Eu estrelo você

18 Algo que está faltando


Notas iniciais
*Desapareci por um mês, e nem os comentários respondi D=, desculpem, vou responder tudo agora T^T *Vou postar 4 capítulos de uma vez pra compensar o tempo perdido ! :3

Pedro POV

Terça-feira às 07:02 no caminho da escola.

Eu estava andando com muita pressa pra chegar na escola.

Estou atrasado, como de costume. Isto é o que ganho por morar tão longe, e olha que eu nem venho a pé, eu pego o ônibus na frente de casa e desço no centro da cidade. É verdade que venho andando do centro até a escola, mas a causa do meu atraso não é eu ser lerdo pra andar, e sim o ônibus demorar horrores para chegar no ponto !

É todo dia assim, sempre me atrasando. Já não basta a discussão que tive ontem com meus irmãos, aquilo me deixou com pavil curto e não quero ser repreendido pela inspetora, tenho certeza que se eu for, não acabará bem. D-digo, não acabará bem para mim ! É capaz até de eu chorar ! Odeio que me façam chorar, é tão vergonhoso.

Eu tenho três irmãos mais velhos e todos eles implicam infinitamente comigo. É que tipo, eu sou gay, porém ninguém da família sabe. Eu não tive coragem de contar pra ninguém ainda, exceto pro povo da escola.

Meus irmãos são todos machões, daqueles que dançam segurando uma latinha de cerveja (o que é muito escroto) com uma mulher rebolando na frente. Dois deles tem namorada, e o outro vive pegando várias garotas diferentes. E é aí que está, eu sou o único que não "pega" ninguém.

Eu em casa, tento esconder ao máximo sobre a minha opção sexual, até chamo garotas de gostosas perto deles, ou coisas assim, pra disfarçar. Mas, não funciona muito bem.

Às vezes eu dou algumas recaídas e deixo estampado na minha testa que sou gay, e eles quase me matam por causa disso. "Larga de ser viado, isso tá muito gay, aff.", "cara, vá catar uma mulher de verdade pra perder essa virgindade aê", "Credo, vou falar pro pai que tu é boiola" e etc. São esses comentários que ouço deles todos os dias, e eu tento provar ao máximo que não sou gay (com mentiras, óbvio).

Bem... Não consigo esconder que sou gay. Por mais que eu tente, sempre cometo um deslize e os meus irmãos vem me zoar por causa disso. Tenho medo de falar e ser pior ainda, creio que o inferno irá triplicar dentro de casa. Ah, e tem o meu pai... Se ele souber, é capaz que me jogue pros tubarões comerem.

Passei a mão esquerda na testa e limpei um pouco do suor, em seguida, ajeitei a camiseta xadrez que eu usava e olhei as horas no celular.

— Oxi ! Já são 07:05 ! Esse celular só pode estar adiantado ! — Exclamei sozinho, enquanto aumentava a velocidade do passo.

Cheguei na escola um segundo antes do portão se fechar. Graças a deus o portão da escola fica aberto até 07:05 justamente por causa dos atrasadinhos, mas todo o dia é assim.

— Aaaah... Aaaah... Acho que vou morrer... — Murmurei sozinho, enquanto a inspetora fechava o portão.

— É, pelo menos você conseguiu entrar por aqui hoje, senhor Pedro. — Falou ela. — Seria pior se você ficasse do lado de fora e tivesse que entrar pela secretaria.

— A Vanessa (coordenadora) iria me engolir viva. — Falei.

— Mas e aí, o ônibus atrasou hoje de novo ?

— Sim, ele sempre se atrasa. — Afirmei, ainda parado, me recuperando da correria.

— Tente sair de casa mais cedo e pegar um ônibus que passe anteriormente. — Sugeriu a inspetora, enquanto colocava o cadeado nas correntes do portão.

— Aí eu teria que sair de casa às 05:30. — Falei.

— Então saia ué.

— Eu não. — Falei, dando de ombros e começando à andar até o pátio.

No fundamental, quando eu estudava à tarde, não tinha problemas com atrasos ou coisa do tipo. Tsk, era um paraíso.

Aliás, a minha infância foi uma benção, era tudo tããão perfeito ! Eu queria voltar à ser criança.

Opa, acho que estou pensando que nem um velho, mas só tenho 15 anos.

— PEDRO !!! — Exclamou Verônica, enquanto vinha até mim e me abraçava na entrada do pátio.

