Eu tentei
4 Pequenas sujeiras
Notas iniciais
Saga tinha um olhar distante. Mas ainda assim não expressou nada.
Aquilo me intrigava.
—E o que mais aconteceu?
—Ele... Bem...
—Já chegou até aqui, está envergonhado por algo?
—Não. Na verdade... Não sinto vergonha.
—Então termine.
—- --
Certo, ele urinou em mim. No rosto, no peito... Urinou bastante. Riu satisfeito e depois de algum tempo ainda com um pé no meu saco, ele por fim comentou:
—Você foi perfeito, garoto. Perfeito.
—Preciso... Banho...
—Final do corredor a direita. Tem toalha lá.
Guilty sentou-se no sofá e começou a fumar enquanto eu me levantava. Não quis olhar o chão, me arrastei até onde ele tinha indicado e finalmente encontrei o chuveiro.
Não quis olhar no espelho.
Quando a água bateu na minha pele, ardeu na maioria dos lugares onde eu tinha sido pisado com mais força.
Não tanto quanto a urina, isso era fato... Mas ardeu mesmo assim.
E a água foi lavando as cascas de uva, de tomate... Os pedaços de mamão...
As formigas pisoteadas...
E o resto.
A medida que ia me ensaboando me sentia mais ardido e dolorido. E ainda assim, pensei que valera a pena.
Eu fui notado.
E comecei a me excitar ao pensar que poderia ser...
Ele me pisando.
Com os olhos fechados, pensei que aquela dor toda seria extremamente prazerosa se fosse ele a provocá-la. Achava que ele seria mais gentil... Mas ainda assim seria capaz de fazer uma coisa como aquilo.
Ao olhar para o chão do Box, pude perceber os restos das baratas que ele havia pisado em cima de mim.
Foi aí que a excitação acabou.
—- --
Saga me olhava. Parecia montar um quebra cabeça.
—E foi isso?
—Sim.
—Apenas confirme algo para mim: você sentiria prazer se fosse outro...
—Foi só um pensamento.
Saga tamborilava os dedos na mesa.
—Ele cumpriu a promessa?
Tossi. Só de lembrar essa parte, eu já sentia arrepios.
—Cumpriu. Mostrou o rosto.
—E como era?
—Era o diabo em forma de pessoa.
Pelo jeito que fiquei quieto, Saga entendeu que eu não tinha mais nada a falar. Parecia que Saori nem ali estava.
—Voltou a vê-lo depois disso?
—Algumas vezes.
—E ele pisou em você, esmagou mais insetos e repetiu o que fizera nesse primeiro encontro?
—Algumas vezes.
—Chegaram a ter um relacionamento?
—Não classifico assim. Encontrei-o, trocamos favores e pronto.
—Chama seu modo de agir de troca de favores?
Não queria responder mais nada.
—Muito... Ok, nos encontraremos em uma semana. Falarei com Saori agora. Tenha uma boa semana.
Só isso? Ele me dispensou assim, sem me recriminar ou indicar nada?
—Pode sair Ikki.
—Sim... Até... Breve.
Aguardei por alguns minutos até Saori aparecer. Ela parecia tranquila ao deixar a sala de Saga.
—Vamos indo, vou te dar uma carona.
—Vou para a academia. Está...
—Tudo bem.
Ela parecia distante, ficava assim quando estava no “modo profissional”.
—O que terei que fazer essa semana?
Saori limitou-se a me estender um pedaço de papel.
—Esse exercício.
Pareceu muito simples.
Pareceu...
—- --
Na semana seguinte eu estava cansado. Mesmo. Mas ainda assim fui para a consulta.
O exercício que Saga passara era relativamente simples. Eu tinha que me encarar todos os dias no espelho, três vezes por dia, e dizer em cada vez duas coisas que eu gostava em mim.
E anotar isso, se possível coisas diferentes a cada vez.
Já cheguei mais cedo no consultório, e assim que entrei me sentei. Saori pareceu mais camuflada a cada sessão, sequer a ouvia respirar.
Saga me encarou com um sorriso ao entrar na sala. Voltava com uma pasta na mão, abrira a porta, nos acomodou e saíra, voltando com um ar mais feliz do que o que tinha nos recebido.
—Fez o que pedi?
—Fiz.
