Eu estrelo você
7 Márcia
Notas iniciais
Márcia POV
— Algo que você precisou fazer ? — Perguntei.
O professor começou a passar a matéria la lousa, mas eu não estou afim de copiar agora. Eu tenho muita coisa pra conversar com o Riquelme, será que ele perdeu mesmo as memórias ? Então, como ele se lembrou de mim e do lugar em que se sentava ?
— Sim ué, eu precisei faltar porquê eu perdi minhas memórias. — Respondeu o Riquelme.
— Se você perdeu suas memórias, como você se lembra de mim ? — Perguntei à ele num tom de voz baixo, pois se o professor escutasse, iria mandar nós pararmos de conversar.
— Sinceramente eu não sei, mas, quando olhei pro povo da sala e te vi, logo soube que você era minha melhor amiga e que conversávamos bastante. — Disse ele.
— Ahh é ?? Que fofo ! — Falei.
— Porém por algum motivo, eu só consegui me lembrar de você. — Falou ele. — Você era a minha única amiga na sala inteira ?
— Sim, eu sou sua única amiga, tipo, você até que falava com os outros, mas só de vez em quando e bem pouquinho. — Expliquei á ele. — Você costumava ser bastante tímido.
— Entendi, é verdade, acho que eu sou tímido. — Falou o Riquelme, enquanto tirava o caderno da sua mochila e o colocava sob a mesa.
— Do que mais você se esqueceu ? — Perguntei.
— Essa é uma pergunta bem impossível de se responder... É melhor você me perguntar do que mais eu me lembro. — Respondeu ele.
— Hahá, tá bom então, do que mais você se lembra ? — Perguntei.
Os únicos sons que viajavam pela sala de aula, eram o som de alguns alunos conversando e o som do professor escrevendo na lousa com o giz.
— Eu me lembro da minha casa, do meu pai, da minha tia, de você e de algumas coisas bem aleatórias. — Disse ele, enquanto abria seu caderno e ficava lendo alguma coisa que estava escrito.
— Coisas aleatórias ? — Perguntei, enquanto pegava a caneta e começava a copiar a matéria no caderno.
Melhor deixar de ser preguiçosa, vou conversar e copiar ao mesmo tempo, sou até que boa em fazer isso.
— Sim, como por exemplo, me lembro que eu não gosto de carne, me lembro que adoro comer um salgadinho chamado "sensações", também me lembro que gosto de jogar e de mexer no computador, e quando estava vindo pra cá, me lembrei das ruas e de algumas coisas que tinham no caminho. — Contou Riquelme, enquanto continuava lendo alguma coisa em seu caderno.
— Entendi, mas, se tratando de mim, do quê você se lembra ? — Perguntei.
— Hmmm... Inicialmente, lembrei-me do seu rosto e nome assim que te vi... — Respondeu ele.
— E.... ?
— Também me lembrei que você era minha melhor amiga e que conversávamos bastante.
— E.... ?
— A-acho que é só isso...
— Francamente Riquelme, sou sua melhor amiga e você só se lembra disso... — Murmurei.
— Desculpa Márcia... — Disse ele, enquanto continuava a olhar as páginas do caderno, cuidadosamente.
Será que se eu contar à ele tudo que eu sei, ele se lembrará ? Mas, o quê eu conto primeiro ? Devo começar contando como nós nos conhecemos ? Ou será que devo começar contando sobre como ele era antes de perder as memórias ?
— Tudo bem, olha, eu tive uma ideia. — Falei.
— Qual ?
— Vou ir te contando algumas coisas, aí você me diz se você se lembra, okay ? — Perguntei.
— Certo. — Respondeu ele.
— Antes de perder as memórias, você era um menino muito inteligente, você sempre tirou as maiores notes e sempre conseguiu fazer todos os exercícios com facilidade, tanto que, eu sempre te pedia ajuda. Principalmente nos exercícios de matemática. — Contei.
Flashback ON
Eu e o Riquelme estávamos sentados em dupla, um do lado do outro, na aula de matemática.
— Riquelme, como faz o "a" ? — Perguntei.
— Ah Márcia, não sei. — Respondeu ele, enquanto montava perfeitamente a equação do exercício J.