— O-oiiiii ! — Falei, retribuindo o abraço.

— Você tá cheiroso. E molhado. — Disse ela. — Como consegue soar e continuar tão cheiroso ?

— Não sei oxi, deve ser uma bruxaria. — Falei, soltando uma risadinha.

— Ah é, ah é, falando em bruxaria, tenho um bafão pra te contar.

— Um bafão ?? O Que houve ?? — Perguntei.

É raro a Verônica vir até mim e falar que encontrou um bafão, digo, na maioria das vezes ela vem reclamar que não tem nenhum furo.

Ela só encontra o furo na última hora pra publicar no jornal, portanto este, sendo encontrado assim com antecedência, deve ser realmente um bafão.

— Calma, antes vamos pra sala do clube. — Pediu ela.

— Mas vamos nos atrasar pra sala de aula, já são mais de sete horas. — Falei.

— Esquece isso, nós podemos, somos do clube de jornalismo.

— Que maneira estranha de se gabar... — Murmurei. — Puxa...

— O Que ? Você não quer saber ? Tá bom então, pode ir pra sua salinha de aula.

— N-não, agora eu quero saber né, você me deixou curioso.

— Então vem. — Verônica pegou na minha mão e me arrastou pra sala do nosso clube. Não havia ninguém lá dentro, todos já deveriam ter subido.

— Aqui, senta.

Ela puxou uma cadeira pra eu me sentar, e puxou uma outra para ela também. Nos sentamos um do lado do outro, e ela pegou seu celular.

O que será que ela vai me mostrar ? Será que é o vídeo de alguém ?

Verônica abriu a galeria, e colocou um vídeo. Acertei em cheio.

No vídeo, dava-se pra ver um garoto chupando um... V-vibrador... ?

— Oxi Verônica, que vídeo doido é esse ? — Perguntei.

— Presta atenção ! Você não reconhece esse garoto ?

— Ué... É o Vinícius... ? — Perguntei.

— Sim ! Com certeza é ele! Olhe ! Ele está usando essa camiseta vermelha, ele já veio pra escola com ela várias vezes.

— Morri. — Afirmei.

— Não, não morra ainda ! Preste atenção no que ele diz ! — Exclamou ela.

Comecei à prestar atenção no áudio do vídeo, que estava baixo.

"— Aaahh... Aaaah... D-Dan... — Gemia o Vinícius."

— Quem é Dan, Verônica ? — Perguntei.

— Dan, Dan ! Ele falou Dan ! É um menino ! — Exclamou Verônica. — Ele é gay !

— Nossa, não me diga ! Até porquê tem muitos héteros que chupam um vibrador por aí. — Falei, num tom irônico.

— Eita, quanta ignorância, você tá bravo ? — Perguntou ela. — Não é comum você dar patadas.

— Não estou bravo, eu estou decepcionado. — Falei.

— Por quê ?

— E pensar que o Vinícius se filmava fazendo esse tipo de coisa, aff, que passiva. — Falei.

— Calma, não ligue pra isso, eu já sentia que vocês não dariam certo de qualquer jeito. — Disse ela.

— A propósito, como você conseguiu esse vídeo ? — Perguntei.

— Não sei, um número desconhecido e sem foto me enviou pelo whats. — Respondeu ela.

— Que estranho. — Falei.

— Deve ser alguém que odeie ele.

— Tá, mas... Como alguém que odeia ele, conseguiria esse vídeo ? — Perguntei.

— Sei lá Pedro, no amor e na guerra vale tudo. Neste caso, se o quesito for guerra, então devem haver várias maneiras de se conseguir um vídeo desses.

— Mas e se...... O quesito for amor... ? — Perguntei.

— Hã ? Como assim ?

— E se quem mandou o vídeo, foi alguém que ama o Vinícius ?

— Nada haver, não tem sentido. — Disse ela.

— "É natural querermos destruir aquilo que amamos." — Recitei uma frase.

— Eita, que profundo. — Disse ela. — E pra você falar coisas depressivas assim, aposto que esse vídeo mexeu muito com você.

Realmente, foi a primeira vez que meu crush era gay, eu devia estar soltando fogos por causa disso e pulando de alegria. Mas ele tinha que ser tão... Assim ? Oferecido ? Tarado ? Tsk tsk.

— E o que você vai fazer com esse vídeo ? — Perguntei.

