Eu sou o inverno

80 Como as folhas - Parte 1


Como a chuva

Parte 1

Capítulo 1

Quase uma semana sem ouvir sequer a voz de Sage, mas Elena estava ali, escondendo milhares de coisas. Eu poderia ter ido pra lá correndo e acabar com toda aquela palhaçada, mas eu sentia Marcel como se ele fosse minha sombra.

Ele estava sempre presente onde eu estava, quando não era na minha frente, era pelas sombras e isso me fez ficar mais atento ainda. Ele sabia que eu provavelmente iria reivindicar o meu reino e estava atento a cada passo meu, por isso me contive ao máximo me prendendo a Nova Orleans e agindo como se estivesse tudo normal quando minha vontade na realidade era acabar com todo esse show de Marcel e trazer Sage de volta para mim.

Minha maior preocupação era Stefan, eu o conhecia bem o suficiente para saber que ele iria muito longe por aquela afronta, ele seria capaz de destroçar Sage completamente por ela ter colocado seus amigos e seu irmão em um coma e principalmente por ter matado sua amiga falsa. Isso só não me assustava pelo fato de Sage ter Nataniel. Infelizmente, ou felizmente, dependendo do ponto de vista.

- Logo ela deve estar de volta, não é como se estivéssemos lidando com uma qualquer, Sage é maluca. – Rebekah olhou pela janela vendo um dos capangas de Marcel ao longe nos vigiando – E Katherine está com ela.

Isso não era reconfortante.

- Uau. Meu coração se alivia. – coloquei a mão no peito de forma teatral.

- Pelo menos sabe que ela ainda está viva. – deu de ombros se referindo a ligação que eu havia feito alguns minutos atrás.

Se eu dissesse que eu estava muito temeroso, com medo e desespero eu diria que era mentira. Aos meus olhos Sage vinha se tornando cada vez mais invencível, como se lobisomens, híbridos e vampiros não fossem o suficiente para a parar. E eu duvido muito que fosse, ela era algo muito além da minha realidade e eu me questionava a todo momento como ela conseguiu se apaixonar por mim, provavelmente se isso não tivesse acontecido, eu seria apenas mais uma de suas vítimas. E eu duvido muito que ela não seria capaz de me matar.

- Pelo menos isso. – olhei para trás vendo Hayley sentada lendo um livro despreocupadamente ao lado de Kol que mexia em seu celular.

- Sinto como se fossemos prisioneiros, é uma situação patética para vampiros originais.- Rebekah resmungou.

- Tecnicamente Bekah... não é uma prisão. Finja que é uma espiã, Marcel não tem poder algum para nos intimidar. — debochei e fui em direção ao meu quarto me encontrando com Hayley no caminho que me seguia tentando ser discreta, eu podia sentir a tensão em seu corpo, ela com toda certeza não havia ouvido coisas boas a respeito de minha namorada maluca.

Eu me questionava até quando esse tipo de comportamento da Sage continuaria, eu a amava e mesmo assim não deixava de me preocupar com ela. É... Eu tinha de ter um pouco de cuidado com as coisas que eu fazia, ainda mais no estado mental em que ela se encontrava, era perigoso demais cometer algum erro agora.

Embora eu já tivesse cometido um.

- Ok... Então vamos ficar presos aqui por tempo indeterminado... e Sage... Quando vier? Manteremos ela sob os olhos de Marcel ou deixaremos a humana implicante controlar tudo e iniciar uma guerra com um reino inteiro? – Kol se aproximou de nós com uma mão no peito.

- E o que você acha? – o olhei – É óbvio que ela virá para cá.

- Klaus você enlouqueceu? – Elijah me encarou abismado e eu apenas dei de ombros sem realmente me incomodar com isso.

- E por acaso não é uma guerra que nós estamos planejando? Ou por acaso acha que vou trazer Sage aqui para abrirmos uma confeitaria e vendermos doces? – ri baixo com o pensamento, não duvidava nada daquele ser o sonho feliz de Elijah.

- Niklaus seja coerente!

- Até quando você vai se meter entre mim e a minha garota?- gritei fazendo-o se calar.

A autoridade exagerada e o bom senso de Elijah me irritavam profundamente

- Estou cuidando da nossa família, quer você queira ou não, eu também sou responsável por Sage. Você criou Stefan, você sabe o monstro que está com ela agora. E agora quer a trazer diante de um reino de vampiros? Para viver entre todos nós, com uma lobisomem grávida que espera um filho seu? Você não me parece coerente o suficiente para tomar decisão alguma aqui e ainda mais envolvendo ela.

