Eu tentei
17 A espécie da serpente
Notas iniciais
O mais impressionante foi que Saga bloqueou o chute dela com o braço, e com o outro aplicou um soco na parte interna da sua coxa, fazendo com que Pandora caísse de maneira desengonçada no chão.
—Não pretendo machucá-la, acalme-se.
—Não pretende... Você quase acabou com a minha vida, seu maldito traidor.
—Pandora, o que diabos está fazendo aqui? E por que está atacando o...
Saga arregalou os olhos e meneou a cabeça negativamente para mim. Não entendi aquilo, e vi Pandora se levantar, ainda irritada e encarando Saga com o olhar assassino.
—Eu soube que você saiu da festa daquela maldita patricinha em uma ambulância. Obviamente fui informada do local que o trouxeram e vim checar pessoalmente o que houve. O que me surpreende é que ao chegar aqui para ver você eu dê de cara com esse maldito do Kanon.
Foi só aí que entendi o que Pandora estava pensando, e imediatamente fiquei curioso. Se ela achou que um era o outro...
Saga poderia fingir e então nós saberíamos o porquê dela estar tão irada com Kanon a ponto de partir para cima dele.
—Kanon? Mas o que está dizendo, esse é o meu irmão.
Ela me olhou com uma expressão assustada.
—Ikki, você está...
—Por que quer bater no Shun? Eu não posso permitir que encoste um dedo no meu... Ai...
Tive que atuar um pouco, levei a mão a cabeça. Ainda doía, isso era verdade. Mas eu estava realmente fingindo. Pandora se aproximou, preocupada.
—Como você está? O que aconteceu...
Fiz minha maior cara de bom moço e sorri de maneira forçada ao encará-la.
—Saori! Que bom que está aqui, o que aconteceu?
Ela me encarou assustada.
—Ikki... O que diabos...
—Ele bateu a cabeça.
—O que disse seu maldito?
—Eu soube que ele bateu a cabeça durante a festa dos sócios dos Kido.
—Hum...
Pandora me analisava, tentando encontrar alguma coerência naquela cena maluca. Mas aquilo estava tão irreal que ficou...
Plausível.
—Isso explicaria a confusão. Mas ainda não explica por que você está aqui Kanon.
—Saori, por que essa peruca? Seu cabelo fica melhor castanho...
Ela me olhou, nervosa por não saber como lidar com aquilo. Aproximou-se com um sorriso forçado.
—Ikki... Descansa um pouco sim? Encosta a cabeça aí...
Eu a obedeci e fechei os olhos. Fiquei quieto o suficiente para que ela achasse que eu iria dormir. Ouvi Saga falar, sem alterar o tom de voz.
—Isso eu conto de forma fácil. Ikki esteve nas empresas Solo há algum tempo, e teve um problema direto com um dos diretores. Eu quando soube do acidente, imagino que pelas mesmas fontes que você, resolvi checar o estado dele pessoalmente. Se ele estivesse prestes a morrer, seria uma ameaça a menos para os meus planos. Mas se ele de repente desse com a língua nos dentes... Eu teria que intervir.
—Intervir? Seu imbecil, se fosse para Ikki comentar alguma coisa com alguém, é certeza que a notícia já estaria correndo nos jornais, a imprensa não perderia a chance de expor algo de uma empresa de grande porte.
—E seria por esse mesmo motivo que você veio até aqui? Ikki deve saber algo das sua empresas e você teve a mesma ideia que eu? Intervir e acabar com ele?
—Oras, seu... Não pense em encostar um dedo nele. Se alguém algum dia for fazer algo com ele, esse alguém serei eu, definitivamente. Agora me dê um bom motivo para não te matar nesse mesmo instante.
Saga deu uma risada sinistra, nunca ouvi nada parecido com aquilo. Deixei os olhos semicerrados e observei a cena. Ele se aproximou de Pandora com o olhar estranho.
—Cale a boca, sua vadia. Se você pudesse mesmo fazer algo contra mim já teria feito. Não me culpe pelos seus problemas.
—Eu não teria problemas se você cumprisse sua palavra, seu verme.
Saga merecia ganhar um prêmio. Se ele estava imitando Kanon eu não saberia dizer, mas que estava agindo de maneira irritante, isso estava.
