cheio com você.”

Asuka estava encostada mais ao lado, secando o cabelo com uma toalha. Soltou um suspiro teatral. “Tsc. É, tá bom. Você não foi péssimo. Só tenta acompanhar, beleza?”

Rei, imóvel ali perto, não disse uma palavra. Seus olhos permaneciam nele, indecifráveis.

Shinji se espreguiçou, soltando um longo suspiro. “Bom... pelo menos acabou...”

O sorriso de Misato se alargou. “Acabou? Ah, não, criançada—o dia ainda tá só começando! Quem topa um almoço?”

Ela passou o braço pelos ombros de Kai, já o arrastando em direção à saída.

“Você tá se encaixando direitinho, Kai. Agora—qual vai ser? Lámen? Curry? Bentô surpresa?”

Capítulo 12: Apimentando o Clima / Uma Refeição Intensa

A cafeteria da NERV ficava em um canto elevado e tranquilo do complexo, oferecendo um raro vislumbre de serenidade dentro dos limites clínicos da base. Uma parede inteira era formada por janelas de vidro, revelando uma paisagem enevoada de colinas cobertas de pinheiros, seus contornos suavizados por tons esverdeados desbotados sob a luz difusa. Mesas circulares de metal—cada uma fixada firmemente ao chão—pontuavam o ambiente em intervalos regulares. Banquinhos acoplados por barras curvas completavam o layout compacto e industrial, que priorizava eficiência e permanência.

A paleta de cores era sóbria—cinzas frios, brancos e roxos apagados—transmitindo uma sensação de desapego e funcionalidade. Alguns toques pessoais, como canecas de café ou livros deixados pela metade, sugeriam presenças passageiras entre uma crise e outra. O ar era parado, estéril, mas não hostil—um breve respiro entre tensões. Do lado de fora, a floresta enevoada oferecia um contraste natural à rigidez da arquitetura da NERV. Vasos com plantas discretos estavam estrategicamente posicionados nas bordas da sala e junto às colunas, suavizando o ambiente só um pouco. Era um espaço criado menos para conforto e mais como refúgio—um intervalo breve na tensão que fervia além das paredes.

A cafeteria murmurava com a movimentação do meio-dia—o tilintar de bandejas, conversas sussurradas, o zumbido mecânico da ventilação acima. Kai se acomodou em uma das mesas ao lado de Shinji, Rei, Misato e Asuka.

Misato, já na metade de seu almoço, apontou os hashis para Kai com um sorriso descontraído. “Então, Kai, metade do seu primeiro dia oficial já passou. Como tá se sentindo?”

“Até que bem,” respondeu Kai, cutucando a comida com curiosidade. “Mas fiquei me perguntando... a gente tem alguma ideia de quando o próximo Anjo pode aparecer?”

A expressão de Misato ficou séria, mesmo enquanto ela dava de ombros. “Sem chance de saber. Anjos não mandam aviso prévio. Por isso a gente tem que estar sempre alerta. Pode ser hoje, amanhã—ou daqui a semanas.”

Asuka interrompeu com um riso debochado. “E alguns de nós já estão prontos. Outros só gritam e travam.”

Misato deu uma mordida em algo questionável e encolheu os ombros. “Às vezes a gente tem trinta segundos de aviso. Às vezes, nem isso.”

Shinji suspirou, voz baixa. “Ou às vezes você tá almoçando... e no instante seguinte, correndo pros Evas.”

Houve um momento de silêncio tenso.

Kai riu de forma nervosa, balançando a cabeça. “Hah! Agora me deu até um arrepio.”

Shinji murmurou, mexendo no curry com o hashi. “É sempre sem aviso. Um momento tudo tá calmo, no outro... é caos.”

Do outro lado da mesa, Asuka revirou os olhos com exagero. “Ah, por favor. Só vira caos porque você entra em pânico toda vez.” O olhar afiado se voltou para Kai, apertando levemente. “E quanto a você, novato—aposto que vai desmoronar no primeiro sinal de perigo.”

Kai lançou um olhar inconformado. “Ei! Eu não desmorono tão fácil assim. De onde você tirou essa ideia?”

Asuka deu de ombros, entediada. “Já vi o seu tipo antes. Chega todo cheio de si, com sorrisinho idiota, sem a menor noção. Vai surtar assim que um Anjo aparecer de verdade.”

Kai deu um gole na bebida e sorriu. “Você já viu meu tipo? Me conheceu faz... o quê, uma hora?”

“Foi mais que suficiente.” Ela se inclinou um pouco, voz baixa e cortante. “Aposto que vai gritar mais alto que o Shinji quando a coisa começar.”

Shinji ficou levemente corado. “E-eu não gritei tão alto assim...”

Kai ergueu uma sobrancelha, apoiando o rosto na mão. “Então você já tá assumindo que eu vou congelar diante da primeira coisa assustadora que eu vir? Eu ainda tô aqui falando com você, não tô?”

Misato quase engasgou com o chá. Shinji cobriu a boca para esconder um sorriso contido, enquanto Rei seguia comendo em silêncio.

Asuka lançou um olhar fulminante. “Engraçadinho. Acha que isso tudo é piada? Você provavelmente nunca enfrentou nada de verdade na vida. Isso aqui não é sobre charme ou piadinhas idiotas.”

Kai se incomodou com a insinuação—ela realmente achava que a vida dele tinha sido fácil—mas se obrigou a relaxar, mantendo o tom leve. Deu de ombros com um sorriso confiante. “Tudo o que eu ouvi aí foi você me chamando de charmoso. Fico lisonjeado.”

