Evangelion: Shattered Thresholds
14 Episódio 14: Estrelas em Ascensão
Capítulo 119: Prontidão Silenciosa / Manhã do Desconhecido
A manhã nasceu suavemente sobre Tokyo-3, com raios de sol escorrendo pelas persianas do quarto de Kai, tingindo o ambiente com um brilho âmbar discreto. Um zumbido agudo em seu celular rompeu o silêncio, arrancando-o do sono com relutância.
Com os olhos semicerrados, Kai estendeu o braço e pegou o aparelho, franzindo o rosto diante da luz da tela. O nome de Asuka apareceu, arrancando-lhe um sorriso imediato. A mensagem dela era caracteristicamente direta:
"Acorda, Selvinha. Não me faz ter que ir aí te arrastar pra NERV. 😏"
Kai riu baixinho e digitou sua resposta rapidamente.
"Bom dia! Sempre bom acordar com suas mensagens rabugentas! 😘"
Quase instantaneamente, o celular vibrou de novo, e a resposta dela apareceu:
"Você tem sorte que eu tô de bom humor hoje. Não me faz me arrepender, idiota."
Sentindo o calor da troca animar seu espírito, Kai levantou-se da cama, espreguiçando-se para afastar a sonolência antes de ir para a cozinha. A rotina mundana de preparar o café da manhã era quase reconfortante, ancorando-o em meio às incertezas persistentes que pairavam sobre Tokyo-3. Enquanto mexia os ovos, o aroma salgado preenchia o pequeno apartamento, afastando momentaneamente os pensamentos de Anjos, batalhas e futuros incertos.
Depois de comer, Kai tomou um banho rápido, deixando que a água quente lavasse os últimos resquícios de sono. Vestiu-se em silêncio, a mente gradualmente se preparando para a batalha que se aproximava.
Entrar no quartel-general da NERV sempre parecia surreal—como adentrar outro mundo, onde o cotidiano dava lugar ao extraordinário. O zumbido familiar das máquinas e os passos apressados dos técnicos o saudaram enquanto o elevador descia até a câmara de simulação.
Misato estava perto dos controles, segurando uma xícara de café e olhando de lado para uma cerveja perigosamente matinal. Ao lado dela, Ritsuko permanecia imersa em seu tablet de dados, a postura tão precisa como sempre.
"Bom dia, pessoal," cumprimentou Kai calorosamente, olhando para Shinji e Rei. Shinji respondeu com um leve aceno e um sorriso tímido. Rei apenas inclinou a cabeça levemente, a presença serena como de costume.
Asuka estava um pouco afastada, já de plugsuit, exalando sua mescla habitual de confiança e desafio.
"Demorou, hein," provocou ela, sem a acidez de costume.
Kai se aproximou, a voz suavizada. "Oi. Tudo certo?"
Asuka o encarou por um instante, algo cintilando em seu olhar antes que ela mascarasse com indiferença. "Tá sim. Tudo certo." Seu olhar se demorou por um segundo antes de retomar o sorriso provocador. "Só torcendo pra você não fazer outra cena."
Misato bateu palmas com firmeza, interrompendo antes que Kai pudesse responder. "Certo, pombinhos, menos flerte, mais foco. Kai, vai se trocar."
Kai seguiu para o vestiário em silêncio contemplativo, frustrado por não ter tido tempo de rebater. Ao vestir o plugsuit, o encaixe justo lhe trouxe um conforto familiar. Seus pensamentos voltaram para Asuka. Ela estava diferente naquele dia—mais suave, de algum modo. O dia anterior claramente a havia afetado mais do que ele imaginava. Por trás da bravata, havia camadas que ele só começava a descobrir. Respirou fundo ao fechar o zíper, afastando os devaneios antes de retornar.
"Pronto," anunciou casualmente, de volta ao grupo. "Agora é só esperar?"
A voz de Misato ecoou pelos alto-falantes, carregando seu tom brincalhão habitual. "Estão todos livres até o alerta. Fiquem por perto. Nada de repetir a ideia brilhante de dar uma volta de carro."
"Nem pensar. Não vou deixar tudo pra esses dois sozinhos de novo não," declarou Kai, apontando para Shinji e Rei.
Shinji piscou, visivelmente tocado. "Ah… valeu, eu acho."
Rei apenas assentiu com leveza.
Asuka resmungou, claramente constrangida. "Você nunca vai superar isso, Misato?"
Kai coçou o queixo, curioso. "Então… vocês estão aqui há bem mais tempo que eu. O que fazem pra se divertir quando estão presos na NERV?"
Shinji deu de ombros, sem graça. "Ah… normalmente, a gente só esperava."
Asuka lançou-lhe um olhar impaciente. "Você é tão sem graça."
Rei virou-se ligeiramente. "Gosto de ler."
Asuka revirou os olhos. "Tsc. Se é pra ficar presa aqui, pelo menos vamos fazer algo divertido."
Ela lançou um olhar desafiador para Kai, o sorriso travesso retornando. "E você? Tá pensando em quê?"
Kai olhou para ela com um meio sorriso. "Sei lá!" Olhou para Shinji e Rei, depois de volta para Asuka. "Mas eu não quero arriscar sair da NERV dessa vez."
O sorriso de Asuka se intensificou, o brilho competitivo acendendo nos olhos. "Hah! Sempre perdido!" Mas seu olhar suavizou um pouco ao captar a intenção por trás das palavras dele—um reconhecimento da responsabilidade compartilhada.
Com um suspiro, ela cedeu, embora sua inquietação permanecesse evidente. "Tá bom. Mas se vamos ficar aqui, eu me recuso a ficar sentada sem fazer nada."
Shinji soltou um pequeno suspiro de alívio. "Então… o que a gente faz?"
Rei permaneceu em silêncio, aguardando a decisão.
O zumbido das máquinas e os passos distantes preenchiam o silêncio entre eles, cada momento aumentando a expectativa.
Asuka bateu o pé impaciente, braços cruzados, mirando Kai mais uma vez. "E aí, gênio? Você que tanto insiste. Qual é a ideia brilhante?"
Kai permaneceu pensativo, o peso da situação pressionando, mas amenizado pela familiaridade do grupo. O tempo era limitado, mas por ora, a escolha era deles.
Capítulo 120: Pactos Silenciosos / Fios de Confiança
Por fim, o olhar de Kai pousou novamente em Rei. "Até agora, só a Exterminadora Rei deu uma sugestão de verdade," brincou levemente, voltando-se para ela. "Leitura, hein? O que você costuma ler? Tem alguma biblioteca por aqui ou algo assim?"
Rei piscou calmamente, impassível ao apelido. "Leio diversos textos," respondeu de forma neutra. "Principalmente literatura científica, manuais táticos e obras filosóficas."
Asuka gemeu teatralmente. "Ugh, sério? Que tédio."
Shinji assentiu, hesitante. "Tem uma biblioteca pequena na base. Mas é mais coisa técnica mesmo."
"Há também uma seleção de textos históricos e obras literárias," continuou Rei, inabalável diante da reação de Asuka. "Embora limitada."
"Bom," resmungou Asuka, "não vou desperdiçar minhas últimas horas livres enterrada em guias de estratégia."
Kai viu ali sua chance. Se havia uma oportunidade de extrair algo significativo de Rei, era agora. Com determinação, declarou: "Então é a biblioteca mesmo! Vamos ver como é."
Ele lançou um olhar proposital a Asuka, completando com um sorriso provocador: "Você também, esquentadinha!"
Asuka enrijeceu visivelmente, os olhos incendiando de indignação. "DO QUE FOI QUE VOCÊ ME CHAMOU?!"
Apesar da fúria palpável, Kai apenas sorriu, certo de que ela entendia sua intenção. Após uma pausa tensa, Asuka suspirou alto. "Tá, tanto faz! Mas se eu morrer de tédio, a culpa é sua."
Os quatro caminharam juntos pelos corredores mais tranquilos da NERV, até chegarem à biblioteca — uma sala pequena e organizada, repleta de manuais técnicos e textos acadêmicos densamente escritos.
Asuka se encostou numa mesa próxima, braços cruzados de forma desafiadora. "Pronto, gênio. Já que nos arrastou até aqui, e agora o quê?"