Respirei fundo o encarando e tentando juntar a paciência que eu não tinha, Elijah estava me levando ao limite. Como ele podia jogar na minha cara que ele seria melhor para a minha namorada?

- Entenda bem Elijah. Sage é a minha marcada, é a mulher que eu escolhi E se eu decidir que você morto fará bem à ela, a nós... Eu o farei.

E isso finalizou a nossa discussão em meio a gritos que soavam pela casa inteira, eu estava mais do que frustrado em saber que meu próprio irmão desejava minha namorada, mas não era surpresa alguma estar passando por isso novamente. Incontáveis vezes eu tive de lidar com Elijah em discussões como essa, não seria eu quem iria perder dessa vez.

Olhei para o moreno que saiu apressado em meio a noite e calmamente esperei pelo que estava por vir, eu já sabia que Sage havia chegado e que eu a deveria ter buscado, mas o medo em ter Hayley descendo as escadas e indo de encontro a ela me apavorou, e eu não estava confiante o suficiente.

Mas isso mudou quando ouvi a voz de Elijah soando ao me chamar no andar de baixo, assim que coloquei meus olhos na morena vi seu sorriso radiante, os olhos sem a menor preocupação, brilhantes e azuis de um tom intenso, a pele levemente pálida e sem nenhuma marca. Sage não havia mudado absolutamente nada, mesmo passando por tudo aquilo, ainda parecia que nada era capaz de a afetar.

- Oi Nik.


Capítulo 2

A abracei sentindo o cheiro doce de seus fios, se Sage soubesse ou imaginasse como a venero, ela estaria ao chão rolando e gargalhando. Eu era uma vergonha para mim mesmo, a minha vida estava girando ao redor dessa mulher e eu nem mesmo havia me dado conta disso.

- Eu matei Estella. E Damon, Matt e Bonnie entraram em uma espécie de coma. — explicou, e isso me fez imaginar do que ela seria capaz de fazer se ela fosse a vilã da história de alguém.

Eu deveria ter mais cuidado com as coisas que faço com ela, em algum momento ela vai conseguir me matar. E eu concluí isso ao ouvir todas as informações que ela havia coletado, eu realmente estava surpreso com isso.

Depois de apresentar a casa para Sage e passar um tempo com ela, logo me vi em agonia para me afastar da mulher. A tensão percorria por todo o meu corpo e eu podia sentir como todos na casa estavam tensos aguardando o momento em que aquelas paredes iriam abaixo.

Hayley podia ser ouvida do outro lado da mansão em uma conversa baixa com Rebekah, Kol e Elijah estavam do lado de fora conversando aleatoriedades. Minha cabeça repassava toda a minha necessidade em me manter na cidade, para Marcel, eu ainda não havia completamente claro que eu estava disposto a ficar em Nova Orleans, dei a entender que eu estaria apenas esperando um pequeno motivo para correr para fora dali, ao invés admitir para ele que eu iria tomar tudo de volta para mim.

Era claro, eu não estava aqui para ser um subordinado de ninguém.

Logo eu, o "pai" dos híbridos, era no mínimo de se suspeitar que eu fosse aceitar que Marcel tivesse tudo que é meu por direito, eu sou seu criador. Nada menos que isso.

Depois da longa e árdua atualização que finalmente me deu uma dimensão do problema ao qual havia se envolvido, eu finalmente decidi dar um jeito em Nataniel, nada que uma bela surra não resolvesse nossas pequenas desavenças, era até um fato irritante constatar que o cara sabia o que fazia e que tinha um potencial muito bom como um combatente, esse fato me fez ficar mais alerta em relação a ele.

Embora Sage não visse a relação, para mim estava bem óbvio que um vampiro que dedicou sua vida inteira a fotografias não lutaria tão bem se nunca tivesse possuído uma necessidade, agora eu o observava de uma nova forma. Aquele feto vampírico tinha muito mais história do que demonstrava ter, e sua vida parecia ter sido breve demais para ter tanta experiência.

E foi por isso que durante o pouco tempo em que ela esteve ocupada em uma discussão com Rebekah eu me aproximei do mesmo, vendo sua animação e toda a sua agitação ao olhar todos os cantos inimagináveis de minha casa, assim como também reparei em seus olhos que sondavam todo o ambiente ao nosso redor como se esperasse que alguém fosse saltar de trás dos sofás e iniciar uma briga contra toda minha família.

- Qual seu propósito com tudo isso? O que quer?- o olhei atentamente vendo seus olhos se desviarem em direção aos meus.