Shinji olhava de um lado para o outro, claramente desconfortável. Rei não dizia nada, mas Kai percebeu um leve movimento dos olhos carmesins na sua direção. Já Misato mal conseguia conter o riso.

Asuka bateu o garfo na mesa com força, o som metálico cortando o barulho da cafeteria. Os olhos dela, azuis como lâminas, se fixaram em Kai. “Você tá falando sério, novato? Acha que isso tudo é uma brincadeira? Enquanto você tava por aí fazendo seja lá o que fazia antes da NERV te arrastar pra cá, eu tava treinando. Todos os dias. Tem gente aqui que sabe o que tá fazendo.”

Kai se inclinou pra frente, o olhar afiado, mas ainda brincalhão. “Uau. Espero que você esteja à altura desse discurso todo. Porque vai ser bem mais humilhante se eu acabar indo melhor que você.”

Ela estreitou os olhos. “Hah! Nem se ilude. A única coisa humilhante vai ser quando você perceber que não faz a menor ideia do que tá fazendo.”

Kai inclinou a cabeça, pensativo. “Quer saber? Se um dia você estiver em perigo e precisar da minha ajuda, sabe o que eu vou fazer?”

“Isso nunca vai acontecer,” Asuka rebateu na hora. “E mesmo se acontecer, o quê? Vai sair correndo como um covarde e me deixar morrer, né?”

“Muito pelo contrário!” Kai declarou com firmeza. “Vou ser o primeiro a correr pra te ajudar.” Pausou dramaticamente. “...Só pra ver sua cara.”

Asuka fez uma careta de puro desprezo. “Aff, você é impossível. Agora entendi por que tiveram que vasculhar o fundo do poço pra te encontrar. Você não leva nada a sério.”

O sorriso de Kai sumiu por um instante. O tom mudou. Os olhos, antes leves, agora estavam firmes. “Ah, mas eu levo sim,” respondeu. “Eu só não deixo o medo me calar.”

Seguiu-se um silêncio breve, mas carregado. O olhar de Asuka parecia capaz de perfurar aço. Mas por um instante, Kai viu algo ali—surpresa? Um traço de respeito, talvez? Ela claramente não esperava que ele fosse rebater daquele jeito, sem se retrair ou pedir desculpas.

Misato bateu palmas. “Certo, certo! Guardem essa energia intensa pros Anjos, ok?” O olhar dela suavizou. “Na verdade... tive uma ideia.” Ela se inclinou, conspiratória. “Que tal todo mundo lá em casa amanhã à noite pra jantar? Considerem isso um exercício obrigatório de convivência.”

O sorriso de Kai voltou na hora, genuíno. “Ótima ideia, Misato! Tô dentro!”

Asuka o encarou como se ele tivesse enlouquecido, surpresa por ele estar completamente ileso emocionalmente após a troca acalorada—como se tivesse, de fato, se divertindo. Shinji hesitou. “Acho que... pode ser legal.”

Rei inclinou levemente a cabeça. “Se for necessário.”

Asuka bufou. “Sério mesmo que a gente tem que ir?”

Misato lançou um olhar afiado e bem-humorado. “Sim. E você vai se comportar.”

Asuka cruzou os braços. “Tá, mas só porque alguém precisa estar lá pra ver o Kai passando vergonha de novo.”

Kai sorriu com confiança. “Ah é? Fica atenta, então. Porque eu vou estar ali do lado, só esperando a hora que você escorregar pra rir da sua cara.”

Misato levantou a mão com pressa. “Chega, chega! Guardem essa energia pro treino. Vocês vão precisar.”

Asuka resmungou algo em alemão enquanto enfiava o garfo no curry. Mas por baixo do olhar irritado, Kai notou algo mais—a menor faísca de reconhecimento. Ele escondeu o sorriso atrás do copo, energizado pela hostilidade dela.

Isso, pensou Kai, acabou de ficar mais interessante.

Capítulo 13: Disciplina de Gatilho / Treinamento de Armas

Não houve descanso depois do almoço. A marcha casual de Misato rapidamente se transformou em mais uma rodada de treinamento—dessa vez por um dos corredores mais silenciosos da NERV, onde o ar tinha um leve cheiro de ozônio e óleo de máquina.

“Próxima parada,” anunciou Misato, “treinamento com armamentos. Hora de aprender como suas lindas máquinas de matar realmente funcionam.”

Asuka bufou. “Finalmente. Algo útil.”

Eles entraram numa sala de observação reforçada, repleta de consoles de controle e com janelas espessas de vidro que davam para uma ampla câmara de simulação virtual. Do outro lado, Ritsuko já os esperava, prancheta em mãos, olhar calculista.

“Vocês estão atrasados,” disse ela sem nem levantar os olhos.

Misato tomou um gole de seu café enlatado. “Estamos exatamente no horário. O almoço foi épico.”

Ritsuko a ignorou. “O foco de hoje é o armamento dos Evangelions. Suas unidades serão equipadas com diferentes conjuntos, dependendo do cenário da missão, mas vocês devem se familiarizar com o arsenal básico.”

Ela tocou a tela atrás de si. Um display se acendeu, revelando um holograma rotativo do armamento dos Evas.

“A Faca Progressiva—último recurso. Combate corpo a corpo, com lâmina vibratória. Corta armaduras e, em alguns casos, campos A.T.. Eficiente, mas de curto alcance.”

