Eu estrelo você

31 Estrela cadente (FINAL)


Notas iniciais
~ Capítulo final da história, tirando o epílogo. ~ Estou emocionado que consegui vim aqui terminar essa fic pra vocês, então... Espero que vocês leiam e ficam satisfeitos com a leitura que tiveram. Esperam que vocês leiam e fiquem tristes por estar acabando, porque eu escrevi essa história por bastante tempo e ela marcou uma grande fase da minha vida. Sinceramente, não vou pedir para vocês gostarem do capítulo, isso seria egoísmo, mas, tomara que pelo menos leiam e cheguem à conclusão de: "Bem feito, eles tiveram o que mereceram". ~ Agradeço à todos os leitores que leram a minha história, do começo ao fim. Os que chegarem aqui, sintam a minha gratidão :3 e os que não chegarem, sintam a minha gratidão também. ~ A fic NÃO terá segunda temporada. ~ Dou créditos aos meus amigos: — Caio Pereira — Marcilene Soares — Verônica Lima — Pedro Cunha por terem deixado eu criar personagens deles para inserir na minha fic. Não darei créditos ao Vini, nem à Isabela e nem ao Guilherme porque... Errrm... ~ Se esconde ~ ~ Este é o maior capítulo de toda a fic. Decidi não dividi-lo para encerrar com chave de ouro, então, desejo uma boa e longa leitura.

Vinícius POV

— Let’s go! Mwol geokjeonghaneunde neon (Vamos lá, você está preocupado com o que?) — Cantou uma voz, que emanava de muito perto de mim. Era uma voz doce e ao mesmo tempo fofinha, aliás, não, a voz era fofinha mas a tonalidade era doce.

Era uma voz que não conseguia cantar bem caso cantasse alto, mas, conseguia cantar de um jeito muito dócil caso cantasse baixinho. Eu sabia disso, porque era a voz de alguém que eu conhecia muito bem.

— Dwaetgo mwoga tto duryeounde? (Você está com medo de quê?) — Cantou a voz, em coreano.

...Mas espera um pouco...

Essa voz, cantando essa música? Em coreano?

Isso é meio impossível.

Por sinal, ele tá cantando muito bem; muito melhor do que eu. Será que ele saiu de dentro do vídeo clipe?

Não, nunca.

Se bem que... É bonito.

— Jaego tto jaeda neujeobeoryeo (Se você continuar a comparar as coisas, será tarde demais). — Cantarolou o garoto. — Oh oh oh, oh oh oh...

Esses oh oh oh saíram bem tristes. Ah, é porque ele está cantando baixo, e é porque é ele cantando. Sim, o Gabriel. Eu estava estranhando bastante por ele estar cantando uma música K-pop, mas mesmo que seja K-pop, ele não está cantando num ritmo de pop. O Gabriel está cantando de um jeito triste e suave, quase como se estivesse tentando comprar briga comigo porque eu odeio músicas em ritmos assim, mas...

Mas...

É tão bonito.

Abri meus olhos lentamente e olhei o rosto do garoto por baixo devido ao fato de eu estar deitado no colo dele. Não conseguia ver muito porque o fato de eu estar deitado fazia parecer como se tudo que eu visse em cima estivesse de ponta cabeça.

O rosto do Gabriel parecia um pouco engraçado e eu reparava mais em sua boca do que em qualquer outra coisa: isso porque ele não estava olhando para mim. Eu sentia sua mão esquerda e gelada à cima do meu peito e sentia suas duas pernas bem abaixo da minha cabeça, mas, não conseguia sentir que tipo de sentimento ele estaria tentando me mostrar.

O restante do meu corpo está no chão... Sinto pinicando, acho que estou deitado em um gramado.

— Maeil haruga dareuge buranhaejyeo ga (Cada dia traz um tipo diferente de nervorsismo).

— Apseo ga jugil barae geu nugungaga (Eu quero alguém que assuma a liderança).

— Neon moreun cheok nuneul gamneun (Mas você ignora isso e fecha seus olhos). — Ele continuou cantando, sem interrupções.

Me pergunto o porquê disso. Ele ficou doido? O Gabriel endoidou de vez? Ou ele está tentando me alegrar cantando uma das minhas músicas prediletas? Não. Pra cantar desse jeito que ele está cantando, parece mais que ele quer fazer eu me levar ao suicídio. Bom, pelo menos agora eu me lembrei aonde estamos.

Estamos naquele parte que visitamos várias vezes, no Max Feffer. Foi o parque onde tudo entre nós se desenrolou e também foi o parque onde tudo entre nós virou de ponta cabeça. Teve um dia que foi muito triste para ele e outro que foi muito triste para mim.

Eu não consigo acreditar que o Gabriel pôde me esquecer uma vez.

Aquilo foi doloroso.

Eu odeio admitir, mas foi doloroso demais.

Foi como se eu tivesse morrido para ele, ou pior, como se eu nunca tivesse existido.

— You bad bad bad boy, you so bad (Você é um mau, mau, mau menino, você é tão mau).

Mas sorte que ele se lembrou de mim, e agora estamos bem.

— Deo dangdanghage neon (Seja forte).

— Mr. Mr. Nal bwa... (Senhor senhor, olhe para mim).

— Mr. Mr. Geurae baro neo neo neo... (Senhor senhor, sim, você, você, você).

— Nal gaseum ttwige han (Você fez o meu coração disparar). — Cantou ele.

Eu não sei cantar e escrever essa música certo, mas eu decorei a tradução.

O jeito que o Gabriel está cantando, faz parecer que ele está cantando para mim.

Não para eu apenas ouvir e apreciar, mas sim para me dizer alguma coisa.

Mas...

Está tão bonito.

Não tenho muita vontade de pensar a respeito, eu só quero continuar ouvindo.

— Mr. Mr. Choegoui namja... (Senhor senhor, o melhor).

— Mr. Mr. Geuge baro neo... (Senhor senhor, é você).

— Sangcheoro kkaejin yurijogakdo (Você faz vidro quebrado).

— Byeori doeneun neo Mr. Mr. Mr. Mr... (Se tornar estrelas, senhor senhor, senhor senhor).

— Nareul bitnaejul seontaek badeun ja... (O escolhido para me fazer brilhar)

— Geuge baro neo mr. Mr... (Esse é você, senhor senhor.)

Aaah... Que fofo. Ele está mesmo cantando para mim no fim das contas. Estrelas são a nossa cara.

— Mr. Mr. Mr. Mr. Mr. Mr. Mr. Mr.

— Mr. Mr. Mr. Mr. Mr. Mr. Mr. Mr.... — Cantou Gabriel, dando um suspiro em seguida.

Parece que ele parou de cantar.

— Vini? Você está acordado? — Perguntou ele, enquanto permanecia olhando para frente.

— Estou. — Respondi.

— Ah... Certo.

Ele não vai olhar para mim?

Eu quero que me olhe.

Quero ser visto, pelo Gabriel.

— Por que... Por que tu tá estranho? — Perguntei.

— É porque... — Murmurou ele.

O local estava bem escuro devido à estar de noite e também estávamos em baixo de uma árvore. Eu não conseguia ver bem o céu por causa das folhas, mas, havia bastante luz que atravessava por entre as aberturas das folhas. Acho que a lua está cheia lá em cima e não devem haver nuvens no céu.

— ?? Fala logo jurema. — Afirmei.

— É porque acabou. — Afirmou ele.

— Acabou??? O que acabou?

— Tudo. — Respondeu o Gabriel, sem olhar para mim. — Veja, as estrelas estão caindo.

E então, assim que pisquei meus olhos, a árvore que estava atrás de nós desapareceu e eu pude ver o céu claramente.

A luz era mesmo da lua cheia iluminando aquele parque, mas, não apenas dela.

Haviam dezenas... Não, centenas de milhares de estrelas cadentes passando no meio do céu.

— ... — Não falei nada. Fiquei fascinado. Não pude acreditar no que estava vendo, mas, depois de ver, caiu a ficha: aquilo tudo era um sonho, só podia ser.

— ... — Ele também não falou mais nada, apenas levantou sua cabeça um pouco para cima e passou à olhar o céu.

— Mas Gabriel, tu sabe que estrelas cadentes não são estrelas de verdade, elas são só meteoritos ou asteróides. — Falei.

— Não Vini. No nosso caso, são estrelas mesmo. Estrelas de verdade: como Sirius e Rigel.

Terça-feira às 03:25 da madrugada, dia 13 de Abril de 2019.

Abri os olhos e me sentei na cama.

Estou encharcado.

Transpirei demais enquanto dormia e também parece que eu estava chorando.

Passei as mãos nos olhos e sequei o que havia restado das lágrimas.

Por que? Por que eu chorei mesmo? Eu lembro que tive um sonho triste com o Gabriel, mas... Como era?

O que aconteceu no sonho?

A gente tava no Max Feffer, eu acho, e...?

Ele falava alguma coisa?

Acontecia alguma coisa?

...

Não lembro mais...

Levantei e acendi a luz do quarto pra ver que horas eram no relógio: 03:26 da manhã. Apaguei logo depois de ver e deitei na cama de novo, mas, não me enrolei com os cobertores, preferi deixar eles de lado até eu secar um pouco.

Que sonho tenso mano.

Eu não tenho costume de ter sonhos que me façam chorar, eu acho que já fazem uns 10 anos que eu não tenho um sonho desses.

Pior ainda que foi com o Gabriel, acho que foi a primeira vez que sonhei com ele antes.

Ah, não foi não, eu já sonhei com ele outras vezes, mas foram sonhos bem aleatórios.

Esse também deve ter sido, pois eu já esqueci praticamente.

Não importa, é só um sonho.

Me enrolei de novo e acidentalmente ainda tentei ficar me lembrando do sonho que tive enquanto pegava num sono.

Sem perceber, acabei dormindo.

Terça-feira às 06:05 da manhã, dia 13 de Abril.

Acordei com o despertador fazendo "pi pi pi pi".

— Já está de manhã... Que cu... — Murmurei, estando todo enrolado nas minhas cobertas.

Eu acordei sem querer no meio da madrugada mas caí num sono de novo. Parece que só se passaram 10 minutos.

Nem sinto que descansei.

Aah... Não quero ir pra escola hoje.

"Pi pi pi pi, pi pi pi pi, pi pi pi pi". Contrariando às minhas vontades, o despertador continuou tocando e eu tive que levantar pra desligar.

— Droga. — Falei.

A Maria demorou pra me chamar hoje pois ela geralmente me acorda antes do despertador tocar. Será que a velha dormiu?

— MARIA! EU QUERO CHÁ! — Gritei, do meu quarto.

Não tive nenhuma resposta.

Estava tudo bastante silencioso.

— MARIA SUA VACA, ACORDA! — Gritei.

Abri a porta do meu quarto e saí para a sala. Não havia ninguém na cozinha e não tinha nada pronto para comer também. Será que a Maria acordou mais tarde e saiu pra buscar pão agora? Deve ser isso.

Adentrei o quarto da Thalia e acendi a luz porque estava todo escuro.

— MAS O QUE?! — Exclamei.

A Thalia também não tava lá. As cobertas da cama dela estavam bem bagunçadas mas não tinha ninguém deitado. Ela saiu cedo sem arrumar a cama?! Mas isso é extraterrestre! Aquela gorda não levanta cedo, ela levanta só depois porque estuda de tarde.

— VÔ! — Gritei, enquanto ia até o quarto dos meus avós e via que também não havia ninguém lá.

Pelo menos a cama deles estava arrumada.

Aonde todo mundo foi?!

Será que minha mãe sabe?

Eu não tô falando mais com ela direito, mas acho que se for só uma pergunta simples... Ela deve responder.

Abri a porta da cozinha girando a maçaneta, pois ela não estava trancada e saí no quintal de casa.

Eu tava só de cueca e chinelos porque minha curiosidade me impediu de fazer a necessidade do dia, mas, não havia problema ir ali do lado perguntar pra minha mãe se ela viu eles saindo.

Assim que fui em direção ao corredor, percebi que havia alguém vindo.

— ...? Aonde você tava indo? — Perguntou Isabel, que segurava um saco de pão em sua mão direita.

— O QUE TU TÁ FAZENDO AQUI VADIA?! ALGUÉM MORREU? — Indaguei.

— Hã? Não. — Respondeu ela, enquanto virava o rosto e desviava o olhar.

— Você tá sem a roupa da escola. Vai faltar hoje?

— Sim. — Afirmou minha melhor amiga.

— Uai, por que?

— Hoje não vai ter aula, Vinícius. — Disse ela. — Tu tá com amnésia?

— QUÊ? COMO ASSIM? — Perguntei, enquanto colocava as mãos na cintura. — Hoje é feriado??

— Não, hoje só não vai ter aula. Lembra que ontem a maioria da escola saiu mais cedo por causa da falta de professores? Então, me contaram que eles passaram avisando nas salas de quem saiu cedo, que hoje não haveria aula porque muitos professores estavam propensos à faltar. — Disse ela.