Kai se dirigiu diretamente a Rei, a voz iluminada pela curiosidade. "Você é a especialista aqui, Rei! Qual foi a coisa mais empolgante que você já leu? O seu favorito absoluto?"
Rei se aproximou de uma estante com propósito, selecionando um livro como se já estivesse decidido. Pausou, os dedos repousando sobre a lombada. "Empolgação não é um critério nas minhas escolhas," respondeu calmamente, o olhar distante. "No entanto, o texto mais relevante que li foi `A Teoria da Complementação Humana'."
"Complementação?" repetiu Shinji, apreensivo.
"Sim," continuou Rei suavemente. "Uma coletânea de pesquisas sobre evolução humana, integração cognitiva e transcendência artificial. É base para... o Projeto de Instrumentalidade Humana."
O silêncio preencheu a sala, rompido subitamente pela exclamação de Asuka: "O quê?!"
Os olhos de Shinji se arregalaram. Kai sentiu um alarme subir dentro de si, lembrando das descobertas perturbadoras que já haviam feito. Rápido, pressionou: "Ei! Você não pode jogar isso no ar como se não fosse nada! O que exatamente é esse `Projeto de Instrumentalidade Humana'?"
Rei hesitou por um momento antes de responder com calma: "É um processo projetado para remover as barreiras que separam as consciências humanas."
"Parece coisa bizarra de seita," murmurou Asuka, os olhos estreitados.
"É evolução," explicou Rei, imperturbável. "Um retorno à origem."
Shinji parecia profundamente abalado. "Rei, você… acredita nisso?"
"Crença é irrelevante," respondeu ela, com firmeza. "É inevitável."
Kai trocou olhares inquietos com Shinji e Asuka, sentindo um calafrio. "Inevitável? Não é só teoria? Agora fiquei confuso!"
Rei o encarou com intensidade enigmática. "Todas as coisas seguem um caminho. Algumas já começaram."
"Como assim `começaram'?" pressionou Shinji, a voz tensa.
Asuka estalou: "Para de ser enigmática! O que você tá querendo dizer, Rei?!"
O olhar de Rei se fixou em Kai, as palavras saindo medidas e profundas. "Você não deveria estar aqui."
A sala parou. Kai sentiu o peito apertar, uma dor antiga retornando. "Então… você também acha que eu não pertenço a esse lugar," murmurou, a vulnerabilidade escapando em sua voz.
Rei voltou-se para ele lentamente, os olhos carmesim mais suaves, com uma profundidade incomum. "Não," afirmou com firmeza e gentileza. "Você existe. Portanto, é. Se deveria ou não estar aqui é irrelevante. Você está."
Asuka, visivelmente desconfortável, cruzou os braços com mais força. "Isso não é o mesmo que dizer que você acha que ele pertence a esse lugar," retrucou com dureza.
Rei não respondeu, o olhar ainda preso em Kai com uma intensidade rara, deixando um silêncio denso atrás de suas palavras.
Kai sentiu o peso daquelas palavras dentro de si, em meio à confusão e a um conforto tênue. Rei nunca havia falado com tanta clareza ou compaixão. Mas era evidente que ainda havia muito mais sob a superfície.
Ele olhou com cuidado para Asuka. Depois de tudo que haviam passado, ele sabia que ela entenderia exatamente o que estava prestes a fazer.
Kai se virou de volta para Rei, agora mais sério. "Tá tudo bem. Mas… tenho algo importante pra te perguntar. Algo sério."
Os olhos de Asuka se estreitaram, a postura se tornando alerta. Shinji olhou nervosamente entre eles. Rei permaneceu imóvel, mas algo sutil em sua postura indicava atenção.
"Mas antes disso," continuou Kai suavemente, "preciso saber se posso mesmo confiar que você não vai contar pra ninguém. Como confio no Shinji e na Asuka."
Rei piscou devagar. "Confiança é um conceito arbitrário," afirmou de forma neutra.
Shinji prendeu a respiração. Asuka resmungou. "Isso não é exatamente tranquilizante."
Rei continuou com calma. "No entanto, não vou trair você."
Kai a observou em busca de qualquer sinal de mentira e não encontrou nada além de certeza silenciosa. "Hmm... confiança é arbitrária," repetiu, pensativo. "Você tem razão. É algo totalmente individual. Então só preciso que diga com clareza: você quer se juntar a nós de verdade?"
O silêncio se instalou. Rei refletiu, os olhos carmesim revelando algo mais profundo. Finalmente, respondeu sem hesitação: "Eu me juntarei."
Asuka soltou um suspiro contido. "Você tá se arriscando, Selvinha," disse suavemente.
Kai sorriu de leve. "Tá certo. Acredito em você! A partir de agora, vou confiar em você cegamente, do mesmo jeito que confio neles."
"Entendido," respondeu Rei com solenidade.
Shinji manteve-se quieto, com um leve sorriso.
Kai assentiu, voltando-se para Rei. "Ótimo. Só não esquece que ninguém te obrigou a nada. Você escolheu estar com a gente por conta própria."
Rei o observou em silêncio por um instante. Depois, falou: "Qual é sua pergunta?"
"Na verdade, é mais um pedido que uma pergunta."
Ele fez uma pausa, analisando a reação de Rei, e então falou suavemente: "Eu só queria pedir que... se o Gendo mandar você fazer algo que você não queira fazer... Não faça. Tá bom? Só isso. E conta pra gente. Você pode confiar na gente."
Por um longo momento, ela não respondeu.
Foi sutil, mas Kai percebeu—um leve movimento nos dedos dela, perto do livro que havia colocado de volta na estante.
Shinji prendeu a respiração. Asuka se moveu levemente, observando Rei de perto.
Finalmente, ela assentiu. "Entendido."
Asuka relaxou um pouco, murmurando: "Já é um começo."
Shinji suspirou. "Espero mesmo que você esteja falando sério, Rei."
Sentindo a tensão se dissipar, Kai sorriu com malícia. "Perfeito! Agora vamos sair daqui. Mal posso esperar pra ver você sendo fodona lá fora de novo. Exterminadora Rei detonou aquele Anjo na última simulação, como sniper. Carregou a equipe inteira!"
A cabeça de Asuka virou num estalo, os olhos faiscando. "COMO É QUE É?!"
Rei piscou, impassível. "Minha performance foi necessária para garantir o sucesso."
"COMO ASSIM?!" gritou Asuka, apontando agressivamente para Rei.
Ela jogou as mãos para o alto. "EU PODERIA TER DERROTADO O ANJO SOZINHA SE NÃO FOSSE POR VOCÊS IDIOTAS ATRAPALHANDO!"
Shinji, contendo o riso, murmurou: "…Ela mandou muito bem como sniper."
Kai podia sentir o caos se aproximando, mas naquele breve instante, a camaradagem deles parecia sólida como nunca.
Antes de sair da biblioteca, Kai notou exatamente onde Rei havia guardado o livro "A Teoria da Complementação Humana". Estava posicionado em uma área meio isolada — não restrita, mas claramente destinada a passar despercebida. Ele pretendia voltar ali depois. E sentia que Rei sabia disso.
Capítulo 121: Tensão na Espera / Aproximação Rápida
Quando voltaram para a sala de controle, o silêncio se estendeu de forma incômoda, levando Kai a expressar a tensão coletiva. "Cara, esse Anjo tá demorando mesmo... essa espera tá me matando!"
Asuka se espreguiçou de forma dramática, soltando um gemido alto. "Ugh, finalmente, uma coisa em que a gente concorda."
Shinji suspirou fundo, assentindo. "É... esperar é mesmo a pior parte."
Rei permaneceu imóvel, sua voz calma e segura. "O Anjo virá. Agora ou depois, é irrelevante."
A voz de Misato surgiu com humor pelo intercomunicador. "Não tá errada, Rei. Mas, pessoalmente, eu preferia que ele aparecesse agora em vez das três da manhã, quando eu estiver ocupada bebendo."
Após uma breve pausa, Misato continuou com uma atualização. "Matarael ainda se move pelos arredores de Tokyo-3. Nenhuma aproximação direta até agora, mas o Magi prevê atividade nas próximas horas."