Kai levantou a mão, hesitante. “Uh, desculpa. O que exatamente é um Campo A.T.?”

Essa pergunta atraiu uma rodada de olhares. Shinji piscou, mas não disse nada. Asuka deu uma risada curta. “Você pilota um Eva e nem sabe o que é um Campo A.T.?”

Kai deu de ombros, um pouco sem graça. “Quer dizer… já ouvi o termo, mas ninguém realmente explicou.”

Rei, ao lado dele, respondeu com simplicidade: “É a manifestação da alma. Uma força de repulsão.”

Asuka revirou os olhos. “Muito obrigada, Rei. Agora ficou claríssimo.”

Ritsuko prosseguiu sem se abalar. “Campos A.T. são barreiras defensivas usadas por Anjos—e pelos próprios Evangelions. Em combate, vocês precisarão quebrá-los ou penetrá-los. O que nos leva à eficiência das armas.”

O display mudou para um fuzil de disparo rápido.

“O Fuzil Pallet—padrão. Precisão moderada, bom para fogo de supressão e combate de média distância. No entanto, ineficaz contra Campos A.T. mais fortes.”

Os hologramas se apagaram.

“Hoje, faremos uma simulação de fogo real utilizando os fuzis pallet. Todos vocês participarão simultaneamente. Precisão, priorização e velocidade de reação serão medidas e pontuadas.”

Asuka estalou os dedos. “Finalmente vou poder mostrar do que sou capaz.”

Shinji parecia menos empolgado, mas assentiu em silêncio. Já Kai sentiu a adrenalina pulsar. Não era um combate real, mas era quase. Ele estava pronto. Rei, como sempre, permanecia impenetrável.

Os quatro pilotos foram conduzidos para dentro de seus plug de entradas—tubos pressurizados normalmente reservados para combates reais, mas também utilizados em cenários de treinamento sob protocolos de segurança ajustados. O cheiro metálico familiar do LCL enchia seus pulmões.

Dentro do plug, Kai se ajustou à interface enquanto o HUD ganhava vida com um lampejo. O rifle simulado era sem peso em sua mente, controlado por sensores de empunhadura leve e pelo movimento fluido de seus pensamentos. A mira se fixou bem no centro de sua visão.

“Todas as unidades, iniciem a simulação,” veio a voz de Maya pelo comunicador.

O mundo mudou—uma grade urbana abstrata preencheu a tela. Silhuetas de torres. Telhados. Movimentos intermitentes. Alvos vermelhos e azuis apareciam, desapareciam, se moviam entre prédios. Rápidos. Erráticos.

“Engajamento autorizado.”

A simulação explodiu em ação. Os rifles foram ativados. Kai disparou. O primeiro alvo vermelho explodiu em estática. Depois outro. Ele manteve a respiração ritmada, os movimentos focados, acompanhando cada ponto com precisão.

Pelo canto da visão, o display de Asuka se iluminava em quase perfeita sincronia. Os movimentos dela eram mais afiados—cirúrgicos. Mas ele não estava muito atrás.

Um desafio silencioso se formou entre os dois. Nada dito. Apenas reflexos e rivalidade.

Outra onda de alvos. O ritmo aumentou. Ela acelerou. Ele também. Ninguém recuava.

Então—ele errou um.

Por pouco.

Ela não.

A simulação apitou. O campo sumiu. O silêncio voltou.

“Simulação encerrada,” chamou Maya.

“Exibindo os resultados,” acrescentou Ritsuko. “Asuka—pontuação: 92%. Kai—91%. Rei—88%. Shinji—72%.”

Houve uma pausa—longa demais para apenas ler os números.

Asuka abaixou as mãos lentamente, depois virou-se com um sorriso sutil e pretensioso.

“Hmph. Nada mal pro novato.”

Kai arqueou as sobrancelhas, ainda recuperando o fôlego. “Foi… intenso!”

“Mas você perdeu,” disse ela, já se afastando.

“Foi por um ponto a menos,” respondeu ele, sorrindo.

Ela parou só o suficiente para olhar por cima do ombro. “Exatamente.”

Shinji passou com uma toalha no pescoço, olhos arregalados. “Foi bem apertado. Vocês dois ficaram muito à frente.”

Rei veio logo atrás, como sempre silenciosa. Mas seu olhar se deteve em Kai. Não era curiosidade. Nem surpresa. Apenas foco calmo.

Misato apareceu encostada na porta, sorriso largo. “Nossa, que escalada rápida. Tem certeza que nunca fez isso antes, Kai?”

Kai deu de ombros. “Acho que todos os videogames finalmente serviram pra algo! Ou eu só tive sorte.”

Asuka bufou. “É, é. Vai depender da sorte mesmo. Porque eu não vou diminuir o ritmo.”

Ritsuko se aproximou, já fazendo anotações. “Esse desempenho não é típico pra um piloto novato. Vamos continuar observando. Por agora—bom trabalho.”

Misato se espreguiçou com um suspiro teatral. “Certo, turma. Por hoje chega de treinamento. Estão liberados até amanhã cedo. Tentem não brigar com nenhuma máquina de venda automática no caminho.”

Kai saiu do plug e se espreguiçou, sentindo os últimos traços de tensão deixarem seu corpo. Isso... foi divertido. Não esperava gostar tanto. Nem chegar tão perto de vencê-la.

De qualquer forma, agora estava dentro de verdade. E talvez eles estivessem começando a vê-lo como mais do que apenas o novato.

