Eu estrelo você
20 Primeiro passo
Notas iniciais
Gabriel POV
Nell é um garoto que já sofreu muito nessa vida, mesmo que não tenha feito nada para merecer tais coisas. Tudo que ele queria era ser livre, para que pudesse fazer tudo que as outras crianças faziam.
Ele nasceu com a visão ruim, podendo enxergar apenas as coisas próximas à ele. Por causa disso, atravessou a rua sozinho e foi atropelado, perdendo a capacidade de andar.
Tendo pais e parentes infinitamente superprotetores, vivendo dentro de uma jaula e lutando contra a solidão sozinho. Esta foi a vida que Nell levou nos últimos anos, após perder o seu único amigo.
Vendo desse ponto, se o Guilherme era realmente o único amigo do Nell, então acho que somos parecidos: ele perdeu o Gui, e eu perdi o Vini. E mesmo que a culpa não fosse dele, Nell ainda continuou se culpando.
Guilherme, até onde eu sei, mora com a mãe e com as duas irmãs mais velhas, aqui na cidade. Porém ele vive indo fazer algo na casa da tia dele, o que será que é ? Bem, isso por enquanto é irrelevante.
Eu falo com ele apenas na hora da saída e começamos à nos falar recentemente, então não o conheço muito bem. Aliás, também conheci o Nell à pouco tempo, mas sei muito sobre ele. Isso é porquê o Nell é o Nell, e o Guilherme é o Guilherme. Por alguma razão, sinto que me dou muito melhor com o Nell do que com o Guilherme. Será que é porquê ele é mais parecido comigo ? Não sei.
Eu e a Márcia não queremos que o Nell se sinta culpado pelo resto da vida. Já está na hora de resolver essa história dos dois.
— Ele ? — Perguntou Nell, enquanto movia sua cadeira de rodas saindo do seu lugar, indo até Guilherme.
O coelhinho parou na frente de Gui, e ficou o encarando.
— Pode se aproximar um pouco mais ? — Pediu o garoto.
Pela primeira vez na vida, eu vi o Guilherme vermelho. Ele estava igual um tomate. Tenho certeza de que morria de vergonha.
Guilherme se aproximou de Nell, dando um passo pra frente.
Eu me sentei com Márcia encostado na parede, em uma das carteiras da fileira do canto.
— É verdade, é você Gui. — Disse Nell, reconhecendo Guilherme apenas por olhar em seu rosto.
— Sim, eu sei. — O garoto de corpo bem definido deu um forte suspiro, e se sentou numa carteira próxima à Nell. — Quanto tempo, Nellzinho.
— Nellzinho ? — Cochichou Márcia no meu ouvido. — Que fofinho !
— Coelhinho é muito mais fofinho do que Nellzinho. — Cochichei de volta no ouvido dela.
— Mas ele não gosta de ser chamado de coelhinho.
— Ele gosta sim, apenas fala pra gente não chamar ele desse jeito por puro capricho. — Expliquei à ela.
— Você estudava aqui, todo esse tempo ? — Perguntou Nell.
— Sim.
— Sua família não havia se mudado para longe ?
— Não, minha tia nos ofereceu uma moradia aqui na cidade mesmo. — Respondeu Guilherme.
— Ah, entendi... — Nell parecia muito nervoso.
Os dois ficaram novamente calados, olhando para o chão.
— ...
— ...
— É só isso ? Eu aposto que vocês tem muito mais coisa pra conversar. — Falei.
— Não precisamos conversar mais nada, eu já entendo tudo. — Afirmou Nell.
— Não entende não, você apenas está formulando hipóteses. — Falei. — Ao invés disso, por que simplesmente não pergunta pro Gui, agora que ele está na sua frente ??
— Ele deve ter se sentido culpado por eu ter sido atropelado, e por isso não me procurou mais. — Disse Nell. — Não é isso ? É sim, não tem mistério, eu já entendo o que ele sentiu, não temos o que conversar.
— M-mas, que grosseria ! — Exclamei.
— Deixa Gabi, não precisa tentar nos ajudar não, cara. — Disse Guilherme. — Eu não vim falar com ele antes porquê sabia que algo assim aconteceria.
Apertei novamente o grampeador, fazendo outro grampo cair.
— Se me chamar de Gabi de novo, arrancarei seu globo ocular e o grampearei dezessete vezes. — Falei.
— ... — Gui revirou os olhos, e ficou quieto.
— Gui, o Nell tem se culpado todo esse tempo ! Ele se culpa pelos pais dele terem metido um processo na sua família, ele se culpa porquê não pôde fazer nada naquela época. Ele estava internado, fraco, e não importa o que ele dissesse, iriam tratar ele como uma criancinha doente. — Falei.