—Minha palavra? Mas eu nunca te dei minha palavra que faria nada... Dei?
—NÃO SEJA CÍNICO!
—Grite um pouco mais alto e logo menos a sala estará cheia e você será posta para fora a pontapés. Adorarei ver a garota Kido te expulsando pessoalmente.
Pandora ficou tensa.
—Aquela coisinha maldita está aqui?
—Não sabe que Ikki é sócio dela? Ela veio junto com alguns amigos e o irmão dele, devem ter ido tomar um café e já voltam.
—Maldição!
—O que importa é que será interessante ver a reação dela ao descobrir que você veio visitar o sócio dela... Isso não deve ser bom para os seus negócios... Que já não andam muito bem...
—Por SUA culpa! Eu juro que me vingarei, não pense que toda a tensão que passei sendo ameaçada de morte nos últimos dias irá ficar em branco Kanon. Você só precisava deixar o idiota do Espartan fazer o serviço combinado. Mas não, você mesmo o denunciou e por conta disso eu quase perco a vida.
Saga arregalou os olhos por um segundo, mas já assumiu a postura arrogante em seguida.
—Então você teria o destino dele? Eu bem achei o crime dos manequins vestidos com a pele humana com alguma coisa familiar. Era a pele do Espartan ali?
—Então entendeu o recado?
—Eu imaginava... Não entendi a pele do manequim menor.
—Era um imprestável que falava demais. Foi apenas um bônus.
—Entendo...
—Não entendeu nada, Kanon. Eu quero todo o dinheiro que te paguei pra ter as informações dos Solo de volta. Cada centavo. Se você bancou o Judas arrependido, isso é problema seu.
—Talvez eu tenha recebido uma proposta melhor...
—Como...
Pandora ficou lívida.
—Talvez alguém dos Kido tenha me procurado e feito a mesma oferta logo após você. Ou algum outro concorrente, afinal todos sabem que os Solo são detentores de empresas estratégicas... Que se bem aliançadas...
—Você não teria... Seu verme...
—Vá embora daqui. Agora. Eu estou prestes a chamar os seguranças, aliás, explicar que a louca que entrou aqui aos berros não tem permissão pra isso e está... Fora de si.
—Há... E se arriscaria a sair nas mesmas condições que eu? Se eu estou aqui sem permissão, você também está, não foi o que acabou de dizer espertinho?
Saga foi pego de calça curta. Mas ele sabia virar um jogo.
—Não por isso... Basta eu sair na sua frente...
Em um pulo ele alcançou a porta e sumiu. Pandora me ignorou e saiu correndo atrás dele.
—Seu maldito...
Enfim abri os olhos. Demorou algum tempo até que Saori voltasse a sala, sem Shun. Eu estava processando ainda o que acontecera.
Quando vi a figura dela entrando no quarto, suspirei. Ela franziu o cenho.
—Ikki? Onde está o Saga?
—Acho melhor você se sentar Saori...
Expliquei a invasão de Pandora e como Saga fingiu ser o irmão. Saori ouviu atenta, os olhos arregalados. Quando terminei ela exibiu uma expressão soturna.
—Como ela poderia entrar aqui com tanta facilidade? Se ela está mantendo um olho em você isso é um péssimo sinal.
—Depois vemos essa situação. Eu preciso saber dos outros, como estão?
Saori me olhou de forma analítica.
—Seiya teve uma queda grave. Machucou o pé na queda e a batida na cabeça causou uma concussão. Ele ficará em observação e permanecerá sedado por um dia no mínimo. Mas não apresenta risco de morte.
Respirei aliviado.
—Shun foi chamado por Shaka para um café e está lá embaixo. Acho que ele quer saber mais sobre você antes de agir em sua defesa.
—Saber mais de mim?
—Shaka tem uma política de trabalho um tanto quanto... Rígida.
—Como assim?
—Ele irá te defender por que eu pedi... Mas antes quer saber que tipo de pessoa você é. Se ele julgar que você tem culpa em alguma acusação feita a você... Ele mesmo irá te entregar as autoridades.
—Mas Saori...