— Como não sabe ?? Você já está no J ! — Falei.
— Tá. — Falou ele, enquanto continuava escrevendo sem prestar atenção em mim.
— Então me ajuda ! — Pedi.
— Ahhhhh Márcia, você está me atrapalhando, não vê que eu estou pensando aqui !? — Disse ele.
— TÁ BOM, ARROGANTE ! — Exclamei.
Ele parou de escrever, olhou pra mim e começou a dar risada.
— O-o-o quê foi ? — Perguntei.
— Você é engraçada. — Respondeu ele.
— E-eu não sou engraçada.
— É que o exercício "a" é tão fácil. — Disse ele, enquanto espiava o meu caderno. — E olha como você o montou todo errado, hahahaha.
— Eu sei que tá errado, por isso eu estou pedindo ajuda. — Falei.
— Então tá, o exercício "a" você faz assim, nessa parte da equação, a gente tem que deixar o que for x com o que for x, e o que for número com o que for número, ou seja, a gente inverte. — Disse ele, enquanto montava a conta no meu caderno.
— Hm.... — Murmurei.
— O 2X vai passar pro outro lado, porquê precisamos fazer com quê ele fique com o X, e o 4 vai passar pra cá, porquê precisamos fazer com quê ele fique com o outro número. — Explicou Riquelme.
— Hm........................... — Murmurei.
— E você sabe né, que sempre que nós passamos um algarismo pro outro lado da igualdade, o sinal dele inverte, né ? — Perguntou ele.
— Sim.
— Então o 2X vai ficar positivo ou negativo ? — Perguntou ele.
— Hm.... — Analisei a conta. — Vai ficar +2X.
— Não Márcia.
— Por quê ?
— Porquê ele já era positivo antes, se ele passou pra esse lado, então ele fica negativo. — Respondeu Riquelme. — É -2X.
— Ah, mas isso é muito difícil ! — Exclamei.
— É equação básica... Todo mundo no segundo ano sabe disso... — Disse ele.
— Tá tá, já entendi, vou fazer sozinha. — Falei.
Flashback OFF
— Ahhh, é verdade ! Acho que me lembro ! — Exclamou ele.
— Se lembrou do quê ? — Perguntei.
— Me lembrei de você sempre me atrapalhar quando eu estava concentrado, montando alguma conta. — Respondeu Riquelme.
— Ah, então eu te atrapalhava ?? — Perguntei.
— Sim, muito. — Respondeu ele. — E ainda fazia uma cara engraçada quando tentava montar os exercícios sozinha.
Ele está se lembrando de mim como uma pessoa patética, tsk. Mas pelo menos parece que ele está conseguindo se lembrar, isso é bom...
O quê mais eu posso contar ?
— Você também costumava ser um garoto bem calmo. — Falei. — Eu diferente de você, me estresso por coisas banais, e quando eu me estressava, você era o único que conseguia me acalmar.
— Como assim ?
— Tipo, eu sou bem sistemática pra algumas coisas... Eu não gosto de ter amigas meninas porquê são sempre falsas e fofoqueiras, tanto que essas piriguetes da sala me dão a maior raiva ! São todas umas vadias que só querem saber de dar o rabo. — Contei ao Riquelme.
— É mesmo, me lembrei disso também, você me disse uma vez que só têm amigos meninos.
— Sim sim, então, teve uma vez que eu soube de uma fofoca que a Sabrina fez de mim, e aí eu....
Flashback ON
Eu e o Gabriel estávamos na sala de aula, mais uma vez estávamos sentados em dupla.
— Riquelme, eu não acredito ! Eu soube que a Sabrina me chamou de monga ontem, quando eu faltei. Quem ela pensa que é ? Ninguém aqui na escola respeita ela, os meninos todos passam a mão na bunda dela sempre que bem entenderem, ela é uma vadia completa que não sabe somar 1 + 1, E AINDA VEM E ME CHAMA DE MONGA !?
— Calma, talvez seja um boato falso. — Disse ele.