— Pare de falar essas coisas ! — Exclamou Nell. — Você não sabe como eu me sinto de verdade, não pode falar isso.
— Claro que eu sei como você se sente ! Você não apenas me falou, como demonstrou também ! — Exclamei. — A música que você tocou na harpa aquele dia passava todas as suas amarguras pra mim e pra Márcia, era como se você estivesse rezando pra Deus pra poder voltar no tempo, e consertar tudo. Você se culpa por ter se distraído e acabar sendo atropelado. Você queria voltar no tempo para não atravessar a rua naquele dia, não é ? Você queria que sua amizade com o Guilherme durasse para sempre, e queria também brincar com ele inúmeras vezes.
— Mesmo que eu quisesse brincar com ele, eu acabaria não podendo, pois minha visão sempre foi ruim e eu sempre era horrível nas brincadeiras. — Disse Nell.
— Não, isso não é verdade. — Guilherme finalmente se pronunciou.
— É verdade que você tinha dificuldades, mas eu estava lá pra te ajudar em tudo que você precisasse. — Afirmou Guilherme. — Eu sempre jogava futebol no campo com os meus outros amigos, e sempre me imaginava jogando com você ali, algum dia. Era isso que eu queria, te mostrar tudo que eu tinha pra oferecer, e te divertir de todas as maneiras que eu pudesse.
— Do que adiantaria eu ir para esse tal campo ? Você no fim ficaria mais com seus outros amigos do que comigo. — Falou Nell.
— Mas é claro que não ! — Exclamou ele.
— Então o que ? Você ia ficar em cima de mim pra me proteger de tudo e me tratar como um garotinho cego !? Como todo mundo !? — Perguntou Nell.
— Isso também não ! Você sabe que eu nunca fazia isso, eu te tratava como um amigo comum, assim como todos os outros ! — Respondeu Guilherme.
— Sim ! Exatamente ! Eu era só um amigo pra você, eu não tinha nenhuma importância e nenhum privilégio ! — Exclamou Nell. — Enquanto você ainda tivesse os seus outros amigos, estaria tudo bem, não é !? E foi por isso que você nunca mais voltou na minha casa pra falar comigo, mesmo estando na mesma cidade, não é !?
Agora eu... Entendi. Entendi como o Nell realmente se sente.
Ele está se contradizendo.
Normalmente, ele diz que odeia que fiquem cuidando dele como um "garotinho cego", que precisa de infinitos cuidados, maaas... O Guilherme não tratava ele assim, o Guilherme o tratava como um garoto comum, e o Nell... Talvez... Não gostasse disso...
O Nell queria que o Guilherme o desse atenção, e cuidasse dele assim como seus pais faziam.
Exato. No fundo, no fundo, beeem no fundo, o Nell gosta de ser tratado como o "garotinho cego". Ele gosta de ser mimado, e gosta de sempre ser o centro das atenções. É assim que ele se sente.
— N-Não... — Murmurou Guilherme. — Eu não sei, cara... Você é ciumento...
Pensando assim, tudo faz sentido. Eu também trato o Nell como um amigo comum, e ele fica todo meloso pra cima de mim, querendo atenção e carinho extras.
Olhei pro lado e vi que a Márcia estava bastante pensativa, também. Me pergunto se o Nell é meloso com ela também, nos dias que eu falto.
— QUÊÊÊ ?? EU NÃO SOU C-CIUMENTO, E EU NÃO ERA CIUMENTO ! — Berrou Nell, inconformado.
— Mas você está dizendo coisas assim, falando dos meus amigos antigos. — Disse Guilherme. — A maioria deles eu nem lembro o nome.
Acho que o Nell ainda não raciocinou tanto quanto eu, acho que ele realmente não sabe que no fundo gosta de ser mimado. Isso prova que, eu o conheço melhor do que ele mesmo.
Será que devo me intrometer, e contar à ele ?
Não, calma, primeiro eu preciso ver aonde isso vai chegar.
— E daí ? Me deixa. — Disse Nell, como se não tivesse um argumento pra rebater o que Guilherme falou.
— Minha família sofreu muito por causa daquele processo, e meus pais me proibiram de te encontrar de novo. — Afirmou Guilherme.
— Eu sei que foi ruim pra vocês... — Murmurou Nell. — Também foi ruim para mim. Igualmente os meus pais me proibiram de te ver.
Os dois ficaram em silêncio, por mais um tempinho. O vento gelado da manhã entrava pelas janelas da sala de aula, e resfriavam a mesma.