Capítulo 14: Ruas em Branco / Conexão de Primeiro Nível

O céu se tornara de um azul pálido e suave, nuvens vagando lentamente enquanto o sol atravessava suavemente a neblina. Asuka deu um sorriso de canto para Kai. Por um momento, ele se perguntou se ela tinha percebido seu olhar disfarçado. Antes que ele dissesse qualquer coisa, ela se espreguiçou e começou a falar.

“E então? Estamos livres o resto do dia ou vai aparecer alguma outra missão ultrassecreta dos Evas?”

Misato conferiu o painel próximo à saída. “Nada por enquanto. Vocês estão livres! Tentem não destruir a cidade, beleza?”

Shinji deu de ombros, discreto. “Acho que vou pra casa...”

Asuka bufou. “Chato. E você, novato? Mal chegou e já quer se enfiar debaixo da coberta pra se esconder?”

Kai sorriu. “Eu? Sou novo na cidade, tô doido pra explorar!”

“Hah! Finalmente, um com senso de aventura,” disse Asuka, cruzando os braços com um sorriso de aprovação.

Misato deu umameia continência. “Boa atitude, Kai! Tokyo-3 tem bastante coisa pra ver—só evita as áreas com dano de Anjo.”

Houve uma pausa, e Shinji olhou para os lados antes de comentar:

“...Acho que posso ir também. Se não for problema.”

Asuka revirou os olhos. “Aff. Mas não atrapalha, Terceira Criança.”

Kai se iluminou. “Demais! Estava esperando a hora de sair assim com o grupo. E a Rei—vai com a gente?”

Rei ergueu os olhos levemente. “Não tenho preferência.”

Kai sorriu pra ela. “Então vem com gente!”

Asuka lançou um olhar de lado para Rei. “Ela vem se a gente arrastar. Anda logo.”

E assim, os quatro saíram pelas ruas da cidade.

Andar por Tokyo-3 era como entrar num mundo diferente. Tudo brilhava—aço e concreto suavizados por linhas limpas e céus abertos. Até as ruas pareciam perfeitas demais, como se tivessem sido projetadas em um simulador.

Asuka, é claro, tomou a frente com a segurança de quem considerava o bairro como seu.

“Primeira parada: o distrito de compras. Todo novato tem que conhecer.”

Shinji murmurou, baixo o bastante só pra Kai ouvir: “Ou seja, vamos só seguir a Asuka mesmo.”

Rei andava ao lado, silenciosa como sempre, os olhos observando a paisagem com calma impenetrável.

Kai acelerou o passo para acompanhar Asuka. “Alguma recomendação específica, guia turística?”

Ela sorriu de lado. “Qualquer coisa que não seja um tédio. Mas já que é o turista quem manda, tem direito a um desejo.”

Kai riu. “Então... uma loja de videogames?”

Asuka bufou. “Hah. Nerd.”

Mas Shinji se animou. “Loja de games? Boa ideia.”

Kai olhou para Rei. “E você?”

“Irei acompanhar,” respondeu simplesmente.

Eles viraram a esquina e entraram em uma quadra tomada por letreiros coloridos, música alta ecoando das portas abertas das casas de fliperama e o som constante de máquinas de venda automática.

A loja de games vibrava de energia. Estantes repletas de jogos, consoles e figures. Luzes de LED piscando, crianças correndo, pôsteres nas paredes e uma demo de jogo de luta com dois garotos furiosamente apertando os botões.

Kai olhou tudo com brilho nos olhos. “Demais.”

Shinji, olhando ao redor, comentou: “Faz tempo que não venho aqui.”

Asuka se encostou numa prateleira. “Muito bem, turista. Me impressiona. O que vai comprar?”

Kai riu. “Começar com um Nintendo. Dois controles. Algo que dê pra todo mundo jogar.”

E pra Asuka: “Gosta de videogames?”

Ela ergueu uma sobrancelha, surpresa pela pergunta. “Hah! Como se eu tivesse tempo pra isso.”

Mas desviou os olhos para as estantes. “Jogava um pouco. Na Alemanha. Jogos de luta. Onde dá pra bater de verdade em alguém.”

Cruzou os braços de novo. “Acha que me aguenta, turista?”

Kai se inclinou levemente, olhos brilhando. “Então tá combinado. Vamos jogar. E eu vou acabar com você.”

Asuka riu, jogando o cabelo. “Duvido. Se for jogar, não vou pegar leve.”

Shinji, segurando uma caixa de Nintendo 64 usado com alguns cartuchos, chegou e ficou olhando para eles.

Kai sorriu ao ver o console. “Bom... tá, vamos com um clássico. Fechado.”

Asuka o fuzilou com o olhar. “Tsc. Confiante demais pra alguém que só sabe se envergonhar.”

Kai respondeu, sorrindo de canto. “Até agora.”

Shinji suspirou, colocando os itens no balcão. “Só não quebrem nada quando jogarem.”

Rei permaneceu próxima à entrada, calada. Mas seus olhos iam e vinham sobre o grupo—sobretudo sobre Kai, como se estivesse registrando uma equação que ainda não tentara resolver.

Na saída, Kai sorria de orelha a orelha.

“Próxima parada?”

Olhou para Asuka, depois Shinji, depois Rei.

O que quer que Tokyo-3 reservasse para eles... começava a parecer menos um campo de batalha, e mais um recomeço.