— Aaaaah... Sério? Eu não sabia. — Falei. — POW, TÚ NEM PRA ME AVISAR NO FACE, AFF, OLHA SÓ, EU JÁ IA PRA ESCOLA QUE NEM UMA MULA.

— Vamos tomar café da manhã, eu ainda não comi nada. — Disse ela, enquanto passava por mim e ia pra cozinha da minha casa na frente.

— ...Tá.

A Isabel tá estranha, estranha demais.

Ela não tá gritando comigo e nem tá zoando com a minha cara.

Sério, tá tudo estranho hoje. Será que eu sem querer acordei no mundo dos espelhos? Ou será que vim parar em Edolas?!

Fui pra cozinha junto com ela e me sentei numa das cadeiras.

— Cadê a Maria? Tu viu ela? — Perguntei, enquanto passava manteiga no pão.

— Sim, ela me ligou e pediu pra eu vir ficar com você hoje porque teve que sair cedo com todo mundo. — Respondeu Isabel. — Tipo, eu cheguei aqui umas 05:50 e você ainda estava roncando, sabe? Mas aí a Maria me deixou dinheiro para comprar alguns pães e eu fui na padaria pra gente.

— Sair mais cedo? Mas aonde eles foram? — Perguntei. — Isso é estranho Isabel, aconteceu alguma coisa?

Fiquei curioso, muito mais curioso do que já estava.

Claro, tudo tava esquisito.

O que a Maria, a Thalia, meu avô e minha mãe estavam aprontando? Isso se minha mãe foi junto, porque eu nem vi.

— ...Vinícius, eu vou ser direta. — Falou ela, que estava de costas para mim e de frente para a pia de casa. — Eu menti pra você, me desculpa.

— ?????????? Mentiu sobre o que????? Quando????? — Perguntei.

Não fazia ideia do que poderia ser.

— Agora a pouco, quando você me viu, é que eu não consegui dizer a verdade logo de cara.

— E...?

— U Gabrlsakaeu... — Respondeu ela, baixo e embolado.

— Que porra foi essa Isabel?! — Perguntei. — Não entendi, fala direito.

Comecei a me preocupar.

Me preocupar muito.

Tudo indicava que alguma coisa estava acontecendo e o que mais deixou isso claro foi a resposta da Isabel.

A Isabel nunca se embola na hora de falar, NUNCA. É a primeira vez que isso acontece.

Ela tem uma ótima voz e uma ótima forma de diálogo. Ela conversa bem demais e fala muitas coisas certas.

Quem se embola com qualquer coisinha é o Gabriel, ele sim, mas a Isabel não.

— ...O Gabriel morreu. — Afirmou ela.

Ela disse que o Gabriel morreu.

— Que? — Perguntei.

— O Gabriel morreu. O Ga-bri-el morreu, morreu. Está morto. Cem por cento morto. — Respondeu ela.

— ... — Parei de passar a manteiga no pão e comecei à olhar a mesa.

Pensei em perguntar à Isabel se ela estava me trollando ou algo do tipo, mas, não fiz isso.

É porque a Isabel não brinca com coisa séria e eu já sabia disso.

Ela nunca faria algo assim comigo.

Ela nunca contaria uma mentira dessas.

E assim que ela repetiu daquele jeito rude e como se tivesse toda a certeza do mundo, senti como se todo o meu espírito tivesse entendido o recado.

Eu havia entendido, mas não havia entendido.

Eu sentia que tinha entendido, mas sentia também que não tinha entendido, porque...

Faltava alguma coisa.

Algo parecia errado.

Parecia errado de mais.

— Mas Isa, não tem como. Eu e ele fomos juntos pra escola ontem. — Falei.

— Mas e depois da escola? Você ficou com ele? — Perguntou ela.

— Não, eu... Saí com o Sato e depois... Depois eu fui dormir. — Respondi.

— E-então né... — Murmurou a Isa. — Com o Sato... Por favor, diz que tu não ficou com ele.

— Eu não fiquei com ele.

Não estava acreditando.

A parte lógica do meu cérebro estava acreditando, mas, meu coração não estava, de forma que eu continuasse deixando a conversa fluir com a Isabel, como se nada tivesse acontecido; como se fosse só uma conversa normal, mesmo não sendo.

Senti meu peito apertar e um imenso frio na barriga. Comecei a ficar com vontade de ir no banheiro, devido à dor e mal estar que estava sentindo.

— Ah é? Isso é bom.. Que bom, que bom...! — Disse ela, enquanto vinha até mim e puxava uma cadeira pra se sentar bem do meu lado. — Então acho que você não vai ter arrependimentos, não é...? — Perguntou ela, deixando algumas lágrimas escaparem enquanto olhava pra mim e me fazia olhar pra ela.

Ao ver ela chorando, instantaneamente comecei a chorar também.

Sei que não consigo fazer uma expressão facial correta para choro num momento desses, porque... Eu estou em choque.

Mesmo que as lágrimas saíam, só consigo ficar com "cara de nada" enquanto mantenho a boca aberta.

Parece mentira.

É mentira.

Não tem como aceitar isso.

Parece verdade, logicamente, mas

Parece mentira,

Também.

Porque só pode ser mentira,

Ou não.

Deve ser, não é?

Porque não tem como cara...

De repente...

Do nada...

Assim...

Em um dia...

Qualquer...

Não pode ser verdade.

É um absurdo.

Isabel, é um absurdo.

Você está chorando, e você está falando sério.

Eu sei disso, mas

É um absurdo.

E parece que é mentira.

Você está mentindo pra mim?

Não está, eu sei que não.

Mas parece,

Mesmo não parecendo, ainda sim parece.

Não tem como você brincar com algo assim,

Pois você é desse jeito.

E o fato de que isso não é uma brincadeira,

Parece uma mentira por si só.

Deveria ser apenas uma brincadeira de mau gosto.

Por que, Isabel?

Por que tu não consegue brincar com essas coisas?

Se fosse uma brincadeira, seria melhor.

Você deveria estar mentindo agora, sobre isso, porque

Não pode ser verdade.

Só pode ser mentira.

O Gabriel? Morrer?

Ele? Justo ele? De todas as pessoas?

Poderia ter sido a Maria, que já é velha, ou o meu avô.

Mas o Gabriel?

Gabriel?

Gabriel Riquelme?

Não, ele não Isabel.

Ele não pode.

Todos menos ele.

Aliás, qualquer um menos ele.

E menos você também.

Poderia ser eu mesmo, pois,

Eu já tentei me matar antes

Mas o Gabriel estava lá, para salvar meu coração.

Ele salvou meu coração e salvou à mim também,

Estando disposto a se matar comigo;

Estando disposto à jogar sua vida fora por mim.

Ele estava lá, para mim

Por mim,

E porque eu era eu,

A pessoa que ele estrela.

Então, ele morrer assim

Do nada

E de repente,

É apenas um absurdo.

É imoral.

É irracional.

É extraterrestre.

Só poderia ser uma piada de mau gosto.

Mas Isabel, você não conta piadas de mau gosto.

Aí que está o problema.

Então, por que...?

Por que você está me contando isso?

Como se fosse uma verdade absoluta?

Será que é porque é uma verdade absoluta?

Só pode ser, mas... Mas não parece...

E não deveria ser.

Como pode? Alguém morrer assim?

De um dia pro outro,

Como se fosse o povo de Game of Thrones.

Se não é uma trollage, o que é?

Uma verdade?

Mas parece mentira.

Porque só pode ser mentira.

Eu sei que não pode ser mentira, mas deveria ser mentira.

Se não é mentira, o que é?

Você está dizendo que o Gabriel morreu assim?

Do nada, e de repente?

Me diga, Isabel.

Me fale.

Isa?

Você disse algo sobre arrependimentos?

— Eu não consegui esperar a Maria voltar pra contar... Era pra ser um segredo, era pra eu ter paciência, mas, mas não deu cara. Eu não estava nem conseguindo te encarar. — Disse ela, enquanto encostava o rosto na mesa e o cobria com os braços.

— A Maria?

— Ela tá no cemitério agora. — Respondeu Isabel.

— Isa, Isa, Isabel, pelo amor de Deus, tu...

— O-o que??? — Perguntou ela, desabando de chorar. — Hã??? O que???

Mais uma vez, me deu vontade de perguntar se ela não estava me zoando;

Se não estava me trollando, mas...

Mais uma vez, decidi não perguntar.

Porque seria inútil.

Mesmo parecendo que era mesmo uma mentira.

— Eu preciso ir no banheiro. — Afirmei, me levantando da cadeira e indo até o banheiro.

Entrei, fechei a porta, abaixei a cueca e sentei na privada.

Eu já estava me preparando pra tomar café de cueca e sem ter feito as necessidades do dia.

A Isabel deve até ter sentido meu bafo, mas...

Foi porque estava tudo tão esquisito, que eu até me deixei levar,

E fiz coisas esquisitas também.

Como me sentar na mesa com olhos remelados e mal hálito.

Claro, as necessidades não importam agora.

Elas são um cu.

Uma porra, uma porcaria.

Foda-se meu rosto remelado porque agora ele está todo molhado.

Eu só vim no banheiro agora, porque, porque.. Minha barriga está doendo e eu senti como se fosse cagar ali mesmo, na cozinha e na frente da Isabel.

Ficar sozinho...

Agora estou sozinho, por enquanto.

A Isabel tá chorando pra cacete.

Ah, eu também tô, verdade.

Nesse momento eu estou chorando.

Por que?

Porque o Gabriel morreu, não é?

Assim, e de repente.

Do nada, e de repente.

Absurdamente, e de repente.

Como se nada mais importasse.

Mas será que ele morreu mesmo?

Não tem como.

Ele tem a minha idade.

Ele é novo de mais.

Como ele morreu?

Ele sofreu algum acidente?

Pra morrer de um dia pro outro, do nada

E de repente...

Só pode ter sido.

Mas que acidente?

Isso é estranho.

Ele morreu mesmo?

Num acidente?

Ontem depois da escola, ele foi... Comprar um jogo?

E morreu lá?

Mas é estranho, se fosse ontem de tarde, eu teria sabido antes...

Então não foi?

Quando ele morreu?

Como?

Ele morreu mesmo?

Ou será que ainda tá vivo?

Se ele tiver vivo, será que tá no hospital?

Não sei o que aconteceu, mas pode ser, não é?

Talvez

Tenham chamado uma ambulância.

Aham, ambulância.

E aí ele ficou vivo, mas mal.

Se ele está mal, eu tenho que ir vê-lo rápido, não é?

Digo, no hospital.

Tenho que ir vê-lo, pra ficar com ele.

Não posso deixar ele sozinho, e...

Não posso deixar ele ir embora,

Porque,

Porque...

Porque.....................

Porque...................................!

Eu não disse que o estrelava, nenhuma vez.

Até hoje.

Nenhuma vez.

Eu nunca disse.

Nunca.

Nunca.

Never.

Minha barriga dói.

Eu nem sei da verdade, mas

Está doendo.

Eu não sei o que pode ter acontecido e nem o que está acontecendo, mas ainda assim é doloroso.

Mesmo que seja mentira, ou não, ainda dói.

— A-aah... AAAh..! — Coloquei as mãos no rosto e apertei forte, como forma de tentar me acalmar.

O Gabriel morreu e parece ser verdade.

Na realidade, parece ser mentira, mas é verdade não é?

Ele morreu.

Isso significa que...

Que eu nunca mais vou ver ele de novo?

É a primeira vez que alguém próximo a mim morre.

É estranho.

Aaah...

Não dá pra acreditar.

É um absurdo.

Gabriel...

Gabriel Riquelme...

— Vinícius? Tu tá fazendo o que??? — Perguntou Isabel, enquanto batia na porta do banheiro pelo lado de fora.

— Cagando. — Respondi, enquanto dava a descarga após terminar minha necessidade como ser vivo.

E então, abri a porta do banheiro e saí.

— Ah... — Murmurou ela, enquanto dava três passos pra trás, para que eu pudesse passar.

— Isabel.

— O que?

— Como o Gabriel morreu? — Perguntei.

— ...Ele...

— Ele???? — Perguntei novamente. — Como??? Como ele morreu??? Desembucha Isabel, fala logo!

Ainda não tinha caído a ficha.

Estava tudo muito incerto para mim.

Parecia errado; parecia uma mentira.

Não importa quantas vezes eu repita isso para mim mesmo, continuarei repetindo.

— Eu não sei bem... — Respondeu ela, vindo comigo até a sala.

— Como não sabe??? — Me sentei no sofá.

— Hoje todo mundo fez tudo às pressas porque foi uma morte repentina e eu não tive tempo pra conversar direito com ninguém. — Contou ela, limpando as lágrimas do rosto e permanecendo em pé. — Mas... Ele teve morte encefálica.

— O que é isso???

— É quando o cérebro da pessoa para de funcionar completamente. Morte cerebral. — Respondeu ela. — O cérebro do Gabriel perdeu todas as funções e não conseguiu mais manter o corpo dele funcionando.

— O cérebro Isabel?? O cérebro?? Ele bateu a cabeça de novo?? Não acredito nisso!