—E como foi?
Confesso que não consegui muita coisa. Não era fácil achar em mim duas coisas que eu gostasse, quanto mais seis por dia. Quarenta e dois elogios era muito narcisismo.
—Não consegui muito. Repeti os primeiros.
Entreguei o papel a ele. Leu com calma e então cruzou as mãos no peito ao me encarar.
—Ikki, eu gostaria de saber por que você procura por atenção de pessoas desconhecidas.
Eu realmente achava que isso era óbvio.
—Ora... Eu gosto de ser notado.
—Não é necessário realizar fantasias de estranhos para ser notado.
—Esses encontros me dão uma atenção especial.
—Como assim?
—Ora... Quando eu faço o que querem, essas pessoas me notam... Me notam com atenção total. Eu viro, ainda que por instantes, o foco total delas. E gosto disso.
Saga me escutava.
—Só isso. Por isso digo que é uma troca, eu faço o que elas querem e elas me dão o que eu quero.
—Mera ilusão.
A voz dele soava como se fosse um professor contando uma mentira histórica. Pareceu que eu afirmei que o Brasil era colonizado pelos Norte americanos, e ele pacientemente me explicava que eu tinha que prestar atenção, afinal quem chegara primeiro tinham sido os Portugueses.
E ainda me mandara calar a boca, afinal nós tínhamos que estudar era história do Japão.
Entenderam como me senti menosprezado? Saga causava esse efeito em mim quando abria a boca.
—Desculpe?
—Mera ilusão. É surdo? Nos casos que você me contou até agora você foi apenas um objeto, um mero veículo para que eles atingissem o objetivo deles. Você foi tão irrelevante que provavelmente eles sequer se lembrariam de você se o vissem na rua, por exemplo.
Quem ele achava que era pra dizer aquilo?
—Há...
—Não concorda comigo?
—CLARO que não.
—Você fez o que eles queriam. Eles não viram você, Ikki. Viram apenas um qualquer que estava realizando um fetiche deles. Você não teve a atenção daquelas pessoas. Teve uma migalha de...
Essa era a hora em que eu queria desesperadamente arrebentar a cara do Saga.
—Uma migalha de vislumbre. E nesses três casos, de pessoas bem incomuns. O que te bateu, o que vomitou e o que te pisou. Sabe o nome dos fetiches deles, ao menos?
Eu lá imaginaria que aquilo tinha nome?
—Emetofilia é uma parafilia...
—Para o que?
—Parafilia. Desejos ou transtornos sexuais, a nomenclatura ainda não foi bem definida. A emetofilia é o fetiche em que as pessoas sentem desejo sexual por vômito. Acham que ele revela a verdadeira identidade do parceiro, mostra sua natureza interna...
Pisquei algumas vezes.
—Sério?
—Geralmente os dois vomitam juntos. O que não foi seu caso. Já o outro caso é um fetiche ainda.
—Qual deles?
—Do inglês, “Crush” é literalmente esmagar. Num geral os adeptos do “crushismo” gostam de pisar nos parceiros. E em pequenos insetos, ou alimentos... Coisas que possam ser esmagadas. Em um grau mais leve, pisa-se nos testículos. Acidentes são comuns nessa prática. E o rapaz da máscara exibia ainda um leve grau de dominação, óbvio.
Seria possível que eu me envolvera nisso sem pensar que essas coisas eram tão... Estranhas?
—Já o homem que te agrediu obviamente tinha problemas além do fetiche. Querer te ver usando roupas do sexo oposto é considerado até normal. Mas a forma de subjugar e agredir denota um comportamento psicótico. Claro, se demorasse mais um pouco você poderia ter sido morto. Teve sorte em escapar dessa vez.
Engoli em seco.
Céus.
—Reparou no que as três histórias tem em comum?
Honestamente? Não tinha reparado não. Mas Saga sequer permitiu que eu respondesse.
—Nas três histórias você foi o objeto. Apenas isso. Em duas saiu machucado, quase que uma espécie de punição que você se permitiu por se achar... Merecedor de um castigo.
Engoli em seco.
—O rapaz do vômito sequer pediu que você vomitasse nele. Por que ele não se interessou em ver a sua natureza. Ele queria ver a dele em outra pessoa, e ver a reação que isso causaria. Você foi tão irrelevante que ele sequer quis o contato sexual, que é uma demonstração ou busca por intimidade... Limitou-se a se esfregar e ficou satisfeito. Agora, segundo as suas palavras, ele era feio, certo?