—Eu sei. Ele ainda não sabe que você é um paciente psiquiátrico meu e do Saga, isso vai com certeza afrouxar seus métodos de julgamento. Mas peço que seja totalmente transparente conosco Ikki.
—Eu serei. Mas já disse tudo que lembro, o que mais querem de mim?
—Ikki... Ouça muito atentamente. Shina está passando por uma cirurgia nesse instante. O nariz dela está sendo reconstruído. Você simplesmente moeu o rosto dela. Mais um pouco e ela poderia ter morrido. Não se lembra mesmo disso?
—Juro que não...
—Você disse que viu ela e Seiya discutindo.
—Sim, lembro disso. Ele a empurrava, e ela começou a estapeá-lo. Foi aí que os dois acabaram caindo da escada.
—Quando você chegou os dois já tinham caído então?
—Isso.
—Não sabe me dizer por que ela estava apenas de lingerie?
—Não. Não faço ideia.
Saori suspirou.
—E não se lembra de ter partido pra cima dela?
—Não.
—O que se lembra antes de apagar?
—Eu vi Seiya caído... Muito sangue... Fiquei desesperado e então... Tudo ficou escuro.
Saori aguardou em silêncio por algum tempo. Incomodado quebrei o silêncio.
—A Shina...
—Esperamos que fique bem. Ela fez exames neurológicos e entrou para a cirurgia em seguida. Mas parece que não vai morrer hoje.
—Nossa... Eu... Nem sei o que dizer.
—Por hora, nada. Você também ficará internado no mínimo dois dias. O soco de Shun foi mais forte do que qualquer um esperava, e você caiu e bateu a cabeça na escada em seguida. Eu e Saga queremos ter certeza de que está tudo em ordem. E um tempo aqui sozinho será bom para você. Evita que vá atrás de confusão, ainda mais sabendo do estado do Seiya.
—Nossa...
—Não há nada a fazer por hora a não ser descansar. Amanhã com certeza a polícia virá colher mais depoimentos, e Shaka também virá visitá-lo.
—Estou com dor.
—Pedirei as enfermeiras que vejam isso. Eu preciso falar com Saga. E colocarei seguranças na porta do seu quarto, não quero aquela mulher rondando por aqui.
Concordei, envergonhado com toda a situação. Saori afagou minha mão gentilmente e me tranquilizou.
—Não sofra por antecipação. Tente descansar. Amanhã nos veremos.
Ela saiu, e logo depois uma enfermeira chegou. Nem vi Shun voltar ao quarto. Apaguei e entrei num mundo sem sonhos.
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Não sei dizer quanto tempo se passou até que eu conseguisse acordar. Minha cabeça estava estranha; a luz estava irritando meus olhos.
Quando virei o rosto, vi Shun e Saga no quarto. Shun cochilava enquanto Saga mexia no celular. Tossi e ele me encarou com um sorriso gentil. Aproximou-se da cama com uma expressão tranquila.
—Olá Ikki. Como se sente?
—Estranho... Tenho sede. E a luz...
Saga franziu o cenho.
—A luz está incomodando?
—Sim.
—Um momento.
Saga apagou as luzes. Shun continuou cochilando. Ele se aproximou demonstrando preocupação.
—Melhor?
—Menos dor. Obrigado.
Saga me serviu um copo de água. Bebi avidamente e ele riu, falando baixo.
—Vá devagar. Tem bastante água por aqui.
Quando terminei pisquei algumas vezes. Olhei para Shun e suspirei.
—Ele...
—Ele está curioso por saber sobre o seu tratamento. Obviamente não contei nada, disse a ele que esperasse um pouco e você responderia tudo que ele precisasse saber.
Senti-me aliviado. Realmente. Após tantas situações, Saga permanecera ao meu lado, me apoiando e guardando meus segredos.
—Muito obrigado Saga. De verdade.
—Pelo que?
—Por tudo. Você poderia ter... Sabe, revelado tudo que descobriu e ainda assim... Tem me apoiado como ninguém.
Saga sorriu.
—Você é meu paciente antes de tudo. Mas se não te entreguei a polícia é por que não achei que você fosse realmente culpado de tudo que houve nos últimos dias. Obviamente discuti com Saori e ainda acho que deveria testemunhar sobre o que ocorreu com Espartan. Mas ela pedia que aguardássemos, então...