— Não sei se ele bateu a cabeça, mas eu acho que não. Morte encefálica não deve acontecer caso uma pessoa bata a cabeça, só se for uma pancada de destruir o crânio. — Disse ela. — Pelo que a Maria disse, ele teve um choque térmico.

— Cara, caaara, eu não tô entendendo muito bem. — Falei. — Preciso ir no banheiro de novo.

Choque térmico??

Ele morreu por choque térmico??

Como?

— É simples de entender Vinícius... O Gabriel saiu do banho quente descalço e pisou no chão gelado além de pegar friagem. Isso fez o corpo dele tomar um choque térmico e o cérebro dele morrer. — Disse ela. — Eu acho, pelo menos foi algo assim que eu ouvi...

— Vou no banheiro. — Falei, enquanto me levantava e ia até o banheiro.

Me sentei de novo na privada por causa do mal estar na barriga e senti como se tivesse que colocar muita coisa pra fora, literalmente.

Ouvi a voz da Maria do lado de fora; ela havia chegado em casa e estava conversando com a Isabel.

Isso, a Maria chegou. Ela vai contar as coisas direito.

Talvez o Gabriel não tenha morrido, talvez a Isabel esteja enganada, então minha avó vai contar a verdade.

Ele deve estar vivo.

Não tem como ele ter morrido por causa disso.

Eu já saí do banheiro descalço tantas vezes e nunca morri, então não tem como, não tem como!

Maria, Maria, isso, tenho que ver a Maria.

Assim que terminei a necessidade novamente, lavei o meu rosto e voltei pra sala onde vi a Isabel sentada no sofá que eu estava sentado agora a pouco.

— Cadê a Maria?? — Perguntei.

— Tá no quarto... — Respondeu ela, de cabeça abaixada.

Isabel tinha parado de chorar.

Não sabia bem o porquê dela ter chorado tanto, sendo que ela nem era amiga do Gabriel.

Mentira.

Eu sei sim.

É porque ela é minha melhor amiga.

Um amigo fica triste quando o outro está, não é?

Ter que dar essa notícia pra mim, fez ela ficar com o coração na mão.

Mas...

Mas.......

Talvez ele esteja vivo...

Não pode ser verdade verdadeira.

— Vinícius? Você não colocou uma roupa ainda? — Perguntou Maria, vindo do quarto com sua bolsa em mãos.

— Não. — Afirmei, estando em pé no meio da sala. — Maria, o Gabriel morreu??

— ... — Maria ficou em silêncio, sem responder minha pergunta.

— FALA MARIA! — Ela então, veio até mim e colocou as mãos no meu rosto, me olhando bem de perto.

— Calma meu amor. — Disse Maria. — Escuta... O Gabriel virou uma estrelinha... E agora ele foi pro lado do papai do céu.

Voltei a chorar instantaneamente assim que a Maria começou a falar aquilo.

— A-aah......

— Fique calmo, todo mundo morre algum dia, ninguém dura pra sempre...

— A-AAAAHHH...... O 'G-Gabuel'...

— Isa minha flor, pega um copinho de água pra ele, por favor! — Exclamou Maria.

— T-tá. — Disse Isabel, se levantando do sofá.

— EU NÃO QUERO COPINHO DE ÁGUA! — Falei. — ELE VIROU UMA ESTRELA? FOI PRO LADO DE DEUS? QUANTA FALSIDADE! QUANDO ELE TAVA AQUI SEMANA RETRASADA, NÃO FOI VOCÊ QUEM DISSE QUE ELE IRIA PRO INFERNO? ALIÁS, TODOS NÓS, NÃO É?

— .......Vinícius......

— Calma Vinícius! N-não fica bravo com a Maria, e-ela... Er... — Disse Isabel.

— NEM VOCÊ CONSEGUE DEFENDER A MARIA ISABEL! ELA É IGUAL MINHA MÃE! QUER DIZER QUE QUANDO EU MORRER, IREI PRO INFERNO TAMBÉM, NÃO É?

— Eu..... — Minha avó começou a chorar junto, enquanto tirava as mãos do meu rosto.

— Você nem pediu desculpa pro Gabriel... Ele só tava me ajudando e teve que ouvir aquele monte de desaforo... — Falei.

O Gabriel está morto.

Meu amigo e quase namorado, está morto.

Quanto mais eu conversava, mais ficava claro e mais caía a ficha.

Mais eu começava a aceitar, mas ao mesmo tempo, não aceitava completamente.

Havia um pedaço faltando.

Um pedaço de mim que dizia que aquilo era impossível e que tudo não passava de um pesadelo.

Isso não tinha mudado.

— É VERDADE! A MARIA ERROU! MAS DO QUE ADIANTA VOCÊ FICAR BRAVO COM ELA AGORA? JÁ PASSOU, E O GABRIEL NÃO VAI MAIS VOLTAR! ESSA É A REALIDADE! MAS A MARIA ESTÁ AQUI PRA VOCÊ E POR VOCÊ! ELA FICOU ARREPENDIDA! — Gritou Isabel, enquanto vinha até mim e pegava nos meus ombros bem forte. — ESCUTA VINÍCIUS, EU SEI QUE É DIFÍCIL, EU SEI QUE TENSO DEMAIS, EU PERDI MEU IRMÃO EDUARDO, ESQUECEU? NA HORA, PARECE QUE É MENTIRA, MAS... MAS...! ESSA É A REALIDADE! A GENTE NÃO TEM ESCOLHA A NÃO SER ACEITAR!

Mordi os meus lábios e cravei as unhas nas minhas pernas, apertando bem forte.

— Não....! Por que justo o Gabriel?!

— Ele estava doente... — Disse Maria, enquanto ia até a cozinha e enchia um copo de água pra tomar.

— DOENTE?? — Perguntou Isabel.

— Passei a madrugada com o pai dele no hospital hoje pra ajudar com os preparativos pro enterro e com a papelada. — Disse Maria. — O Gabriel morreu por causa de uma doença que ele sempre teve mas nunca contou pra gente. Os únicos que sabiam dela eram ele mesmo e o pai dele.

Doença?

Ele tinha uma doença?!

O Gabriel?!!!!!

Uma doença que levou à morte dele?!!

Não foi o choque térmico? Não foi a morte cerebral?

Como assim...??!

Ele tinha uma doença grave e escondeu... ATÉ DE MIM?!!

Por que?!

Por que ele fez isso?

Ele não confiava em mim?!

— Que doença ele tinha? — Perguntou Isabel. — Tu não explicou direito Maria.

— Ele tinha lúpus sistêmico. — Respondeu Maria.

Já ouvi falar dessa doença mas não sabia o que ela fazia.

"Lúpus". Tinha em alguma novela, eu acho.

— ...Entendi, então foi assim. — Afirmou Isabel. — Que triste... Ele não falou pra gente.

— Ele saiu do banho e morreu minutos depois. O choque térmico fez com que ele tivesse uma convulsão e na hora não tinha ninguém pra ajudar. — Disse Maria. — Ele morreu de tarde mas o pai dele só chegou em casa de noite, e quando chegou, o Gabriel já estava morto.

— E que horas vai ser o enterro? — Perguntou Isabel.

— Às 09:00. Já tá todo mundo lá no cemitério agora, só falta o Vinícius se arrumar pra ir.

Enterro?

Do Gabriel?

Ir ao enterro?

Eu?

Ver ele?

Morto?

No caixão?

— Eu não quero ir...................................... — Falei.

— COMO ASSIM? — Perguntou Isabel, que ainda não tinha saído da minha frente.

— EU NÃO QUERO IR! EU NÃO VOU! — Gritei.

— VOCÊ NÃO VAI SE DESPEDIR DO GABRIEL?! EU NÃO TÔ ACREDITANDO NISSO!

— EU NÃO QUERO IR, NÃO, NÃO, NÃO, EU NÃO QUERO NÃO! EU NÃO VOU! O GABRIEL... CARA, AINDA NÃO PARECE VERDADE, SÓ PODE SER UM PESADELO, ELE... ELE... Lúpus? Convulsão? Choque térmico? Morte cerebral?!!! ISSO É COISA DE MAIS PRA UMA ÚNICA MORTE! NÃO TEM COMO ELE TER TIDO TUDO ISSO! — Gritei.

— MAS VOCÊ TEM QUE IR!!!!!!!!!!! DEIXANDO O MOTIVO DE LADO, A REALIDADE É QUE ELE MORREU! — Exclamou Isabel. — QUER DIZER QUE QUANDO EU MORRER, VOCÊ TAMBÉM NÃO VAI VIR SE DESPEDIR DE MIM?! E QUANDO A MARIA MORRER?!

— NÃO!! E-EU...

— VOCÊ NÃO CONVERSOU COM O GABRIEL ONTEM DIREITO, NÃO FOI? É UMA PENA! VOCÊS PODIAM TER PASSADO O DIA TODO JUNTOS E AS COISAS PODIAM TER SIDO DIFERENTES! VOCÊ DEVE ESTAR PENSANDO ISSO, NÃO É?! — Gritou ela. — MAS MESMO ASSIM! O PASSADO NÃO PODE SER MUDADO! ACONTECEU DO JEITO QUE ACONTECEU PORQUE TINHA QUE ACONTECER e eu... Já estou cansada de gritar... Eu não aguento mais....

Na verdade não, você está errada Isabel.

Eu não tinha pensado nisso nem uma vez, mas...

Você está certa no que disse.

É.

Se eu tivesse ficado ontem com ele, talvez... Talvez fosse diferente.

Ele poderia ter sobrevivido.

— Cara, isso é muito tenso, droga, droga... — Disse Isabel, enquanto voltava pro sofá e se sentava nele.

— Toma um pouco de água, Isabel. — Falou Maria, que já tinha parado de chorar e parecia estar mais calma.

— Eu quero. — Falou Isabel, levantando-se e indo até a Maria na pia.

Me despedir do Gabriel...?

Eu tenho mesmo

Que fazer

Isso?!

Eu vou ver ele num caixão?!

— Vinícius, vá colocar uma roupa pra gente ir. — Disse Maria.

— EUUUUUUUU NÃÃÃÃÃÃÃO VOOOOOOOOOOU!!!!!!!!!!!!!

...

...

...

...

...

...

...

...

...

...

...

...

...

Sobre a morte do Gabriel.

Sobre a morte do Gabriel Riquelme.

A verdade, é que muitas coisas precisam ser contadas sobre isso.

A Maria explicou pra Isabel em detalhes no caminho, e eu...

Só tive que ouvir de cabeça abaixada.

Há algo que não foi contado, algo que nunca foi revelado, sobre o Gabriel.

Gabriel...

Ele já tinha perdido a memória antes, uma vez.

Isso é, antes de me conhecer, quando ele tinha 6 anos de idade e sua mãe ainda estava viva.

Ele havia batido a cabeça numa lixeira enquanto corria sem atenção pela rua com os amigos, bem forte, e perdeu a memória. Foi a primeira vez.

Preocupada, a mãe dele o levou para o hospital. A família dele tinha convênio e lá ele foi diagnosticado com a doença lúpus.

Por que? O que a lúpus faz como doença?

Deixando de lado os tipos de lúpus que existem, o Gabriel tinha logo o pior, que era o Lúpus sistêmico.

Significa que a doença afetava o interior do corpo dele, fazendo com que seus anticorpos ao invés de agirem em sua defesa, atacassem o seu próprio corpo por dentro.

Danificando tecidos e células.

Anticorpos. Exatamente, por causa desta doença, os anticorpos do Gabriel eram absurdamente fracos. Eles não defendiam o corpo dele das infecções, não ajudavam muito na regeneração e ainda danificavam as coisas que ele tinha de saudável.

Qualquer ferida demorava muito mais que o normal para cicatrizar; assim como a vez em que ele bateu as mãos no espelho ou bateu a cabeça na calçada.

E seu corpo... Era frágil. Uma gripe comum poderia evoluir para algo gravíssimo.

No caso dele, no caso dele, a doença... Afetou principalmente o seu sistema nervoso.

O sistema nervoso; em outras palavras, o seu cérebro.

Não estou restringindo à doença apenas ao cérebro dele, estou apenas especificando.

Ao bater a cabeça aos 6 anos, Gabriel perdeu a memória porque a doença impediu que seus anticorpos agissem em sua defesa, logo, seu cérebro foi danificado, incluindo seu hipocampo.

Nessa época, os pais dele ficaram desesperados. Pagaram um tratamento caríssimo para a doença na esperança de fortalecer seus anticorpos ao menos um pouco, para que suas memórias voltassem.

De certa forma, deu certo. Ele tornou a se lembrar das coisas conforme o tempo foi passando, mas, assim que se recuperou, seus pais cessaram o tratamento caro.

Decidiram manter somente os cuidados básicos de prevenção.

E então, dois anos depois, a mãe do Gabriel morreu.

Estresse. Crise emocional. Com medo disso tudo agir e causar uma possível depressão no pequeno Gabriel, o pai dele agiu rápido e fez de tudo para distraí-lo e mantê-lo "bem".