Asuka jogou os braços para o alto. "Horas?! Talvez eu devesse mesmo ter morrido de tédio naquela biblioteca."
Shinji coçou a nuca, nervoso. "Então... o que a gente faz enquanto isso?"
De repente, uma ideia cruzou a mente de Kai. "Por que a gente não vai atrás dele, em vez de ficar sentado esperando?"
Houve um momento de silêncio antes de Misato responder, pensativa. "Ideia ousada, Selvinha."
Ritsuko logo rebateu, com seu tom clínico habitual. "E extremamente imprudente. Não conhecemos o alcance exato dos ataques. Um confronto prematuro pode causar danos desnecessários ou pior: uma situação totalmente fora de controle."
Mesmo assim, Kai insistiu, inquieto com a espera. "Ainda acho que devíamos ir atrás dele."
Ritsuko foi categórica. "Definitivamente não. Devido aos cabos umbilicais, os Evas devem operar nas zonas de combate designadas em Tokyo-3. Fora delas, seriam necessárias estações externas de energia, que são incompatíveis com o terreno ao longo da rota projetada do Anjo."
Misato confirmou, sombria. "Exato. Sem energia, vocês viram estátuas gigantes e inúteis em cinco minutos."
Asuka gemeu novamente, frustrada. "Tch, então estamos presos aqui, esperando ele decidir quando atacar?"
Shinji falou com preocupação. "Ir às cegas pode piorar as coisas, mas ser pego de surpresa seria ainda pior."
Como se em resposta, um alarme estrondoso ecoou pela base, luzes vermelhas de emergência piscando por toda parte. Os monitores se acenderam com avisos, banhando a sala de controle em vermelho intenso.
A voz de Maya soou pelos alto-falantes, profissional apesar do pânico. "Padrão de movimento do Anjo mudou—aceleração súbita rumo ao centro da cidade!"
Ritsuko completou rapidamente, os olhos no fluxo de dados. "Parâmetros mudando rápido—níveis de energia acima de todas as previsões! Ele é mais forte e mais rápido do que o previsto!"
Misato falou com firmeza. "Pois é. Parece que a espera acabou. Matarael está se aproximando rapidamente de Tokyo-3!"
Kai sentiu a adrenalina disparar, a empolgação misturada com ansiedade. "Finalmente! Parece que ele achou o que queria, né?" gritou, já correndo para a área de encaixe.
A voz de Misato soou clara. "Certo, pirralhos, em movimento! Corram pros seus Evas. Hora da ação!"
O coração de Kai batia acelerado enquanto corria, pronto para enfrentar o que viesse.
Os corredores pulsavam com o ritmo das luzes vermelhas. Shinji e Asuka corriam logo atrás. Rei seguia em seu passo calmo e deliberado, indiferente à urgência.
Ao se aproximarem da doca de entrada, Asuka resmungou alto: "Se eu tivesse que esperar mais um minuto, teria morrido de vez!"
Shinji murmurou, tenso: "A gente ainda pode morrer..."
Pouco antes dela entrar no plug de entrada da Unidade-02, Kai segurou a mão de Asuka brevemente, o olhar cheio de urgência.
"E-Ei!" protestou Asuka, puxando a mão de volta. Seus olhos, no entanto, mostravam mais curiosidade do que irritação. "A gente não tem tempo pra isso—"
Kai a interrompeu com firmeza, mas em tom gentil. "Só... fica esperta lá fora, tá?"
Por um instante, Asuka congelou, claramente pega de surpresa. Suas bochechas coraram levemente — fosse pelo esforço ou por algo mais profundo, ela logo disfarçou com um estalo.
"Tsc. Se preocupa com você mesmo, Selvinha!"
Sem esperar resposta, ela rapidamente pulou para dentro do Eva.
A voz de Misato surgiu com uma ponta de sarcasmo no intercomunicador. "Mexa-se, gente! Esse Anjo não vai esperar vocês terminarem de flertar!"
Asuka se acomodou no plug de entrada, ainda com as bochechas acesas, lançando um olhar fulminante a Kai—raiva, confusão e algo mais vulnerável.
Shinji já estava ansioso em seu entry plug. Rei, com sua calma habitual, preparava-se em silêncio.
Kai ainda estava inquieto por dentro, mas se acomodou em seu assento enquanto o LCL envolvia seu corpo, iniciando a sincronização.
"Certo, Misato! Vou seguir suas ordens, mas lembra, temos o Plano A chato e o Plano B épico!"
Misato gemeu teatralmente. "É, é, Selvinha. Só não pula direto pro Plano B antes mesmo de começar o A!"
Capítulo 122: Protocolo de Queda / O Olho que Chora
Os Evangelions dispararam para a superfície como projéteis lançados de um canhão. No instante em que romperam o solo, o HUD se acendeu—linhas de dados urgentes colidindo com o horror que se revelava à frente.
Lá estava ele.
Matarael.
Erguia-se como um sentinela de pesadelo sob o céu cortado por nuvens—um monólito insetoide de membros contorcidos e olhos penetrantes.
Seu corpo maciço, inchado e viscoso como obsidiana, pairava em uma quietude antinatural. Visto de cima, parecia o casco grotesco de um besouro rachado pela loucura, sua superfície uma colcha de retalhos de placas verde-oliva escuras e músculos azulados pulsantes. Mas o mais perturbador eram os olhos—dezenas deles—cada um alojado em cristas triangulares vermelho-sangue que se moviam com espasmos involuntários. Inexpressivos. Observando. Julgando.
Cada íris era como vidro quebrado: azul fraturado com veios vermelhos como relâmpagos, parecendo capilares vivos que não pertenciam a nenhuma anatomia sã. O central era o pior—um olho enorme que parecia mirar a alma, rodeado por um anel dourado derretido e lacrimejando. Um fluido espesso, esverdeado e viscoso escorria em longos filetes, como uma ferida gangrenada, cobrindo os contornos angulares de sua carapaça.
E então, ele se moveu.
As pernas—quatro, altas, articuladas como as de uma aranha ou de um fantoche morto há muito tempo—se chocaram contra o solo com força quebradiça. Cada passo gerava um estrondo sísmico, do tipo que fazia prédios estremecerem e a terra recuar. Os membros enegrecidos deixavam buracos fumegantes no asfalto.
Kai observava, horrorizado, enquanto jatos de ácido verde-luminescente começavam a escorrer do olho central. O líquido caía como uma chuva de tristeza corrosiva, dissolvendo aço e concreto como se fossem papel. A substância esculpia o terreno com padrões irregulares, deixando fumaça e calor, os restos do que tocava borbulhando como gordura em frigideira.
O Anjo não rugia.
Ele observava.
E, acima de tudo, os olhos de Matarael jamais piscavam.
Eles apenas se arregalavam.
Por mais detalhadas que fossem as simulações, nada havia preparado Kai para isso. Nenhum treinamento capturava o nojo visceral de vê-lo em movimento—sua carne lacrimejante, sua quietude predatória.
Aquilo não era apenas aterrorizante.
Era uma ofensa à realidade.
E isso o tornava ainda mais chocante.
A adrenalina subiu em Kai. "Uau... Isso é bem pior do que eu esperava."
Asuka bufou audivelmente pelo comunicador. "Tsc. Se você ficou abalado de ver essa aberração, é mais idiota do que eu pensei."
Shinji murmurou, ansioso: "Por favor, não estraga tudo, Kai..."
Rei, com sua calma habitual, comentou: "Respostas emocionais não devem comprometer a eficiência da operação."
As sirenes de Tokyo-3 ecoavam pelo ar enquanto Kai se preparava dentro da Unidade-04. Ao seu redor, a cidade se transformava—prédios afundando em bunkers blindados, barreiras se erguendo. Os momentos finais antes da guerra.
"Pilotos, formem a Formação Tyrfing," ordenou Misato pelo comunicador, firme e direta. "Lembrem-se da simulação. Shinji, defesa. Asuka, flanco. Kai, isca. Rei, o rifle sniper está a caminho."