— Eu duvido que seja falso ! Aliás, quem é falsa aqui é ela ! Por que ela deixa pra falar as coisas quando eu falto ? Por que ela não vem e fala na minha cara ? Quando ela vem falar comigo, vem com todo aquele mimimi de "amiga isso, amiga aquilo". — Falei. — Agora sou eu quem vou falar na cara dela também, que ela é uma pulta, que ninguém respeita ela e de que ela não tem o direito de falar de mim.
— Não faça isso, você é esquentada e a Sabrina é a maior barraqueira, ela vai pular em cima de você se você disser isso. — Falou o Riquelme.
— Nós não vamos brigar assim, eu só vou ir conversar e mais nada. — Falei, enquanto me levantava da cadeira.
Riquelme se levantou também e falou :
— Quem que te contou que a Sabrina te chamou de monga ? — Perguntou ele.
— A Nataly. — Respondi.
— A Nataly é a maior invejosa da sala e todos sabem disso. Você já reparou pro modo que ela olha pra você ? — Perguntou ele.
— Não, como ?
— Ela olha pra você e deve pensar "Como ela consegue ser tão bonita ? Eu queria ter esse corpo", porquê convenhamos, a Nataly não tem o melhor dos corpos, ela é gordinha. — Disse ele. — Eu tenho certeza que ela morre de inveja de você, e ela só deve ter te contado aquilo pra ver você se lascar.
— ... — Fiquei calada.
— Ela está tentando jogar você contra a Sabrina, não caia nessa, sem contar que ela não apresentou nenhuma prova de que a Sabrina realmente te chamou de monga, então, não seja ingênua e não acredite no que os outros dizem tão facilmente. — Falou ele.
— T-tá... — Me sentei novamente, e ele também.
— Você é bonita Márcia, você é baixinha, branquinha, seu cabelo é bem preto, liso e longo, seus olhos são de um azul beeem clarinho, sua bochecha é rosadinha e seu rostinho é perfeito. Na minha opinião, és a menina mais bonita da sala. — Falou o Riquelme.
— O-obrigada... — Murmurei.
— B-bem, é verdade que seus peitos são pequenos...
— E DAÍ ?? ISSO NÃO IMPORTA, P-POR... — Tentei falar, mas fui interrompida por ele.
— Porém, pra compensar, sua bunda é grande. — Disse ele. — Enfim, não desperdice seu tempo nem com a Sabrina e nem com a Nataly.
— Tá certo...
Flashback OFF
— Se lembrou ? — Perguntei.
— Sim sim, você quase foi arrumar a maior confusão com a Sabrina por bobeira. — Respondeu ele. — Aposto que você mandaria a garota pro hospital, você é baixinha mais bate e arranha bem forte.
— Então se lembrou que eu bato forte, hein ?
— S-s-s-s-sim......... — Murmurou ele.
— Hm... Estou pensando, o que mais seria importante eu falar ? — Perguntei.
— Por quê não fala como nós nos conhecemos ? — Sugeriu ele.
— Boa ideia. — Afirmei.
Eu me transferi pra escola em Setembro do ano passado, mas só comecei a falar com o Riquelme um pouco depois.
Ele vivia sozinho e sem falar com ninguém, ou estava fazendo lição, ou estava dormindo.
— Eu entrei pra escola já no finzinho do ano passado, e quando cheguei na sala, você era o menino excluído, aquele que não tinha amigo algum e não falava com ninguém. — Falei. — Ou você estava fazendo lição, ou estava dormindo.
— Eu não tinha amigos ? Sério ? Que estranho, eu pensei que eu tivesse vários. — Disse ele. — Mas por quê eu não tinha amigos ? Eu era muito anti-social ?
— Eu te fiz essa mesma pergunta assim que falei com você pela primeira vez. — Falei.
Flashback ON
Fui até o garoto que sempre estava sozinho.
Ele estava fazendo os exercícios de matemática, e parecia fazer com bastante facilidade.
— Oi. — Falei, enquanto me sentava na frente dele e me virava pra trás.
— Oi. — Disse ele.
— Por quê você está sempre sozinho ? — Perguntei.
— A-ah... Sei lá. — Respondeu ele. — Provavelmente é porquê só tem funkeiro na sala de aula, e eu não me dou bem com funkeiros.
Eu também não gostava de funkeiros, então tínhamos algo em comum.