Capítulo 15: Pôr do Sol Sobre a Cidade / Pelo Que Lutamos

Ao saírem da loja de jogos, Kai olhou ao redor, empolgado. “E aí, vamos nessa? Vocês querem me mostrar mais algum lugar? Asuka?”

Asuka sorriu com os braços cruzados. “Hah! Agora está mesmo contando comigo pra te entreter? Típico.”

Ela levou a mão ao queixo, pensativa. “Certo. Já que eu tô generosa hoje, vou te mostrar o melhor lugar de Tokyo-3 — um lugar onde dá pra ver a cidade de verdade, em vez de ficar vagando por aí como um cachorrinho perdido.”

Shinji arqueou uma sobrancelha. “Espera... você quer dizer aquele lugar?”

Asuka sorriu de lado. “Exatamente. Anda logo, turista. Você vai adorar.”

Ela tomou a frente, caminhando com a mesma confiança natural que mostrava em batalha. Os outros seguiram — Shinji, quieto mas curioso, Rei silenciosa como sempre, e Kai num ponto entre o ânimo e o cansaço.

Depois de uma curta viagem de trem e uma subida leve, chegaram ao mirante.

O sol já começava a se pôr, tingindo Tokyo-3 com um brilho alaranjado profundo. A cidade se estendia abaixo deles — moderna, limpa, viva em seu silêncio. Prédios imponentes. O oceano brilhando ao longe. As cicatrizes ocultas da guerra, discretas, fora do alcance do olhar.

Shinji se encostou na grade, olhos baixos. “...Não venho muito aqui. Mas é bonito.”

Asuka ficou orgulhosamente ao lado dele. “Viu? Melhor vista da cidade inteira. Devia me agradecer, turista.”

Rei permanecia um pouco afastada, observando o horizonte sem dizer nada. Sua imobilidade fazia com que parecesse parte da paisagem.

Kai deu alguns passos à frente, absorvendo a cena. “Uau... isso é... inacreditável. É isso que a gente tem que proteger, né?”

Shinji assentiu devagar, os dedos se apertando na grade. “É. Acho que é pra isso que a gente luta.”

Asuka cruzou os braços. “Tsc. Não fica todo dramático pra cima de mim, turista. Mas... é. Suponho que sim.”

O vento soprou suave pelo mirante, bagunçando roupas e cabelos. Por alguns instantes, ninguém disse nada. O silêncio não era incômodo. Era verdadeiro.

Shinji eventualmente se virou para Kai. “Então... depois de tudo isso, ainda acha empolgante pilotar um Eva?”

Kai assentiu. “Mais do que nunca. Mas... a responsabilidade começa a pesar. Vocês já... enfrentaram um Anjo de verdade?”

Os ombros de Shinji se retesaram. “Já. Duas vezes.”

Asuka sorriu de canto, jogando o cabelo para trás. “Pfft. Eu já enfrentei mais do que ele. E venci. Sem essa de hesitar.”

Shinji não respondeu. Apenas continuou olhando a cidade abaixo. Kai sentiu que havia mais por trás daquele silêncio — algo pesado.

Rei finalmente falou. “Sim.”

O tom era o mesmo de sempre. Mas carregava um peso diferente. A certeza de quem viu o que ninguém deveria ver.

Asuka revirou os olhos. “Ugh. Já tô vendo que vai começar o show do drama. Se você também ama se lamentar igual o Shinji...”

Shinji franziu o cenho, mas não rebateu. Kai riu baixinho, ainda absorvendo a paisagem.

O clima mudou. Ficou mais denso. Não eram mais apenas adolescentes curtindo uma tarde de sol. Eram armas. Sobreviventes. Feridas costuradas por piadas e sorrisos.

Kai se voltou para Asuka. “Então... você é a mais experiente? Achei que fosse a Rei — afinal, ela é a Primeira Criança.”

Asuka sorriu, visivelmente satisfeita. “Obviamente. Eu treino desde que era criança. Eu sei o que tô fazendo dentro de um Eva. Diferente de certas pessoas...”

Ela inclinou ligeiramente a cabeça em direção a Shinji, que suspirou, sem reagir.

Rei piscou lentamente. “Experiência não se mede pela quantidade de batalhas.”

Asuka bufou. “Tsc. Que seja. O que importa é vencer.”

Shinji murmurou: “Nem sempre se trata de vencer...”

Asuka se virou para Kai. “Mas enfim, turista, se quiser conselhos da melhor — devia me ouvir.”

Kai inclinou a cabeça. “Então me diz: quantos Anjos de verdade você enfrentou? Sem contar treino ou simulação.”

Asuka sorriu, orgulhosa. “Três. Gaghiel, Sandalphon e Israfel. Gaghiel era um no oceano, a gente teve que interceptar ele durante um transporte. Uma bagunça. Sandalphon era um desgraçado que a NERV encontrou dentro de um vulcão, um inferno. E Israfel era aquele maldito gêmeo. Tive que sincronizar com ele pra derrotar.” Ela fez um gesto com a cabeça em direção a Shinji.

Shinji acrescentou em voz baixa: “Eu lutei contra o Sachiel sozinho antes disso. Depois, enfrentamos Israfel juntos.”

Rei não disse nada, mas sua postura calma indicava vivências que ninguém estava nomeando.

Kai se remexeu um pouco, à vontade com a honestidade do momento. “Eu realmente não sei como é uma luta de verdade. Me contem mais sobre esse último Anjo.”

Shinji olhou para Asuka, hesitante. Mas ela não perdeu tempo.