O mundo fora do visor se tornava um jogo de sombras e ângulos duros. Matarael avançava, seus membros grotescos perfurando o asfalto com precisão mecânica, ácido já escorrendo do olho central.
"Hora do show," murmurou Kai, apertando os controles.
Ele avançou, chamando a atenção de Matarael. O Anjo respondeu de imediato—mais rápido que nas simulações, mais agressivo, jatos ácidos sendo disparados de olhos secundários em arcos imprevisíveis.
As pernas caíram como estacas ao seu redor, enquanto o olho central se iluminava com fúria. Um grito úmido e agudo soou, seguido por três jatos de ácido em rápida sucessão.
Kai não recuou, correndo pelas ruas destruídas enquanto disparava contra o olho da criatura. "VEM CÁ, SEU ARANHÃO! EU TÔ AQUI!"
Mais um jato brutal de ácido derreteu os prédios ao seu redor. "O olho não devia ser o ponto fraco? Foi o que todo videogame me ensinou!" gritou Kai.
Misato respondeu, meio exasperada, meio divertida. "Isso não é um jogo, moleque! Continua se mexendo!"
Ritsuko esclareceu: "O olho é apenas óptico—não é o núcleo. Continue provocando para revelar o alvo real!"
Eva-02 avançou velozmente no canto do visor, enquanto Asuka gritou: "Foco, gênio!"
"SE MOVA!" berrou Misato pelo comunicador.
Kai desviou para a esquerda, escapando por pouco de outro jato corrosivo que vaporizou a estrada.
Asuka grunhiu: "Essa coisa é mais rápida que na simulação!"
A voz de Maya veio distorcida: "Confirmando parâmetros da simulação—não, espera—isso tá errado—"
"Droga! Os dados não batem!" disse Misato. "Ajustem as formações! Não sejam atingidos!"
Rei levou a Unidade-00 ao ponto de entrega do rifle, sobre uma estrutura fortificada. Esticou o braço, dedos quase alcançando a arma, quando um jato de ácido atingiu violentamente o edifício. Concreto e aço derreteram em segundos, e o rifle caiu nos escombros em ebulição. Rei hesitou apenas um instante antes de declarar com frustração contida: "O rifle foi perdido."
"Merda! Rei, vá para o ponto secundário! Outro rifle está a caminho—rápido!" ordenou Misato.
O ácido continuava chovendo de todos os olhos, derretendo tudo ao redor. Shinji bloqueou um jato com o Campo A.T., mas outro atingiu o ombro da Unidade-01, liberando vapor.
"Agh! Me acertou!" gritou Shinji.
"Mantenham a linha!" gritou Misato. "Kai, puxe-o para a esquerda! Asuka, agora!"
"Tô indo!" Asuka avançou, a faca progressiva fazendo um corte em uma perna de Matarael. Ele tropeçou, mas outro jato atingiu a perna da Unidade-02, fumegando.
"Tch—droga!"
Kai desviou de mais um ataque, o coração disparado. Aquilo não era como o treino. Matarael era mais inteligente. Mais letal.
As pernas da criatura golpeavam o solo como estacas de ferro, obrigando-os a se dispersar. O ácido fervia nas ruas, abrindo valas por onde passava.
Kai girou a Unidade-04 ao redor de um prédio desabando, ofegante. O HUD gritava alertas enquanto respingos de ácido corroíam sua armadura.
"Tch—ele tá se adaptando," reclamou Asuka.
Misato gritou: "Shinji, flanco direito! Rei, vai para a nova posição! Asuka, aguarde abertura! Kai, mantenha a atenção dele!"
"Entendido," respondeu Rei, calma.
Shinji disparava em ritmo, tiros precisos ricocheteando na carapaça do Anjo, sem penetrar.
"O Magi está analisando os novos dados," disse Ritsuko. "Talvez tenhamos um relatório de fraquezas em breve."
"Aguentem firme até lá!" ordenou Misato.
Kai avançava entre os jatos de ácido, disparando sem parar nos olhos.
O ar era denso de fumaça e calor químico. Cada segundo parecia drenar um ano de vida.
"Isso!" exclamou Misato. "Todo mundo, ouçam! Nova estratég—"
Estática.
A transmissão caiu. Tudo ficou estranhamente silencioso.
No HUD de Kai, os contadores digitais começaram a piscar.
MODO BATERIA
5:00
"Mas que porra?! Misato?!" chiou Kai. Só o silêncio respondeu.
Capítulo 123: Horizonte Escuro / Contagem Regressiva
Kai olhou ao redor. A cidade estava às escuras. Toda a rede elétrica de Tokyo-3 havia colapsado. As únicas luzes agora eram os refletores de emergência dos Evas e os focos de incêndio onde o ácido já havia começado a corroer a cidade.
"Um blecaute?" disse Asuka. "Claro. Por que não?"
Kai cerrou os dentes. Sem ordens. Sem contato com a base.
"Estamos por nossa conta agora," disse Shinji, a voz tensa.
"Fiquem alertas," disse Asuka. "Estamos às cegas. Sem comando. Sem reforços. Vamos ter que acabar com isso sozinhos."
Kai se lembrou da batalha contra Ramiel, de como seu próprio cabo atrapalhou. "Todo mundo, desconectem os umbilicais! Precisamos de mobilidade e eles não servem pra nada agora!"
"Tsc. Não é má ideia," resmungou Asuka.
Shinji hesitou. "O-ok."
"Confirmado," disse Rei.
Um a um, os cabos umbilicais se desprenderam com estalos mecânicos.
O contador continuava correndo.
4:32
Eles se espalharam instintivamente, formando um perímetro improvisado.
Matarael gritou de novo, ácido espirrando em todas as direções. Parecia completamente ileso desde o início do confronto.
Kai avaliou rapidamente as opções cada vez mais escassas, a urgência apertando sua voz. "O rifle sniper era a única arma que realmente fazia efeito. Rei?"
A voz de Rei soou firme pelo comunicador. "Já estou no ponto de entrega designado. O rifle não chegou a tempo."
Shinji hesitou, a voz tensa com a constatação. "Sem energia... não tem como mandarem outro."
Asuka cortou a incerteza com firmeza. "Então vamos pra cima! Ele tem um ponto fraco—todo Anjo tem. Só precisamos descobrir qual."
Kai parou por um segundo. Misato ia anunciar uma nova estratégia. Isso significava que Ritsuko havia descoberto uma fraqueza. Ele tem um ponto fraco.
"Droga. Não tem outra escolha. Plano B. É nossa única chance."
"Tch," murmurou Asuka. "Se você estragar tudo, Selvinha, eu mesma acabo com você."
"Entendido," confirmou Rei, sem emoção.
"Certo," disse Shinji, a voz trêmula, mas firme.
"Posições!" gritou Asuka. "Vamos fazer a loucura acrobática do Selvinha!"
3:27
Kai colocou a Unidade-04 em disparada, calculando o acionamento dos jatos com precisão.
O olho grotesco de Matarael travou nele. O ácido se acumulava em seu centro.
"Vamos, vamos," murmurou Kai, calculando o salto.
Ele se lançou.
Os propulsores J-Type se acenderam, catapultando a Unidade-04 pelos ares. A cidade desapareceu abaixo.
Por um instante, ele voou—
Então, de forma impossível—
Matarael também saltou.
Com uma torção horrível dos membros aracnídeos, girou no ar, uma garra vindo em sua direção.
Kai mal registrou o ataque antes do impacto.
CRASH.
A Unidade-04 girou descontrolada, alarmes soando. A bateria perdeu um minuto instantaneamente pelo uso dos propulsores.
BATERIA 2:04
Ele se chocou contra o topo de uma colina, abrindo uma cratera no solo. O metal gritou. Dentro, Kai foi arremessado contra a contenção.
"KAI!" gritou Asuka pelo comunicador.
"Tô... bem," arfou Kai, tossindo.
Pelo visor estático, Kai viu o rosto de Asuka—olhos intensos, focados, queimando de determinação. Por um segundo, o caos se dissolveu ao seu redor ao ser atingido pela força daquela imagem. Inabalável. Corajosa. Linda em sua fúria. Sentiu um calor no peito, quase reverência, ao perceber que ela jamais recuaria, por pior que fosse a situação. Então algo mudou no olhar dela—um brilho repentino, como se tivesse compreendido algo.