— Entendi, seu nome é Gabriel, não é ? — Perguntei.
— Sim, e o seu é Márcia né ?
— Isso !
— Nós temos uma coisa em comum Márcia, várias das vezes que eu dou uma olhada na sala, eu vejo você dormindo. — Disse ele.
— Ah, é que eu não tenho tempo pra nada... Eu venho pra escola de manhã, trabalho de tarde e de noite e só durmo umas 6 horas de madrugada. — Contei á ele.
— Nossa, que chato, eu acho que morreria se tivesse uma vida tão estressante assim. — Disse ele.
— E você ? Também notei que você dorme bastante, por quê ? — Perguntei.
— N-não é que eu durmo, na verdade eu nunca conseguiria dormir na sala de aula com todo esse barulho. — Respondeu ele. — Eu apenas abaixo a cabeça e fico pensando em coisas aleatórias pra matar o tempo. É bem legal.
— Ah, entendi, mas você costuma pensar no que ?
— Em coisas nem estranhas, tipo, é que...
Flashback OFF
E foi assim que nos conhecemos, depois disso, sempre conversamos bastante, e sempre tivemos assunto pra conversar um com o outro.
— É mesmo, eu não gosto dos funkeiros... Mais uma coisa que você me ajudou a lembrar. — Disse ele.
— Mas você só lembrou disso ? — Perguntei.
— Não, quando você me contou essa historinha da primeira vez que nos falamos, eu imaginei a cena toda na minha cabeça, e senti como se de fato tivesse acontecido. — Respondeu ele.
— Ah bom.
— O que mais ? O quê mais você sabe sobre mim ? — Perguntou ele.
Eu sei bastante coisa... M-mas, o que será que devo dizer primeiro ? Que dúvida.
— Você é gay. — Respondi.
— O quê ??? Sou ? Não pode ser, você está brincando não é ? — Disse ele.
— Não é brincadeira não, você é sim. — Falei.
— Não têm c-como e-eu.... — Murmurou ele.
O Riquelme ficou paralisado, parou de falar e ficou imóvel, como se estivesse pensando em algo.
— R-Riquelme... ?
— Espera.
Alguns minutos depois, ele voltou a falar.
— É verdade, acho que sou gay. — Disse ele.
— Se lembrou de algo ? — Perguntei.
— Sim, me lembrei de umas coisas bem desnecessárias, mas deixando isso de lado, sinto que estou esquecendo alguma coisa muito importante. — Respondeu ele. — O que será ?
— Não sei. — Falei.
Ele continuou tentando se lembrar da "coisa muito importante", mas logo desistiu e me fez outra pergunta.
— O que eu costumava fazer no dia-a-dia ? — Perguntou ele.
— Você ficava o dia inteiro mexendo no computador, jogando ou assistindo anime. — Respondi.
— Animes !! É verdade !! Como pude me esquecer !? Eu era um completo otaku !
— Lembra que você me fez assistir um, e eu gostei ? — Perguntei.
— S-sim... — Respondeu ele.
— Consegue se lembrar qual era ?
— Vou tentar, espera.
Ele ficou alguns minutos pensando, e logo tornou-se a falar.
— Não me lembrei, qual era ?
— Você me fez assistir Jigoku Shoujo. — Afirmei.
— Ahhhhh, é mesmo ! Eu te recomendei esse anime porquê você gostava de coisas sobrenaturais, não é ?
— Sim, isso.
— Você gostava de um jogo chamado Fatal Frame, e era alienada com assuntos que envolviam espíritos e coisas do tipo. — Disse ele.
— Sim, você está se lembrando ! —Exclamei.
— Me conte mais coisas ! — Pediu ele.
— Não. — Falei.
— Por quê ???
— Porquê agora é sua vez. Quero que você me conte como perdeu as memórias, e o que têm feito nesses últimos dias. — Sugeri.
— Hm... Como eu perdi minhas memórias eu não lembro, mas, pelo que me disseram, eu caí e bati a cabeça na guia da calçada. — Disse ele.
— Caiu ? Caiu como ? — Perguntei.
— Não sei, talvez eu tenha tropeçado. — Respondeu ele.