Raios de sol quentinhos iluminavam e esquentavam alguns lugares da sala, ao mesmo tempo em que a brisa gélida entrava.
— Foi mal. — Disse Gui.
— P-pelo quê está se desculpando ?
— Por ter te puxado pra rua naquele dia. Se eu não tivesse insistido tanto, você ainda estaria andando agora.
— Aquilo não foi culpa sua ! Foi culpa minha, eu que quis muito ir na rua, e fui eu que não prestei atenção no carro. — Disse ele.
— Eu não soube o que aconteceu com você depois daquilo. — Afirmou Guilherme. — Eu só sabia que você havia sobrevivido, mas não sabia que havia perdido a capacidade de andar. Eu só fui descobrir isso assim que vi você no intervalo, em cima de uma cadeira de rodas.
— Entendi... — Murmurou Nell. — Desculpa também.
— Por quê ?
— Pelo drama ciumento de agora à pouco, e por não ter conseguido fazer nada no passado. — Disse Nell. — Me desculpe por ter me distraído na rua, me desculpe pelos meus pais, me desculpe por ter causado problemas à sua família, e me desculpe por tudo mais que houver acontecido.
— Muita parada aconteceu nesses últimos anos, e agora já temos idade pra falarmos o que pensamos, e agirmos também. — Falou Gui.
— Sim, é verdade. — Disse Nell. — Eu finalmente consegui convencer a minha mãe sobre fazer amigos, e sobre não precisar mais ser "tão protegido" por ela.
— Sério Nell ? — Perguntei. — Você não me contou.
— Eu esqueci, na verdade eu contei ontem pra Márcia, mas você faltou. — Disse ele.
— Ahh... — Murmurei.
Agora faz sentido. Hoje no carro, o Nell falou algo pra sua mãe, como : "mãe, lembre-se do que conversamos." Então era isso.
— Mas e aí, vocês voltarão a ser amigos ? Está tudo resolvido ? — Perguntou Márcia.
— Por mim tá tudo beleza. — Respondeu Gui, com um sorriso no rosto.
Nell hesitou um pouco, mas depois olhou para Gui e retribuiu o sorriso
— Sim, melhor deixarmos o passado pra lá e seguirmos em frente. — Disse Nell.
— É, agora abracem-se. — Ordenei. — Vocês finalmente se reencontraram após muito tempo, e ainda não deram um abraço.
— Não precisa, eu n-nã... — Nell foi falar, mas acabou interrompido por Gui, que o abraçou imediatamente.
Eu e Márcia ficamos olhando pra ele, e fizemos um sinal esquisito com as mãos, que dizia pra ele retribuir o abraço.
Nell suspirou, fechou os olhos e abraçou Guilherme também.
EEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEE, FINALMENTE !! ELES FIZERAM AS PAZES !!! OBAAAA, OBAAAAAAAAAA, OBAAAAAAAA !!!
Me levantei rapidamente da mesa.
— Eeeeeeeeeeeeeeeee, agora sim !!! Conseguimos Márcia !!! Realizamos o nosso plano !!! — Comemorei, com um sorriso no rosto.
Agora o Gui e o Nell voltarão a se falar, e finalmente colocarão uma pedra em tudo que aconteceu !!
Me sinto feliz por eles, me sinto realmente feliz por ter ajudado meus amigos !
— Siiiim, hahahahaha. — Márcia deu risada, enquanto se levantava e me abraçava.
Enquanto a abraçava, peguei em suas pernas e a levantei um pouco.
— Tam dam ! — Exclamei, dando uns giros com ela.
— SOLTA RIQUELME ! VOCÊ SABE QUE EU NÃO GOSTO QUE ME PEGUEM ASSIM ! — Pediu ela.
— Larga de ser rabugenta Márcia ! — Falei, rindo ela.
— Hahahá, olha só o Biel feliz igual quando foi lá em casa. — Disse Nell. — Parece que você vira outra pessoa.
— Não viro outra pessoa, eu continuo sendo eu mesmo. — Falei, enquanto colocava a Márcia no chão. — Apenas fico mais "brilhante e colorido."
— Ixiii cara, eu que não quero ver você bêbado. — Disse Guilherme. — Aposto que ficaria doidão.
— Verdade, por isso que eu não bebo. — Falei. — E nem nunca vou beber.
— E agora ? O que faremos pra comemorar a nova amizade dos dois ? — Perguntou Márcia, enquanto ajeitava a calça.
— Vamos pra minha casa ! — Convidei-os.
— Aaaaahhhh não Riquelme ! É muito longe ! — Exclamou ela.