— Irei mostra-lo pras garotas daqui do clube, e perguntar o que elas acham. — Respondeu Verônica. — E você ? O que vai fazer ?

— Como assim ?

— Ainda vai tentar algo com o Vinícius ?

— Eu não, eca. — Falei. — Deixa ele com o "Daaan" dele.

Márcia POV

Às 07:21 na quadra. Minha sala estava tendo aula de educação física.

— Que estranho o Biel faltar, será que houve alguma coisa ? — Perguntou Nell, que estava sentadinho em sua cadeira de rodas ao meu lado, enquanto eu me alongava com o resto dos alunos. Nell fazia os alongamentos que conseguia realizar apenas com o braço.

— Não sei, é realmente estranho. O Riquelme nunca falta de terça-feira, pois ele adora ter aula de educação física. — Falei.

— Talvez ele tenha ficado gripado.

— Acho que não. E isso está me preocupando. — Falei.

— Por quê ?

— Ontem ele disse que passou o fim de semana inteiro com dor de cabeça, e mesmo ontem, ele estava com dores. — Lembrei o Nell.

— Verdade, será que ele faltou hoje por causa da dor de cabeça ? — Perguntou.

— Deve ter sido. — Respondi. — E se for, é realmente um motivo de preocupação.

— Hm... ? Tem haver com ele ter batido a cabeça ?

— Acertou em cheio, eu tenho quase certeza que a fonte da dor de cabeça dele foi a pancada que ele levou ao cair na calçada. — Falei.

— Mas seria muito estranho ele começar à ter essas dores só agora. — Disse Nell.

— Verdade, que estranho, e ele foi no médico e tudo... — Falei.

Eu e o Riquelme já contamos ao Nell sobre sua amnésia, porém não inserimos o Vini na história, pra esconder do Nell sobre sua sexualidade.

— Espero que não seja algo grave. — Disse Nell.

O Gabriel está sofrendo por causa desta dor de cabeça, ele também sofreu por causa da amnésia, e sofreu por várias outras coisas. Por que ele só sofre nessa vida ?

Se essa dor de cabeça dele se tornar algo grave, como disse o Nell, a culpa será totalmente minha... Pois... Foi por MINHA causa que o Gabriel foi visitar o Vini, naquele maldito dia.

Se "aquilo" não tivesse acontecido, ele não teria ido lá, e consequentemente não teria caído e batido a cabeça. Nada teria acontecido, e tudo estaria normal.

Eu sou horrível mesmo...

— Márci ? O que foi ? Por que parou ? — Perguntou ele.

— Hã, nada não... — Respondi, enquanto voltava à me alongar. — Eu só estava pensando, o quanto o Riquelme é forte.

— Sim, é verdade. — Concordou Nell.

— Ei Nell, qual é a sua definição pra uma pessoa frágil ? — Perguntei.

— Como assim ?

— Tipo, como saber se uma pessoa é frágil de verdade ? — Refiz a pergunta.

— Olha, eu acho que nesse mundo existem dois tipos de pessoas. As que se fazem de vítima e as que são frágeis. — Disse Nell.

— É, acertou em cheio. — Falei.

— As pessoas que ficam falando : "ah mas eu sou frágil, ah mas eu sou sensível", ou mimimi, são aquelas que se fazem de vítima. Elas tem tudo de bom e do melhor, suas vidas são perfeitas e maravilhosas, porém ficam procurando um cabelo branco no meio da cabeça. — Explicou Nell. — Até onde eu sei, as pessoas frágeis e sensíveis de verdade, não costumam demonstrar. Elas sofrem em segredo e encaram tudo com sua própria força. Elas se fazem de fortes, mesmo não sendo.

— Sim, isso mesmo. Você pensa sobre isso que nem eu. — Falei.

— Mas, por quê ? — Perguntou ele.

— Você acha que o Riquelme, é uma pessoa que se faz de vítima ou é uma pessoa frágil ? — Perguntei.

— Eu acho que... — Nell ficou quieto por um tempo, e começou à pensar.

Acabamos de nos alongar, e fomos sentar na arquibancada da quadra.

— E aí ? — Perguntei.

— Eu já sabia a resposta, mas estava pensando nas melhores palavras pra expor o que eu acho. — Falou ele.

— E o que é ??