— Hm... E isso foi aonde ?
— Foi na frente da casa do... — Murmurou ele, e logo ficou quieto e paralisado de novo, como se estivesse pensando.
— Riquelme ? O quê foi ?
— Q-que estranho... Eu senti como se me lembrasse da resposta, m-mas... Q-que estranho... — Disse ele.
— Como assim ? Me explique.
— Eu disse que foi na frente da casa do... M-mas, eu não me lembro de quem era... Na verdade, quando eu ia falar, pensei que soubesse o nome, mas logo depois senti como se ele estivesse desaparecido... Q-que estranho. — Ele tentou me explicar, mas, custei pra tentar entender.
— Então você não lembra ? Mas pelo que te disseram, aonde você desmaiou ? — Perguntei.
— A Maria me disse que eu desmaiei no portão da casa dela. — Respondeu o Riquelme.
— Quem é Maria ? — Perguntei.
— Maria é a vó... — Respondeu ele, que começou a pensar de novo.
— A vó... ? — Perguntei.
— A vó do V-Vinícius... ? — Disse ele.
— Vinícius ? — Perguntei.
— S-sim... Isso, a maria é a vó do Vinícius. E quando eu disse : "Desmaiei na frente da casa do...", provavelmente ia falar Vinícius. — Respondeu ele.
— Espera, não estou entendendo, me explique melhor.
— É que tipo, desde quando perdi as memórias, eu tenho dormido na casa da Maria, mas aí ontem eu acordei e lá tinha uma pessoa que eu nunca tinha visto. — Disse ele.
— Quem ? — Perguntei.
— Um menino da minha idade chamado Vinícius. — Respondeu Riquelme. — Ele me disse que é neto da Maria, e também disse que eu me esqueci dele recentemente por causa da minha amnesia.
— Hm.............................. — Murmurei.
Então ele se esqueceu do Vinícius depois de ter perdido a memória ? Por quê ? Que estranho.
— Sabe, agora que estou pensando, é mesmo, eu tenho certeza de que iria dizer que desmaiei na frente da casa do Vinícius, mas então se eu ia dizer isso, quer dizer que eu já o conhecia antes, e que de fato o esqueci recentemente, depois de perder as outras memórias... Mas por quê ? E por quê não consigo mais me lembrar dele ?
Vinícius, né... ? Só pode ser o Vini.
Vini era o ex namorado do Riquelme, que o fez sofrer muito.
Mas, como assim o Riquelme desmaiou na frente da casa dele ? O quê ele foi fazer lá ?
Não... E-espere um pouco... Eu sei o quê ele foi fazer lá...
Essa não... Não acredito... Q-quer dizer que o Riquelme perdeu as memórias por MINHA culpa ?
D-droga, não pode ser, mas se for, faz sentido.
— Márcia ? Alô ? — Perguntou ele.
O que eu digo ? Será que eu conto a ele tudo que eu sei sobre ele e o Vinícius ? Mas e se eu fizer isso e ele se lembrar ? Se tratando do Vinícius, é melhor que ele nunca se lembre daquele garoto, pelo próprio bem.
O Vinícius fez o meu amigo sofrer muito.
O Riquelme amava aquele garoto demais porém nunca foi correspondido, e não apenas isso, o Vinícius fazia questão de pisar em todos os sentimentos do Rick.
Me lembro da primeira vez que ele me contou do Vinícius.
Flashback ON
Eu e o Riquelme estávamos lanchando numa lanchonete, ele comia uma fogazza de queijo, e eu uma coxinha. Nós estávamos conversando sobre a primeira vez que nos encontramos.
— Antes de eu falar com você, você era um isolado, Riquelme. — Falei.
— Por quê ? — Perguntou ele, enquanto passava ketchup na fogazza.
— Porquê você não falava com ninguém e vivia de cabeça baixa. — Eu disse.
Ele deu uma mordida na fogazza e eu dei umas três mordidas na minha coxinha, e depois de alguns minutos ele resolveu falar de algo que nunca havia falado.
— Sabe, quando eu ficava de cabeça abaixada na sala, ficava me lembrando de alguém. — Contou ele.
— De quem ? — Perguntei.