Também funcionou, mas...

Mas...

O coração do Gabriel estava ferido.

Mesmo que por fora alguém pareça feliz e sorridente, por dentro, pode não ser a mesma coisa.

Pode ser o oposto, e era o oposto.

Ele sendo temperamental do jeito que é, nunca superou aquilo e viveu com o coração ferido até os dias de hoje.

Existem feridas que nem o tempo pode curar.

E então, o Gabriel me conheceu.

Nunca havia reparado antes, mas, as vezes, apareciam manchas vermelhas no corpo dele.

Eu sempre pensei que eram algo da pele, e que talvez fosse normal, mas depois que descobri que era por causa de Lúpus, percebi o quanto eu era ignorante e desviava meus olhos da verdade.

É porque eu nunca me preocupei com ele,

Nenhuma vez.

Até recentemente.

A minha pessoa para o Gabriel, falando de agora, deve ter sido a pior coisa que pode ter acontecido à ele.

Eu o fiz sofrer demais, muito mesmo, tanto que no ano passado ele entrou numa depressão profunda.

Por minha causa.

Porque eu fiz o que fiz.

Eu não apenas não correspondi ao pesado sentimento dele, como também... Neguei, rejeitei e o afastei com todas as minhas forças.

Por chorar todos os dias, todas as noites e ficar por tempo demais no computador, talvez... Gabriel começou à ter dores de cabeça frequentes. A primeira coisa que ele fez ano passado quando percebeu isso, foi tomar remédios para aliviá-las, mas, era inútil.

Sem contar à ninguém, mantendo isso em segredo, Gabriel continuou sofrendo com essas dores até o dia em que veio até a frente da minha casa e desmaiou.

Naquele dia, ele não havia comido nada. Estava a dias sem comer. Provavelmente foi esse o motivo do desmaio, mas, a batida da cabeça dele na calçada foi o pior.

Aquilo fez com que ele perdesse a memória uma segunda vez.

Ele se esqueceu de tudo, menos de mim.

Me lembro que ele foi levado ao hospital e o pai dele ficou mais do que ciente de que aquilo havia acontecido novamente por causa de Lúpus. No entanto, nesta segunda vez, não houve tratamento caro e pago.

Fizeram apenas alguns pontos na cabeça dele para fechar a ferida porque ela não se fecharia sozinha, e só.

Apenas isso.

Irresponsavelmente, por estar ocupado com o serviço e com sua vida pessoal, o pai do Gabriel... Teve a audácia de deixá-lo sob o cuidado da minha família por alguns dias, para que ele se recuperasse sozinho.

Talvez tenha sido melhor assim, porque se não fosse, o Gabriel ficaria sozinho em casa e sem memória.

Com a nossa ajuda, Gabriel se recuperando.

Não, mentira.

Eu apenas piorei as coisas.

Ele desenvolveu uma nova e irritante personalidade: isso também foi algo que estava propício à acontecer devido à pancada e devido à doença atuar principalmente em seu sistema nervoso.

Por conta dessa personalidade, eu o magoei demais.

O deixei na chuva e disse coisas terríveis.

Mesmo sem memórias, Gabriel ainda sentiu-se em depressão, por minha culpa.

Como se fosse um método de auto-defesa, ele se esqueceu de mim, também.

Claro, a memória dele foi voltando e no fim, ele também se lembrou de mim novamente, mas... Eu fui tremendamente ignorante.

Tudo isso, eu pensei que fosse apenas por causa daquela pancada na cabeça.

Nunca pensei que havia uma doença por trás de tudo, atuando no corpo dele.

Nunca.

Eu nunca pensei nisso.

Nenhuma vez.

O pai dele também não nos contou sobre a doença dele.

Aquele homem, numa situação daquelas, nos escondeu algo de tamanha importância, talvez porque se soubéssemos, não iríamos nos dispor à ficar com o Gabriel por ele.

E ele teria que encaminhá-lo para um hospital particular com tratamento pago, novamente.

Depois de tudo isso, chegou ontem, o terrível dia.

Dia 12 de Abril de 2019, a segunda-feira em que o Gabriel morreu.

Ele tomou um banho extremamente quente naquela tarde e saiu do banheiro descalço. Estava sem os chinelos.

Depois disso, ele teve um choque térmico. O início de tudo foi a lúpus. Ela ocasionou aquilo. Uma pessoa comum deveria ter uma maior resistência numa situação daquelas, mas, por ser o Gabriel; por ser o Gabriel doente, ele não conseguiu resistir.

O choque térmico foi tão forte que ocasionou uma convulsão, devido à lúpus.

Naquela tarde, ele teve uma crise; seu corpo sofreu com a ação de duas coisas tremendas ocasionando ao mesmo tempo... E então, seu cérebro morreu.

Perdeu as funções.

Parou de funcionar.

Morreu.

Completamente.

Não apenas uma parte dele, mas todo o cérebro morreu.

O cérebro controla todas as funções vitais e é responsável pelo sistema nervoso do corpo.

Por causa da morte encefálica, todos os seus órgãos pararam de funcionar. Não tinha mais volta.

Foi morte certa.

Fim.

Ele foi descuidado. Foi descuidado em total segredo.

Ele sempre esteve com dores de cabeça, mas sempre escondeu isso.

Como se isso não bastasse, apenas depois de morto, foi descoberto um pequeno tumor que estava se desenvolvendo dentro da cabeça dele.

Pequeno, muito pequeno, muuito pequeno.

Ele começou à tomar forma depois da pancada na calçada, em frente a minha casa.

Por ser muito no início, passou despercebido nos exames que fizeram nele naquele dia.

O corpo dele foi encontrado pelo pai, às 9 da noite, assim que ele chegou do serviço.

Gabriel estava caído no chão em cima de uma poça de água e com vários cacos de vidro caídos em torno dele.

Na crise da convulsão, ele terminou de destruir o espelho.

Nenhum caco de vidro o machucou, ele simplesmente arrancou o grande espelho da parede e jogou no chão.

Agora sim, fim.

Eu pude entender tudo que aconteceu.

E foi isso.

Dia 13 de Abril de 2019, às 07:54 da manhã.

— Nossa, aqui tá muito cheio, quanta gente. — Afirmou Isabel.

Havíamos acabado de entrar no cemitério, pela porta da frente.

Eu não sei como são os cemitérios das outras cidades, mas o daqui é bem chique.

Ele tem uma catedral na entrada onde pode ser realizada uma missa para as pessoas que morrem, e, lá dentro da catedral, no salão ao lado onde é a realizada a missa, fica o lugar onde o corpo da pessoa fica exposto; o caixão. Ele fica um pouco no canto das paredes da sala.

Também há vários bancos para as pessoas ficarem sentadas.

Eu, Maria e Isabel, entramos juntos pela catedral e nos dirigimos para a sala onde estaria o Gabriel.

Haviam pessoas aleatórias sentadas em todos os acentos que haviam no salão da missa, mesmo sem haver missa. A missa ocorreria pouco antes do enterro.

E então, adentramos a sala onde estava o caixão do Gabriel.

Ali sim, havia muita gente. Era a família inteira dele....

— Vinícius, você está bem? — Perguntou Isabel. — Tu tá quieto.

Sinceramente, eu ainda estava em choque.

Meu peito estava apertado e meu estômago parecia que ia explodir. Eu não disse nada no caminho para o cemitério, também.

Muito mal.

Me sinto muito mal.

Eu nunca soube que...

A sensação de perder uma pessoa que você ama...

Seria tão devastadora assim.

— Isabel... Eu amo o Gabriel... — Falei, enquanto avistava um caixão no canto daquela sala com algumas pessoas em torno dele.

— ... — Isabel ficou em silêncio.

— ... — Maria também.

— Eu amo o Gabriel Maria, eu amo, vocês nunca deixariam eu amar ele e nem ter nada com ele, eu tenho certeza que você e minha mãe tentariam de tudo pra impedir mas eu amo ele... Eu amo ele de mais...! — Falei.

Era verdade.

Eu amava o Gabriel.

Pode não ter sido desde o começo, mas pelo menos... Desde que ele se esqueceu de mim...!

EU SEI QUE COMECEI A SENTIR ALGO POR ELE.

EU SÓ NÃO SABIA

E NÃO ENTENDIA DIREITO, SE ERA

OU NÃO ERA...!

E EU NUNCA SOUBE DIZER AO CERTO, ESTIVE SEMPRE EM DÚVIDAS

MAS EU AMO ELE

E ESSA É A VERDADE

NÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃO!!!!!!!!!!!!!!!!

EU ESTRELO ELE!

É MAIS DO QUE ISSO, EU ESTRELO ELE!

Perder ele...

Perder ele...

Perder o garoto que eu amo...

Me faz sentir como se...

Nada mais na vida importasse...

Pra comparar, é muito pior do que quando meu vídeo foi exposto e todos ficaram contra mim.

E pior.

Nunca pensei que haveria algo pior do que aquilo, mas...

HAVIA!

Naquela hora... Naquela hora! O Gabriel estava do meu lado!

ELE ESTAVA COMIGO, por que... Porque.... Porque ele me estrelava.

E ele poderia morrer comigo por causa daquilo.

Ele provou tanto, ele não me abandonou, ele lutou por mim, ele fez tudo isso...!

E tudo isso que ele fez, começou a fazer eu me apaixonar por ele.

Eu pude notar o quanto ele era especial.

Eu já disse isso à ele, que ele era meu presente.

O Gabriel é o Gabriel e ele é quem ele é.

Ninguém pode substituí-lo e ninguém nunca poderá chegar a ser um pouco do que ele era.

Para mim, ele foi...

Meu amor.

Minha estrela.

Ele foi tudo....

E eu fui idiota... Por não perceber isso...

— O Gabriel também te amava. — Disse Isabel.

— EU SEI! EU SEI DISSO! É claro que eu sei, mas ele foi embora Isabel. Não estou acreditando, eu não quero ir lá ver. — Falei.

— Você tem que ir... — Disse ela. — Você tem que se despedir do seu amor. Vinícius, se você não conseguir transformar isso em passado e colocar um fim agora mesmo, você nunca vai conseguir seguir em diante.

— Mas Isabel, eu não quero seguir em diante! Eu não quero fazer isso sozinho, eu tinha o Gabriel e eu queria seguir com ele, eu queria estar com ele e ficar com ele! É!! Eu quero o Gabriel! Ele tem que estar comigo, eu não vou conseguir fazer isso sem ele, não, não, não dá! — Falei.

Isabel então segurou a minha mão. Naquele momento eu já estava chorando tanto que nem conseguia prestar muita atenção no meu redor.

— Vinícius... Você não tem escolha. A vida quis que fosse assim e você tem que aceitar, vamos... — Disse ela, enquanto me puxava e me levava em direção ao caixão que estava ali.

Passando por entre as pessoas, pude ver o Nell e a Verônica sentados num dos bancos que ficavam nos cantos. Nell estava chorando demais e havia uma mulher de cabelo branco junto com eles, também. Acho que é a mãe dele.

Também vi o Guilherme e o Pedro próximos ao Nell e a Verônica. Estavam todos juntos.

— Não Isabel, não! Não faz isso comigo, por favor cara, eu não vou aguentar uma coisa dessas...

— Você precisa...

— Então me enterra junto com ele!

— Não.

— Isabel, pelo amor de Deus...... N-não.. Não.. Eu não q-quero... E-eu não q-quero ver ele... O Gabriel... — Eu estava em prantos, tanto que até comecei a soluçar e gaguejar.

Pense em todo o sofrimento que alguém pode ter e multiplique por 50. É o que eu estava sentindo.

Assim que nos aproximamos o suficiente a ponto de eu conseguir ver o corpo e o rosto do Gabriel deitados naquele caixão cor de vinho, fiquei em pânico.

Porque... Porque era mesmo o Gabriel deitado ali.

Aquele garoto de cabelo preto e enrolado, que havia cortado alguns cachos recentemente; aquele garoto de olhos negros; aquele garoto que era um pouquinho mais baixo do que eu; aquele garoto branco e frágil, que eu amei. Que eu amo. Que eu estrelo.

Era ele.

Gabriel Riquelme.

Não era um engano.

Não era uma mentira.

Não era uma brincadeira de mau gosto.

Não era uma trolagem.

Não era uma zoera.

Não era uma piada ruim.

Não era um sonho.

Não era um pesadelo.

Era a verdade.

Era a realidade.

Gabriel estava morto, ali, diante dos meus olhos, deitado sob centenas de pétalas de margaridas e com um tipo de véu cobrindo seu corpo.

Não era um véu, mas eu não sabia associar aquilo à outra coisa que não fosse um véu.

Parecia com aquelas telas de se colocar na janela pra não entrar mosquitos, ou seja, tinha várias aberturas em quadriculado.

Era possível vê-lo perfeitamente, mas, morto.

Isabel assim que viu o Gabriel deitado ali, começou à chorar também.

Morto.

Morto.

Morto.

Morto.

Morto.

Morto.

Morto.

Morto.

Morto.

