Eu não sou/Eu sou Hades!
2 O Soar da Sétima Trombeta
Notas iniciais
Na aula de português Carlos, o professor de português, separou a turma em trios para realizarem um trabalho em sala. Na ausência de Aline, Daniel se juntou a Lorena e Roberta para que fechassem o trio e rapidamente terminara o trabalho. E logo estavam no pátio. Daniel em pé sobre o gramado e as duas colegas sentadas na tampa de concreto que havia ali.
O jovem de olhos claros, quase cinzas, não estava exagerando quanto ao dia está escaldante. Ele estava ali a contragosto. Aline havia ido embora depois de suas incrédulas palavras e tanto Roberta quanto Lorena alegavam que estavam com frio. Diferente das demais pessoas que conhecia, nem a sombra e nem o vendo o incomodava. Mas o deixava ótimo.
Hoje, o sinal bateu exatamente as dez horas e junto com o barulho do sinal, outro som latejante e estrondoso soou em sua cabeça. Agora ele já havia assimilado ser o soar de uma trombeta e já estava até esperando que ele viesse novamente. Mas ao contrário do que esperava esse soou mais alto do que todos, e seu som era enlouquecedor.
Ecos e ecos invadiam sua mente sem cessar. Deixando, em sua cabeça, a sensação que explodiria a qualquer instante e não havia como grita ou emitir o menor som que fosse, de tão alto que a trombeta berrava dentro de sua cabeça.
Se os olhos não tivessem se fechado, sem ele nem ao menos perceber, Daniel teria notado que um grande público o assistia cambalear de um lado ao outro, com as mãos no ouvido e fazendo mimica de um grito que jamais sairia da sua garganta.
Dez minutos se passaram com Daniel nesse estado, até o som da Trombeta parar, embora a sensação dela em sua cabeça permanecesse. Roberta e Lorena já haviam desistido de tentar saber o que estava ocorrendo, os outros alunos que não paravam de rir e gargalha repassavam vídeos de um celular a outros.
Daniel ainda atordoado não parava de olhar o Sol, os mais especificamente, um ponto negro no seu centro. Suas vistas queimavam e a sensação era horrível, mas era impossível de sair desse transe. Aos poucos a sensação da trombeta em sua cabeça ia diminuindo em zunidos e conforme isso ocorria melhor ele conseguia ver o ponto negro.
Mais dez minutos se haviam passado e todos tiveram que subir para suas salas. Daniel foi bruscamente retirado de seu transe por algo que o atingiu, fazendo cair de lado no gramado. Ele tentou avista quem poderia ter lhe acertado, mas não havia mais ninguém por perto.
Mesmo não querendo contato com ninguém nem fala com mais ninguém, já sabendo que pagou mico, ele subiu para sua sala. Enquanto subia ele se lembrava do que pensava ter visto no alto do seu — que parecia está no entro do Sol.
"Aquele era o tal anjo?" Ele se perguntava lembrando da conversa que havia tido com Aline, antes dela se mandar.
"Sim era!" Algo o respondeu. Algo em sua mente o havia respondido, ele tinha certeza. Era uma voz apavorante que jamais haveria de ter ouvido antes: era gélida e profunda.
Mesmo assim olhou a sua volta e não viu ninguém e então percebeu que estava parado no corredor. Ele se perguntaria a quanto tempo estaria parado ali, se outro pensamento não tivesse vindo antes:
"De quem foi essa voz?" Se perguntou, sem esperança de ser respondido, mas para sua surpresa alguém o respondeu:
— Hades! — Berrou uma voz, que diferente da anterior vinha de fora da sua cabeça e não era nada assustadora, embora fosse tenebrosa.
Ele temia olha para quem quer que tenha dito aquela palavra, mas algo dentro de si -- e não era curiosidade -, o insistia para que virasse. E por fim cedeu. Abismado. Não dava par acreditar no que via. Sentia-se estranho e ao mesmo tempo com vontade de rir. Sntiu-se estranho por tanta hesitação em virar. Seria medo?
— Hades! — Aquele ser repetiu vendo Daniel paralisado.
— Você? Hades? O deus grego? — Ele indagava com desdém e querendo rir.
Devido a capa verde-escuro envolvida em seu corpo e capuz enterrado em seu rosto, não foi possível, dizer ser era homem ou uma mulher que estava a frente de Daniel, mas a sua voz indicava ser um homem bem mais velho. Que soltou uma tenebrosa e breve risada ao ouvir o garoto.
— Você, realmente, não faz ideia de quem seja! — Falou e em seguida abriu os braços, levando com eles a capa que deixou a parte da frente de seu corpo a mostra. Mas Daniel só conseguiu ver — e de relance -, que ele usava roupas aparentemente de couro num tom vinho. Pois corvos saíram voando, quando aquele ser abriu a capa, e foram em direção ao menino que correu pelo corredor para alcançar sua sala. — Nunca foi tão fácil matar um Hades. — Afirmou confiantemente vendo seu alvo correndo dos corvos.
*****
Carlos, que para evitar os comentários, havia preenchido o quadro duas vezes e enquanto esperava os alunos terminarem de copiar o segundo e a aula acabar, ficou imaginando onde estavam os dez alunos que não haviam voltado para a sala, entre eles estava realmente preocupado com Daniel.
Já que tomou conhecimento que quando a diretora foi comunicada do ocorrido no intervalo. Ela, simplesmente, falou que não há nada que poderia ser feito, que devia ser mais uma palhaçada dos alunos e que havia problemas mais importantes a serem tratados.
Logo o sinal tocou anunciando a troca de professores e Carlos se despediu da turma pensativo e receoso. Mas, no fundo dava graças adeus que o ano estava no fim.
— Meninas... — Ele chamou por Lorena e Roberta, quando pôs a mão na porta. Elas o olhou. — Passem a matéria para o Daniel, por favor. — Ele completou, abrindo a porta para sair.
— Pôde deixar com agente. — Disse Roberta e as duas sorriram.
"Pelo menos ele não está só!" Ele pensou mais tranquilizado e saiu.
— Ahh! — Carlos recebeu uma pancada na barriga que o derrubou para dentro da sala novamente.
— Professor! — Berrou alguém na sala.
— Daniel! — Berrou outro.
Todos se levantavam para ir até os dois — alguns riam, outros estavam assustados e outros curiosos -, mas hesitaram quando os corvos invadiram a sala.
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