-Meus olhos estão ardendo, só isso. Nada com que eu não esteja acostumada.

Espiei para ver se alguma coisa tinha mudado

-Tudo está normal, como sempre.

Não sei bem o significado de "normal", mas sempre escuto eles falando de mim: "Como ela está?" "Ela está normal, como sempre!". Acredito que normal seja alguma coisa do tipo "comum". Mas eu não sei, todos falam que eu sou estranha. Eu sei que sou.

-Não...

Comecei a pensar nas vezes que disseram essa palavra pra mim. "Eu posso sair?" "Não", "Eu posso sair?" "Não", "Eu posso sair?" "Não!".

-Não!!

Fiquei com raiva dessa palavra e dei uma cabeçada na porta, pra ver se a palavra saia da minha cabeça.

-Quieta!!

A voz de um homem saiu pelo outro lado.

-Não!!

-Quer que eu vá ai novamente?

Ele tinha acabado de me colocar pra dormir. Eu não gosto disso. Ele coloca alguma coisa na minha boca e me faz engolir. Meus olhos ficam ardendo e eu paro de respirar por alguns segundos, é horrível! Mas também me faz pensar um pouco.

-Como eu cheguei aqui?

-Quieta!!

Percebo que estou em um quarto minusculo, mal cabe uma cama, é todo branco e só tem uma janela, que deve ser menos que um travesseiro. Espiei através dela. Eu conseguia um pedaço de muro cinza todo despedaçado. E o céu. O céu me faz lembrar. Lembrar de tudo.

-Ah! Deixa pra lá! Eu lembrei!

Dessa vez eu ouvi uma batida na porta

-Vai dormir, porra!

Deitei no chão. Fechei os olhos e fingi que estava morta. Isso me ajuda quando não consigo dormir.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!