—Sim.
—Existe um nome dado a atração por pessoas feias.
—Existe? Espera, isso também é classificado como...
— Unatractifilia. Pessoas consideradas feias, fora dos padrões, com alguma deformidade congênita, ou por exemplo, grandes cicatrizes, deformidade óssea, coisas do gênero. Não há problema na atração em si, mas sim no que ela representa no seu caso.
—Meu caso?
—Quero que me relate mais encontros. Parece que você segue um padrão, mas anda inconsciente disto. Você tem mais histórias que considera incomuns para me contar?
Tive que esperar uns segundos antes de responder. Eu fiquei meio confuso com aquilo.
Curioso na verdade. Em saber se as outras... Situações tinham um nome próprio também.
Se tivessem, o que será que diriam de mim no final das contas?
—Ikki?
—Eu... Bom, teve... Teve outras coisas sim, mas eu sempre...
—Sempre achou normais? No ponto de vista da troca de favores?
—Isso.
—Pois bem... Me conte mais uma hoje. Comece quando se sentir confortável.
Deitei e olhei para o teto. Demorei um pouco, mas quando Saga chamou minha atenção, me senti incomodado.
—Não tem mais nada, ou está tentando ver o que é menos pior para falar?
—Tem muita coisa, mas eu nem sei...
—Não me importo com qual seja. Conte qualquer coisa.
Qualquer coisa... Qualquer coisa...
Hum.
Ok.
Uma coisa bem “coisa” então.
—- --
Eu estava meio atordoado na verdade. Fora uma semana complicada no trabalho e fora dele.
Ele malhava na academia, mas era irregular. Tinha semanas que ia todos os dias, outras sequer aparecia. Isso não afetava seu corpo e como eu o achava perfeito, mas ficar sem a presença dele me deixava nervoso.
Despretensiosamente comentei com Shun a ausência dele. Fui informado que ele tinha ficado gripado, por isso sumira aqueles dias.
Minha vontade era cuidar dele.
Entendam, não sei quando e nem sei ao certo o porquê, mas ele se tornou a pessoa mais importante da minha vida. Ainda que nem ele e nem ninguém soubesse o tamanho do meu sentimento, céus... Eu faria qualquer coisa pra ele.
Qualquer coisa.
Mas eu não dispunha de tamanha liberdade... Tentei me aproximar, mas fui gentilmente afastado.
Eu me sentia péssimo quando isso acontecia. Precisava desesperadamente mudar o foco senão faria uma besteira.
Não conseguia me suportar.
Resolvi ir a um bar. Beber um muito, era a verdade, espairecer...
Esquecer dele.
Mesmo sabendo que era impossível. Mas eu poderia ao menos tentar.
Fui a um bar qualquer. Gente esquisita, música ruim, cheiro mais ou menos suportável e pronto. Pedi o que tivesse de mais forte, e logo menos as coisas ficaram mais leves.
Aí começou.
Tinha um cara espirrando muito por ali. Toda hora tossia. Ao procurar quem estava daquele jeito, por que na boa, aquilo estava me dando nos nervos, bati os olhos em um anão.
Ele não devia ter mais de 1,40 m. Era careca, tinha os dentes espaçados, e a cabeça era de um formato estranho, meio chato. Ele resmungava cada vez que tossia, sentado em um canto afastado. Mesmo com a música ruim alta dava pra ouvir os sons chiados que ele fazia.
E o nariz, que eu preciso salientar que tinha narinas estranhas, largas e meio grandes, exibia um rastro brilhante de secreção.
Pedi uma dose de conhaque e me aproximei dele, depositando a bebida a sua frente.
—Junto com limão e alho dizem que é um bom remédio pra gripe.
—Não te perguntei nada.
Ri do jeito zangado dele.
—O baixinho é bravo. Toma aí, por minha conta. Pra ver se para de incomodar quem tá aqui tentando se distrair.
Ele me olhou de um jeito desconfiado.
—E por que você está me dando isso?
—Só fazendo a boa ação do dia.
—Não preciso da sua boa ação.