- O que eu quero Niklaus? — ele riu me encarando com certa ironia, eu nunca havia me dado ao trabalho de tentar descobrir sobre ele, mas agora o observando bem...

Eu era um imbecil completo.

- Você sempre teve esse coração fraco?- perguntei ouvindo sua risada seca – Apareceu aqui com um propósito de me matar, e desistiu tão cedo assim?

- Eu sou apenas um fanático por conhecimento. Estava apenas imaginando como seria coletar algumas informações, conseguir alguma ajuda bruxa, você sabe. Eu sou um imbecil de coração frágil.

Era óbvio para mim que Nataniel não era um vampiro com 600 anos, ele nem chegava perto dessa idade toda, era bem mais jovem do que isso. Eu sabia, pois o conhecia muito bem, um dos que foram atacados por Stefan durante seu período como estripador, sobrevivendo apenas por ter o sangue da minha irmã tola em seu corpo.

No momento em que o vi com os olhos presos em minha irmã, eu o reconheci de imediato. Eu reconheceria aquele olhar de um animal manipulado e chutado há quilômetros de distância, Rebekah era a perturbação incômoda na vida de qualquer homem.

E esse era o motivo dele estar ali.

Revirei os olhos me questionando por quantos anos esse idiota teria revirado o mundo procurando por uma vampira original idiota e emocionada que o enganou durante os últimos dois dias como humano. Eu já ouvi essa história antes.

Após uma breve discussão sobre adquirir novas posses no território de Nova Orleans, e um breve aquecimento com o vampiro fotógrafo, finalmente pude ver a evolução dela em uma luta e eu não via como ela poderia estar mais preparada.

Sage estava com um brilho atormentado em seus olhos, completamente tempestivo, cheio de raiva, remorso e uma preocupação que transformava seus traços faciais, era como se eu olhasse para uma outra pessoa. Ela não era a mesma mulher que eu havia deixado em Mystic, a cada minuto que fluía eu via o quanto ela mudava devido a toda essa história.

Dentro dela o tempo fechava, como o outono que era a sua estação preferida, com muita chuva, ventos gélidos, céu acinzentado sendo adornado por folhas laranjas e amarelas que caem colorindo a lama, indicando o fim de uma vida. O inverno é cruel, frio… Mas o outono carrega a melancolia, a tristeza.

Como previsto, ela não gostou nenhum pouco de Camille, eu já havia imaginado algo assim. Na realidade, Sage dificilmente conseguia gostar de alguém, minha bela aparência provavelmente foi algo que amoleceu seu coração duro, duvido fortemente que em outras circunstâncias ela teria se interessado por mim. Isso é claro, excluindo o fato de eu ser um híbrido fantástico, o que me fez ter vários pontos.

Sage saiu do bar em que a levei, os pés batiam furiosamente contra o chão e ela não se importou se quem ela arremessou contra os balcões e mesas eram vampiros ou lobisomens. Olhei para Camille que mantinha os olhos fixos nela, ela piscou vagarosamente antes de me olhar com cautela.

- Ela é bem desagradável. — Camille murmurou puxando o cardápio contra o corpo.

- Deve ter sido a longa viagem. — abanei a mão com descaso e ela me olhou em desagrado.

- É sério Niklaus... ela é muito tempestiva.

- Não deveria ser? — apontei para mim mesmo. — Existem coisas que eu demorei demais para perceber Camille, Sage vai se sair muito bem em qualquer posição que eu a colocar. Ela é orgulhosa, arrogante, prepotente, autoritária...

Camille me interrompe jogando o cardápio sobre a mesa, as mãos gesticulam perto do seu rosto enquanto ela arregalava os olhos se dividindo entre rir de mim e me encarar com incredulidade.

- Quando você vai começar a elogiar ela?

- São qualidades ótimas para uma mulher na posição em que ela estará, é assim que se mantem os cães sobre controle.

Estava impaciente na sala, aguardava a um certo tempo que ela passasse pela porta quebrando minhas coisas e gritando em minha direção, e embora meu corpo inteiro queimasse para ir atrás dela, eu me sentei e aguardei ansiosamente pelo seu retorno.

Eu não poderia adiar mais nada, Hayley vagava pela casa com sua barriga de grávida, ficava inquieta com dores intensas pelo corpo, Elijah constantemente a pastoreava e seria impossível manter o segredo por mais tempo tendo um berço e coisas infantis se acumulando pela casa.