Gabriel

Estava

Morto.

Ele, meu amigo, meu amor, minha estrela, morreu.

Morto.

Ligeiramente, olhei pro rosto dela e percebi que uma das pessoas que estavam em torno do caixão, era o Kaio.

Kaio, ele veio.

Mas não importa.

Desespero.

Pânico.

Foi um choque tremendo.

Não consegui nem desmaiar de tanto pânico.

A única coisa que consegui fazer, foi...

Correr.

— AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAHHH!!!!!!!!!!!!!! AAAAHHH!!! AAAHHH!!!! — Gritei, enquanto soltei a mão da Isabel e me coloquei à correr dentro daquele salão em direção à saída do estacionamento.

Um homem da família do Gabriel viu que eu estava correndo por desespero e reagiu pra tentar me impedir, mas, eu empurrei ele e fugi mesmo assim, apenas gritando um alto: "me solta".

Gritei tão alto que minha garganta ardeu forte.

— AAAAAAAAAAAAAAAAAHHH!!! AAAAAAAAAAAAAAAH!!! AAAAAAAAAAA!!!!!! — Gritei, enquanto corria pelo estacionamento do cemitério.

— VINÍCIUS! TUA J-JUREMA! NÃ... — Gritou Isabel, enquanto saía do salão e vinha correndo atrás de mim. Ela chorava muito, muito mesmo.

Mas eu era mais rápido.

Saí da área do cemitério pelo portão do estacionamento e corri pela calçada.

Virei ruas correndo e despistei completamente a Isabel.

Não tinha rumo.

Só...

Pânico.

— AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA! — Gritei.

Gabriel está morto... Ele está morto!!!!

O que vai ser de mim agora??

Sem o garoto que eu amo??

Por que eu não percebi isso mais cedo?

Por que eu não dei meu amor pra ele?

Por que eu não disse antes que estrelava ele?!

Por que tudo isso teve que acontecer desse jeito?!

Por que teve que ser assim?

Tão triste, tão incerto.

Tão errado.

É um lixo.

É um cu.

É uma droga.

Como pode?

Ele ter morrido?

Assim, de repente?

Não...

Agora eu sei que foi algo inevitável...

Se acumulou por muito tempo...

Ele escondeu, ele foi descuidado...

Acho que a culpa foi dele.

A responsabilidade pela morte dele, é dele.

Aliás, não. Eu não posso culpar ele.

Tadinho, não, não!! O que eu estou fazendo?!

Culpando o pobre Gabriel? Ele que fez tudo por mim?

Claro que não!!! Ele...

Ele nunca quis ser descuidado...

Ele queria viver, eu sei disso...

Ele não queria morrer, ele queria viver

Ao meu lado.

Comigo.

Para sempre.

Flashback ON ~~ Há um ano atrás, no parque Max Feffer.

— Sabe Vini, eu acredito que todos nós, os humanos, viemos para esse mundo pra cumprir um objetivo. — Falou ele.

— Hm.....

— O objetivo de cada pessoa, alterna... Uns vêm para sofrerem pra pagar os pecados cometidos em vidas passadas... Outros vêm pra terem uma vida ótima, porquê só passaram por mágoas na vida passada... E outros vêm para realizarem sonhos ou objetivos que não foram cumpridos ou terminados. — Contou ele.

— Legal, mas, o que quê tem ? — Perguntei.

— Eu tenho certeza de que vim pra essa vida com o objetivo de realizar um certo sonho... — Contou ele.

— Que sonho ?

— Meu sonho é ser amado por alguém que eu ame... Muito... E, desde que eu te conheci, só consigo sonhar isso com você. — Disse ele. — Eu te amo muito Vini, quero passar o resto da minha vida com você... Aliás, mais do que amar, eu estrelo você.

— Hm... Obrigado. — Falei.

— Traduzindo, o meu objetivo neste mundo é fazer com que um dia você me estrele... Após cumprir isso, eu poderei até morrer. — Falou Gabriel.

— Credo, vira essa boca pra lá.

— Hihi, só falei por falar. Eu não quero morrer, pois eu quero viver bastante... E mais do que isso, quero passar todos os anos da minha vida ao seu lado. — Disse ele, enquanto se sentava na minha frente de pernas cruzadas com um sorriso no rosto.

— Quantos anos ?

— Eu já disse, todos. Minha vida inteira. Eu quero ser a pessoa que te fará sorrir sempre, quero ser a pessoa que te fará carinho sempre, quero ser a pessoa que cuidará de você, e se a situação exigir, poderei até morrer por você.

— Nossa, quanto drama, você me ama mesmo hein. — Falei.

— Não Vini, eu não te amo, eu estrelo você, pois as estrelas são mais brilhantes do que o amor. E eu acredito que meu sentimento por você seja muito... "Brilhante". Um brilho inacabável.

Flashback OFF

Sim, por toda a vida.

Comigo.

Isso que significa estrelar alguém, não é?

Ele me estrela...

Mas...

Não ficamos juntos.

Não estamos juntos agora.

No fim das contas, nós não ficamos juntos...

.....................

Por que???

Por que meu Deus?

O que eu fiz?

Foi porque eu fiz tudo aquilo de ruim?

AAAAhhhh... Se eu tivesse feito diferente....

Me cansei de correr e perdi meu fôlego. Fiquei extremamente ofegante enquanto continuava à chorar sem parar.

Fui andando devagar, passo por passo, até entrar numa travessa em paralelepípedo que daria na rua de baixo.

Sem um rumo definido, fui andando por essa travessa lentamente.

Sim...

Foi por causa das coisas ruins que eu fiz.

Com certeza foi.

Eu fiz o Gabriel se estressar, eu fiz ele sofrer.

A culpa é toda minha.

Não posso culpar outra pessoa à não ser eu...

E TAMBÉM, EU...

— Eu não... P-percebi... A-ah... Eu não percebi que ele esteve sofrendo... Esse tempo todo... — Murmurei.

— Nãããão... Aaaaahh, aaaaaaaaaaaaaahh!!! Socorro... Aaaaahhh... — Esperneei de choro.

Flashback ON ~ Há um ano atrás.

Eu e Gabriel estávamos na biblioteca da escola, no intervalo.

— Ei Vini, você não acha que já está na hora de você começar a me chamar de um jeito mais carinhoso ? — Perguntou Gabriel.

— Errr... Não. — Respondi.

— M-mas nós somos namorados agora. Seria tão bonitinho se você me desse um apelido carinhoso como Gabi, Bielzinho ou Rick. — Disse Gabriel, um pouco envergonhado.

— Rick? — Perguntei.

— Meu segundo nome é Riquelme, você não se lembra?

— A-a-ah... C-claro que eu lembro. — Falei.

— É? Prove... Qual é o meu nome completo? — Perguntou Gabriel.

— Gabriel Riquelme................

Gabriel deu um suspiro e falou :

— Viu, você não se lembra. Você sabe pelo menos quando é o meu aniversário?

— Errr..... D-dez... O-oito.. V-vinte e três... C-cinco.... Trinta... Um.... ? J-janeiro... Outubro... ? É dia 27 de Março ! — Exclamei.

— Completamente errado. — Falou ele, com uma expressão chateada no rosto.

— Ah.... Não precisa ficar triste por causa disso vai, você também não sabe qual é o meu nome completo e nem quando eu faço aniversário. — Falei.

— Pablo Vinícius Rodrigues da Alvorada. E seu aniversário é dia 17 de Novembro. Senhor escorpiano. — Disse Gabriel.

É, ele se lembra mesmo...

— A propósito, o seu último sobre nome é bem diferente... "Da Alvorada". — Falou ele, enquanto pegava um livro na prateleira.

— É tosco. — Falei.

— Não é tosco. Eu quero muito ter esse nome quando nós morarmos juntos. Eu me chamarei Gabriel Riquelme Oliveira da Alvorada. — Disse ele, com um sorrisinho no rosto.

— Aff, cansei, vou com a Isabel, nós não podemos nos falar no intervalo para que não desconfiem, você sabe disso. — Falei, enquanto saía da biblioteca o deixando sozinho.

Haha, só usava essa desculpa porquê não queria ficar com ele na escola, o Gabriel é muito chato, credo.

Flashback OFF

Ele era irritante pra mim... Era chato... E eu fazia coisas terríveis. Eu nunca menosprezei tanto alguém na minha vida como fiz com ele.

Por que?

Por que eu fiz tudo aquilo????!

Por que eu fui tão ruim????

Justo com o Gabriel, justo com ele, a única pessoa que me estrelou.

Ele; justo o garoto mais especial da minha vida.

Flashback ON ~ Há um ano atrás, no parque Max Feffer.

— Isso vai depender de você. — Disse ele.

— Vixi, então lascou.

— Não se preocupe, isso nunca irá acontecer pois eu definitivamente farei você me estrelar também. É uma promessa. E depois disso, viveremos juntos para sempre. — Falou ele, enquanto tentava me dar um abraço.

O empurrei pra trás e falei:

— PARA!! ISSO É VERGONHOSO!! ESTAMOS NUM PARQUE!! TEM MUITA GENTE AQUI, AFFE! — Exclamei.

Algumas pessoas ficaram nos mirando com um olhar feio. Eu morri de vergonha.

— Aff, aff, olha o quê você fez, agora tá todo mundo olhando, maldição... — Me levantei, peguei minha bicicleta e subi em cima dela.

— D-d-desculpa V-vini... É que nós somos namorados e eu p-pensei q-que poderia t-te dar um abraço... — Murmurou ele.

— NÃO! VOCÊ NÃO PODE! — Gritei.

— Você vai... Me abandonar... ? — Perguntou ele, com um tom de voz sombrio e entristecido.

— Vou. — Respondi, enquanto saía dali em minha bicicleta e o deixava sozinho.

Flashback OFF

Eu sou um lixo.

Eu sou um lixo.

Eu sou um lixo.

Eu sou um lixo.

Eu não pude amar o Gabriel a tempo, eu não pude estrelar ele a tempo.

Não pude dar pra ele o amor que ele sempre quis...

Não pude...

E ele quebrou a promessa...

Não está mais aqui...............

Pra viver junto e pra sempre comigo.

Mesmo tendo uma doença daquelas, ele ainda me escondeu.

O Gabriel...

Gabriel, eu...

Flashback ON ~ Há dois meses atrás.

Exatamente... Você, Gabriel, sempre me fez passar vergonha... Com minha família... Com meus amigos... Em público... Você sempre foi muito possessivo em relação à mim, e isso é insuportável.

— Você sempre foi de dizer aquelas baboseiras de amor... Mas eu nunca acreditei em nada... Pra mim sempre foi mentira, sempre fingi acreditar só pra você não encher o saco... — Sussurrei no ouvido dele.

— Eu te odeio, eu não gosto de você, te abandonei aquela primeira vez no parque pra você parar de tentar algo comigo. Te abandonei uma segunda vez na escola, parando de falar com você e cortando todos os nossos laços. Te abandonei uma terceira vez te deixando na chuva... E se for necessário, abandonarei uma quarta. Você é um estorvo. — Sussurrei no ouvido dele, de novo.

— Depois que eu parei de falar com você na escola, você não fez mais nenhum amigo, não é ? Exceto a Márcia. Mas saiba que nem mesmo ela se importa com você... Ninguém se importa. Se você morrer, não fará falta à ninguém. — Sussurrei.

— O quê eu preciso fazer, pra você me deixar em paz e nunca mais me perseguir !? Te matar !? — Sussurrei.

Lágrimas escorreram dos olhos do Gabriel, apesar dele estar dormindo.

Bom, ele não estava dormindo afinal de contas, ótimo.

Saí do quarto e deixei Gabriel dormindo, fui na casa do Guilherme passar o dia com ele e só voltei de noite.

Flashback OFF

Como eu fui capaz de dizer aquilo tudo????

— Como eu fui capaz...?! COMO EU FUI CAPAZ?!!!!!!!!! AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHH!!! EU SOU UM LIXOOOOOOOOOOOOOOOOO! — Gritei.

— Ainda bem que você sabe disso, Vinícius. — Falou uma voz que veio por de trás de mim, naquela travessa.

Imediatamente olhei para trás e vi aquela garota lá em cima, descendo em minha direção por entre os paralelepípedos.

— M-Márcia....... — Falei, continuando à chorar.

Márcia estava com a maquiagem em torno dos olhos toda borrada porque provavelmente chorou muito também.

Ela estava feia, parecia assustadora daquele jeito.

— A culpa é sua. Você está sabendo disso, não é? — Falou ela. — O Riquelme só chegou naquela situação.................. Por sua culpa, Vinícius.

Por minha culpa.

Ele chegou naquela situação, por

Minha culpa.

...

...

...

Não...

Não era verdade...

Eu sei que fui um lixo e fiz ele sofrer, mas pensando melhor, não foi culpa minha, não é?

Pensando melhor, foi culpa do pai dele que não cuidou direito dele e não nos contou sobre a doença. Sim, a responsabilidade é do pai dele.

Não é minha culpa. Eu não tenho nada a ver com a doença do Gabriel.