Asuka assumiu o comando sem hesitar.
"Tch, idiotas," disse ela, rápida. "Prestem atenção!"
"Novo plano! Shinji, Rei—agarrem uma perna cada um! Selvinha, queria usar suas botinhas estilosas, seu imbecil? Então vamos usar a cabeça! Vai pro lado oposto e segura outra perna. Quando você pular, o Shinji e a Rei fazem alavanca e viram o Matarael!"
"E você finaliza?" perguntou Shinji, ofegante.
"Pode apostar que sim!" respondeu Asuka.
Kai gemeu. "Isso é... quase tão doido quanto minha ideia, sua arrogantezinha" Ele riu. "Adorei!"
Checou o cronômetro.
1:32
"Mas só temos uma chance. Tem que ser rápido!"
Eles se moveram. Sem hesitação.
Rei agarrou uma das pernas de Matarael com precisão silenciosa. Shinji foi para o outro lado, braços tremendo mas firmes.
Kai correu para o lado oposto, prendendo os braços da Unidade-04 em um dos membros retorcidos do Anjo e alinhando os propulsores.
"No meu sinal!" gritou Asuka. "Três—dois—um—AGORA!"
1:05
Kai ativou os propulsores.
O mundo girou.
O corpo de Matarael perdeu o equilíbrio.
Ele tombou—virou—
E então—
O contador da bateria de Kai apitou.
BATERIA ESGOTADA
A Unidade-04 apagou no ar.
Caiu como um boneco, pesada e inerte, rolando até o declive com a leveza de sucata.
Dentro do plug, tudo escureceu. Ele tentou abrir a escotilha—travada.
A respiração de Kai prendeu. O corpo flutuava no LCL. Escuridão. O único som vinha de seu coração e dos ecos abafados do caos do lado de fora.
Tremores distantes. O chão vibrando. Uma explosão abafada.
Então silêncio.
Kai cerrou os dentes. Não podia ver. Nem se mover.
"Funcionou?" sussurrou, sem ninguém para ouvir.
Ninguém respondeu. Apenas o silêncio—e o cheiro de terra queimada.
Ele esperou. Segundos virando eternidade.
Então—um chiado.
O plug se abriu com um estalo, preenchido pelo ar frio do entardecer.
Uma mão surgiu.
O rosto de Asuka apareceu acima dele, sorrindo com sarcasmo, emoldurada pelos últimos raios do sol.
"Tsc. Aproveitou a soneca, Selvinha?"
O sorriso largo de Kai dizia mais do que qualquer palavra.
Atrás dela, Shinji e Rei estavam de pé, seus Evas imponentes nas sombras—desligados, danificados, mas de pé.
Adiante, o cadáver contorcido de Matarael jazia sobre a cidade arruinada, sua forma grotesca finalmente imóvel.
Acima, as primeiras estrelas perfuravam o céu violeta.
Por um momento, ninguém falou nada.
A cidade estava silenciosa, ferida, mas viva.
Kai se deixou cair na grama, soltando um suspiro trêmulo.
"A gente conseguiu," murmurou.
Olhou para os quatro juntos, deitados na grama, no topo da colina, olhando as estrelas, com Tokyo-3 silenciosa e completamente escura no horizonte—marcada, mas ainda de pé.
Capítulo 124: Luzes Dispersas / Perguntas Silenciosas
O topo da colina oferecia vista para o esqueleto quebrado de Tokyo-3, quieta e imóvel sob o céu aveludado.
Kai estava deitado na grama, olhando para as estrelas que começavam a surgir. A terra estava fria sob suas costas, o ar pesado com o cheiro misturado de concreto queimado e chuva distante.
Ao seu lado, Shinji descansava em silêncio, braços dobrados sob a cabeça, os olhos perdidos nas estrelas. Rei sentava-se um pouco afastada, as pernas dobradas sob o corpo, encarando o céu sem piscar. Asuka estava largada por perto, os pés cravados na grama, as mãos atrás da cabeça como se fosse dona de toda a colina.
Por um tempo, ninguém falou.
Sem ordens. Sem alarmes. Sem pressão.
Apenas a vastidão do escuro, e as estrelas, brilhantes e nítidas sem o brilho artificial da cidade.
Shinji quebrou o silêncio primeiro, a voz suave, pensativa:
"Ei… o que vocês acham que os Anjos são?"
Asuka virou a cabeça, franzindo a testa. "Por que você tá perguntando isso agora?"
Shinji deu de ombros, ainda olhando para o céu. "Eu sei lá. É que não faz sentido. Anjos são os mensageiros de Deus, não são? Então por que lutamos contra eles?"
Asuka gemeu, virando-se de lado para encará-lo. "Você é tonto, né? Dane-se o nome! Seres estranhos tão atacando a gente! Se você está num incêndio, tem que apagar o fogo, isso não é óbvio?"
Kai olhou para eles. "Ela tem razão. Normalmente é assim mesmo, mas... fico pensando se é porque somos diferentes deles."
Asuka bufou, arrancando uma folha de grama e torcendo-a entre os dedos. "Tsc. Que diferença faz? Seja lá qual for o motivo, sobra pra gente limpar a bagunça."
Shinji franziu a testa, pensativo. "Talvez... talvez importe porque, se soubéssemos, a gente não lutaria no escuro. Talvez exista um motivo... um mal-entendido."
Rei falou suavemente, quase inaudível. "O conflito nasce da existência. Enquanto houver vida, haverá oposição."
Os minutos se estenderam, uma paz rara e frágil os mantendo juntos.
Então Shinji falou de novo, a voz mais baixa, quase maravilhada:
"É incrível como as estrelas ficam muito mais bonitas... quando não tem eletricidade nem luz artificial, não é?"
Kai virou a cabeça na direção dele, sorrindo de leve.
Asuka bufou. "É, mas sem as luzes, a cidade parece abandonada."
A voz dela não tinha o tom agressivo de sempre. Havia algo mais suave ali, quase relutante.
Os minutos passaram, uma paz silenciosa envolvendo o grupo.
Então, ao longe no horizonte, uma luz voltou a brilhar.
Postes de rua piscaram. Sinais de emergência se acenderam. O brilho artificial de Tokyo-3 começou a rastejar de volta à existência, engolindo as estrelas uma a uma.
Asuka se sentou um pouco, tirando a grama do cabelo.
"Pronto!" disse, com um leve sorriso. "Eu me sinto bem melhor assim."
Rei, com a voz calma e distante, disse:
"O homem sempre teme a escuridão, e então abre caminho com o fogo."
Kai piscou, surpreso.
Asuka deu uma risada. "Nossa, que filósofa!"
O olhar de Shinji permaneceu fixo nas luzes lá embaixo.
"É isso que faz os humanos serem uma espécie tão diferente das outras?" disse ele, quase para si mesmo. "Será que é por isso que os Anjos nos atacam?"
Asuka revirou os olhos e se largou de novo na grama.
"Você é um otário mesmo, né? Não tem como saber isso."
Kai observava as nuvens finas passarem pelo céu, pensando nas batalhas, no olho choroso de Matarael, na escuridão que quase os engoliu e na luz que brilhou quando Asuka abriu a escotilha.
"Talvez," disse baixinho, "toda a luz de que a gente precisa venha… uns dos outros."
Asuka gemeu teatralmente. "Ótimo. Agora o Selvinha também tá ficando filosófico."
Kai riu baixinho, mas as palavras ficaram—pesadas e reais.
Ao redor deles, Tokyo-3 lutava para voltar à vida, mas ali, naquela colina, parecia outro mundo por completo.
Esta noite, as estrelas brilharam.
Capítulo 125: Rede Quebrada / O Brilho Pós-Batalha
Logo após a volta da energia, equipes de resgate chegaram—refletores cortando a escuridão, helicópteros roncando à distância. Veículos subiram pelas ruas destruídas para recolher os pilotos—bastante cansados, mas vitoriosos.
As equipes médicas agiram rápido, mas com respeito, verificando sinais vitais, oferecendo cobertores, conduzindo-os até os caminhões que os levariam de volta à NERV.