Eu havia tomado a decisão ainda naquela mesa de bar, depois de uma repreensão firme de Camille que reverberou em meus ouvidos sensíveis com um discurso longo sobre compromisso, respeito e coragem. Entre outras coisas que eu ignorei completamente.

Às vezes eu me questionava como eu havia conseguido realizar a proeza de foder tanto com a minha vida, me questionava mesmo. Será que eu era tão ruim assim a esse ponto da vida decidir me fazer pagar uma espécie de karma, sendo eu tão jovem?

Finalmente ela chegou. É, pelo visto nunca é cedo demais para tudo começar a dar errado.

Eu ouvia a respiração de Hayley se alterar à medida que via a feição de Sage se transformar, meu medo se tornou tão intenso que eu podia ser capaz de sentir o sangue se esvaindo de meu corpo, alcançando os meus pés os fazendo formigar, me preparando para uma fuga.

A frase "eu vou ser pai" parecia ter sido cravada entre o nosso elo, sua expressão se tornou sombria, os olhos de um azul levemente acinzentado se tornaram pesados, olhos cinzentos enquanto sua pupilas se dilatavam antes de se tornarem minúsculas restando apenas diante de seus olhos, eu, como o seu principal alvo.

Se eu temi pela minha pele naquele momento? Não, e eu seria incapaz de revidar, duvidava muito que qualquer um ali fosse capaz de a deter. No entanto, tudo aquilo era mais do que esperado por mim.


Capítulo 3

Uma das interações mais desagradáveis que já tive em vida, eu a nomeio como a primeira.

Embora a raiva estivesse presente em seu rosto, sua voz deslizava com um toque ácido de repulsa, remorso e dor. E isso me consumiu por dentro, nem minhas atrocidades foram capazes de plantar aquele olhar e sentimento dentro dela, algo doloroso com um toque de rejeição evidente que parecia sair de seus poros.

Eu nunca havia chegado ao ponto de sentir medo, sobre algo que parecia completamente além do meu controle. Eu, mais do que ninguém naquela sala, sabia o que aquela pequena faísca de rejeição que transbordava de seu corpo era capaz.

Ela não se sentia enciumada, ela se sentiu rejeitada, como se a minha alegação a retirasse automaticamente da minha vida. Ela começava a se preparar para isso, e meu autocontrole quase escapou por meus dedos quando notei seus olhos percorrerem pela sala em busca de ajuda, um local para se esconder e me manter afastado.

Eu tentei me colocar em seu lugar, imaginar ela gerando a vida do filho de outro homem, e era doloroso, mas era ela quem eu queria. Eu sou um híbrido milenar, nada poderia me impedir de viver a eternidade ao lado da mulher que eu escolhesse para amar, nem mesmo um elo desses com outro homem. Até porque, se o outro homem fosse um impedimento, vivo ele não ficaria.

Eu senti as pontas de suas unhas rasgarem meu rosto, ela me deu tapas e chutes que eu só sabia que levava pois mantive meus olhos abertos, vidrados em qualquer fagulha de sentimento oposto a aqueles ruins que eu provoquei. Mas não havia nada de diferente ali, e foi assim que ela me deixou.

Sage saiu furiosamente da sala para o mais distante possível de mim, Elijah apenas me olhou de lado com um semblante preocupado a seguindo logo em seguida, se comprometendo a vigiar enquanto ela se esconderia em algum lugar sombrio de Nova Orleans.

- As coisas vão se resolver. — Hayley estava encostada na parede do meu quarto, os braços cruzados enquanto me observava encher o meu copo. — Ela vai voltar.

- É, como você sabe? Coerência e pensamento frio não fazem parte da personalidade dela. — movi os meus olhos para a janela.

- Ela poderia ter te machucado muito mais, ela poderia ter te matado e você deixaria ela fazer isso. Ela não fez. Ela vai voltar.

Estava sentado na beirada do telhado do apartamento de Sage, Nataniel estava ao meu lado com sua câmera fotográfica tirando fotos dos pássaros voando ao pôr do sol.

- Não a morda novamente. — o avisei, estando pronto para o quebrar quantas vezes fosse necessário.

- Se eu vou ser um espião seria mais fácil eu formar um tipo de vínculo através dos meus dentes, não é amigo? Você sabe que a gente sempre se liga a nossa caça através da mordida. Vai demorar um bom tempo para ela sumir do meu faro agora que bebi o sangue dela.

O olhei atravessado, minha mão coçando para ser enfiada em seu peito.