—Eu entendo seu lado. Mas ainda assim agradeço.
—Só estou fazendo meu trabalho. Agora, antes que Shun desperte... Ikki, preciso que saiba de algo.
—O que?
—Depois daquela cena de ontem, eu descobri que meu irmão queria derrubar o jovem Solo da presidência da empresa. Ele estava mancomunado com Pandora, ela iria roubar algumas informações cruciais, se adiantar em negócios e isso colocaria em xeque a administração de Julian Solo. Quem teria que assumir caso ele fosse julgado inapto para continuar presidindo seria o primeiro diretor e vice-presidente...
—Kanon.
—Exatamente. Quando você chegou lá, ele enxergou um risco enorme de ser exposto. Aproveitando-se da situação, ele fingiu estar em choque, ser tão vítima quanto todos e assim ninguém desconfiou dele. Infelizmente eu e ele tivemos uma séria discussão, e os planos dele... São piores do que eu imaginava.
—Planos?
—Kanon iria se apossar da direção dos Solo e fazer negócios com os Heinstein... Para então tentar sabotar as empresas do conglomerado Kido. Sua ideia era dar fim a influência de Saori por todo o continente.
—Não acredito.
—E ele queria que eu como um dos sócios da Saori... Me infiltrasse em áreas que não me dizem respeito e conseguisse informações de alguns negócios para agir como ele está agindo com Julian.
Fiquei chocado com aquilo. Então era puro fingimento quando Kanon pareceu indignado com Pandora. Senti-me o mais bobo dos humanos.
—Posso dizer que estamos de laços rompidos. Mas de alguma forma não me sinto incomodado com isto.
—Eu nem sei o que dizer.
—Não há o que falar. Só quero que se recupere. A situação com Kanon já está... Definida, por assim dizer. Agora temos que pensar em você.
—Em mim?
—A polícia irá investigar o caso de ontem, Shina foi agredida e eles precisam de um culpado. Você foi visto a agredindo, ainda que Shaka seja perfeito em deixar evidente que nenhum testemunho além do meu, de Saori e de Shun são válidos. Fomos os que chegamos a cena do crime primeiro, e os que estavam mais próximos de alguma sobriedade. Shaka também irá alegar confusão mental por você ser um paciente psiquiátrico. Mas até que aceitem todos os argumentos, espero que esteja preparado.
—Preparado para que?
—Eles não poderiam te prender, mas talvez exigir um acompanhamento em um hospital psiquiátrico. Isso te internaria em um lugar desses por no mínimo seis meses. É um risco e espero que esteja ciente disso.
Arregalei os olhos, mas a luz do corredor ainda era o bastante para fazê-los doer.
—Fique de olhos fechados por algum tempo. Isso se deve a batida da cabeça, é um quadro breve, provavelmente associado ao álcool e a nova medicação.
Obedeci e a dor foi se tornando mais suportável. Ouvi a voz de Saga tentando me tranquilizar.
—Não fique ansioso. Não digo que acontecerá isso, só espero apenas que fique ciente dos riscos.
—Mas isso não pode acontecer. Saga, se Seiya souber que fui internado em um lugar pra doidos... A esperança que você me deu vai ir pro quinto dos infernos.
—Acalme-se. Seiya... Seiya é outra situação. Devo te alertar sobre um problema maior que isso.
—Como assim?
—Kanon me ameaçou. Ele foi o responsável pela captura de Espartan. E ele tem uma gravação daquela transmissão, não me pergunte como.
—Mas e daí?
—Ele disse que além dela pode ter algo a mais para incriminar Pandora e os Heinstein. Mas que isso poderia prejudicar você também. Me diga, quais os seus contatos com Kanon?
Abri os olhos um pouco.
—Mas eu estava coberto e não disse uma palavra. Não há provas do meu envolvimento.
—Disso eu sei, mas não entendo... Kanon parecia seguro demais do que disse.
—Estranho. Eu só falei com ele no dia que denunciei Espartan.
—Mais nenhuma vez?
—Nenhuma. Eu ia vê-lo aquele dia em que você havia o chamado para falar de Pandora.