— Vamos pra minha. — Disse Nell.
— Sério ? Mas assim, sem mais nem menos, em plena quarta-feira ? — Perguntei. — Sua mãe não vai deixar, muito menos se ver o Gui.
— Ela não vai reconhecer o Gui, ele mudou muito. — Disse Nell. — E sem problemas, na nossa conversa chegamos à conclusão de que vocês poderiam ir lá sempre que quisessem.
— Você deve ter sido bem corajoso pra ter enfrentado sua mãe. — Falou Guilherme.
— Realmente, não foi fácil.
Vinícius POV ~~ alguns minutos antes, ainda no intervalo.
Eu estava no refeitório, comendo com a Isabel e com o Guilherme, quando alguém chegou até nós. Era Gabriel.
— Ei, Gui, você pode vir aqui comigo, rapidinho ? — Perguntou ele.
— Aqui aonde ?
— Quero te mostrar uma coisa, vamos. — Insistiu Gabriel, puxando o Gui pelo braço.
— Eu estou comendo agora Gabi. — Disse ele.
No momento que o Gui chamou ele de Gabi, senti um pouco de raiva fluindo dele.
Eu e Isabel ficamos calados, apenas observando.
Por quê o GABRIEL está falando com o GUILHERME !!? Eles ficaram amigos !? Sério isso !?? E o que ele tanto quer ??
O garoto de cabelos negros e bagunçados, se abaixou e cochichou algo na orelha do Guilherme, e ele imediatamente se levantou.
— Gente, eu vou ali com ele e depois eu volto. — Disse Gui, enquanto saía do refeitório com Gabriel.
Ao sair, Gabriel olhou rapidamente pra trás, me fitando com o olhar. Mas foi mesmo bem rápido.
— Isabel, o que foi isso... ? — Perguntei.
— Não sei, estou pasma. — Respondeu ela. — Acho que o Gabriel não tá de brincadeira não, hein.
— Como assim ? — Perguntei.
— "Roubando" o Gui desse jeito, sendo que ele era o seu namorado até pouco tempo... Sei não hein, me parece que ele está bolando algo pra foder com você.
— Não pode ser... — Murmurei.
— Tem o vídeo também.
Mas nós ainda não temos certeza se o vídeo é realmente o meu...
Gabriel POV ~~ alguns minutos atrás, após tirar o Guilherme do refeitório.
Foi bem difícil ir falar com o Gui, com o Vini perto. Ai, acho que vou morrer de vergonha, por quê estou assim ?
E o Vini ficou o tempo todo olhando pra mim, será que ele estava surpreso por eu ter ido falar justo com o Gui ? Aposto que sim.
Tive que cochichar no ouvido do Gui, que tinha uma coisa muito importante pra falar pra ele, e que essa coisa tinha haver comigo. Eu falei num tom bem... "Meloso."
Ele deve estar achando que eu vou me declarar, ou coisa do tipo. Bem, foi minha única alternativa, se eu não falasse isso, ele não viria.
— Aonde ? — Perguntou ele.
— Não quero falar aqui no pátio, vamos subir. — Respondi.
— T-t-tá... — Disse Gui.
Subi com ele as escadas, e paramos no corredor do primeiro andar.
— Pode ser aqui ? — Perguntou.
Aqui não dá, droga, preciso levar ele pro segundo andar.
— N-não sei... Acho melhor irmos mais pra cima, pois aqui alguém pode nos ver... — Falei, tentando parecer com vergonha.
— Fala aqui mesmo, eu estou com você, não importa se outra pessoa vai vir. Se falarem alguma coisa, eu arregaço essa pessoa. — Disse ele.
— Mas eu estou preocupado, é que... Ninguém sabe sobre você, né ? — Perguntei.
— Não sabem, mas eu não ligo de saberem. — Respondeu.
— G-Gui, desculpa... Eu não vou consegui dizer aqui... É bem embaraçoso, sabe ?
Estou parecendo aqueles ukes de yaoi, que coisa. Aff, aff, aff, só estou fazendo isso por causa do Nell.
Guilherme me pressionou contra a parede do corredor, e ficou de frente pra mim.
— Não precisa ter vergonha, vai, fala. — Disse ele.
Que garoto pervertido, não me surpreende o Vini ter gostado dele, aff.
Será que se eu fosse bastante pervertido, o Vini ia gostar de mim também ?
— E-eu não consigo... A-aqui não... Estou sem palavras... — Murmurei.
— Então... Não diga nada. Apenas fique comigo, em silêncio se for preciso. — Disse ele, enquanto começava à aproximar seu rosto do meu.
