— Maria? Maria? Onde você foi Maria? Era pra ficarmos juntos...

Já era fim de uma longa tarde ensolarada, o tempo estava mudando, nuvens começaram aparecer no lindo céu azul, nuvens cinzas. O vento do oeste sibilava, a grande campina, onde um garoto de apenas sete anos corria, estava prestes a virar um grande pântano com a chuva que viria a seguir. O menino corria e corria, sem notar a mudança no clima, chegou à beira de um córrego, e lá encontrou Maria.

— Ahh Maria- disse com uma doce voz- achei que tinha lhe perdido.

Maria era uma linda borboleta azul, era um animal comum que não possuía nada de especial, além claro, de ser um lindo espécime. O menino brincou e pulou nas águas rasas do pequeno córrego, a borboleta se foi, o menino não viu por onde. Quando se deu conta que o sol já estava sumindo e a lua aparecendo, o menino saiu correndo para voltar à casa de onde veio. Ele voltou correndo pela grande campina de vastas plantações de trigo. Quando chegou na encruzilhada que levava à sua casa, à cidade, à plantação e para uma gigantesca floresta a qual os moradores locais nunca iam, o menino seguiu para o Leste e chegou na pequena casa onde morava.

— Mãe!?- chamou com uma voz levemente preocupada, pois normalmente sua mãe estaria no único cômodo da casa- Está nos fundos? Tenho uma coisa para te contar, hoje eu fiz um amiguinho...

Quando o garoto abriu a porta dos fundos ficou paralisado, ele viu sua mãe com as duas mãos amarradas e as duas pernas abertas e esticadas com uma corda sob uma grande mesa de pedra, junto a ela estava três homens de estatura alta, roupas de couro e armados. O fato de estarem armados foi o que mais preocupou o garoto, sua mãe era chamada de bruxa por todos na cidade, e ele havia visto ela deitada e amarrada daquela forma. Inclusive ele mesmo já a ajudou amarrar algumas vezes. Normalmente quando isso acontecia, a mulher estava ajudando os moradores com algum feitiço que apenas ela sabia, mas sempre os moradores estavam desarmados, foi a primeira vez que ele viu espadas tão de perto.

— Vamos mulher!! – Gritou um dos homens, muito bravo.

— Não temos mais tempo, se você não fizer isto agora, minha filha vai morrer e se isso acontecer você morre!! – disse outro ainda mais bravo que o primeiro.

— Para completar o ritual, eu preciso dos ingredientes, já disse, enquanto eu não tiver um coelho, três folhas de macieira e um pedaço de algo que sua filha mais ama, não poderei cura-la. – disse a mulher em um tom de tranquilidade.

Enquanto isso, o garoto voltará para dentro da casa e olhava de fininho pelas frestas.

— Maldição, não tem coelhos por aqui, há anos ninguém vê nenhum coelho por aqui. Deve ter outro jeito, eu sei que você consegue fazer isso sem o maldito coelho sua bruxa.

A chuva enfim chegou, e junto com ela alguém abriu a porta da frente. Era um outro homem, este, porém, não portava espada e utilizava uma camisa de pano branco e uma calça marrom de couro e botas pretas. O homem era o irmão mais velho do garotinho, e quando olhou pela janela, a qual o garoto não alcançava, viu aquela cena e rapidamente foi para fora.

— Posso ajudar meus amigos?!! Que tal um pouco mais de educação na casa dos outros, vamos!! Retirem suas espadas e coloquem naquela mesa.

— Perdeu a noção moleque? Sabe quem somos? E se não o fizer? – falou um dos homens, o mais irritado.

— Bom, temo que isso vai acontecer de uma forma ou outra, aconselho que seja da forma como falei, caso o contrário...

— O quê?? – interrompeu o terceiro homem, que estava calado- vai nos obrigar? Acho que não estais em condição de fazer algo do tipo. – Este ao se virar, mostrou um grande medalhão de ouro que tinha um símbolo, algo que só o irmão mais velho reconheceu.

— Olha só, parece que temos um nobre aqui, não é como os outros dois vermes, ótimo -disse o irmão com tom de impressionado- Porém, mesmo assim tenho que pedir para os três retirarem as espadas e colocarem na mesa, até você nobre senhor.

— Quanta bobagem! – Um dos homens retirou sua espada da bainha tão rápido que só se pode notar o tilintar de metal roçando da espada à bainha. O homem o atacou. Por uma fração de segundo o irmão mais velho desviou o golpe, fez um sinal com as mãos e do nada, o homem que avançou saiu voando 5 metros para trás. – Que porra foi essa? Ele é um bruxo!! Senh... Senhor temos que matá-lo, a vadia teve um filho mágico. – Ao dizer isto, o homem desmaiou.

— Hendrick vai embora. – disse a mulher levantando a cabeça para enxergar o filho mais velho.