Saga exibiu uma expressão irritada.
—Como fui tolo. Mas ele é meu irmão, mesmo conhecendo sua natureza, eu não quis acreditar que ele iria... Sabe... Agir contra mim em qualquer nível.
O silêncio durou alguns segundos. Saga sacudiu a cabeça, a longa cabeleira se agitando.
—Eu consegui que a polícia e os outros viessem apenas amanhã, antes que você saia. Irá ter que ficar com seu irmão por uma semana no mínimo.
—Sem problemas.
—E tente não se preocupar ou pensar demais em tudo que aconteceu. Nada vai estar realmente claro até que os remédios se ajustem e você se lembre do motivo de ter agredido Shina.
—E ela e Seiya, como estão?
—Seiya deve sair da sedação hoje ainda. Shina já está sendo transferida para o quarto. A cirurgia foi um sucesso, e os cirurgiões garantiram que além de sair com um nariz mais bonito do que o que já tinha, não há nada para se preocupar. Ela vai implantar alguns dentes assim que o nariz desinchar, mas fora isso... Tudo está em paz.
—Que boa notícia.
—Sim, dentro das condições... É bom saber que todos estão vivos. Mas há algo que devo te avisar.
—O que?
—Pandora. Aquela mulher está se sentindo ultrajada, e ela quer vingança contra você. O que ela armou para Kanon não sei dizer, mas devemos ficar alertas. Qualquer coisa fora do comum na nossa rotina, e quando digo nossa sou bem abrangente, devemos correr as autoridades. Não exagero em dizer que precisamos do máximo de segurança.
—Eu...
Fiquei quieto por um instante, tempo suficiente para Saga descobrir o que se passava na minha cabeça.
—Ikki. Não creio que esteja em dúvida sobre o comportamento de Pandora.
—Não é isso. É que... Ela se arriscou ao vir me visitar. E pelo jeito que agiu, e tudo que acompanhei dela nos últimos dias... Ela deveria estar mesmo correndo risco de morrer. Não posso simplesmente acusá-la de pensar em se proteger. Qualquer um faria o mesmo.
Saga ficou sério. Muito sério.
—Ikki. Independente do risco que ela estivesse correndo, é inadmissível que ela agisse como agiu. Procurasse a polícia, pedisse proteção, não fosse cúmplice de um assassinato. Cúmplice de um que nós sabemos, e o que já se passou e nós não fazemos ideia? A frieza dela ao falar sobre o crime dos manequins demonstra que ela não estava agindo assim apenas para se defender, mas sim por que também em algum nível, ela gostou de presenciar aquilo.
—De fato, ela pareceu... Aliviada.
—Como eu disse, já atendi algumas pessoas que se envolveram com ela. Todas estavam gravemente perturbadas. E poucas sobreviveram... Curiosamente, uma vez um rapaz, antes de se suicidar... Falou dela como se fosse uma mulher doce, atenciosa, apaixonada. Se você o ouvisse... Bem, diria que ela era a musa inspiradora dele.
—E ele se matou?
—Logo em seguida. E sim, o fez por culpa dela. Foi registrado que ela foi a última pessoa que o visitou. Os relatos disseram que ele estava bem após a visita dela, apenas um pouco quieto. Como ele era introspectivo, ninguém achou nada anormal. No dia seguinte o encontraram no quarto com os pulsos abertos. A julgar pelo estado de rigidez cadavérica, ele havia cortado os pulsos no começo da noite. E com uma precisão quase médica, o que o fez sangrar até a morte. O colchão estava coberto por sangue e ele tinha as mãos cruzadas no peito. O que me faz pensar que ela foi culpada foi o objeto que ele usou para tal ato.
—Qual objeto?
—Uma adaga pequena. Dourada. Caberia na palma da mão, mas o engraçado é que no punho dessa adaga havia um brasão de família. O brasão dos Heinstein. Isso bastaria para acusá-la, mas o rapaz que morreu... Ele tinha algum parentesco, portanto julgaram que era um objeto de família que ele havia escondido junto ao corpo, trazido por algum dos inúmeros parentes e conhecidos que o visitavam.
—Isso não prova...
—Eu era o psiquiatra desse rapaz, Ikki. Alone era seu nome. E sabe outro fato curioso?
