Eu não irei ouvir você dizer que me odeia

1 Ouço sua sinceridade, conto mentiras


Notas iniciais
Esta oneshot está ligada a outras histórias minhas. A ordem de leitura, para melhor compreensão, seria:
1. Misofonia
2. A pianist's melancholy
3. Eu não irei ouvir você dizer que me odeia
Mas, claro, você pode ignorar essa ordem e ainda entender a história (vagamente)

No primeiro ano, quando nos conhecemos, eu fui pra ela um sonho que criou vida.

No aniversário de um ano, eu contei parte da realidade do meu passado, e ela me contou parte do dela.

No segundo ano, eu fui a pessoa que ela desejou ao seu lado.

No aniversário de dois anos, eu dei pra ela um amor. Um que durasse até onde pudesse durar, embora eu preferisse a eternidade.

No terceiro ano, nós nos completávamos.

No aniversário de três anos, começamos a morar juntas. Não sei se foi cedo demais.

No quarto ano, eu estava me sentindo mal pelo que não contei.

Para o aniversário de quatro anos, eu queria dar a ela uma carta.

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De: Soli

Para: Ihna

Feliz aniversário de 3 anos! Talvez você me odeie quando terminar de ler a carta neste envelope... Então pense bem, a escolha é sua.

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Minha amada Ihna...

A verdade é que eu ouvi todas as vezes que você disse eu te amo.

Eu sei, parece loucura, desde que você me conhece, eu não pareci outra coisa além de completamente honesta sobre perder minha audição perfurando e causando machucados nos meus ouvidos, não é? A parte da misofonia e a do meu sofrimento antes do surto são complemente verdade, de fato... Mas o meu "'acidente" tem um pequeno detalhe que nunca lhe contei.

O ouvido esquerdo não foi danificado como o direito, que ataquei primeiro. Eu já havia perdido muito sangue e como não tinha anestesia alguma, a dor do que eu já havia me causado passava longe de um arranhão, você bem pode imaginar. Eu estava realmente tentando me destruir... Só que não tinha experiência alguma, e falhei miseravelmente calculando por onde começar. Agindo sem pensar duas vezes, o resultado foi que eu fiquei fraca demais antes de conseguir terminar aquilo e desmaiei antes.

Infelizmente, eu recebi ajuda a tempo e sobrevivi. Eu passei um bom tempo odiando essa parte...

Felizmente, eu conheci você. Isso... isso fez tanta diferença pra mim.

Minha irmã, minha médica e a psicóloga sabem que ainda posso ouvir, inevitavelmente. Mas fora isso, me surpreendo muito com o quão raramente outras pessoas me questionam. Como alguém poderia se tornar tão bom em leitura labial em tão pouco tempo, e entender até aqueles que não se importam nem se esforçam pra tentarem se comunicar direito? Com todo respeito, as pessoas confiam muito facilmente numa moça bonita que parece frágil e simpática. E eu digo isso humildemente, porque você sabe que eu me esforço pra pelo menos meu exterior ser admirável, ou eu não vou conseguir me amar de jeito nenhum. Eu não conseguiria andar ao seu lado se eu não estivesse pelo menos um pouco à altura...

Minha audição é apenas uma pequena parcela do que um dia já foi, claro. E é incrível como eu continuo tendo misofonia.

Sim, eu ouvi suas músicas. Eu odeio poder ouvir, mas eu repenso esse ódio toda vez que ouço você tocando. Você é a melhor coisa que aconteceu comigo. Eu sempre pensei que estivesse sozinha, perdendo a esperança que alguém fosse me entender, aceitar e/ou ajudar a ser uma pessoa melhor a cada dia que passava. Ninguém veio, então eu tinha decidido ir embora.

Ainda bem que eu não fui. Talvez seja por essa felicidade que as três que citei antes pensem que estou melhorando.

É verdade que sou feliz, mas minha saúde mental nunca deixou de ser frágil. Eu te amo, mas me odeio. Eu tento me amar porque você me ama, e às vezes até consigo um pouco, mas eu não consigo acreditar que te mereço, embora eu nunca queira deixar você se livrar de mim agora que me cativou, agora que eu finalmente tenho alguém. Não sei se ainda terei outro surto, ou quando, ou o que posso acabar fazendo nele. É como se... Eu poderia me controlar, mas nessas horas eu não consigo sentir que quero. Eu sabia disso desde o começo... É por isso que nunca quis te iludir dizendo que posso ouvir suas músicas, seus "eu te amo", quando a qualquer momento eu posso enlouquecer e tirar essa felicidade de nós duas pra sempre, seja lá em que sentido for.