“Hah! Quer saber da última luta? Aquela em que eu tive que carregar o Shinji nas costas?”

Shinji franziu a testa. “Não foi bem assim.”

Asuka ignorou, se virando para Kai com um sorriso travesso. “Era um monstrengo enorme que se dividia em dois gêmeos idiotas. Rápidos — mas nada que eu não pudesse lidar. Tivemos que lutar juntos, mas claro que fui eu quem fez todo o trabalho pesado.”

Shinji cruzou os braços. “Não foi tão simples assim. O Anjo se adaptava aos nossos ataques. A gente teve que cooperar pra parar ele.”

Rei acrescentou em tom neutro: “Foi um ataque sincronizado. Eles precisavam igualar os movimentos.”

Asuka revirou os olhos. “É, é. Aquilo foi irritante. Mas vencemos. É o que importa.”

Shinji olhou para Kai. “Lutar de verdade é diferente. Não tem nada a ver com teste.”

Rei assentiu.

As palavras ficaram no ar — densas, honestas. Kai sentiu o peso que havia entre eles, costurado por experiências que ele ainda não tinha.

Tentou aliviar o clima. “Ataque sincronizado? Isso deve ter sido maneiro, vai!”

Asuka sorriu de lado. “Maneiro? Hah. Seria, se eu não tivesse que sincronizar com ele.” Ela indicou Shinji com o polegar. `Tem ideia do que é diminuir o próprio ritmo só pra não deixar ele pra trás?”

Shinji suspirou. “Você não diminuiu nada. A gente teve que se ajustar juntos.”

Rei completou: “A sincronização era necessária. Se os movimentos não fossem idênticos, o ataque falharia.”

Asuka fez um gesto displicente. “Tanto faz. No fim das contas, funcionou. A gente venceu o Anjo.”

Shinji olhou para Kai. “É mais difícil do que parece. Tínhamos que igualar tudo — ritmo, movimentos, até a respiração. Se não estivesse em sincronia, um atrapalhava o outro.”

Kai arregalou os olhos. “Mas... como conseguiram isso? Parece impossível.”

Asuka deu um sorriso convencido. “Treino. Foco. E talento bruto.”

Shinji completou: “Usaram música. Clássica. Ajudou a gente a entrar no ritmo.”

Asuka bufou. “Ugh. Nem me lembra disso. Aquela música ainda me persegue. E a Misato fez a gente dividir um dormitório na NERV pra melhorar a sincronia. Piores dias da minha vida.”

Kai riu. “Espera — vocês tiveram que fazer tipo uma coreografia de dança pra vencer o Anjo?” Começou a rir alto.

Asuka o fuzilou com os olhos. “NÃO era uma dança.”

Shinji, apesar de tudo, riu. “Parecia um pouco, sim.”

Rei concluiu: “A precisão era fundamental.”

Kai não parava de rir. “Parece que vocês fizeram um show completo!”

Asuka gemeu. “Ai meu deus, juro que vou te empurrar desse mirante.”

Kai riu ainda mais. “Ok, ok! Mas fala sério, deve ter sido épico.”

Asuka inclinou a cabeça, com um leve sorriso. “Por quê? Acha que seria bom nisso, turista?”

Kai a encarou. “Dançar? Nem um pouco! Mas de resto, vou fazer o melhor que puder por vocês. Pode contar comigo.”

Shinji piscou, surpreso. Depois, sorriu discretamente. “É... bom saber disso.”

Rei o observou por um momento. Depois, assentiu. “Entendido.”

Asuka cruzou os braços. “Hah. Não vem com essa de ‘fazer o melhor’. Seja o melhor. Se me atrapalhar, te deixo pra trás.”

Mas algo em sua voz havia mudado. Não era tão cortante. Nem sarcástico. Apenas... contido.

Shinji voltou a se apoiar na grade, olhando a cidade. “Cedo ou tarde, a gente vai ter que confiar uns nos outros...”

O sol agora estava baixo, projetando sombras douradas pelas ruas silenciosas. A cidade abaixo brilhava como algo frágil e passageiro.

Por um tempo, ninguém disse nada.

Eles apenas observaram.

Capítulo 16: Fardos Silenciosos / Por Que Você Pilota?

O sol mergulhava no horizonte e, como um relógio, Tokyo-3 começava a mudar. Os arranha-céus imponentes desciam lentamente para o subterrâneo com um zumbido mecânico, desaparecendo um a um sob placas reforçadas. As ruas se esvaziavam, e as linhas de trem elevado se retraíam como os membros de uma imensa máquina se recolhendo para dormir. A cidade não dormia—ela se escondia. Com o anoitecer, o contorno dos prédios se tornava mais escasso, e as placas blindadas se fechavam com uma quietude definitiva, deixando para trás apenas as silhuetas baixas dos postes e o brilho fraco dos sinalizadores piscando na escuridão.

Observando tudo aquilo, Kai se recostou na grade, os olhos acompanhando as luzes tremeluzentes da cidade abaixo.

O silêncio se prolongou. Mas esse era diferente—mais pesado, expectante.

Então ele perguntou, suavemente:

“Uma última pergunta antes de voltarmos... Por que vocês fazem isso? Por que pilotam?”

O vento mudou ligeiramente.

Shinji ficou tenso, apertando a grade com mais força. Ele não respondeu de imediato.

Rei foi a primeira. “Porque eu preciso. Tenho uma... ligação. Não tenho mais nada.”