- Você vai ficar aqui? Todo esquisitão desse jeito, vigiando ela como um stalker maluco? – perguntou estendendo um elástico de cabelo na minha direção, tinha o cheiro dos fios dela. — Toma isso aí, a sua energia está desagradável, essa marca fica insuportável quando você fica longe dela.

- Fique dentro do apartamento dela, não a deixe sozinha e se possível garanta que todos saibam que ela é uma marcada. Óbvio que não podem saber que eu sou o responsável por isso, mas Sage não pode e nem mesmo deve ficar desprotegida por aqui. Vou sugerir que você não se misture muito com outros vampiros por aqui. — o olhei de cima a baixo. — Eles não são tão pacíficos quanto vão parecer.

- E qual o motivo para você não fazer isso tudo?

- Nataniel, eu era um rei aqui e precisei sumir por um bom tempo, Marcel tomou o meu lugar, e ele sabe que eu sou uma ameaça. Não acredito que ele vai ser capaz de fazer nada contra ela enquanto eu viver, caso ele descubra sobre a marca, mas alguns de seus vampiros podem decidir fazer, e eu não estou disposto a correr esse risco. Eles não estão dispostos a me poupar, e eles não sabem que eu destruiria cada pedaço do mundo se eu não possuísse mais a chance de ter Sage. — o olhei profundamente — A partir do momento em que fomos marcados, ninguém mais interfere na nossa história. Cuide dela, e eu terei uma dívida eterna com você.

Os dias passaram vagarosamente, mais do que gostaria. Eu revezava o meu tempo entre vigiar por cima dos telhados e receber seus objetos contrabandeados por Nataniel, que vinha se saindo muito bem no quesito de a manter em segurança, mais do que eu previa do que ele seria capaz. Constantemente o via passar a madrugada com seus olhos vasculhando toda a região, observando cada cidadão que rondava o local de madrugada. Algumas poucas vezes o vi sair durante esse período, para intimidar alguns vampiros e retornar para a segurança do prédio. Em algum momento, ele conseguiu uma bruxa que conseguiu ocultar sua energia no local fazendo com que ele relaxasse, não sendo mais necessário fazer vigílias durante a madrugada e finalmente o permitindo algum tempo para se alimentar já que as bolsas que eu jogava no telhado de seu prédio não vinham sendo o suficiente.

Nesse meio tempo surgiu uma fofoca no meio vampiro que eu teria uma companheira, e embora eu conseguisse esconder a minha marca devido a minha idade, Marcel ainda sentia a energia estranha que vinha de mim, e passou a suspeitar que minha mulher estaria pela região. Camille foi seu primeiro alvo, mas ele logo a largou quando percebeu que a energia não vinha dela, tentou a hipnotizar para retirar informações e graças aos bons deuses Camille estava sobre o efeito de verbena, e melhor ainda, não passou qualquer informação que sabia sobre Sage, dizendo que eu havia deixado minha marcada em Mystic Falls.

Sage vivia sua vida completamente alheia aos problemas a sua volta, saia com Nataniel atrás de seus livros de bruxaria tentando alguma forma de ajudar seus amigos, passava algumas madrugadas lendo todos os tipos de informação que podia absorver, atormentava o juízo de alguns habitantes humanos e vampiros da cidade. Isso tudo sem saber dos esforços que eu, Nataniel e Elijah fazíamos para a manter em segurança. Em algum momento, algo me despertou para manter Kol e Rebekah afastados de Sage, a conversa sobre eu ter uma marcada surgiu e apenas Nataniel e meus familiares estavam cientes disso.

Elijah não seria capaz de atentar contra ela, mas Rebekah e Kol não eram tão confiáveis assim.


Capítulo 4

Sua vida seguia normal, como se ela fosse uma humana qualquer. Ela conseguiu um emprego, mobiliou e decorou sua casa perfeitamente, saia para tomar um sorvete, lia seus livros, passeava tranquilamente pelas ruas com seus brilhantes e sedosos cabelos voando ao vento. Como se fosse uma humana, e isso em algum momento mexeu comigo ao ver como era frágil, como sua vida poderia ser diferente, e como a minha também poderia ser se em algum momento eu fosse humano e nossa realidade fosse outra. A vida que eu levaria se não tivesse que me preocupar com as coisas que eu preciso, mas isso não era algo que eu idealizava de qualquer maneira. Eu amava ser um híbrido, e embora eu quisesse viver uma realidade mais tranquila, livre da preocupação de perder as únicas coisas que formaram uma chama nova em meu peito depois de milênios, eu ainda gostaria de viver a vida que levo, para mim esses obstáculos eram pequenos perto de se ter algo como a felicidade eterna.