Eu sinto muito por ser o que eu sou, e não aquilo que você queria, ou precisava... Eu não sei. Me desculpe guardar isso por tanto tempo, talvez eu tenha escorregado aqui e ali, mas você nunca percebeu, não é?

Uma lágrima caiu no papel.

Você não sabe como eu odeio a possibilidade de poder ouvir no momento que você não me aguentar mais e disser que me odeia... Mas eu irei me odiar a um ponto sem volta se esconder isso pra sempre.

Eu queria tornar tudo o que eu disse antes de você ler esta carta verdade agora. Seria melhor assim, não é? Eu nunca pude ouvir, e essa carta é bestei

— Soli, cheguei! — Ihna entrou no apartamento com um monte de sacolas. — Não sei se foi instinto pela nossa festa de aniversário amanhã ou ter passado todas as aulas sentindo cheiro de comida de algum canto por perto da escola, mas eu trouxe um monte de coisas deliciosas! Quer sonho? Ou yakisoba instantâneo...? Hum?

Numa velocidade que Soli nunca pensou que seria capaz, amassou a carta junto do envelope e escondeu no bolso da calça com o afiado pedaço de caco de vidro que carregava consigo escondido. O que sobrou na mesa da sala foram as folhas em branco extras e a caneta. O fato de Ihna ter se distraído falando devagar e visivelmente enquanto fechava a porta e colocava algumas compras no chão ajudou, e a mulher apenas lhe olhou fixamente parecendo confusa com algo.

"O que foi?" Soli escreveu e fez a cara mais inocente que pôde.

Ihna se aproximou.

— Você parece ter chorado. — Ela disse, segurando o rosto da namorada cuidadosamente. E então, sem aviso, lhe deu um beijo.

Quando livre, Soli sacudiu a cabeça nervosamente, corando, e escreveu com pressa: "A universidade e o trabalho são uma combinação estressante, tem horas que eu acabo explodindo".

A outra lhe analisou em silêncio por algum tempo e de repente lhe prendeu em um abraço acariciando seus belos cabelos sem dizer nada.

Não precisava.

Soli sentiu seus olhos lacrimejarem novamente, mas também não disse nada.

Só que na verdade, precisava.

Ela sabia. Sabia que uma hora passaria dos limites, fosse da própria sanidade ou daquele relacionamento, mas o que podia fazer além de continuar adiando ver Ihna mudar completamente com ela? Sua irmã havia mudado. Qualquer outra pessoa também podia.

Ela amava Ihna. Ihna a amava. Era tudo o que bastava naquele momento.

Ela se recusava a ouvir o ódio de mais uma pessoa que amava, independente do que custasse.

Notas finais
Minha criatividade é tipo uma pessoa com vários casos. Às vezes ela me dá um pé na bunda e sai por aí sem nem avisar quando vou vê-la de novo. Outras vezes ela aparece, dá em cima de mim, e monopoliza minha atenção.
Foi o caso dessa vez. Eu estava ouvindo música e arrumando meu quarto quando bum!
Criatividade: Oi coisa linda~ Faça a Soli yandere e aproveite pra explicar os furos das outras histórias!
Eu: Mas eu tenho que arrumar meu quarto, estudar e dormir cedo...
Criatividade: Tô nem aí!~
Eu: Mas... Cadê você pras outras histórias que tem prioridade?
Criatividade: Você me quer ou não?
E foi assim que eu dormi de 2 da manhã depois de escrever sem parar.
Eu sinto muito pela minha amiga que queria tanto que eu terminasse a história de halloween, já que a data passou e não tenho mais o ânimo que tinha pra escrever ela, mas o objetivo inicial era que eu escrevesse yuri pra ela (porque ela ama yuri e eu preciso de motivação pra não parar de escrever), então aqui está. Espero que isso te faça feliz e deixe satisfeita por um tempo, meu amorzinho.
E eu não estou com raiva dos quatro tapas que você deu na minha cara. Eu mereci, e até agradeço. Ainda assim, tudo bem se você preferir não comentar.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!