—Há, qual é. Só to tentando não quebrar sua cara por causa dessa barulheira chata. Toma aí.
—Não posso. Estou aqui a trabalho.
Que coisa mais enjoada.
—Trabalho?
—É. Meu chefe quer que eu fique de olho nuns caras... E eu nem sei por que. Ele não me deu uma explicação.
Fiz cara de interessado e a conversa rolou. Claro que ele falou pelos cotovelos e eu só ouvia.
Maldita bebedeira.
Não pergunte como, eu não sei, mas em determinado momento eu acabei me vendo com ele aos beijos em um quarto de motel barato.
Com certeza era culpa do álcool.
Pelo menos eu queria pensar que era culpa do álcool. O olhar de Saga era indecifrável enquanto eu narrava.
—- --
—Você vai me dizer agora que ficou com um anão gay e doente?
—Não pediu que eu contasse?
—Sim. Pedi, eu sei o que te falei. O que me impressiona é que seu jeito de contar demonstra que você não se sentiu incomodado com isso.
—Não. Na verdade não me senti.
—Certo... Prossiga.
—- --
Em meio aos beijos, lembrei que sequer perguntara o nome do pequeno.
—Como você se chama mesmo?
—Markino.
Ri. Achei aquele nome engraçado.
—Qual a graça?
—Nenhuma, nenhuma... Eu nunca... Nunca fiquei com...
—Um anão?
—Isso.
—Não vou deixar a desejar só...
Atchim.
Ele deu um espirro forte. Nem teve tempo de cobrir a boca.
—Desculpa, eu...
Foi instintivo, sei lá. Tirei a camisa e pedi:
—Quando for espirrar, espirra em mim.
Os olhos do pequeno brilharam.
—Você é louco?
—Que é? Qual o problema?
—Quer que eu espirre em você?
—É, me deu vontade de sentir como é.
Ele me olhava em dúvida, isso eu lembro bem.
—Qual é, não tem nenhum fetiche? Alguma vontade que venha assim, de cara?
Ele corou por um segundo.
—Há, eu sabia. Fazemos assim, você realiza uma fantasia minha e eu realizo uma sua. Já estamos aqui mesmo.
—Por quê?
—Por que o que?
—Por que você está aqui, comigo? Digo... Olha pra mim e olha pra você...
Óbvio que era pelo álcool, pela minha carência...
Mas ele não precisava saber disso.
—Por que eu gosto de realizar fantasias, isso me dá tesão. Vai, me diz o que você gosta.
Pra que eu perguntei...
—- --
—Mais um rapaz feio.
—Tem algum problema?
—Não é hora de falar que o fato de você não ver o problema já é um grande problema por si só. Continue. Quero ver onde isso vai dar.
—- --
Lá estava eu, deitado na cama. Encarando o espelho do teto do quarto.
Só de cueca, enquanto Markino se masturbava em cima de mim.
Sentado no meu rosto.
Confesso que o cheiro era desagradável. Algo meio azedo misturado com fezes de cachorro. Pensei seriamente quando ele sentou na minha cara se ele não esfregara cocô de cachorro na própria bunda.
Associei esse pensamento ao álcool, óbvio.
As perninhas dele eram meio tortinhas. Ele era peludinho, e um tanto quanto estranho. Pedi que não segurasse os espirros e se possível quando tossisse cuspisse em cima de mim.
E ele atendeu, ainda que meio ressabiado. Ficou envergonhado por que além de tossir e espirrar ele também...
Bem...
Ele peidou na minha cara. Inúmeras vezes.
Eu fiquei excitado sim, confesso, cada vez que ele espalhava o catarro pela minha pele. Por que eu imaginava que era o catarro dele.
Fechei os olhos e pensei nele, enquanto o anão se masturbava, rebolando na minha cara, esfregando a bunda com vontade e peidando. Eu o lambi enquanto fazia isso, era essa sua fantasia.
Aliás, parte dela era esse beijo grego.
Ele não esperava por aquilo naquela noite, muito menos eu. Estava ali, realizando uma fantasia pra um desconhecido...
Bem, ele não estava muito limpo lá na região, se é que me entendem. Fiquei com nojo? Sim, mas eu já tinha começado, não ia voltar atrás.
E pra todos os efeitos, os resquícios que havia por lá nem marrons eram. Eram esbranquiçados.