— Eu acho que ele é frágil. Muito frágil. O rei dos frágeis. É como se um simples toque fizesse ele se estraçalhar em 8 mil pedaços. — Disse Nell.

— Por quê ?

— Porquê ele já lidou com muita coisa ruim, e mesmo assim consegue viver sorrindo. — Disse Nell. — E tem mais, eu acho que ele já sofreu muito mais do que parece. É como se ele me escondesse 70% da fonte de seu sofrimento, é como se mesmo hoje, ele estivesse afundando num poço de sofrimento.

Pensando assim, o Nell está certíssimo, pois ele não sabe sobre o Vini e sobre o que ele fez ao Riquelme.

— Hm... — Murmurei.

— Mas sabe, ao mesmo tempo que o Biel é frágil, ele é muito forte. — Disse ele. — É como se ele pudesse ser quebrado em 8 mil pedaços, 8 mil vezes, mas sempre se regenerasse como um ser imortal. É como um vampiro, tipo, se os vampiros possuem um ataque de 100 pontos, sua resistência é de 10 pontos. Eles são facilmente atingidos e facilmente destruídos, porém sempre voltam à ser como eram, como se nada tivesse acontecido.

— Pode ser verdade, mas ser quebrado oito mil vezes deve ser horrível. — Falei.

— É por isso que ele é forte. — Disse Nell.

— Olha, eu difiro de você um pouco, nessa parte. — Falei.

— Por quê ?

— É verdade que o Riquelme é frágil e forte ao mesmo tempo, como um vampiro, mas, eu não creio que ele seja imortal. — Falei. — Eu creio que um dia ele não aguentará mais ser quebrado, e... Perecerá.

— Credo, vira essa boca pra lá. — Disse Nell.

— Foi só uma metáfora. — Falei, enrolando uns fios de cabelo nos dedos.

Mas, eu estou muito preocupada com o estado atual do Riquelme. Espero que ele esteja bem, espero que mais peso não seja colocado em seus ombros, pois mesmo que ele seja forte, uma hora ou outra, ele não conseguirá segurar.

Vinícius POV

Às 09:30, o sinal pro intervalo bateu, e eu e Isabel estávamos descendo as escadas.

— Será que o Pedro veio hoje ? — Perguntei.

— Não sei piranha, larga de ser atirada. — Disse ela.

— QUEEE ?? EU NÃO SOU ATIRADA ! D-digo, atirado. — Falei.

— Não, imagina.

— Ah é ? Então quantos meninos eu já peguei ?

— ... — Isabel ficou quieta.

— Por favor né querida, eu perdi meu BV com o Guilherme, à pouquíssimo tempo. — Falei.

— E daí ? Você pegava um garoto por dia pela internet, que eu lembro. — Disse ela.

— Isso foi ano passado ! Eu não namoro mais pela internet ! — Exclamei.

— Mesmo assim, as coisas que você fazia por esses garotos virtuais eram ridículas. — Disse ela.

— Tá tá tá, voltando ao Pedro. Será que ele veio ? — Insisti. — Não vimos ele hoje na entrada.

— Nós nunca vimos ele na entrada, e ele sempre vem. — Falou Isabel.

— Verdade, acho que ele veio. — Falei. — O-o que eu falo com ele ? Será que ele vê alguma coisa em mim ?

— Sério agora Vinícius, eu estou achando muito incomum você estar gostando do Pedro. — Disse ela.

— Por que ?

— Porque você é uma PASSIVONA porra. — Disse ela. — E o Pedro consegue te superar nesse ponto, ele parece uma criança estuprável, e você teria que ser o ativo dele.

— "Passivo ou ativo ? Isso não importa, o que importa são os sentimentos que teremos um pelo outro." — Falei.

— Uiiii, que romââântico. — Zoou ela.

— O Gabriel dizia coisas assim, pra mim. — Falei.

— A-aah... Sério ?

— Uhum

— Será que se vocês namorassem, ele seria a passiva ou o ativo ? — Perguntou ela.

— É bem desagradável você falar "passivo" no feminino, mas okay... Eu teria que ser o ativo, o Gabriel é muito uke, aposto que ele supera até o Pedro.

— Uke ? O que é isso ?

— É passivo em japonês. — Falei. — Ele também costuma falar uke no lugar de passivo, ele dizia que era mais fofinho.

— Hm... — Murmurou ela.