Os dias eram como segundos para mim, eu possuía todo o tempo do mundo.

- E como ela está? — perguntei a Camille, havia despertado de meus pensamentos com o toque do meu celular.

- Muito bem por sinal, e com uma jaqueta nova. Ganhada por mérito, e com honra. — brincou.

- Alguém mais veio atrás dela?

- Ninguém veio diretamente até mim, mas alguns deles estão se sentando com outros humanos e tentando alguma interação. Escutei que alguns foram para outra aquela outra cidade, você sabe, e que não voltaram de lá. Estão assustados, afinal, toda a sua família está aqui. O que tem lá, que pode estar fazendo isso?

- Eu tenho uma vaga ideia, mas não tenho tanta certeza assim.

- Mande Elijah, vou colocar ela no quarto dos fundos. Ela passou um pouco do ponto. — ouvi os resmungos de Sage ao fundo, o som de um copo quebrando e um corpo caindo.

Não precisei ligar para ele, que já estava próximo ao local. Ao contrário disso, liguei para Caroline. Sua voz preocupada atendeu de imediato, parecia o soar de sinos delicados, baixa, gentil e adorável como sempre.

– Sage está bem Caroline, não fique preocupada. Ela está revezando seu tempo entre procurar respostas e destruir cada metro quadrado de cimento de Nova Orleans, no momento está enfrentando bravamente o coma alcóolico, minha querida.

– Não acho que tenha muito o que ela possa fazer Klaus. Deixe só que Sage viva sua vida, como tem que ser.

– Não Caroline, ela jamais se perdoaria.

– Faça ela esquecer de nós Klaus. Deixe que ela viva sua vida. Faça isso. Damon vai morrer, Bonnie vai morrer… e…

– E você quer que eu mate Stefan? Ele nunca vai deixar ela viver. Você quer que eu mate o homem que você ama, por causa dela? Eu não vou aceitar que ela morra, estando juntos ou separados. Eu nunca irei aceitar isso.

– Claro que não, eu não quero que isso aconteça com ninguém. Eu só… eu… quero que todos fiquem bem, mas eu não sei mais o que fazer. — protestou energicamente.- Eu imaginei que se eu fosse aí… que talvez eu consiga encontrar essa bruxa, junto de Alaric. E que quando nós a encontrarmos…

– Não. Mesmo que hipnotize, não muda o fato que ela é uma marcada, não muda o fato de ela ser uma duplicata, não muda o fato de que ela é minha. Se ela me disser que é isso que ela quer… eu irei fazer. — respirei fundo, meu queixo tremeu e apertei meu celular com força. — Mas eu espero e acredito que isso nunca vá acontecer, eu sempre vou querer tudo de melhor para ela Caroline, mas eu sempre vou esperar que isso seja comigo.

Ela ficou em silêncio por um longo momento, escutei ela fungando ao fundo, o som de um aparelho médico com os batimentos de um coração chamaram a minha atenção, claramente ela estava com Bonnie e Matt.

– Tudo bem, você está certo. Eu digo o mesmo sobre Stefan, então por favor… por qual motivo você me ligou.?

– Alguém passou a informação que eu tenho uma companheira e não sei quem foi, mas alguns dos meus inimigos foram a Mystic e não retornaram. Caroline, ficou sabendo de alguma coisa?

– Não. — respondeu com confusão, esticando a palavra. — Não soube de absolutamente nada. Ninguém apareceu por aqui.

– Elena, Katherine? Stefan não esteve por perto?

– Katherine não está mais por aqui, não tenho ideia de onde esteja. Ela desapareceu com Stefan… Elena, não sai de perto de Damon. Talvez Alaric ou Enzo, mas eles com toda a certeza teriam me informado sobre isso.

Suspirei.

– Stefan, talvez? — ela me perguntou.

– Mas ele não estaria tentando matar ela?

– Ele tem alguns momentos de lucidez, antes de ir embora Katherine conseguiu conversar com ele, ele quase matou ela, mas conversaram e ele disse que estava um inferno na cabeça dele. Acho que a bruxa… seja lá o que ela fez com os outros, também conseguiu afetar ele. Não sei se é algo sobre o elo também…

– Pode ser as duas coisas, mas acredito mais que seja o elo o punindo emocionalmente, a bruxa disse que queimaremos… mas não foi especificado que seria um fogo literal. Talvez ele não tenha enlouquecido por completo pelo fato de ela ter sobrevivido ao ataque.

– Sim, mas Klaus… se for Stefan…

– Sim, significa que ele está por perto de vocês.