Enfim, ele se contorcia todo, berrava e eu sentia suas perninhas curtas tremendo de excitação. Ele realmente se esforçou em me compensar.
Quando ele gozou, saiu rápido de cima de mim e foi ao banheiro. Pude ouvir o chuveiro sendo ligado e me permiti por cinco minutos aproveitar a sensação.
—- --
—A que sensação você se refere exatamente?
—A... A sensação de que poderia ter sido ele a ter feito aquilo comigo... Ele poderia ter me permitido tocá-lo de forma íntima... E teria sido maravilhoso.
Saga me encarava sem nenhum sentimento que pudesse ser lido em sua expressão.
—Ele é especial para você, não?
Pior que no calor da conversa, soltei sem querer:
—Mais do que especial.
—E pensando que ele estava ali com você, se sentia satisfeito?
—Sim, bastante.
—Entendo...
Saga considerava algo enquanto fazia anotações.
—Você ficou com nojo?
—Sim.
—Mas seguiu em frente.
—Não sou de recuar quando inicio algo.
—Espero que isso seja verdade.
Saga anotava algo e pareceu me ignorar por completo enquanto fazia isso. Após alguns longos minutos, resolvi interromper seus pensamentos.
—Bem, depois disso...
Então ele que me interrompeu.
—Não me interessa saber mais nada desse caso. Já basta um anão gay te sujar com muco e peidar na sua cara. Já percebi que você não tem noção ou limites quando se trata de suprir essa carência desequilibrada.
Aquilo me deixou sem palavras.
Saga falava como se eu fosse maluco ou coisa do tipo.
—Ikki, vou passar um exercício novo e dessa vez quero que só volte se conseguir fazê-lo corretamente. Se não, nem precisa se dar ao trabalho de retornar.
—Desculpe?
—Eu o atendi por que Saori me pediu. Mas não vou ajudar quem não quer ser ajudado. Percebo claramente que você não queria estar aqui, só o faz por algum tipo de obrigação.
Saori nem parecia estar ali. Queria ver se ao menos ela ficou vermelha.
—Se fizer o exercício que será passado, eu entenderei que você está compromissado com o tratamento que pretendo iniciar e quer ajuda por que entendeu que está doente e precisa dela. Do contrário, não gaste nem o meu nem o seu tempo.
Confesso que fiquei surpreso. Até onde eu imaginava, nenhum profissional de saúde deveria tratar um paciente daquele jeito.
Sem me virar eu podia sentir a presença de Saori de forma opressora. Minha primeira resposta seria um bom e velho “foda-se”, mas...
Eu devia a Saori. Pensar em desobedecê-la naquele aspecto estava fora de questão.
Eu já a “desafiava” demais quando recusava seus conselhos sobre a administração da academia ou nas outras reuniões com sócios, e ela sempre fez vista grossa. Mas como ali a questão era como minha saúde e bem estar físico e mental estavam sendo afetados, ela se manteria irredutível e eu não era tolo de contrariá-la.
Por que afinal de contas, ela detinha meu maior segredo e conhecia meu lado mais escuro.
Já pensou se ela resolvesse, num momento de raiva ou despeito, expor algo? Ou comentar assim, displicentemente como quem não quer nada coisas que os outros começassem a prestar atenção?
Não, ela era minha amiga antes de tudo, minha aliada. Era quase uma deusa, tamanho zelo e cuidado comigo e com os outros.
Por esse senso de gratidão e respeito, eu me comportaria conforme o esperado.
—O que... O que tenho que fazer?
Saga sorriu. Um sorriso um tanto quanto debochado na minha opinião.
—Vai se consultar regularmente com Saori, um dia antes das consultas comigo. E além do exercício novo, vai refazer o dessa semana que passou. Espero que entenda que isso não é uma brincadeira.
Queria MUITO dar um bom soco nas fuças daquele arrogante de merda. Que tom mais... Argh.
—Entendo sim.
—Muito bem. Uma pergunta mais antes de encerrarmos.
—Diga.
—Em algum desses encontros mais recentes você se machucou?
Senti uma gotinha de suor escorrendo pela minha testa.
—Machucou como?
—Reformulando: seu parceiro te machucou?
Tossi.
Saga aguardava minha resposta.
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