Sua voz era calma. Fria. Imperturbável.

Asuka bufou. “Ugh. Que resposta deprimente.”

Ela cruzou os braços, olhando para o horizonte. Por um instante, parecia que não responderia. Mas então respondeu—de forma contida no início, depois mais alta, como se desafiasse os outros a julgá-la:

“Eu piloto porque sou a melhor. Porque eu posso. Porque ninguém mais consegue fazer como eu.”

Kai a observou de lado, surpreso com a certeza crua em sua voz.

Depois de uma longa pausa, Shinji finalmente disse:

“Eu... eu não sei.”

Sua voz era baixa. Não hesitante—apenas... cansada.

“No começo, fiz porque mandaram. Meu pai, a Misato... Depois porque eu não queria fugir. Agora... acho que eu simplesmente... faço.”

Kai olhou para Shinji. “Seu pai? Quer dizer o Comandante Ikari, né?”

Shinji ficou imediatamente tenso. Ele hesitou por um momento antes de forçar a si mesmo a continuar caminhando. “É... ele é meu pai.” Sua voz era apática, como se respondesse por obrigação, e não por querer falar sobre o assunto.

Não olhou para Kai, mantendo os olhos na cidade. Estava claro que aquele era um assunto delicado.

Asuka bufou. “Tsc. Esse é um jeito gentil de colocar. Tá mais pra um `suposto pai que só se importa com a NERV e seu plano genial'.”

Shinji estremeceu com as palavras dela, mas não as negou. Kai teve a sensação de que não era a primeira vez que ela dizia algo assim.

“É... complicado,” ele murmurou por fim.

Ninguém disse nada por um momento.

As luzes de Tokyo-3 brilhavam abaixo como estrelas presas em vidro.

Então Asuka se virou, os olhos estreitos, como se testasse Kai. “E você, turista? Por que pilota?”

Kai hesitou. Não esperava que a pergunta fosse devolvida assim—tão cedo, e vinda dela.

“Bom... acho que é porque quero ajudar as pessoas,” respondeu devagar. “Se é assim que eu posso fazer isso, então é isso que vou fazer.”

Olhou diretamente para Asuka, sustentando o olhar. “Mas sério mesmo... você pilota só pra ser a melhor? Isso é meio decepcionante.”

Asuka piscou—por apenas uma fração de segundo.

Então seu rosto endureceu. Ela bufou, cruzando os braços. “Tsc. O quê, queria uma história trágica? Que pena, turista.”

Shinji olhou de um para o outro, mas permaneceu em silêncio.

Rei apenas observava.

Asuka balançou a cabeça, os olhos voltando-se para a paisagem. “Eu piloto porque quero. Porque preciso. Porque isso prova que eu importo.”

As palavras caíram como uma pedra em água parada.

Ela piscou—percebendo o que acabara de dizer—e imediatamente se virou para Kai, na defensiva. “E o que é que ‘você’ entende disso, hein? Acabou de chegar.”

Havia agressividade na voz dela, mas não era raiva. Não de verdade. Havia algo mais por trás. Algo mais suave.

Kai não recuou. Apenas olhou para ela. Sem julgar. Sem zombar.

“Uau,” disse em voz baixa. “Agora sim você foi profunda. Assim que eu gosto.”

Hesitou, depois acrescentou:

“Mas... eu... bom... deixa pra lá.”

Asuka estreitou os olhos. “O quê? Fala logo, turista. Acha que já me entendeu toda?”

Shinji claramente preferia estar em qualquer outro lugar.

Rei permaneceu parada, observando.

Asuka se inclinou, insistente. “Fala logo.”

Kai expirou. Sua voz estava firme.

“Dizer que só importa porque pilota? Isso é... bom... é uma idiotice.”

As palavras bateram forte.

O rosto de Asuka congelou. A boca se abriu, pronta para retrucar—mas nada saiu.

Seus olhos desviaram e voltaram para os dele—procurando deboche, e não encontrando.

Pela primeira vez, ela não tinha resposta.

O silêncio se estendeu tempo demais. Incômodo. Real.

Por fim, ela bufou, em voz baixa. “Tsc. Você não sabe de nada.”

Mas o veneno havia sumido. Não era arrogância—era algo que rachava por dentro. Ela se virou bruscamente, revirando os olhos com tanta força que quase doíam. “Tanto faz.”

Cruzou os braços de novo, mas os ombros tinham caído um pouco. E ao se afastar, seus passos estavam mais lentos. Menos carregados.

Shinji olhou para Kai, surpreso—um pouco admirado, talvez. “...Uau.”

Kai deu de ombros como se não fosse nada, mas seu coração batia acelerado.

Rei o encarou por mais um segundo, depois disse:

“Devemos voltar.”

Asuka resmungou lá na frente. “É. Chega desse papinho meloso.”

Ela não se virou ao caminhar, mas a agressividade em sua voz havia suavizado.

“Tente me acompanhar... turista.”

Shinji deu a Kai um olhar de lado—meio impressionado, meio preocupado—e seguiu.

Rei ficou um passo atrás, como sempre inexpressiva, mas de alguma forma mais presente.

O sol já havia desaparecido, e as luzes da cidade se acendiam sob a encosta. Tokyo-3 banhada por sombras douradas e violetas. Um lugar ferido, em recuperação. Que valia a pena proteger.

Kai ficou mais um instante, observando a figura de Asuka adiante—depois respirou fundo e a seguiu.