— Do meu ex-namorado. — Respondeu ele.
— Você tinha um namorado ??? Quem era ??? — Perguntei.
— O Vini. — Respondeu ele.
— Vini ? Que Vini ? — Perguntei.
— O mesmo Vini que você conhece, aquele da nossa sala. — Respondeu ele.
— Aquele loirinho ?
— Sim.
— Ele era seu namorado ? Mas eu nunca vi vocês se falando antes.
— B-bem, pra ser preciso, ele me era bem especial... Nós éramos melhores amigos desde a sexta série, mas aí quando eu me aproximei da puberdade e me "descobri", passei a gostar muito dele. — Contou o Riquelme.
— E aí ? — Perguntei.
— Eu mantive isso em segredo dele, até descobrir que ele era gay também. — Respondeu o Riquelme.
— Como você descobriu ? — Perguntei.
— Fuçando os vídeos no tablet dele, eu encontrei alguns pornôs gays. — Respondeu ele.
— Nossa... E depois ?
— Depois eu procurei pela melhor oportunidade pra me declarar, só que eu sempre ficava muito nervoso e perdia a chance.
— Que bonitinho...
— Enfim, eu fiquei nisso, até que um certo dia, tomei coragem e convidei ele pra vir dormir na minha casa. Aí de noite, chamei ele pra vir comigo na garagem de casa e lá nós deitamos no chão e ficamos olhando o céu escuro e as estrelas. — Contou ele. — Foi nessa que eu contei que tinha descoberto sobre a sexualidade dele, e também contei sobre mim e que eu o amava muito.
— E o quê ele disse ? — Perguntei.
— Nada, ele ficou petrificado, creio que ele nunca esperava aquela atitude vinda de mim, que era seu melhor amigo. — Respondeu o Riquelme, enquanto encarava o copo cheio de suco.
— Eu também ficaria se você fizesse tal declaração pra mim, assim, de repente.
Ele me olhou com uma cara estranha e falou :
— E-eu não sou louco. Sem contar que eu amo o Vini até hoje. — Disse ele.
— Mas bem, o que aconteceu depois ?
— Depois ele continuou sendo meu amigo normal, só que, após eu me declarar pela primeira vez, ficou bem mais fácil se declarar mais vezes, e cheguei ao ponto em que todo dia falava coisas românticas à ele, e sempre tentava conseguir algumas oportunidades de tocá-lo, por mais leve que fosse o toque. — Contou o Riquelme. — Nessa eu consegui insistir o suficiente pra fazê-lo aceitar um namoro comigo.
— Hm...
— Mas sabe, acho que a insistência foi o meu primeiro grande erro, tipo, o Vini começou a namorar comigo, mas eu sabia só de olhá-lo nos olhos que ele não sentia por mim o mesmo que eu sentia por ele, então apenas tentei fazê-lo se apaixonar por mim, dia pós dia, sempre com um plano novo.
— Vocês se beijavam ? — Perguntei.
— Não, nós não agíamos como namorados, ele não queria que eu conversasse com ele em público com medo que desconfiassem, e também não queria que eu fizesse nada chamativo. — Respondeu ele.
— Que chato, isso não pode nem ser chamado de namoro. — Falei.
— Então... Mas aí as coisas começaram a piorar... — Murmurou Riquelme.
— Por quê ?
— Porquê eu quis tentar forçar a barra, sempre quis tentar tocar, abraçar e beijar o Vini, mesmo ele não querendo. E isso fez com que ele começasse a dizer coisas cruéis. — Disse ele.
— Que coisas cruéis ?
— Coisas como... "Se você fizer isso de novo, eu nunca mais falo com você" ou, "Eu não sou louco de andar de mãos dadas com você" ou, "Você está forçando muito as coisas, sabe, acho que nós nunca vamos dar certo".
— Hm, ele parecia mesmo não sentir nada por você. — Falei.
— Sempre que ele dizia alguma dessas coisas, eu sentia grandes "ferroadas" no meu coração, principalmente quando eu tentava tocá-lo e ele me batia, ou quando ele me ignorava e se afastava de mim... E-era sempre muito difícil.
— E aí, o quê aconteceu depois ?