—Não.
—Ele era, segundo ele e alguns estranhos que o visitavam... O próximo a comandar as empresas Heistein no cargo atualmente ocupado por Pandora. Na época que ele foi internado, por recomendação dela aliás, estava acontecendo uma disputa para saber qual dos dois iria dirigir as empresas. Coincidentemente, Alone começou a apresentar sinais de inquietação, alteração de personalidade, picos de euforia e depressão... Diagnosticado por um profissional nada confiável com transtorno bipolar, ele foi internado e eu estava cuidando de um paciente naquela clínica que o jogaram. E quando digo jogaram, foi literal. Eu o vi entrando, empurrado por duas figuras estranhas e Pandora. Ele não reagia. Quando ele foi empurrado para o quarto que seria seu túmulo em alguns meses, eu o vi se erguer de maneira altiva e praguejar contra os outros. Curiosamente, ele me olhou e perguntou se eu era médico ali. Disse que sim e ele exigiu que seu tratamento fosse feito apenas comigo. Para evitar maiores problemas, aceitei o caso.
—Então quer dizer que você acha...
—Eu sei que Pandora é a culpada pela morte de Alone. E de forma direta, sim, por interesse. A forma que ela o tratava estava acima de qualquer suspeita, mas eu via o jeito que ela agia quando saia da presença dele. Ria sem se conter, despudoradamente, como se estivesse imensamente satisfeita com algo. Quando ligamos para a família para avisar do ocorrido, apenas funcionários nos atenderam. Eu fiz questão de participar do enterro. Ela foi e não parecia que estava em uma ocasião fúnebre. Sorria, conversava normalmente... Eu sei que de alguma forma, ela matou Alone.
A sentença de Saga era algo a considerar.
Mas eu não ouvi.
Pensem comigo: ela se arriscou para me visitar no hospital. Ela ficou me vigiando mesmo depois de eu terminar com ela. Isso só poderia significar que ela realmente gostava de mim.
Era algo que eu resolvi considerar. Ninguém correu tanto risco assim por mim antes. Eu estava mais envolvido emocionalmente com ela do que julgava.
—Ikki... Eu realmente peço que nunca mais contate Pandora. Se ela tentar se comunicar, afaste-se. Ela é manipuladora, e doente, eu já avisei.
Em um rompante de teimosia, ainda falei:
—Eu não percebi nada de doentio nela além do fato de querer se proteger.
—Não? Pois bem. O engraçado é que Saori me avisou que você insistiria nisto. Então quero que veja algo.
Saga pegou o celular do bolso e um fone de ouvido.
—Vou diminuir ao máximo a luz do visor, mas quero que preste muita atenção. Muita. Coloque os fones por favor, não quero que Shun ouça isso...
Obedeci e um vídeo começou a rodar na tela. A imagem de um corredor branco apareceu, com destaque para uma porta.
—Olhe para o horário do vídeo.
A tela marcava uma da manhã.
—Foi a hora que Alone morreu. Esse era o quarto dele. Isso aconteceu três dias depois do enterro.
Apareceu uma figura feminina no corredor, e a medida que se aproximava dava pra distinguir bem o rosto de Pandora. Ela ficou alguns minutos parada na porta do quarto.
De repente ela se ajoelhou e começou a esmurrar a porta. O áudio veio em um grito agoniado e desconexo.
—Eu não vou contar nada a ninguém... Nunca... Você não conseguiria Alone, sabe disso muito bem... Eles me escolheram, sabia? Eu sempre fui a preferida... Pare de me atormentar, eu já disse que ficarei quieta... Você sempre foi um fraco. Me deixe em paz... Nunca, eu não farei isso... Você é louco? EU SOU PERFEITA, VOCÊ NUNCA FOI APTO! Eu não fiz nada, VOCÊ SE CONDENOU!
Ela esmurrava a porta do quarto, e logo menos surgiram dois seguranças que com muita dificuldade conseguiram contê-la. Saga surgiu no vídeo, os cabelos estavam enrolados em uma touca por isso a figura dele era estranha.
—Acalme-se moça, o que há?