Na base, o centro de comando pulsava com energia recuperada.
Misato os esperava de braços cruzados, mas havia um raro orgulho genuíno em seus olhos.
"Vocês foram incríveis lá fora," disse ela, a voz carregada de emoção que não se deu ao trabalho de esconder. "Incríveis mesmo. Vocês se adaptaram, mantiveram a formação e derrubaram um Anjo sem apoio do comando, sem defesa da base, e durante um blecaute geral na cidade. Isso é... algo de que devem se orgulhar."
Ritsuko, ao lado dela, batia o tablet no braço, pensativa. "A vulnerabilidade de Matarael era na parte inferior. Virá-lo expôs segmentos mais fracos sob seu exoesqueleto. A estratégia de vocês—embora caótica—foi eficaz."
Kai sorriu, cutucando Asuka levemente com o cotovelo. "Então ele tinha barriga mole mesmo, hein? Igual a um insetão de verdade. Todo crédito pra Asuka e sua presença de espírito."
Asuka piscou, momentaneamente pega de surpresa pelo elogio direto. Por um instante, seu olhar afiado se suavizou, mas ela logo escondeu isso atrás da arrogância treinada, revirando os olhos de forma exagerada. "Hah! Óbvio," bufou, recuperando a confiança. "Se eu tivesse esperado por uma ideia de vocês, ainda estaríamos lá parados, derretendo."
Ritsuko deu um raro, quase imperceptível sorriso. "O ajuste tático foi a decisão correta."
Kai se inclinou um pouco à frente, a testa franzida. "Mas falando sério, o que diabos aconteceu? Um blecaute geral durante um ataque de Anjo? Como isso é possível?"
Misato tocou um painel na parede, exibindo leituras de energia espalhadas—dados caóticos em vermelho sobre o mapa de Tokyo-3. Depois suspirou, a tensão escapando do corpo.
"Aqui está o que aconteceu."
Ela apontou para o mapa—um esqueleto da rede elétrica de Tokyo-3, grandes áreas apagadas como tecido morto.
"Uma sabotagem. Atores desconhecidos invadiram os sistemas externos. Toda Tokyo-3 parou: elevadores, luzes, comunicação, defesa. A NERV ficou operando no modo mínimo de emergência, só suporte vital—sem armas, sem lançadores, sem vigilância. Por isso não conseguimos nos comunicar. Também lutamos às cegas."
Kai olhou assustado. "Um ataque? Sem ser de Anjos?"
Misato assentiu. "Estávamos tentando religar tudo enquanto vocês lutavam. Demorou mais do que esperávamos, mas agora está resolvido. Vocês não precisam se preocupar com isso. Deixem esse problema conosco."
Ritsuko cruzou os braços. "Felizmente, os Evas sofreram apenas danos externos mínimos. A integridade da armadura da Unidade-04 sofreu um pouco por causa do ácido, mas no geral, todas as unidades seguem operacionais."
Misato olhou para cada um deles, a voz firme, calorosa:
"Vocês sobreviveram porque se adaptaram. Porque confiaram uns nos outros. E porque não desistiram."
Kai olhou para o lado—para o rosto determinado de Shinji, para a calma impenetrável de Rei, para o olhar desafiador de Asuka.
Sentia orgulho de estar entre eles.
Misato sorriu. "Agora vão descansar. Vocês merecem."
Caminhando em direção aos chuveiros, Kai notou como os quatro estavam calados. De certo modo, um ataque hacker na rede elétrica durante uma batalha de Anjo parecia só mais um dia qualquer.
Depois de hoje, sentia que podiam enfrentar qualquer coisa que o mundo jogasse em cima deles.
Ele sorriu para Asuka. "Tenho que admitir, você foi tããão fodona naquela hora do `vamos virar o Anjo de cabeça pra baixo'! Me deu até arrepio!"
Asuka deu um sorrisinho, parando na entrada do vestiário. Jogou o cabelo para trás com dramaticidade e disse:
"Tsc. Claro que fui! Diferente de você, que parecia uma barata voadora quando levou aquele tapão no ar!"
Kai riu, levantando os braços teatralmente. "Ah, qual é! NINGUÉM esperava aquele ataque giratório do nada!"
Asuka bufou com ar satisfeito, entrando no vestiário, a voz ecoando com um tom de vitória: "Desculpas, Selvinha! Só ouço desculpas!"
Kai só deu risada, sentindo o corpo mais leve.
Dentro do vestiário, Rei já retirava o plugsuit com calma metódica, indiferente à conversa ao redor. Asuka pegou uma toalha, mas hesitou ao olhar brevemente para Kai antes de virar abruptamente e seguir para o chuveiro.
Shinji suspirou, com um leve sorriso nos lábios. "É bom quando as coisas não dão completamente errado."
Kai sorriu de volta. "É inacreditável o que conseguimos hoje."
Sob o jato quente do chuveiro, os pensamentos de Kai vagaram. A batalha fora difícil, mas vitoriosa, e o mais importante: sem interferência da Unidade-04. Ainda assim, algo novo pesava em sua mente—o livro que Rei havia mostrado mais cedo, `A Teoria da Complementação Humana'.
Sabia que Rei o levara até ali de propósito. A revelação silenciosa—de que ele não deveria estar ali—ecoava em sua mente, se entrelaçando à curiosidade pelo texto.
Ao terminar o banho, Kai sentia uma determinação renovada. Precisava dar outra olhada naquele livro antes de ir pra casa. As respostas que procurava podiam estar escondidas ali.
De volta à sala de comando, o clima era relaxado—muito diferente da tensão antes do combate. Misato estava esparramada, pés sobre a mesa, bebendo descontraída de uma lata de cerveja. Ao lado dela, Ritsuko examinava os dados da batalha em seu tablet inseparável.
Shinji já estava ali, prestes a ir embora, visivelmente mais tranquilo que o normal. Rei estava por perto, composta como sempre. Asuka entrou logo atrás de Kai, ainda secando o cabelo, chamando brevemente sua atenção.
Kai se aproximou dos amigos. "Já indo pra casa? Acho que vou ficar mais um pouco." Olhou discretamente para Asuka e acrescentou em tom mais baixo: "Quer ficar também e passar um tempo juntos?"
Asuka o encarou com desconfiança. "Você tá aprontando alguma." Ainda assim, deu de ombros. "Mas tá. Não tenho planos melhores mesmo."
Shinji suspirou baixinho, leve. "Boa sorte," disse, saindo junto com Rei, que partiu sem dizer uma palavra.
"Tchau, Shinji! Tchau, Rei! Até amanhã na escola!" Kai acenou, animado.
Virando-se de volta, Asuka cruzou os braços com expressão desafiadora. "Muito bem, Selvinha. Conta aí—qual é o plano de verdade?"
Capítulo 126: Páginas Proibidas / Contato Adiado
Kai virou-se para Asuka, sentindo uma estranha mistura de empolgação e nervosismo. "Não se preocupa, vai ser rápido. Só preciso fazer uma parada... na biblioteca."
"NA BIBLIOTECA?" A voz de Asuka subiu incrédula, os olhos arregalados de indignação. "Você fez esse mistério todo sobre `passar um tempo juntos', e vai me levar pra biblioteca?"
Ela gemeu de forma dramática, mas apesar das reclamações, não foi embora. Em vez disso, caiu no passo ao lado dele, com o ceticismo praticamente irradiando do corpo. "Espera. Isso é por causa do livro da Ayanami, né?"
Kai sorriu de leve, admirando a rapidez dela. "Claro que é sobre o livro da Rei! Não custa nada dar uma olhada, né?"
Asuka soltou o ar com força, claramente dividida entre irritação e curiosidade. "Tá bom, gênio. Mas se a gente for pego, é você quem vai ter que explicar porque tá bisbilhotando."
Silenciosamente, eles caminharam pelos corredores vazios da NERV, os passos abafados pelo piso polido. A biblioteca estava quieta, mal iluminada e deserta. Kai achou o livro rapidamente, exatamente onde Rei havia deixado. "Aí está. Se a Rei pode ler... por que a gente não poderia?"