— Aí eu senti que nós estávamos nos afastando, então, inventei que eu estava me achando gordo, e o chamei pra vir andar de bicicleta comigo num parque. — Disse ele. — Quando nós paramos pra descansar, eu disse muitas coisas românticas à ele, coisas que de fato eram verdade... M-mas ele sempre respondia tudo com frieza.
— Que chato..
— E por fim, tentei dar um abraço nele, mas aí ele me empurrou e disse : "Para, isso é vergonhoso, estamos num lugar público, todos estão nos olhando".
— Vixi...
— Foi muito difícil, nessa que eu percebi que ele tinha vergonha de mim, que ele não me queria por perto, que eu era um incômodo, que eu só enchia o saco e que não importa o quanto eu tentasse, ele nunca iria me amar. — Contou ele. — Depois de me empurrar, o Vini se levantou e foi embora, e depois daquilo, nós paramos de nos falar. Nem precisamos terminar oficialmente, porquê aquele ato já foi o próprio término do "namoro" que aliás, nem podia ser chamado de namoro.
— Pararam de se falar ?
— Sim, não nos falamos mais na escola, nem na internet, em canto algum... Enfim, ele era o meu único amigo, então fiquei sozinho. — Disse Riquelme, enquanto tomava um gole do suco. — Acontece que eu nunca o esqueço, e eu ainda amo muito ele... De noite eu fico pensando em como seria se ele me amasse e se nós namorássemos de verdade.
— Hm...
— Mas aí, quando eu penso que a realidade é diferente dos meus pensamentos, eu fico triste e começo a chorar... — Murmurou ele.
— É verdade, ele não te ama, foi bom vocês pararem de se falar, ou você só iria sofrer mais.
— O ruim é que a culpa foi minha... — Murmurou Riquelme.
— Hã ? Por quê ?
— Se eu não demonstrasse tanto os meus sentimentos, talvez ele gostasse de mim... Ele tem razão, eu o fiz passar vergonha e o atrapalhei muito, eu sou uma merda mesmo... Queria ter nascido diferente com uma outra personalidade pro Vini gostar de mim.
— Para. Se você ficar falando essas coisas, serei eu quem vai te deixar aqui e ir embora. — Falei. — A culpa não é sua, se o Vini não gosta de você o problema é dele. Você não tem que mudar por ninguém, a pessoa que tem que gostar de você do jeito que você é.
— Você tem razão... E o Vini definitivamente não gosta de mim do jeito que eu sou.
Flashback OFF
E não foi apenas isso... Um dia depois dele ter me contado aquela história na lanchonete, o Riquelme me fez uma visita, de tarde.
Flashback ON
— Márcia, a campainha tá tocando, vai atender a porta ! — Ordenou minha mãe.
Era cerca de 16:35 da tarde. Naquele horário eu deveria estar trabalhando, mas, era o meu dia de folga.
Fui atender a porta e me deparei com meu amigo, Gabriel Riquelme.
Ele estava com o rosto machucado, e chorando muito.
— O quê aconteceu, Riquelme !!? — Perguntei, enquanto puxava ele pra dentro de casa.
— É-é-é-é q-q-que...— Murmurou ele, mas o choro não o deixava falar.
— Oh, Riquelme... O quê houve ?? — Perguntou minha mãe.
— Espera mãe, eu vou falar com ele primeiro. — Respondi, enquanto subia as escadas junto com o Riquelme.
Entramos no meu quarto e nos sentamos na minha cama, um do lado do outro.
— O que aconteceu, Riquelme ? — Perguntei.
Esperei uns 5 minutos até ele parar de chorar e se recompor, e depois, refiz a pergunta.
— O que houve ? — Perguntei.
— É-é-é q-que h-hoje e-eu e-estava a-a-andando u-um p-p-pouco p-pela c-c-cidade, s-só p-pra s-s-saír d-d-da r-r-rotina... — Murmurou ele.
— Fala direito. — Pedi.
— É que hoje eu estava andando u-um pouco pela cidade, pra sair da rotina... — Disse ele. — E aí eu encontrei o Vini conversando com a Isabel, na frente da loja que ela trabalha.
— Tá, e depois ?