Nós chegamos no pátio após descer as escadas e fomos direto pra fila do refeitório. Até que alguém pisou no meu pé.

— QUEM FOI !? — Perguntei, inconformado, falando com a multidão.

— O que foi quenga ? — Perguntou Isabel.

— PISARAM NO MEU PÉ, E NEM PEDIRAM DESCULPA ! — Falei.

— E precisa fazer escândalo por causa disso ? — Perguntou ela.

— Lógico ! Se não vão fazer isso sempre !

Virei o rosto pro lado, pra ver quem havia pisado, mas logo pisaram de novo.

— PORRA, CARALHO, DESGRAÇADO ! — Xinguei tudo quanto é nome, e a Isabel começou à rir.

— Hahahahahhaha. — Riu ela.

— Tá rindo do quê ??

— HAHAHAHAHAHHAHHAH.

— FOI VOCÊ SUA VACA !!? — Perguntei.

— Euu ?? Claro que não.

— Foi sim ! — Exclamei.

Essa maldita, fica zoando assim comigo na frente dos outros, aff, tinha que ser né.

O cheiro de comida dava pra ser sentido do fim da fila, provavelmente estavam dando macarrão com alguma coisa.

Essa fila desorganizada e desgraçada, que aliás, nem pode ser chamada de fila, pois o povo faz um tumulto lá na frente pra cortar, e vira como um chocalho invertido.

— Eu vou ir lá na frente ver se tem alguém, daí eu te chamo. — Afirmou Isabel.

— Tá bom, vai lá. — Falei.

Guilherme, Pedro, e Gabriel... Que situação difícil a minha.

Briguei com o Guilherme porquê ele foi embora naquele dia, briguei com o Gabriel por causa de tudo que houve no passado, e o Pedro, bem, tomara que eu não brigue nunca com ele.

Será que o Gabriel veio hoje ? Aposto que está lá na biblioteca, como sempre.

E aquele aluno novo ? O que tem o sharingan ? É muito estranho o Gabriel fazer amigos, muito mesmo. Até agora não estou conseguindo acreditar.

Se bem que aquele garoto é um tanto quanto estranho, então combina com ele.

— Aaah... — Murmurei sozinho, e dei um forte suspiro.

Esses dias estão tão estranhos... Está tudo tão... "Apagado". Parece que está faltando algo, algo muito importante, em mim.

É como se eu tivesse perdido um pedaço da minha personalidade, ou sei lá...

Será que eu vou ficar sem falar com o Gabriel pra sempre mesmo ? Tantas coisas aconteceram em tão pouco tempo, e tudo aconteceu porquê ele estava lá, como se fosse o centro de tudo.

Estou com um pouco de medo de voltar à rotina de antes, sem o Gabriel.

Será que eu estou sentindo a falta dele... ?

Não, não.

Isso é apenas o sentimento de culpa por eu ter feito muita coisa ruim pra ele.

Eu fui um lixo, o pior ser do mundo, eu não devia ter destruído os sentimentos e esperanças dele tantas vezes.

Aff, eu fui um completo idiota, e ele teve toda a razão brigando comigo no parque.

— Vem Vinícius, tem uma pessoa lá na frente que vai deixar a gente entrar. — Disse Isabel, me chamando.

Eu fui com ela até a "pessoa", e era Guilherme.

Fiquei parado do lado da fila sem adentrar a mesma, encarando o Guilherme com uma poker face. Isabel já estava na frente dele.

— Oi... ? — Perguntou ele.

— Oi. — Falei, friamente.

— Vem logo vadia, entra logo. — Disse ela.

— Não precisa, não estou com fome. — Falei, mas foi inútil, pois ela me puxou pra dentro da fila, me fazendo ficar em sua frente.

— Está sim. — Disse ela, atrás de mim.

— Aff. — Falei baixo, para que Guilherme não escutasse.

— Para de bufar sua quenga, já tá na hora de vocês voltarem à se falar. Eu tenho notado que você está muito pra baixo nesses últimos dois dias, quase não está sorrindo. — Sussurrou ela, no meu ouvido.

— Eu não quero falar com o Guilherme, era o papel dele vir falar comigo. — Sussurrei de volta, no ouvido dela.

— Larga de ser orgulhoso, e foi ele quem quis que você viesse pra cá. — Sussurrou ela.

— Só q... — Fui falar, mas ela me interrompeu.