Ele morreu porque estava doente e simples assim.

— N-não! A culpa não é minha! Ele tinha lúpus e morreu porque não tinha uma defesa corporal boa! Não é culpa minha não, claro, pode ser verdade que eu magoei muito ele, mas...

— Mas? — Perguntou ela, me interrompendo, enquanto continuava vindo em minha direção. — MAS?!!! E Por que motivos você acha que o fato de magoar ele por si só já não pode ter sido o motivo da morte?

— Q-QUÊ?

— Você acha que o Riquelme chegaria àquele ponto se tivesse vivido sua vida normalmente?! Claro que não!! Você fez ele ter depressão, você fez ele sofrer, você o magoou e o destruiu no limite que poderia destruir, e agora, você me fala como se isso por si só não fosse o total motivo da morte dele?!

— V-você... TU TÁ LOUCA MÁRCIA! O Gabriel não morreu de depressão e ele muito menos se matou, ele morreu por causa daquela droga de doença e... E...... O QUE VOCÊ SABE SOBRE A GENTE, MÁRCIA?! — Indaguei. — Você esteve sem falar com ele por todo esse tempo por birra, não é?! Só porque tinha ciúmes de mim com ele, então, não haja como se soubesse de alguma coisa! Isso mesmo! Você não soube como eu e o Gabriel estivemos na última semana! Você não sabe o quanto nos aproximamos! Estávamos quase namorando de novo, e de verdade!

— ...................Eu sei. É claro que eu sei dessas coisas, claro. O Daniel me contou. — Disse ela.

Daniel?!

— E então Vinícius, por que você não me fala o que esteve fazendo ontem a tarde? — Perguntou ela.

— Ontem a tarde? E-eu estava dormi...

Me lembrei.

Me lembrei que saí com o Sato.

— Ora! Você se esqueceu? Qual era o nome dele mesmo...? Era Sato? Isso aí foi o Guilherme quem me disse. — Falou ela, após chegar a 2 metros perto de mim e cessar seus passos.

— NÃO! MAS EU NÃO FIZ NADA! EU NEM GOSTO DO SATO! EU SÓ...

— Hipócrita!! Vinícius, sinceramente! Não importa o quanto eu te odeie, parece que nunca é o bastante. A cada dia que passa eu te odeio mais e mais, sinto como se fosse uma fonte de ódio sem fim. — Disse ela. — E eu sou burra, porque eu sempre penso que poderia estar o mais nervosa que poderia estar, mas, para minha surpresa, você sempre faz eu exceder meus limites.

— EU NÃO LIGO SE VOCÊ ME ODEIA OU NÃO! NÃO FOI CULPA MINHA! EU E O GABRIEL ESTÁVAMOS PRÓXIMOS E EU AMO ELE! VOCÊ ACHA QUE EU NÃO TENHO SENTIMENTOS?! ACHA QUE SOU UM MONSTRO?! EU SOFRI MUITO, SABIA? EU TÔ SOFRENDO AGORA TAMBÉM OU TU NÃO TA VENDO?!

— Você não tem sentimento nenhum Vinícius. Você não ama ninguém, nem a si mesmo. Você é o pior tipo de pessoa que pode existir na face da terra. — Afirmou ela. — E EU REPITO! A CULPA É SUA! VOCÊ NUNCA DEU O VALOR QUE O RIQUELME MERECIA, NUNCA! VOCÊ SEMPRE FEZ POUCO CASO DELE!

Eu tenho sentimentos.

Ela tá mentindo.

ELA NÃO SABE NADA DE MIM.

ESSA PORRA TÁ FALANDO BOSTA.

— NÃO! NÃO É MINHA CULPA! INFERNO! MALDITA SEJA ESSA DOENÇA! MALDITO SEJA DEUS! ELE NÃO PODE SER PERDOADO POR TER FEITO ISSO! — Gritei.

— O único que não pode ser perdoado aqui é você Vinícius. Nunca vi alguém mais ingrato do que você e não use o nome de Deus porque você não tem o direito de pronunciá-lo. Você com certeza é uma pessoa que está com a passagem garantida para o fundo do infe... — Márcia ia continuar falando mas eu não me aguentei e soquei a cara dela, com toda a força que eu tinha.

O corpo dela é absurdamente leve e isso fez ela cair no chão de bunda, após o golpe.

Chutei a cabeça da Márcia para que ela deitasse de vez e subi em cima dela.

QUE ÓDIO.

QUE ÓDIO!!!

— CALA A SUA BOCA MÁRCIA! VOCÊ PENSA QUE É QUEM PRA FALAR ASSIM COMIGO? SUA TROUXA! JÁ FALEI, VOCÊ NÃO ME CONHECE! VOCÊ NÃO SABE DO QUE EU SOU CAPAZ! — Gritei.

— Aaaahh.... — Murmurou ela, chorando, com a boca toda cheia de sangue.

— O GABRIEL TÁ MORTO, ELE MORREU! DO QUE ADIANTA ME CULPAR?! ACHA QUE VAI TRAZER ELE DE VOLTA?! HEIN???! ME DIZ!!!!! O QUE VOCÊ QUER DE MIM??!! O QUE QUER QUE EU FAÇA?!!!!!!! EU NÃO PUDE FAZER NADA!!! NEM ONTEM, NEM HOJE E NEM NUNCA!!! — Gritei.

— Agora e-eu entendo. Acho que o motivo de... De... Eu te odiar t-tanto é porque você lembra muito o meu... Pai... — Falou ela.

— HÃ?!

— Você me bateu, como pôde...? Você é igual ele, outro c-covarde... — Disse ela. — Eu tenho nojo de você. É uma pena eu não ter podido proteger o meu Riquelme de você. DIFERENTE DE VOCÊ, EU AMO ELE! EU AMEI O RIQUELME E AINDA AMO! EU AMO ELE DEMAIS, SABIA?!

— AH É? QUER SABER? TU TÁ CERTA MÁRCIA! EU NÃO AMO O GABRIEL! EU ESTRELO ELE, SABIA?! ESSA É A REALIDADE! — Gritei.

— ..........................É uma pena. — Falou ela.

— EU FIZ COISAS TERRÍVEIS PRA ELE MAS ELE JÁ ME PERDOOU! NÓS SEGUIMOS EM FRENTE E COMEÇAMOS À DAR INÍCIO NO NOSSO RELACIONAMENTO! ESTÁVAMOS BEM! EU NÃO PERCEBI TÃO RÁPIDO, MAS EU JÁ ESTAVA AMANDO ELE DEMAIS, ESTRELANDO! EU NÃO ACREDITO COMO AQUELE MALDITO DITADO: "A gente só dá valor quando perde" É CERTO EM HORAS ASSIM! DROGA! DROGA! DROGA!!!!!! CARALHO!!!!! EU DEVIA TER ME APAIXONADO POR ELE ANO PASSADO! DEVERIA TER FICADO COM ELE TODO ESSE TEMPO! TALVEZ ELE ABRISSE SE CORAÇÃO PARA MIM E ME FALASSE DA DOENÇA, ASSIM PODERÍAMOS TOMAR UMA OUTRA ALTERNATIVA JUNTOS! — Falei.

— Abrir o coração? E-ele nunca faria isso. Mesmo que ele te amasse, ele nunca abriria o fundo do coração dele pra você. — Disse Márcia. — Pra ninguém, eu acho. É assim que ele é no fim das contas; um garoto que se sente extremamente sozinho e que não confia no amor de ninguém.

Extremamente sozinho...

E que...

Não confia...

No amor de...

Ninguém.

Domingo...

No domingo o Gabriel me rejeitou.

Eu tentei beijá-lo, mas ele me rejeitou, porque ele não tinha certeza se eu o estrelava ou não.

Me rejeitou completamente.

Ele não confiava no meu amor.

Mas...

Mas...........!

Ele não confiou no meu amor, porque eu...

Porque eu não o amava de verdade.

Ele achava isso......

E eu também, eu estava em dúvida...

Quer dizer que realmente, se eu tivesse amado o Gabriel de verdade, se eu tivesse estrelado ele, então... Ele...

Provavelmente teria aberto seu coração e as coisas seriam diferentes.

— Aaaaahhhhhhhhhhhhh.. AAAAAAAAAAAAAAAAAAHH!! — Gritei, continuando à chorar.

— Mas que pesadelo, eu nunca pensei que você choraria em cima de mim e muito menos que suas lágrimas cairiam em cima do meu rosto... Mas sabe, Vinícius? — Perguntou ela.

— AAAAAAAhhhhhhhh! — Continuei chorando.

— Você também... Você também não sabe do que eu sou capaz. — Disse Márcia.

— ...A-aah... — Murmurei.

— Você... — Ela ofegava — Por sua c-causa, eu... Fiquei brigada com o Riquelme.

Senti uma dor na barriga.

— Por sua causa, eu não pude me desculpar com ele. Eu não pude me tornar amiga dele de novo, eu não pude continuar o amando! Por sua culpa, ele não está mais aqui comigo! POR SUA CAUSA VINÍCIUS! Ele morreu de repente e se foi, sem eu... — Disse Márcia, enquanto começava a chorar. — Aaaahhh!!! Aaaaaaaaaaaah!!!

Está doendo...

Não é uma dor normal.

Tem algo, na minha barriga. Algo...

Assim que olhei pro meu próprio corpo, pude perceber a mão da Márcia segurando algo bem à frente da minha barriga.

Ela segurava forte, como se fosse o seu bem mais precioso. Era uma faca de cozinha.

E... Metade da sua lâmina tinha atravessado minha barriga, bem no canto esquerdo.

— M-Márcia... — Murmurei, enquanto pegava no pulso dela.

— Você é a p-pior coisa do mundo. É tudo culpa sua. Eu te odeio. Odeio por odiar e odeio odiando com ódio e mais ódio quando odeio por odiar e odeio odiando com ódio e mais ódio quando odeio por odiar e odeio odiando com ódio e mais ódio quando odeio por odiar e odeio odiando com ódio e mais ódio puro ódio.

Não quer ver anúncios?

Com uma contribuição de R$29,90 você deixa de ver anúncios no +Fiction durante 1 ano, além de outros benefícios.

Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!

— S-solta... — Murmurei, enquanto tentava fazê-la soltar.

Márcia então me empurrou com a outra mão e continuou segurando o cabo da faca. Dessa forma, eu fui pra trás e a lâmina saiu de dentro de mim.

Saiu rasgando.

Me cortando por dentro.

O empurrão dela fez eu cair pra trás, travessa a baixo.

Rolei até a calçada e me afastei rapidamente da Márcia por conta disso.

Meu sangue... Estava saindo.

Muito sangue.

Tinha ficado uma trilha de sangue por onde eu rolei.

Dói... Dói... Muito... Tudo...

Meus sentimentos, e, isso.

— A-a-aaahh... — Murmurei, enquanto me levantava com dificuldade.

Pude ver a Márcia correndo em minha direção e então coloquei-me à correr pela calçada.

Dói demais.

A ferida.

Sempre que eu respiro, sinto doer fortemente.

É difícil respirar com um machucado desses.

Acho que também vou morrer.

Que bom...

Eu estrelo o Gabriel.

Não estou triste.

Estou feliz,

Porque posso morrer junto com ele.

Irei morrer e irei vê-lo.

Não vou ficar vivendo sozinho.

Irei com ele.

Isso é muito bom.

Porque eu estrelo ele.

Agora eu sei disso, sim...

Eu estrelo o Gabriel.

Estrelo, estrelo, estrelo, estrelo, estrelo, estrelo, estrelo.

Mesmo tendo uma maníaca me perseguindo, eu ainda estrelo ele.

A Márcia não é importante, ela não é nada.

Só o Gabriel é importante.

Tudo está claro para mim.

Continuei correndo com dificuldade e com 50% da minha velocidade quando corro normalmente.

Para a minha sorte, a Márcia tinha parado de me seguir...

Não ouvia mais ela correndo, nem chorando, nem dizendo nada.

Ela tinha ido embora.

Agora eu estava sozinho.

Gabriel...

Gabriel......

Por que tudo teve que ser assim?

Você era um garoto tão bom, tão especial...

Você só me fez coisas boas...

Então por que...? Você não merecia isso.

As coisas não deveriam ser assim.

Ainda parece mentira.

— A-aaah..... Aaah..... — Me cansei de correr, cheguei ao limite. Continuei andando.

— Menino! Você, você está bem meu Deus??! — Perguntou uma senhora que estava passando na calçada. — Uma ambulância! ALGUÉM CHAMA UMA AMBULÂNCIA

Ignorei ela e continuei andando.

Gabriel...

Gabriel... Você...

Flashback ON ~ Há dois meses atrás, em casa.

Voltei pro meu quarto e deixei o Gabriel pra lá, o garoto me inferniza até quando perde as memórias, que chato.

Continuei à conversar com o Victor pelo tablet quando ouvi gritarias com choro vindas do quarto.

— O VINI FOI EMBORA!!! — Gritou Gabriel, que pelo tom de voz, estava chorando.