Capítulo 17: Andando na Linha Tênue / Pensamentos Não Ditos

No caminho de volta do mirante, o clima tinha se transformado em algo mais quieto. Não pesado—apenas... reflexivo.

Kai se inclinou levemente em direção a Shinji, falando em voz baixa. “Fui longe demais?”

Shinji lançou um olhar para ele, depois para Asuka, que caminhava alguns passos à frente. Os braços dela ainda estavam cruzados, a postura rígida. Após um momento de hesitação, Shinji balançou a cabeça.

“Não... acho que você só pegou ela de surpresa.”

Ele fez uma pausa e completou em tom mais baixo:

“Ela faz o tipo durona, mas... acho que precisava ouvir aquilo.”

Kai sabia que provavelmente deveria dar espaço a ela, mas não conseguiu evitar. Acelerou o passo até alcançar Asuka. Se colocou ao lado dela, próximo, mas não demais. “Ei, Asuka... desculpa se fui longe. Sei que a gente mal se conhece, mas... eu tenho esse problema. Às vezes falo o que dá na cabeça.”

Ela não respondeu de imediato. Continuou com os olhos fixos à frente, os braços ainda cruzados com força.

Então, sem olhar para ele, murmurou: “Tsc. Bom, talvez você devesse trabalhar nisso, turista.”

Mas a voz dela não tinha veneno. Se algo, soava quase... incerta.

Alguns passos depois, ela lançou um olhar de canto para ele. “...Mas tanto faz. Não é como se eu ligasse.”

Ela acelerou de novo—não para se afastar, mas apenas para se manter um passo à frente. O suficiente para retomar o controle. E, sob o brilho suave dos postes, Kai jurava ter visto o mais sutil toque de vermelho nas bochechas dela.

Asuka liderava o caminho de volta ao complexo residencial com passos firmes, mas já não tempestuosos.

Kai ficou para trás com Shinji e Rei, os olhos voltados para Asuka—quieto, pensativo, sem dizer nada.

Shinji lançou a ele um olhar cúmplice, meio exasperado, meio solidário. “É... boa sorte com isso.”

Rei, caminhando um passo atrás deles, olhou para o lado. A voz saiu baixa e neutra, mas não fria:

“Você é atraído por ela.”

Shinji piscou, surpreso por Rei ter dito algo. Kai, pego de surpresa, disfarçou o constrangimento e continuou andando como se não tivesse ouvido.

Asuka, ainda à frente, não se virou. Se ouviu, não demonstrou. Ou talvez só não quisesse que percebessem.

O resto do caminho seguiu em silêncio. Tokyo-3 pulsava suavemente ao redor deles—letreiros de neon acendendo, o zumbido distante dos trens, o ocasional farfalhar das folhas ao vento.

Kai percebeu que, de vez em quando, Asuka olhava para trás. Só por um instante. Só o suficiente.

Eventualmente, chegaram ao complexo de apartamentos. Funcional, mas sem charme—obra da reconstrução acelerada conduzida pela ONU após o Segundo Impacto. Telhados planos, trancas automáticas, módulos retráteis e blindagem de emergência. Parecia civil, mas cheirava a zona de guerra.

Asuka se virou para eles, assumindo sua pose habitual—braços cruzados, um quadril solto. “Bom, isso foi emocionante. Uma experiência única na vida,” ironizou.

Shinji balançou a cabeça, mas um leve sorriso despontava nos lábios. “Nem foi tão ruim.”

Rei assentiu uma vez. “Foi aceitável.”

Asuka olhou para Kai, esticando o nome dele de propósito. “Então, novato. Sobreviveu ao seu primeiro dia de verdade em Tokyo-3. Acha que dá conta de outro?”

Kai sorriu. “Com certeza! Mal posso esperar pelo próximo!”

Shinji suspirou suavemente. “É... já tá ficando tarde. Melhor irmos.”

Rei inclinou levemente a cabeça, sem dizer nada.

Asuka espreguiçou os braços acima da cabeça com um bocejo dramático e então deu um sorriso de canto. “Primeira coisa útil que você falou a noite toda, Terceira Criança.” Então, lançou um olhar para Kai. “Amanhã eu vou acabar com você naqueles joguinhos que você tanto ama.”

Ela se virou em direção ao seu prédio. “Enfim, terminei de entreter vocês por hoje. Tchauzinho.”

Desapareceu pelas ruas, mas havia leveza em seu andar que não estava lá antes.

Shinji deu a Kai um pequeno sorriso cansado. “Também vou dormir. Até amanhã, Kai.”

Rei apenas assentiu. “Boa noite.”

E assim, o primeiro dia completo de Kai em Tokyo-3 chegou ao fim.

Apartamento de Kai – Noite

O apartamento estava quieto quando Kai entrou. Só o zumbido da geladeira e os sons distantes da cidade pela janela.

Deitou-se na cama, encarando o teto, revivendo o dia em sua mente.

As palavras de Asuka ecoavam.

“Eu piloto porque isso prova que eu importo.”

Ela disse como se fosse um simples fato. Como se, sem isso, ela não tivesse valor. E ainda assim, agia como se fosse invencível.

Mas por um momento... ele viu a verdadeira Asuka.

Forte. Orgulhosa. Solitária.

Ele não sabia lidar com aquilo. Ainda não.

Mas talvez... isso não fosse o mais importante.

Talvez ele só precisasse estar lá.

Com esse pensamento tranquilo, seus olhos pesaram e o sono veio fácil.