— Esse desgraçado deve morre – disse o nobre, e avançou junto com o outro homem em direção a Hendrick.

Tudo aconteceu muito rápido, Hendrick ao ver os inimigos avançando, pulou em cima do telhado. Ao ver isso, os homens se espantaram e falaram algum palavrão, um deles pegou uma pedra do chão e à arremessou. Hendrick desviará, vez o mesmo sinal com a mão e a pedra voltou e acertou a cabeça do homem, fazendo com que ele perdesse a consciência e caísse no chão.

— Maldito!! – disse o nobre, que saiu correndo pela casa, sem notar o garotinho, sai pela porta da frente e correu pela estrada.

— Hendrick!!! – gritou o garoto, olhando pela janela da frente.

Hendrick mais uma vez fez o sinal com as mãos, mas esse era diferente, a terra da estrada onde estava o nobre tremeu feito um terremoto, abriu uma fenda e engoliu o homem como se estivesse faminta. Descendo do telhado, Hendrick se juntou ao irmão caçula e ajudou a desamarrar as tiras e cordas que prendiam a mãe.

— Até que enfim, achei que teria que passar horas aqui deitada. – disse a mulher como se nem tivesse ligado pelo o que aconteceu – aqueles homens, eram homens do rei, parece que eles se acham meus donos, ai ai, vamos garotos, vamos comer.

Este foi o dia em que Eustáquio, aos sete anos, viu uma espada pela primeira vez, e porquê lhe conto isso? Bom, Eustáquio foi o melhor guerreiro de toda ilha, era uma ilha pequena, mas ainda sim uma ilha, com quatro grandes capitais. A família de Hendrick e Eustáquio, era diferente, era uma em que todas as mulheres eram bruxas, uma coisa normal de se acontecer, não havia homens bruxos, Hendrick foi o primeiro em centenas de anos. As bruxas eram mulheres tocadas pela deusa Gralha, a deusa das maldições, mas ser uma bruxa só poderia ser considerado uma maldição de no local em que elas vivem elas são caçadas pela Ordem dos Caçadores. Caso vivessem em um lugar sem a influência da Ordem, era com certeza uma dádiva, tanto para elas próprias como para os vilarejos e cidades próximas. As bruxas eram versadas nas artes da magia, eram as únicas que conseguiam controla-las. Isso era usado para se tornarem curandeiras e profetizas, claro, sempre pediam uns trocados pelos serviços. Os rituais eram desconfortáveis, pois a bruxa tinha de ser sacrificada, mas voltava a vida um dia depois. Quando uma bruxa, engravidava de um homem nascido exatamente a meia noite, da última lua cheia do ano, seu filho também seria um bruxo, isto é versado nas artes da magia, mas bruxa e bruxo são diferentes. O bruxo, ao contrário da bruxa, não era um curandeiro ou profeta, era uma pessoa que conseguia dominar os quatro elementos da natureza apenas com as mãos, e tinha força sobre humana, podendo saltar vezes a mais que um homem normal, e com certeza carregar quilos a mais que um homem normal. Por serem raros, a sociedade resolveu que quando um bruxo nascesse, ele deveria morrer, pois o exército que possuísse um bruxo, seria invencível, Hendrick estava sendo escondido pela mãe, que pretendia manda-lo para o norte quando ele atingisse vinte primaveras vividas, neste dia, ele já tinha vivido dezenove primaveras.

— Eustáquio, o que você quer ser quando crescer? – perguntou Hendrick, curioso.

— Bem, eu queria ser um guerreiro, talvez lutar pelo rei, ele parece ser um cara legal.

— Como pode achar isto? Sendo que nunca o viu. – perguntou Hendrick, ainda mais curioso.

— Ele envia comida para mamãe, e as vezes mulheres para você – disse com um leve olhar de desconfiança para Hendrick.

— Ha ha ha, é verdade, mas isso não torna ninguém necessariamente legal. Eustáquio, você tem que entender que o rei faz estas coisas por interesse, ele sabe que a mamãe ajuda a cidade com suas curas, e sabe que se não fizer estas coisas, a mamãe vai para outra cidade.

— O que estão cochichando meninos? – disse a mãe, abrindo a porta da casa.

— Nada, só imaginando o que Eustáquio seria quando crescer.

— Isso é bom, imagina só meu menininho vermelho sem rumo na vida. Seria um desastre. – A mãe o chamava de menininho vermelho por conta de seus cabelos ruivos, que herdou do pai que nunca conheceu.

— É isso ai!! Serei um grande guerreiro, e lutarei por um rei, se ele for legal. – disse o menino entusiasmado.

Eustáquio estava certo, seria um grande guerreiro, e lutaria por um rei de fato, pela morte de um rei, um rei que não era legal, um rei que não deu o valor devido a sua família, um rei que por todos os deuses, terrenos e divinos, deveria morrer.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.