Asuka revirou os olhos. "Isso é exatamente o que alguém diria antes de acionar um alarme."
Ele hesitou por um segundo.
Ignorando o sarcasmo dela, Kai estendeu a mão, segurou o livro devagar, e parou por um momento—esperando alguma resposta dramática de segurança.
Nada aconteceu. O silêncio continuou.
"Ou somos incrivelmente sortudos, ou a NERV é menos paranoica do que eu pensava," murmurou Asuka, olhando por cima do ombro dele. "Tá bom, abre logo. Vamos ver essa coisa esquisita."
O livro era simples, o título apresentado de forma direta:
‘A Teoria da Complementação Humana — Compilada conforme os Manuscritos do Mar Morto’
As palavras da primeira página gelaram Kai por dentro:
‘A humanidade existe em estado de separação, dividida pela forma e pensamento individuais. A origem do sofrimento é essa solidão, uma falha fundamental desde o surgimento da consciência. A Complementação Humana busca corrigir essa falha, eliminando as barreiras entre as almas.’
"Definitivamente papo de seita," murmurou Asuka, visivelmente incomodada.
"É," concordou Kai, a voz pesada com a revelação. "Mas... eliminar a individualidade pra acabar com o `sofrimento'? Ele nunca se importou nem com o sofrimento do Shinji, não foi?"
Asuka bufou, o semblante escurecendo. "Ele nunca ligou pro Shinji. Não tem como se importar com o da humanidade. Então qual é o verdadeiro objetivo dele?"
Virando as páginas, eles encontraram diagramas e anotações densas, até pararem numa seção chamada: ‘Anjos como Chave da Instrumentalização’.
"Ah, não," exclamou Asuka, alarmada.
O olhar de Kai fixou-se na imagem detalhada que dominava a página: uma rede complexa, identificada como ‘Árvore Sephirótica da Vida’. Um arrepio percorreu sua espinha. "Espera... acho que já vi isso antes... na sala do Comandante!"
Asuka o olhou com tensão. "Claro. Deve ser mais um símbolo místico que aquele desgraçado deve idolatrar."
Kai leu em voz alta, tenso:
‘Ao sincronizar os Anjos, torna-se possível erodir o Campo A.T., a barreira absoluta da alma. Conforme a sincronização se aprofunda, as paredes entre mentes individuais enfraquecem, permitindo acesso ao inconsciente coletivo. Assim, servem como recipientes para o colapso da identidade individual, iniciando o caminho para a unificação total.’
Sua voz baixou, inquieta. "Sincronizar os Anjos...? Será que quer dizer... os Evas?"
Asuka recuou, a compreensão tomando seu rosto. "É isso que ele quer fazer com os Evas? Transformar todo mundo numa consciência só?"
"Parece que sim," disse Kai, virando outra página com os dedos levemente trêmulos.
Outro trecho chamou atenção, direto e assustador: ‘O Condutor: Aquele Que Guiará a Evolução Humana’
Kai continuou lendo:
‘O Condutor: Um recipiente de origem humana, fundido com divindade, cujas escolhas determinarão a forma final da evolução humana. Por meio deste ser, as paredes entre todas as almas serão dissolvidas ou preservadas.’
Asuka e Kai trocaram um olhar carregado de entendimento.
Asuka parou, a voz em choque. "Pera. Então alguém tem que iniciar isso?"
Os olhos deles se encontraram, a mesma ideia atingindo os dois. Rei.
Os punhos de Asuka se cerraram. "Aquela boneca esquisita... ela é a chave. Ele preparou ela pra isso. Mas `fundida com divindade'? Isso quer dizer Anjos?"
Kai virou mais páginas. "Talvez a Rei seja a primeira opção... Mas lembra do arquivo do `Projeto Adão'? Dizia que o Shinji é um `Candidato Potencial a Experimento de Contato'. Acho que o Gendo está adaptando o plano... tentando garantir que minha presença não interfira."
"Claro. Se a boneca der defeito, ele pula direto pro Shinji," disse Asuka com amargura. "Promete a mamãezinha e o tonto entrega o planeta inteiro."
Kai hesitou. "Não acredito que o Shinji seria tão ingênuo... seria?"
Silêncio. Então Kai balançou a cabeça. "Não importa. Eu sou a `anomalia'. Talvez isso signifique que eu posso impedir."
Os olhos de Asuka brilharam com intensidade. "Ugh, você é tão convencido. Mas é... o Gendo não pode te controlar. Talvez isso assuste ele."
Kai refletiu. Um pensamento cruzou sua mente. "Mas... só por hipótese. E se eliminar a individualidade... realmente acabasse com o sofrimento? Unir todo mundo... seria bom?"
Asuka o encarou, incrédula. "Você tá brincando? Isso apagaria tudo que nos torna humanos. Você quer perder tudo o que você é? Tudo o que sou eu? Tudo o que nós..." Sua voz suavizou. "Você ainda seria... você?"
Kai a olhou com admiração mais profunda do que nunca. "Você tem razão. A vida pode... doer. Mas também pode ser linda e intensa. A gente só precisa..."
Ele encontrou os olhos dela, a voz baixa. "...achar as pessoas certas. E eu vou lutar pra proteger isso."
Asuka corou violentamente e virou o rosto. "Não fala essas coisas constrangedoras! Mas... bom. Pelo menos você não é burro o tempo todo."
A voz dela ficou mais séria. "A gente vai lutar, Kai. Seja lá qual for o plano do Gendo—vamos acabar com ele."
Ela se virou apressadamente em direção à saída. "Agora vamos sair daqui antes que—"
Passos ecoaram pelo corredor, interrompendo-a. Os dois congelaram. Kai olhou para Asuka—ela respondeu com um olhar que dizia claramente: Vamos. Agora.
Asuka agarrou o livro com rapidez, devolvendo-o exatamente no lugar, ajustando os outros volumes com precisão.
Os passos se aproximavam. Não havia tempo para fugir. Se alguém os visse exatamente ali, tudo estaria perdido.
O coração de Kai disparou. Agindo por puro instinto, puxou Asuka para perto, pressionando-a levemente contra a estante num canto. Seus olhos se arregalaram, o corpo rígido, a respiração presa. Antes que ela pudesse protestar, ele posicionou a mão suavemente entre seus rostos. Sussurrou com urgência: "Desculpa, eu sei que é clichê, mas só me acompanha!"
Ele fingiu beijá-la, por cima da mão.
Os passos entraram na biblioteca, diminuindo o ritmo. Kai sentia o coração batendo como um tambor. Eles tinham sido vistos.
Mas então, o indivíduo resmungou: "Tsc. Adolescentes," e seguiu adiante, os passos sumindo aos poucos.
Kai se afastou devagar, respirando com dificuldade. Um segundo depois, Asuka o empurrou com força, o rosto em chamas.
"QUE DIABOS FOI ISSO?!" ela sibilou, as mãos tremendo entre raiva e confusão. "Seu completo idiota! Isso foi coisa de filme ruim!"
Mas por baixo da fúria, Asuka estava claramente abalada, os olhos desviando. "Funcionou...?"
Kai olhou ao redor, confirmando que estavam sozinhos. Sorriu sem graça. "Acho que sim... desculpa."
Asuka bufou, virando-se parcialmente para esconder o rosto corado. "Tem mais é que se desculpar mesmo!" Cruzando os braços com força, murmurou: "Se tiver sido o Kaji, eu nunca mais posso aparecer na frente dele."
Kai a seguiu em silêncio até a saída, murmurando com um leve sorriso: "Talvez eu devesse ter te beijado de verdade."
Ela parou, girando com fúria. "O QUÊ?!" A voz dela subiu, o rosto ainda mais vermelho. "Não fala essas coisas em voz alta! Você—" tropeçou nas palavras, visivelmente frustrada. "Você me usou como se eu fosse uma distração qualquer!"
Mas por trás da raiva, havia algo mais—um sentimento que ela não conseguia encarar. Ela gemeu alto, empurrando-o com irritação confusa. "Cala a boca! Nunca mais menciona isso!"
Virando de volta, Asuka saiu em disparada, resmungando entre dentes, "Selvinha idiota... palhaçada de filme..."