– É, mas também significa que esses vampiros que estão saindo daí… podem servir como pista para saber onde possivelmente ela está.


Elijah era uma das poucas pessoas que eu poderia confiar na segurança de Sage, mas era a pior pessoa para se confiar no sentido de “não roubar a mulher de alguém”. Ele a beijou, ele ficava próximo esperando pelo momento em que ele teria a oportunidade de a ter como mulher. Me diga? É mais fácil esperar os irmãos selecionarem as mulheres certas e roubarem elas, do que procurar a sua própria mulher?

Eu sentia que estava sendo passado para trás, enquanto eu me desdobrava para manter os vampiros afastados deles, e me mantinha constantemente tentando uma forma de tentar tomar meu reino de volta, meu irmão me passava para trás. Algo estava acontecendo e eu não conseguia entender o que era. A marca vinha desaparecendo, era como se a cada dia que passasse ela fosse se desmanchando, eu me lembrava do rosto dela devido a estar sempre por perto, mas se não fosse as longas noites e os longos dias debaixo do sol quente, eu muito provavelmente não lembraria mais dele.

O que estaria acontecendo?

– Que bruxa? O feitiço que eu botei no meu prédio? — Nataniel me cutucou. — É um feitiço bem simples, só para os vampiros não saberem onde eu e Sage estamos, fiz isso a bastante tempo, faço sempre que me mudo.

– Essa bruxa… você não pode entrar em contato com ela e pedir pra fazer o mesmo em um outro local? Eu preciso mudar Hayley para lá, a minha casa não para de ser constantemente invadida, e eu temo que apenas mudar o nome para o de algum humano não vai surtir muito efeito. Principalmente se quem estiver atrás de Hayley for uma bruxa.

– Pede ao Elijah, foi ele quem me indicou essa bruxa.

Desgraçado!

Eu quebrava a minha casa inteira em estado de fúria, Hayley estava sentada em uma poltrona segurando sua xícara de chá enquanto me observava destruir tudo que havia pela frente.

Eu deveria ter suspeitado quando senti a marca oscilar quando o feitiço foi feito, mas achei que era normal, só não possuía noção da dimensão do quanto aquilo nos afetaria. Nós sempre estaríamos marcados, mesmo que um dia nunca mais nos víssemos nós sempre seremos um do outro, mesmo que em algum momento eu me esquecesse do rosto dela e ela do meu, mesmo que encontrássemos outras pessoas, os nossos corpos sempre saberiam que pertencemos um ao outros. O plano dele funcionaria perfeitamente, se nós nunca mais nos víssemos, pois assim que nossos olhos se cruzassem nós saberíamos da nossa ligação profunda e largaríamos tudo e a todos para sermos só nós dois.

Desgraçado!

Nossos olhos se cruzaram quando ela passou pela porta, e era como se nós nunca tivéssemos nos separado. Eu sentia a decepção e a fúria e a tristeza de saber que aquilo teria sido roubado de mim, novamente a vida me tiraria alguém. E eu não acreditava que apesar de tudo, eu passaria milênios da minha vida perdendo tudo que eu conseguiria conquistar. Todas as mulheres da minha vida que me abandonaram e traíram, não eu não era um santo e eu sabia o que era e quem eu era, mas mesmo errado nós somos criaturas que sempre achamos que merecemos mais além de uma segunda chance. Eu não seria diferente.

Elijah optou por desaparecer de minha frente, me ignorando por completo e a deixando diante de mim.

- Porque deixa que ele faça isso? É ele que você quer? — questionei, a fúria dominava o meu corpo.

Apesar de ter respondido que me amava, petulante do jeito que ela era, com aquele queixo erguido e aquele olhar prepotente, eu sabia muito bem que por dentro ela se divertiu vendo o caos em sua frente. Sage era vingativa, leal, mas extremamente rancorosa.

Às vezes eu me esquecia que ela era humana, e que algumas coisas tinham um peso muito maior para ela do que teriam para mim. Eu sou milenar e algumas coisas simplesmente não são um problema tão grande assim para mim como são para ela. Ela não entende, não vai entender por cinquenta anos, por cem e nem por duzentos. Talvez ela finalmente só entenda isso após seus quinhentos anos de vida como uma vampira. Ter Hayley e um filho não mudariam em nada o que eu sentiria por ela agora ou depois, eu sou completamente capaz de manter meus sentimentos como devem ser mantidos, isso não era um problema para quem passou mais de mil anos em guerra, se aventurando com diversas mulheres sempre com o desejo oculto de encontrar aquilo que me faria deitar em paz por toda a eternidade.