— ÔÔ, ele não foi embora não, eu vou lá chamar ele pra você, calma. — Ouvi minha vó falando.

— CHAMAR ELE PRA VOCÊ!! CALMA!! — Ele continuou chorando.

Aff, não estou acreditando nisso.

Minha avó veio até o meu quarto e me chamou:

— Seu amigo tá te chamando, fica lá com ele.

— Ah não vó, eu tô mexendo no tablet agora.

— Larga de ser chato Vinícius! O menino tá machucado, e é só até o pai dele chegar!

Resmunguei e voltei pro quarto da minha vó, onde estava o Gabriel.

Ele agora estava sentado de pernas cruzadas, enquanto chorava na cama. UM CHORO INFINITAMENTE ALTO QUE SE DÁ PRA OUVIR DE LÁ DOS CONFINS DO INFERNO.

— Calma Gabriel, o "Vini" chegou. — Falou Roberta.

Odeio que me chamem de Vini, abreviação mais tosca do mundo.

— O Vini chegou... — Murmurou ele, enquanto começava a parar de chorar ao me ver.

— "eeee, o Vini chegou, ele está aqui, tam dam!!!" — Falei, imitando uma voz de criança.

— Tam dam!! — Exclamou Gabriel, enquanto dava um sorrisinho.

— Isso não está dando certo, porra, ele tá parecendo um neném. — Falei.

— Tam dam!!!!!! — Gritou Gabriel, com um enorme sorriso no rosto.

— Isso é estranho, talvez seja algum problema psicológico que envolva você. — Falou Roberta.

— V-Vini... A-ah... E-e.... — Murmurou Gabriel. Ele parecia ter se esquecido das palavras, enquanto fazia força pra lembrá-las.

O quê será que ele quer falar?

— O que foi? — Perguntei.

— E-ee.... Iii... — Murmurou ele, e logo, pareceu ter desistido de tentar se lembrar das palavras esquecidas.

— Gabriel, sua cabeça dói em algum lugar? — Perguntei, enquanto me sentava na cama de frente pra ele.

— Dói em algum lugar... — Falou ele.

— Aonde? — Perguntei.

— Aqui ó... — Respondeu ele, enquanto tocava no peito e fazia uma cara triste.

— É... Melhor ele fazer vários exames, e urgente. — Falou Roberta.

— Vini. — Disse Gabriel.

— O quê?

Gabriel se aproximou bem perto de mim e deu um beijo na minha bochecha, na frente de todos que estavam no quarto.

E após beijar, ficou com um rosto sorridente e inocente.

— HMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMM — Zoou a minha prima, Thalia.

— Mas nossa... — Murmurou minha avó.

Passei a mão no rosto, limpando.

— ECA ! O-O QUE DIABOS FOI ISSO? — Perguntei.

— Foi isso! — Respondeu ele.

— RESPONDE DIREITO!!!

— Tam dam!!! — Falou Gabriel.

— Tam dam não!!! — Falei.

— Tam dam sim!!!!! — Falou ele.

Me estressei e sai furioso do quarto da minha avó. COMO ELE PODE ME DAR UM BEIJO NO ROSTO, NA FRENTE DE TODO MUNDO!!? ELE É LOUCO!!? Não vou mais ficar perto dele, de jeito nem um!!! Aposto que ele vai me infernizar e me causar muitos problemas!!

Entrei no meu quarto e me preparei pra desabafar com o Victor.

— O VINI FOI EMBORA DE NOVO!!!!! — Berrou ele do outro quarto, chorando.

Não vou me importar desta vez! Chega!

Flashback OFF

Gabriel...

Gabriel...

Gabriel...

Gabriel...

Gabriel...

Gabriel...

O clima daquela manhã estava nublado.

Eu estava com frio, mas mesmo assim, ainda parecia quente.

Depois de tudo, parecia estar quente.

Meu corpo...

E meu coração.

Gabriel...

Gabriel...

Flashback ON ~ Há dois meses atrás, no quarto do Gabriel.

Entrei no quarto e me sentei na cama, na frente do Gabriel.

— Oiii! — Falei.

— Vini... — Murmurou ele, enquanto olhava pra mim.

— Eu cheguei! Estou aqui, Gabriel. — Falei, fazendo uma voz alegre.

Gabriel colocou sua mão em cima da minha, e começou a olhar dentro dos meus olhos com uma expressão triste.

— E-eu pensei... Q-que você fosse m-me abandonar... D-de novo... — Falou ele.

Eu, Maria e o pai dele ficamos totalmente quietos e imóveis ao ouvir aquelas palavras.

C-como assim... De novo?

— Ah não, vamos parar com isso!! Você está todo triste e eu não quero te ver assim!! — Exclamei, enquanto puxava ele pra fora da cama.

— Eu vou te ensinar a dançar. — Falei.

— Ensinar... A dançar...? — Perguntou ele.

— Sim! É só imitar meus movimentos! — Respondi.

— Movimentos! — Exclamou ele.

Se eu pelo menos tivesse meu tablet pra colocar a música Mr. Mr. Do Girls Generation...

— Primeiro você coloca a perna assim, e o braço assim. — Falei.

— O braço assim! — Exclamou ele.

— Não!! Assim tá errado!! — Exclamei. — É assim.

— É assim!

— Não, assim também não! Você tá todo torto! — Exclamei.

— Tam dam!!! Assim!!! — Exclamou ele, com um sorriso no rosto.

— Isso! — Falei. — Aí depois você tem que fazer dess... — Parei de falar, quando me lembrei que a próxima parte é sensual demais para mostrar na frente do pai dele e da minha avó.

— V-Vini... Você tá bravo...? — Perguntou Gabriel.

— Não, por quê ?

— O "cableti"...

— Ah, o tablet... Deixa ele pra lá, depois eu compro outro. — Falei.

Flashback OFF

Gabriel...

Gabriel...

Gabriel...

Atravessei a rua lentamente, na faixa de pedestres, enquanto permanecia com minha mão em cima da ferida feita pela faca na minha barriga.

Conseguia sentir o sangue quente escorrendo pra fora do meu corpo, mas...

Apenas o Gabriel vinha na minha cabeça.

Gabriel...

Flashback ON ~ Há um ano atrás.

Eu e Gabriel estávamos assistindo um filme no quarto da minha avó, sentados na cama dela. Nós sempre assistíamos.

— V-Vini. — Murmurou Gabriel.

— O quê? — Perguntei.

— E-eu..... Etto... — Murmurou ele.

— Fala logo. — Odeio quando ele fica com isso, falando as coisas com dengo. É afeminado demais.

— E-eu posso te tocar? — Perguntou ele, enquanto virava o rosto pro lado.

— Não, mas vai ser todo dia isso?? — Perguntei.

— Isso o quê?

— Você querendo me tocar, que saco! — Exclamei.

— M-m-mas... A-a gente só fica assim, juntos e sozinhos uma vez por semana — Resmungou ele.

— E daí? Se você gostasse de mim, devia ficar satisfeito só por eu estar perto de você. — Falei.

— Mas Vini! Nós somos namorados e ainda nem demos o nosso primeiro beijo. — Murmurou ele.

— E nem vamos dar. Eca. Beijar você. — Falei.

— Puxa...... — Murmurou Gabriel, enquanto abaixava a cabeça.

Continuamos assistindo o filme por mais vinte e cinco minutos.

Gabriel ficou todo esse tempo de cabeça baixa e calado. Já estava me dando nos nervos.

— E você vai ficar se fazendo de triste aí até quando????? — Perguntei.

— E-e-eu n-não estou m-me fazendo d-de t-triste... E-eu estou t-triste. — Respondeu ele.

— Ah é? E cadê as lágrimas? — Perguntei.

— Eu prefiro morrer do que chorar na s-sua frente. — Respondeu ele.

— Hm... — Falei.

Me sentei ao lado dele na cama, bem juntinho, e coloquei minha cabeça em cima do ombro direito dele.

Só fiz isso pra ele parar de encher o saco, não entendam errado.

Ficamos daquele jeito por alguns minutos...

Olhei pro rosto do Gabriel e ele estava todo vermelho, depois olhei pra sua bermuda e vi um belo volume, e por último, toquei no seu peito com minha mão, e senti seu coração batendo muuuuito rápido.

Acho que ele está bem envergonhado, que engraçado...

Soltei uma risadinha bem baixinha, que Gabriel conseguiu escutar.

— V-Vini. — Murmurou Gabriel. Lá vem, sempre que ele vem com esse "V-Vini...", significa que ele vai falar alguma coisa relacionada à nós, ou pedir algo.

— O que?? — Perguntei.

— Eu sinto algo muito, mas muito forte por você. — Disse ele.

— Hm.... — Murmurei.

— É como nos mangás yaoi, onde os protagonistas começam a sentir algo muito forte por seus melhores amigos. — Falou Gabriel.

— Hm.... — Continuei escutando o quê ele tinha à dizer.

— E como nos mangás, eu quero que um dia você me corresponda para que possamos ser muito felizes j-j-juntos... — Falou ele.

— E por quê você acha que eu não te correspondo? Nós somos namorados, não somos? — Perguntei.

— Eu não acho, eu tenho certeza... Você não sente por mim o mesmo que eu sinto por você... — Murmurou ele.

— Como você sabe? — Perguntei.

— Intuição. Eu sinto como se tivesse uma "aura" negativa rondando seu corpo. Ela é bem desconfortante. Fica me dizendo que eu não sou o ideal pra você, que você não me quer, e que eu só vou sofrer se tentar continuar com isso. — Respondeu ele.

Não consegui segurar, e acabei dando outra risadinha.

— D-de qualquer forma... O que eu sinto é muito forte mesmo e eu não consigo parar de sentir isso por você. Por mais que eu saiba que vou me machucar muito, por mais que eu saiba que vou sofrer, eu não consigo controlar esse sentimento. — Falou Gabriel. — É ao contrário, ele é que me controla.

— Falando de amor de novo, é? — Perguntei.

— Acho que a palavra "amor" e a frase "eu te amo" ficaram muito desvalorizadas. Todo mundo fala isso pra todo mundo. E-então eu vou considerar que o quê eu sinto por você é mais forte que o amor. — Falou ele.

— Então, o que você sente por mim? — Perguntei.

Flashback OFF

Gabriel...

Gabriel...

Gabriel...

Gabriel...

Após atravessar a rua, cheguei na entrada do viaduto da cidade. Cheguei nele pelas ruas de trás ao invés de ir pela avenida lá em baixo.

Flashback ON ~ Há dois meses atrás, na minha casa.

Eu sei que uma hora ou outra eu teria que contar pra minha família sobre minha sexualidade mas ainda está muito cedo e eu sou muito novo... Não é a hora certa... Eu não estou pronto para que saibam...

T-tudo culpa do G-Gabriel... D-droga...

Uma lágrima escorreu do meu olho, fazendo uma trilha de água no meu rosto.

— Tam dam!!! — Exclamou Gabriel, enquanto entrava no quarto de novo, vestindo minhas roupas.

Minhas roupas ficaram grandes nele e ele ainda colocou tudo errado... Não abotoou nada, não fechou o zíper da calça, e a camiseta estava do avesso.

— Mister mister, mister mister, mister mister! — Exclamou ele, enquanto tentava dançar a coreografia da música Mr. Mr. da Girls Generation que eu adoro. Obviamente ele dançou tudo errado, mas ficou engraçado.

— Hahahahahahaha. — Ri dele.

— shanniekuu eosnanea, HELLOOOOO, Mister mister!! — Tentou cantar ele, absolutamente tudo errado, pois a música é coreana.

— HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA. — dei muita risada, ele estava muito engraçado!

— Mister mister, mister mister, mister mister..! — Exclamou.

O Gabriel nunca dançaria essa música se tivesse as memórias, ele achava a coreografia muito aviadada e morria de vergonha de tentar dançar.

— Não é assim que se dança, animal. — Tentei ensiná-lo a dançar.

Flashback OFF

Gabriel...

Gabriel...

Gabriel...

Fui andando pela calçada do viaduto, no mesmo caminho em que eu e o Gabriel nos encontramos com o Dani aquele dia.

Flashback ON ~ Pouco mais de uma semana atrás.

Esse contato chamado "Four", postou o meu vídeo pessoal, na minha timeline.

— Isso é muito suspeito. — Falou Gabriel.

Eu já estou brigado com a minha mãe, e agora, como vai ser?

Se ela viu esse vídeo, já era pra mim. Eu não terei mais como me defender dela, e ela vai usar o fato de eu ser gay como uma desgraça maior do que já era.

Pior! Ela pode acabar me mandando pra Minas Gerais pra morar com meus outros avós!

Não, eu não quero ir...

E a escola? Como o povo vai me olhar? E os professores? Eu agora serei o assunto da escola! E por culpa da Verônica!

P-por quê ela é tão cruel?? Por que ela fez isso comigo...? Como teve coragem??

— Pare de chorar Vini, seja forte. — Disse Gabriel.

