Eu não gosto de café
1 Eu não gosto de café - Capítulo único
Eu não gosto de café.
Já tentei diversas vezes. Com açúcar e adoçante. O gosto sempre me parece amargo. Mesmo os expressos e com chocolate não agradam ao paladar. Assim como os últimos dias de nossas vidas. Mas, mesmo assim, quando me levanto antes de todos, faço um café que eles julgam delicioso. Mas, mesmo feito pelas minhas mãos, não consigo ter o mesmo apreço que eles.
É quase irônico eu preparar pelas manhãs algo que eu não gosto apenas pelo carinho que eu tenho com os outros. É um pequeno ato diário de amor, extremamente sútil, que apenas mostra que eu não quero que eles tenham a preocupação de preparar o próprio café. Então, observo eles a tomarem o amargo café — que eles juram ser doce — enquanto me delicio do meu delicado chá adoçado com mel, que também pode parecer amargo ou até mesmo sem gosto para os apreciadores de café à minha volta. É tudo uma questão de gosto e percepção. É apenas uma questão de opinião.
Opinião que nem sempre é respeitada.
Há aqueles que acham que o café é algo obrigatório na mesa do brasileiro, e chamam aqueles, assim como eu, que preferem um chá ou outra coisa, de frescurento, com paladar de criança, alguém que não sabe apreciar o que é bom. Não aceitam que cada pessoa é um ser individual, com suas próprias individualidades. Não existe certo ou errado quando o assunto é café, creio eu, então porque tentar impor aos outros os seus próprios gostos? Suas opiniões?
Os últimos dias têm sido cinzentos e amargos, como o café na minha boca, e mesmo o entupindo de açúcar, não consigo deixar nenhum dois dois doces o suficiente para conseguir engolir. O que mais me entristece, é que assim como há aqueles que acham que todos devem tomar café, há aqueles que acham que todos devem seguir uma mesma opinião. Sem questionar, sem ver o outro lado da moeda, sem experimentar o chá adoçado com mel para ver o que acham realmente. Há aqueles que acham o café tão superior, que acabam despejando contra a vontade das pessoas o líquido preto e quente em suas bocas, pois não importa os argumentos, eles estão errados por não gostarem de café, e ponto final. Quando foi que tudo ficou assim? Ou será que sempre foi?
Estamos em tempos difíceis, tempos que parecem como café para mim. São tempos de medo, incertezas, tempos de entender que a vida do outro também importa. Por essa simples razão eu preparo o café quando levanto antes de todos, não é apenas um ato de amor, mas também de respeito, para lembrá-los que são importantes para mim, mesmo que não entenda a razão pela qual eles gostam tanto de café, assim como eles não entendem a razão d’eu gostar de tomar chá.
Respeite a opinião alheia.
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