—Esse desgraçado... DESGRAÇADO... Fica me ameaçando. Ele me quer, quer tudo que eu tenho, eu sei. Isso é típico dessa raça.
—De... Quem você está falando?
—Como de quem seu idiota? Desse viadinho patético que fica nesse quarto.
Saga levou um segundo para responder.
—Alone?
—Essa bichinha maldita. Queria ter as minhas curvas. A minha beleza. Minha inteligência. Não, nunca vai ter o que eu tenho. Nunca será quem eu sou. IDIOTA.
Os seguranças tinham muito trabalho com ela. Saga se aproximou mais um pouco, cautelosamente.
—Moça... Ele está dormindo...
—Você também é burro? Ele está ali, rindo de mim. Falando que eu vou pagar, que ele vai me pegar. Ele nunca vai me pegar, não é homem o bastante. Claro, um fresquinho de merda nunca seria rival para mim.
—Por que ele... Iria ameaça-la assim.
—POR INVEJA! POR QUE ESSE VIADO QUERIA TER UMA...
Pensem em todos os sinônimos de vagina possíveis, em sua forma mais chula. Pandora citou cada um deles.
—Alone é homossexual?
—Só pode ser, esse merda. Esse jeitinho afrescalhado, esse jeitinho meigo, falando baixo... Isso é uma bichinha manipuladora de merda, nunca vai...
Mas Pandora não terminou de falar, pois logo menos Saga estava aplicando uma injeção em seu ombro. Ela ficou mole e desmaiou nos braços de um dos seguranças.
O vídeo terminou. Saga me estudava sem sequer piscar.
—Eu mesmo conversei com ela pouco após acordar. Ela ainda estava ligeiramente sedada e confusa. Pandora sem querer me contou que via Alone, e ele prometia que iria se vingar por ter morrido... Por tê-lo feito acreditar que era amado... Por tê-lo tratado de forma manipuladora.
—Ela... Confessou então?
—Sim e não. Eu a havia drogado para acalmá-la, mas ela não era paciente da clínica e até então era... Saudável. Mas ver mortos e conversar com eles configurava no mínimo um caso sério de esquizofrenia. O curioso após ela ter ido embora foi que eu acabei ouvindo outros médicos discutindo casos bizarros que de alguma forma se conectavam aos Heistein. E culminavam em Pandora. Sabe uma característica comum entre os casos?
—Não...
—Eu pude reparar que todos os envolvidos diretos com Pandora exibiam alguma característica mais... Delicada, feminina, andrógena. Ela tinha prazer especial em humilhá-los.
—Não entendi...
—Pandora é homofóbica. Ela odeia homossexuais, não me pergunte o motivo. E adora afirmar sua “superioridade” sobre suas vítimas, querendo rebaixá-las, fazendo-as acreditar que são inferiores, ruins, sujos. E ela é perfeita.
—Isso não faz sentido, Saga. Eu vi vídeos dela, vídeos em que ela se envolvia e fazia sexo com mulheres. Como seria possível...
—Sempre dominando. Não foi isso que me disse?
—Sim.
—Ikki, Pandora sabe ou imagina que você já se envolveu com homens alguma vez?
—Não.
—Caso você tenha algum contato com ela novamente... Não cite isso. Em hipótese alguma. Eu já o avisei e mostrei que ela é perigosa, mas não posso controlá-lo o tempo todo. Se você se envolver...
—Não o farei, Saga.
—Para o seu bem, acho bom que isso seja verdade.
Fechei os olhos e suspirei. Não demorou até ouvirmos um bocejo.
—Shun?
—Ikki! Está acordado?
—Não, sou um sonho seu.
—E deve estar bem se já está resmungando. Desculpe Saga, devo ter te deixado falando...
—Não se preocupe Shun. Você está de vigília há muitas horas.
—Como se sente Ikki?
—Com um pouco de dor de cabeça, e não posso ver luz. Fora isso...
Shun se aproximou de mim e me encarou. A expressão sempre gentil foi substituída por uma séria e magoada.
—Então acho que devemos conversar sobre essa história toda de estar fazendo tratamento com psiquiatra e guardar segredo logo para o seu irmão mais novo.
Agora sim eu iria ter uma dor de cabeça.
—- -- -- cp
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