— Aí eu fiquei uns minutos batalhando com minha própria consciência pra decidir se ia ou não falar com ele. — Contou ele. — Eu decidi não ir e fui embora, mas aí a Isabel me avistou e me chamou.
— Aí você foi falar com eles ? E depois ? — Perguntei.
— Sim, aí depois eu fiquei conversando com eles normalmente, tão normalmente que pensei que estava tudo bem entre mim e o Vini, e então, o chamei pra ir à pracinha comigo.
— Não estou gostando disso... E o que aconteceu ?
— Ele aceitou e nós fomos lá, só que aí eu não me controlei e comecei a falar coisas românticas de novo...
— E o quê o Vini disse ? — Perguntei.
— Ele ficou bravo, disse que pensou que eu tinha parado de "persegui-lo", e que parecia ter se enganado. Depois ele disse pra eu parar de falar aquelas coisas pra ele, e disse que não importa o quanto eu tentasse, nunca conseguiria nada com ele. — Contou Riquelme.
— Ele dizer isso não é novidade, mas, o quê é esse machucado no seu rosto ? — Perguntei.
— E-eu falei pra ele que eu o estrelava... Daí ele veio e me disse que estava apaixonado por outra pessoa, e que era melhor eu me afastar dele para sempre.
— Nossa... Ele disse que estava apaixonado por outra pessoa, na sua cara ???? Você, que o ama ????? — Perguntei.
— S-sim....
Como ele consegue ser tão cruel ??? T-tudo bem, se têm alguém que nos ama, não somos obrigados a corresponder, mas, dizer essas coisas frias de propósito, só pra magoar a pessoa !?
— T-tá, mas esse... — Tentei dizer, mas fui interrompida pelo Gabriel.
— Depois de dizer essas coisas, ele se levantou pra ir embora, e eu senti que o perderia para sempre, então eu peguei na mão dele e o pedi pra esperar... Mas ele ficou bravo, revidou e me deu um soco na cara, bem forte... — Contou o garoto machucado.
— O Vinícius... Te bateu... ? E você fez o quê ? — Perguntei.
— E-eu n-não fiz nada ué... E-eu nunca iria machucá-lo... — Respondeu Riquelme.
Aff... Riquelme... Você é muito mole, você é muito frágil e sensível, muito mesmo...
Por quê... Por quê você não abre os olhos e começa a enxergar o monstro que o Vinícius é ???
POR QUÊ VOCÊ NÃO ABRE OS OLHOS E DESTRÓI O VINÍCIUS ? PORQUE É ISSO QUE AQUELE VAGABUNDO MERECE ! QUEM ELE PENSA QUE É PRA PISAR NOS SENTIMENTOS DOS OUTROS DESSE JEITO ? E LOGO NOS SENTIMENTOS DO RIQUELME ! QUE SEMPRE O AMOU E QUE SEMPRE FEZ TUDO PRA CONQUISTÁ-LO ! COMO ELE CONSEGUE SER TÃO FRIO !?
— M-márcia... ? — Perguntou ele.
— Riquelme, fica aqui, eu vou ir na farmácia comprar curativo, eu já volto. — Respondi.
Saí de casa e fui andando bem rápido, eu não morava longe da loja de roupas onde a Isabel trabalhava.
Cheguei na calçada e vi a Isabel na entrada da loja.
— Oi Márcia, tudo bem ? — Perguntou ela.
— O Vinícius está aí ?
— Sim, ele tá lá dentro se olhando no espelho. — Respondeu Isabel.
— Certo, eu vou ir falar com ele. — Falei.
Procurei o Vinícius pela loja de roupas.
Era uma lojinha pequena, não era de nenhuma grande empresa ou coisa do tipo, era uma lojinha aberta por algum cara que vendia apenas ali, no centro da cidade.
O encontrei olhando no espelho, e ele logo me viu pelo reflexo, mas continuou se encarando e arrumando o cabelo.
Quando o vi, corri na direção dele e empurrei a cabeça dele com muita força em direção ao espelho. O mesmo se quebrou com o impacto.
— BATA A CARA NO ESPELHO, E MORRA !! — Exclamei.
Continua no capítulo 08.
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