Continuei encolhido na cama, e falei:

— Não chorar? Ser forte? Minha vida está acabando, e você me pede isso? Eu não terei mais ninguém agora. Ficarei completamente sozinho, e com todos falando de mim. — Falei.

— Você só está se fazendo de vítima. — Falou ele.

— Não estou me fazendo de vítima, eu sou a vítima.

— Eu já fui "vítima" várias vezes, e nem por isso fiquei reclamando. Também passei grande parte do tempo sozinho, sem ninguém à recorrer, absolutamente sozinho. — Disse ele.

— Mas você é você, e eu sou eu. A-agora eu t-também estou.. Absolutamente s-sozinho... — Falei. — Até a M-Maria vai me odiar...

— Você está errado, Vini. Você não está sozinho. — Disse ele.

— Como não?

— Você tem a mim. — Falou Gabriel.

— S-se te v-verem comigo, vão te envolver em tudo, e você será mal falado t-também... — Falei.

— Eu não ligo. — Disse ele.

Me levantei e me sentei na cama, ficando ao lado do Gabriel.

— Como não?? V-você voltou à falar comigo ainda hoje. Não estamos tão bem assim à ponto de você se prejudicar por mim. — Falei, olhando bem nos olhos do Gabriel.

— Eu realmente não ligo Vini. Te deixar sozinho que eu não vou, pois isso dói muito. — Disse ele. — Mesmo que o mundo inteiro fique contra você, eu ainda ficarei ao seu lado, e enfrentarei o mundo inteiro por você.

Estar olhando dentro dos olhos do Gabriel quando ele disse tal frase, foi algo inesquecível, pois os olhos dele pareceram brilhar, quando ele falou.

Não, os olhos dele não brilharam, foi o oposto. É como se eles estivessem ficado mais escuros.

— Seus olhos são pretos... — Falei.

— Nossa, você só percebeu agora...? — Perguntou ele.

— Eu pensei que fossem castanhos. — Respondi.

— E eu pensei que você já estivesse percebido a cor deles à tempos.

— N-não, não fique chateado Gabriel, desculpa, é que é difícil notar isso olhando de longe.

— Tudo bem Vini, tudo bem. Pelo menos você notou agora.

Flashback OFF

Gabriel...

Gabriel é quem ele é...

Apenas o Gabriel pode ser o Gabriel.

Mesmo agindo como criança, ainda é o Gabriel.

E só ele pode ser quem ele é.

Apenas ele pôde conquistar meu coração.

Com aqueles olhos negros e com aquele jeito de ser, o Gabriel...

Flashback ON ~ Pouco mais de uma semana atrás.

Estávamos sentados em cima daquele muro no terceiro andar quando eu estava pronto para me matar.

— Não quero ouvir isso vindo de você. Olhe só a situação em que você se colocou, você é tão louco quanto eu. — Falou Gabriel.

— Mas eu tenho motivos! Virei uma piada total na escola e o mundo inteiro está me rejeitando! —Exclamei.

— Então eu também tenho um motivo. Se o amor da minha vida morrer, eu não aguentarei viver sem ele e provavelmente me matarei também. — Falou Gabriel. — Mesmo que eu não morra agora com você, eu irei me matar depois.

— P-p-por que... ?

— Hm?

— Por quê você sacrificaria sua precisa vida por alguém sujo como eu? — Perguntei enquanto tentava segurar o choro.

— E eu preciso responder? — Disse Gabriel, colocando sua mão em cima da minha.

— Sim. — Insisti.

— Por que eu estrelo você, Vini.

—... — Fiquei em silêncio.

— Você sabe disso, pois eu já te contei antes. Não é nenhuma novidade. — Disse Gabriel. — Eu te prometi que ficaria com você pra sempre, não? Olha, eu até me lembrei do meu sonho pro futuro. Acredita que era me casar e ter uma vida feliz com você?

— Se morrermos aqui, esse sonho não vai ser realizado...

— Verdade, será uma pena. — Falou ele, enquanto intercalava os dedos da mão dele com os meus.

Flashback OFF

Uma pena...

Nem mesmo naquela hora, eu pude dizer...

Que te estrelava.

Gabriel.

Flashback ON ~ Há uma semana, no shopping Metrô Tatuapé.

Quando a porta do elevador se abriu, três pessoas saíram, deixando-o vazio, no entanto, duas mulheres entraram conosco e ficamos os quatro ali dentro.

A porta se fechou e Gabriel pareceu perdido ao encarar os botões que mandavam no destino do elevador, no entanto, ele rapidamente apertou um deles.

A parte de trás do elevador era feita de vidro, tornando possível que víssemos a pista de gelo e todo o local.

O elevador subiu.

— Ele tá subindo, você apertou errado. — Falei.

— AAAAAAAAAAA! Pare! Não fale isso! Que vergonha! — Exclamou ele.

— Vergonha só porque não sabe ler os botões?

— Eu deveria ter pesquisado com antecedência antes de vir...! — Disse.

O elevador subiu tanto que até passou do segundo andar, indo ao estacionamento superior. As mulheres que estavam lá dentro deram risada e saíram, pelo jeito era lá mesmo que elas queriam ir.

— Que vergonha! Que vergonha! Que constrangedor! Elas até riram! Odeio esse elevador! Droga de letras malditas! Que raiva! — Disse Gabriel, inconformado, enquanto ficava no canto do elevador e abaixava a cabeça.

— Ei Bibi... Qual eu aperto? — Perguntei, enquanto encarava os botões. Eu tava achando aquilo bem engraçado e fiz de propósito pra irritar o Gabriel, quase não conseguia mais segurar a risada.

— SE VIRA! ESCOLHE QUALQUER UM! SINTA A MESMA VERGONHA QUE EU! — Exclamou ele.

— NÃO! ME AJUDA, EU NÃO SEI! — Falei, enquanto ia até ele e o pegava pelo braço. — Vem, escolhe.

— PARA! PRA QUE? EU JÁ DISSE QUE NÃO SEI, EU VOU ERRAR DE NOVO!

— Deixa, é só a gente ir apertando um por um até chegarmos onde a gente quer. — Falei.

— Então aperta você!

— Vamos apertar juntos, olha. — Falei, enquanto segurava a mão dele e a levava até a lista dos botões.

— ...Tá.

— Mas escolhe você.

— Tá bom Vini. — Afirmou ele, enquanto apertava um dos botões junto comigo.

A porta se fechou e o elevador desceu, parando no andar seguinte.

— Erramos de novo, estamos no piso mais alto, um a mais do que estávamos e dois a mais de onde queremos ir. — Falei.

Quatro pessoas entraram e nós continuamos lá dentro.

— Que vergonha... Que vergonha... Eles estão entrando e vendo que a gente não desceu aqui... — Murmurou Gabriel.

— HAHAHAHAHAAHAHAAHAHAHAHAHAHAHAHAHAAHAHAHAHAAHAHAHHAHAHAHHAHAHHAHAHAHAHAHAHAAHAHAHAHAHAHAHAHAHA. — Ri alto, comecei a rir pakas.

Flashback OFF

Gabriel...

Bibi...

Meu Gabriel...

Aaahh...

Flashback ON ~ Há uma semana, na pista de gelo do Shopping.

— Você levanta, hihi. — Gabriel então, começou à patinar na frente enquanto me puxava pela mão. Segurei bem firme e tentei acompanhar o ritmo, até que chegou a hora em que eu consegui patinar ao lado dele, mas, não durou muito eu escorregar e tombar o Gabriel junto. Nós dois caímos de bunda e fomos deslizando até o canto da pista.

— Ai, foi mal. — Falei, enquanto tentava me levantar sozinho mas falhava e caía. — CU!

— Pera, eu levanto primeiro. — Disse ele, se levantando. — Pronto, agora vem.

Peguei nas mãos do Gabriel e ele me levantou novamente.

— Sabe, isso é tudo que eu posso te oferecer, Vini. — Falou.

— Hã?

— Momentos divertidos como esse, minha atenção sempre que você precisar e não precisar, conhecimento sobre trens, um amigo fofinho que se parece com um coelho, um pai que não para em casa e... Todo o estrelar do universo. Isso é tudo que eu posso te dar no momento. — Disse ele, parado de frente pra mim enquanto segurava minhas mãos.

— ... — Fiquei em silêncio.

— Bom, se for pra ser preciso, também posso te oferecer mordidas dolorosas e grampeadas no nariz.

— Isso eu não quero.

— Hihi. Acho que não. — Afirmou ele.

— Eu não posso te corresponder ainda, com tanta certeza.

— Eu sei, não se sinta pressionado, é que... Muitas vezes quando estou com você, me dá vontade de falar o quanto você me é importante. — Disse ele. — Com isso, apenas falei os meus pontos por pura vontade, para facilitar a sua escolha no futuro.

— Você acha que algum dia eu poderei te amar do mesmo jeito que você me ama?

— Não faço ideia, Vini, mas mesmo que isso não aconteça, eu continuarei te amando.

— Você é... Brilhante demais.

— Sou?

— Sim, parece uma estrela.

Flashback OFF

O Gabriel parece uma estrela.

Uma estrela que caiu.

Porque agora, ele se tornou uma estrela cadente.

Ele não está mais comigo, ele se foi, e eu estou sozinho.

Caí no meio da calçada em cima do viaduto, sem conseguir mais dar um passo se quer.

Sangue... Eu perdi muito sangue.

Agora eu vou morrer. É o fim.

Está acabado.

É uma tragédia...

Morto pela Márcia? Como eu poderia imaginar...?

Irei me tornar uma estrela cadente, também?

Isso me lembrou o sonho que eu tive hoje...

Verdade, eu sonhei com o Gabriel.

Ele estava indo embora. Ele disse que tudo tinha acabado.

Haviam muitas estrelas cadentes.

Foi tão triste...

O pior de tudo é que nenhuma vez eu disse pra ele que o estrelava.

Eu estrelo ele.

— G-Ga...Briel, eu est-trelo você... — Murmurei, no chão da calçada.

Não consigo mais... Nem me jogar daqui.

Vou morrer na calçada mesmo.

Tá doendo demais.

Tudo.

...

...

...

É mesmo, antes de morrer...

A última conversa que eu tive com o Gabriel, foi...

Flashback ON ~ Há um dia atrás, no pátio da escola.

— Tá bom, eu vou subir. Acho que a Isabel foi pra sala já. — Falei.

— Okay, até o intervalo Vini. — Disse ele.

— Até. — Fui andando em direção às escadas, mas, ouvi o Gabriel me chamando.

— Ei.

— O que? — Perguntei.

— Eu estrelo você. — Respondeu ele, fazendo um coraçãozinho com as mãos.

— Um coração?! Você não deveria fazer uma estrela?!

— Hihihihihihi, como eu faria uma estrela Vini?

— SEI LÁ HAHAHAHA. — Respondi, enquanto subia as escadas.

Flashback OFF

A última coisa que ele ME disse antes de morrer, foi que me estrelava.

Aaaahh...!

As estrelas estão caindo...

Eu consigo ver todas elas.

Gabriel...

Aaaaaahh, Gabriel...

Eu estrelo você!!

Está me ouvindo??

Eu estrelo você!

Flashback ON ~ Há um ano atrás, no meu quarto.

— Acho que a palavra "amor" e a frase "eu te amo" ficaram muito desvalorizadas. Todo mundo fala isso pra todo mundo, então, eu vou considerar que o quê eu sinto por você é mais forte que o amor. — Falou Gabriel.

— Então, o que você sente por mim? — Perguntei.

— Eu sinto por você algo tão grande e brilhante como uma estrela. — Respondeu ele.

— Eita. — Dei risada, de novo.

— É sério! — Exclamou ele, enquanto arranhava minha mão com aquelas unhas do capeta.

— Ai caralho, que bosta. — Falei.

— Eu gosto tanto de você que quero dizer que te amo pelo menos 1000 vezes ao dia, mas, como "eu te amo" é uma frase desvalorizada... O que acha de criarmos uma frase só nossa? — Perguntou ele.

— Que frase?

— Bom, se o quê eu sinto por você é como uma estrela, então podemos dizer... "Eu estrelo você", um para o outro. — Sugeriu Gabriel.

— Hm... E isso vai ser como um "eu te amo", só que mais forte? — Perguntei.

— Sim! Um sentimento superior ao amor! E o legal é que poderemos dizer em público, pois ninguém vai entender o significado. — Respondeu ele.

Flashback OFF

GABRIEL... POR FAVOR... Me responda... Você me ama também...? Fala comigo...!! Aaaahh...

Flashback ON

— Não Vini, eu não te amo, eu estrelo você, pois as estrelas são mais brilhantes do que o amor. E eu acredito que meu sentimento por você seja muito... "Brilhante". Um brilho inacabável. — Respondeu Gabriel.

Flashback OFF

— Eu estrelo você, Vini. — Falou Gabriel, que surgiu para mim envolto de milhares de estrelinhas brilhantes no meio daquele viaduto, dando aquele sorrisinho cativante que apenas ele consegue dar.

Apenas ele.

E então, tudo começou à se apagar e tudo foi ficando preto.

Continua no epílogo.