Mas mesmo com todos os protestos, ela não negou o que ele disse. E isso deixou a verdade suspensa no ar, como algo ainda não resolvido.
Capítulo 127: Movimentos Silenciosos / Confiança Indefinida
Kai caminhava em silêncio atrás de Asuka, observando-a de longe. Seus ombros estavam rígidos, e o espaço entre eles vibrava com tensão. De vez em quando, ela resmungava irritada, mas sua postura revelava mais constrangimento do que raiva verdadeira.
Ele deu uma risadinha interna, pensando consigo mesmo:
Ela vai superar isso... eventualmente.
Asuka parou de repente ao chegarem a uma área mais movimentada da NERV, girando nos calcanhares para encará-lo, os olhos afiados e desafiadores. "Tá certo. A gente nunca mais fala sobre isso. Entendeu? Principalmente na frente dos outros."
Kai apenas assentiu, com um leve sorriso nos lábios.
"Tch," ela bufou, passando a mão pelo cabelo. "Tô com uma vontade absurda de socar alguma coisa agora."
Sem dizer mais nada, virou-se e saiu rapidamente, sumindo antes mesmo que Kai pudesse pensar em alcançá-la. Ele ficou ali por um momento, absorvendo o peso do momento, antes de seguir seu próprio caminho para casa.
O caminho de volta foi contemplativo. As luzes de néon de Tokyo-3 formavam um pano de fundo surreal para seus pensamentos, que oscilavam entre as revelações recém-descobertas e o calor ainda presente dos momentos que compartilhara com Asuka. Ao entrar no apartamento, foi recebido por um silêncio acolhedor.
O silêncio era um peso físico depois do caos do dia. Kai tirou os sapatos sem se importar onde caíam e foi até a sala. Cada músculo doía como se tivesse sido esmagado. Largou as chaves no balcão com um barulho alto demais para o ambiente calmo. Por um momento, apenas ficou encostado na parede, de cabeça baixa. O relógio digital no micro-ondas brilhava com o horário: 23h47.
Pensou em tomar um banho, se livrar do cheiro de LCL e da sujeira da batalha, mas só a ideia já parecia um esforço monumental. Em vez disso, desabou no sofá. Seu corpo parecia de chumbo, a mente enevoada, revivendo flashes do dia: um olho monstruoso e com lágrimas de ácido; o comando feroz de Asuka; o silêncio aterrorizante dentro do Eva sem energia. Estava quase adormecendo, o cansaço o arrastando para uma inconsciência necessária.
Até que o celular vibrou.
Kai olhou, esperando ver uma mensagem rabugenta e reconfortante de Asuka. Mas o coração disparou ao ler o conteúdo:
"Precisamos conversar. Agora."
Uma segunda mensagem apareceu em seguida:
"Vem sozinho."
O remetente: Kaji.
Um arrepio de incerteza percorreu Kai. Será que Kaji havia descoberto sobre o cartão de acesso? Impossível, nunca tinham sequer se falado. Talvez tivesse sido ele quem os viu na biblioteca? Seria uma conversa esquisita de "pai preocupado" sobre suas intenções com Asuka?
Suspirando, Kai respondeu:
"Onde?"
A resposta veio imediatamente: "Pátio ferroviário antigo. Armazém 3. Sem ser visto."
Kai hesitou por um instante, mas sabia que não tinha escolha. Guardou o celular no bolso e saiu de casa novamente, o coração batendo entre ansiedade e decisão.
O velho depósito ferroviário ficava na periferia de Tokyo-3, uma relíquia silenciosa de um tempo esquecido. Os trilhos enferrujados e os vagões abandonados pareciam sussurrar segredos nas sombras. Kai se aproximou do Armazém 3 com cautela, cercado por um silêncio opressivo.
Sob a fraca luz de uma única lâmpada suspensa, estava Kaji, encostado de maneira relaxada num contêiner enferrujado, as mãos nos bolsos da jaqueta. Ele não se virou quando Kai chegou, apenas esperou que o garoto tomasse a iniciativa.
"Senhor Kaji?" chamou Kai, a voz baixa, mas firme.
Kaji virou o rosto ao ouvir, um leve sorriso nos lábios. Tinha exatamente o ar que Kai imaginava—despreocupado, confiante, e impossível de decifrar. "Então você tem um mínimo de cautela," disse, divertido. "Bom. Não tinha certeza se você viria mesmo."
Apoiando-se ereto no contêiner, Kaji ficou em pé, o olhar afiado sob a luz industrial. "Nós ainda não fomos devidamente apresentados, né? Kai, certo? A mais nova incógnita da cidade."
A palavra ficou no ar: incógnita. Não era só um apelido. Era uma definição.
Kaji gesticulou para uma área mais escura do armazém. "Vamos conversar lá dentro. Longe de olhos curiosos."
Kai o seguiu, olhando ao redor. "Olhos curiosos?"
Kaji deu uma risadinha. "Você acha que só a NERV tá te observando? Que fofo."
Eles pararam perto de uma bancada cheia de ferramentas velhas. Kaji encostou-se nela com casualidade, o tom leve mas com algo mais sério por baixo. "Não perco tempo com o que não importa. E neste momento, você importa."
Kai ficou em silêncio, atento.
"Não sei o quanto a Misato te contou sobre mim," continuou Kaji, "mas digamos que eu tenho interesses além da NERV. Você já começou a perceber, né? Que isso aqui não é só sobre lutar contra Anjos. Que os Evas não são só armas. E o Gendo... o Gendo tá jogando um jogo só dele."
Kai hesitou. Não sabia quanto revelar. Kaji era inteligente, perigoso, e extremamente convincente. Mas também era o mesmo homem que viram confrontar Gendo nas imagens da câmera escondida. Isso valia alguma coisa.
Então entregou um pedaço da verdade. "Não sei muito sobre outras organizações além da NERV. Você quer dizer a SEELE? E sobre o Gendo... ouvi umas coisas esquisitas."
Kaji assentiu, sem surpresa. "Claro. Você é esperto o bastante pra ser cauteloso. Mas `coisas esquisitas' nem começam a descrever. O Gendo não tá só construindo armas. Ele tá construindo algo muito maior. E não tá fazendo isso sozinho."
Começou a andar devagar. "Você e eu? Somos peças no tabuleiro dele. Todo mundo é. Mas você não é como os outros. Você é uma variável. Uma anomalia."
Parou, encarando Kai.
"Não tô pedindo sua confiança ainda. Só tô dizendo: se você não quiser ser peão do Gendo, precisa começar a enxergar além do que te contam. Quando chegar a hora, eu posso ajudar—se você estiver pronto pra jogar."
Kaji aproximou-se, com um sorriso de canto. "Ah, e só pra constar... Eu notei que você andou se divertindo com meu cartão de acesso."
Kai congelou, olhos arregalados. "Ahn... sobre isso..."
O sorriso de Kaji se alargou, divertidamente impressionado. "Uau. Até agora, eu não tinha certeza de que tinha sido você. Bom trabalho, garoto. Fica com ele. Considere um presente de boa fé."
Sem dizer mais nada, Kaji virou-se e começou a caminhar em direção à saída.
"Obrigado... eu acho?" arriscou Kai.
Kaji não olhou para trás, mas levantou uma mão em despedida, sumindo nas sombras do armazém.
O silêncio voltou, pesado.
Kai ficou ali parado, tentando processar tudo. O encontro o deixou abalado. Kaji falava como quem enxergava o cenário inteiro, enquanto o resto ainda tentava entender as migalhas. Ele era confiável? Talvez sim. Talvez não. Mas havia verdade no aviso.
Somos só peças no tabuleiro do Gendo.
Kai caminhou de volta pela cidade, o ar frio contra a pele. Tentava afastar a tensão do encontro, mas as palavras de Kaji grudavam na mente. Que jogo era aquele, afinal?
Ao chegar em casa, caiu na cama e pegou o celular. Nenhuma mensagem de Asuka. Ficou pensando se passou dos limites.
Por enquanto, a noite estava calma. O perigo havia passado. Mas algo lhe dizia que aquela não seria a última vez em que se veria no escuro, se perguntando:
Em quem eu realmente posso confiar?
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