— Vou no banheiro, já volto, guardem a fila pra mim. — Disse ela, saindo da fila, deixando Guilherme atrás de mim.

E-ESSA VADIA DESGRAÇADA ARÁBICA, HORROROSA !

Me desculpem árabes, não foi minha intenção lhes ofender, eu até gosto de vocês, sério. Eu apenas xinguei a primeira coisa que veio à cabeça.

— Vini... — Murmurou Guilherme.

— Não me chama de Vini. — Falei.

— Vinícius então. — Disse ele. — Foi mal cara, por eu ter deixado você aquele dia.

— Tá. — Eu disse, friamente.

— É sério pow, eu só saí aquele dia porquê estava com pressa, eu queria alcançar o Gabi pra poder falar umas paradas pra ele. Eu tava bolado com ele dormir na sua casa. — Disse Guilherme.

— Gabi ? — Perguntei.

— Gabriel.

— GABI !? — Perguntei. — Vocês se tornaram amigos !?

— N-não, só falei instintivamente. — Respondeu ele.

— Hm... — Murmurei.

Verdade, o que estou dizendo ? É impossível o Gabriel ter arrumado outro amigo além daquele possuidor dos sharingans, muito menos o Guilherme. Há, até parece, Guilherme e Gabriel amigos.

O Gabriel não iria gostar de alguém como o Guilherme, ele é um cara "burro", ou melhor, como diria o Gabriel, "com pouco intelecto". Eles não dariam certo nem a pau, nem pra serem amigos.

— Mas essa reação foi bem da hora hein, então você sentiu ciúmes de mim ? — Perguntou ele.

— Não senti não. — Falei.

— Ah, vai Vinícius, vamos esquecer isso, já passou já. — Disse ele. — Se eu tivesse ficado lá ou não, não faria diferença.

— Nunca se sabe. — Falei.

— ...Não vai me perdoar então ? Vai ficar bolado pra sempre é ?

— Não estou bolado. — Eu disse, enquanto dava mais um suspiro forte.

Acho que estender essa mágoa por muito tempo será pior para nós dois, sinceramente, eu gostaria de tirar todo o tipo de peso que estou carregando, dos ombros. Por algum motivo, me sinto muito "pesado", ou melhor, algo está faltando em mim, algo está errado, algo está me incomodando muito, mas o que é ? Talvez se eu perdoar o Guilherme, retirando um problema do ombro, eu descubra.

— Tudo bem Gui, eu te perdoo, irei deixar isso pra lá.

— Sério ? Então... — Ele foi falar, mas eu o interrompi.

— Não tão rápido, muita calma nessa hora. — Falei. — Só amigos.

— Affe, beleza. — Afirmou ele. — Seremos só amigos.

Estranho, eu jurava que ele fosse insistir, mas... Ele concordou na hora com esse "só amigos". Será que algo aconteceu ? Será que ele arrumou outra pessoa nesse tempo ?

Bem, não dou a mínima, se o Guilherme está namorando é até melhor. Não quero mais nada com ele.

Isabel retornou do banheiro, e entrou na minha frente.

— Vinícius, tenho uma coisa pra te falar. — Disse ela, num tom sério.

— O que ?

— Tinha umas meninas no banheiro, falando de você. — Falou ela.

— De mim ? Eram conhecidas ?

— Não, pior que não. Mas tenho certeza que estavam falando de você. Era "o garoto loiro chamado Pablo Vinícius". — Contou ela.

— O que estavam falando de mim ?

— Elas estavam rindo, comentando sobre um vídeo. — Disse ela. — Comentando que você aparecia num vídeo.

— Ué, vídeo... ? — Perguntei.

Nós três pegamos nossas refeições, e avistamos Verônica e Pedro, comendo juntos.

Como eles conseguiram ser os primeiros à pegar a fila ? Quanta sorte.

— Oi Verônica, oi Pedrinho. — Disse Isabel, cumprimentando-os.

— Oi. — Eles disseram, enquanto me fitavam com um olhar fuzilante.

— Esse aqui é o Gui, nosso amigo. — Falou Isabel, apresentando Guilherme aos dois.

Eles se cumprimentaram, e eu comecei a comer o macarrão com carne moída.

Verônica e Pedro estavam quietíssimos, a única que falava era Isabel. Guilherme estava igualmente quieto, por algum motivo.

Que clima tenso é esse... ?

Continua no capítulo 19.