Era um mero detalhe, há espaço na minha vida para todos que eu coloquei nela, seja com a minha intenção ou sem a minha intenção. Sage me via como uma criatura humana, que tinha sentimentos humanos, pensamentos humanos, que enxergava como um humano e que vivia como um humano, mas eu não poderia estar mais distante desta realidade. Seu convívio com vampiros jovens como Stefan e Damon com toda a certeza a influenciavam a ter uma imagem extremamente humana do que seria o vampirismo, afinal, a idade jovem os aproximava mais dos humanos do que eu e meus irmãos. Além de que a relutância em ser vampiro de Stefan. e o desejo de Damon de se humanizar para ficar com Elena com toda a certeza fazia parecer seus problemas mais semelhantes com os dos humanos.

Um filho, um sexo casual com uma estranha que resultou em uma criança, não era nem de longe um problema. Jamais seria um motivo de término em um mundo sobrenatural, a partir deste momento já éramos todos família. Desde o minuto em que coloquei Sage na minha vida para me ajudar com a criação dos híbridos, ela já fazia parte de nós. Eu gostaria de dizer que infelizmente Hayley foi uma adição infeliz, mas eu estaria mentindo sobre isso, pois eu estava em êxtase em saber que seria pai, meu peito explodia de orgulho.

Eu estava vivendo a melhor e a pior fase da minha vida ao mesmo tempo. Eu gostaria de ter passado por essa fase antes de ter conhecido Sage, seria mais fácil lidar com isso. Embora não houvesse traição da parte de ninguém, eu sentia como se o fato de eu já a conhecer na época em que estive com Hayley, mesmo que na época fosse apenas um contrato entre desconhecidos, soasse dessa forma em sua cabeça. Ela se sentia traída, mesmo que não possuísse motivos para isso.

Ah, a confusão dos sentimentos humanos.

- É do meu lado que você fica. — minha voz saiu rouca — É comigo que você fica e é no meu coração que você está. Eu te amo. Eu não minto para você. Hayley é a mãe do meu filho, mas você é a minha rainha. Aqui tem espaço de sobra para você, só não odeie o meu filho.

Como eu havia previsto. Problemas humanos, saber que seria pai foi uma grata surpresa, mas eu já havia deixado de me preocupar com isso a muitos anos atrás, isso nunca havia sido problema para mim. Como eu disse, Sage tinha uma cabeça humana, ela pensava como uma humana e não entendia como o meu mundo funcionava, mas eu seria paciente, até o dia que ela finalmente fosse entender que o fato dela poder ter ou não filhos, comigo sendo um híbrido ou humano, não fazia diferença alguma para mim. Eu tinha certeza que ela nem cogitava ser uma criança, mas Sage era Sage.

Os ânimos sobre os meus mil anos de germes foram finalmente apaziguados, e Sage parou de perturbar o meu juízo. Definitivamente, as chances de eu morrer para o sentimento que eu cultivava por ela, era maior do que morrer pelas mãos de um inimigo. O amor é realmente uma arma perigosa.


Notas finais
Honestamente, eu nem sabia mais que possuía aceso a essa conta. Na realidade nem mesmo sabia que tinha essa conta ainda, fui procurar por curiosidade, pois surgiu a vontade de reescrever ela de uma forma menos infantilizada, e acabei a encontrando. Achei que era o caso de alguém que havia repostado, mas me surpreendi ao ver que era a minha conta antiga, com muito custo consegui recuperar o acesso dela. Eu achava que faltava no máximo um capítulo para completar, mas me enganei muito. Comecei a escrever em 2015, talvez até antes disso, e editei diversas vezes antes de começar a postar. Pra vocês terem ideia, eu comecei a escrever aos 18 postei aos 19 anos, isso há quase 10 anos atrás. Tempo para caramba, eu já havia deixado até de assistir a série de Diários de um Vampiro há algum tempo, e acabei indo para um rumo completamente diferente da série por não estar gostando muito do desenvolvimento dela na época, e o fato de ter que ficar esperando sair os capítulos ( todo mundo que assiste série sabia que demora demaaaais sair os capítulos). Então acabei criando um novo enredo, mas relendo ele percebi que em ficou bem confuso em alguns aspectos, mudaria bastante coisa. Principalmente a quantidade absurda de personagens que eu coloquei na história, e isso ficou um pouco sem sentido quando parece não ter espaço para todo mundo se desenvolver, além de as várias interações desnecessárias que acontecem entre os personagens. Cuidem-se.