N-não, ele quer me beijar ? Eu não posso, nunca beijei antes.
Eu não posso deixar que o Gui me beije, tsk, quem diria que uma pequena mentira faria isso chegar à esse ponto ? E agora ? E se ele estiver apaixonado por mim ? Se eu o recusar, ele vai ficar chateado.
Acalme-se Gabriel.
Pense bem.
Por que você está aí ?
Estou pelo Nell, apenas.
Eu quero ajuda-lo a fazer as pazes com o Guilherme. Apenas isso.
E você realmente acha que vai ser bom, desperdiçar seu primeiro beijo por causa disso ? Dessa mentirinha ?
Não, vai ser horrível.
Eu não posso.
Eu não quero.
Eu não consigo gostar do Guilherme dessa maneira, nem um pouco.
Por quê não ? Ele é legal.
Porquê......
Porquê.........
Porquê ele já namorou com o Vini. Ele ficou com o primeiro beijo do Vini.
Eu não quero beijar o mesmo garoto que o Vini beijou, isso está errado ! As coisas não eram pra ser assim !
E o Vini ficaria muito triste comigo se soubesse que eu beijei o Guilherme. Aliás, não, ele ficaria bravo, ele acharia imperdoável, e nunca mais sequer olharia pra mim.
E você se importa com o que o Vini acha, mesmo à essa altura do jogo ?
Não sei... Acho que sim, pois... Eu finalmente me lembrei dele.
Eu não posso entregar meu primeiro beijo pro Gui, porquê eu prometi ao Vini que...
O meu primeiro beijo seria dele.
Apenas dele.
Era o meu desejo, e eu sonhei várias vezes com isso.
Peguei algo que eu escondia num lugar secreto do corpo, e coloquei na frente da minha boca, impedindo que Gui me beijasse.
Seus lábios ficaram á menos de 1 centímetro dos meus, ambos estavam separados apenas por uma... Régua.
Empurrei ele um pouco pra trás com a mão esquerda, e no momento que ele teve aberturas, peguei meu grampeador com a mão direita e o enfiei dentro de sua boca.
— Desculpa Gui, eu não estava falando sério sobre tudo isso. — Falei.
— ... — Ele ficou quieto, pois não conseguia falar com o grampeador em sua boca.
— Eu realmente me pergunto, se você quis tentar me beijar porquê era eu, ou se você faria isso com qualquer outro garoto. — Falei. — Quer saber o que eu acho ?
— ... — Ele continuou quieto.
— Eu acho que você faria isso com qualquer outro garoto, e que não dá a mínima para mim. — Afirmei. — Me desculpe, mas considerarei sua tentativa de beijo como um ato hostil, e se fizer de novo, golpearei sua garganta.
Eu tive que falar friamente. Me desculpa Gui, realmente me desculpa.
Ser frio assim com você é a única alternativa, para garantir que você não tente nada comigo no futuro.
Não terei nenhuma garantia de que conseguirei te evitar para sempre, pois eu sou gay e fico excitado com esse tipo de coisa. Se você conseguisse me deixar excitado, seria um desastre, então preciso impedir isso de acontecer, agora, enquanto ainda há tempo.
Eu também creio que você não possui nenhum sentimento por mim. Eu tenho esse tipo de habilidade, consigo ler as pessoas, e tenho certeza que por mim você não sente nada além de atração sexual. Infelizmente para você, eu não tenho interesse nesse tipo de coisa , apenas no sentimento.
Bem... Mesmo que a chance de eu estar errado, seja mínima, ela ainda existe. Neste caso, se você realmente possui sentimentos por mim, então procure algum modo de me provar.
Continuei à encara-lo de perto, permanecendo com o grampeador dentro de sua boca.
Guardei minha régua no lugar secreto, e peguei um transferidor.
Meu transferidor é daqueles triangulares que se encaixam na mão, caso você coloque, tipo um soco inglês.
Fui orientando o Guilherme até o segundo andar, ainda com o grampeador em sua boca, e ao chegar lá, o encostei na porta da minha sala, que estava fechada.
Ele ficou de costas pra ela.
— O Nell e a Márcia estão aí dentro nos esperando. — Falei. — Irei lentamente tirar o grampeador da sua boca, e quando eu fizer isso, você entrará na sala, okay ?
Quando Guilherme me ouviu falar isso, fez um rápido movimento com sua mão esquerda, tentando golpear a minha mão que segurava o grampeador. Mas, eu fui mais rápido.
Dei um soco na barriga dele com o transferidor antes, com a mão esquerda, e ele caiu dentro da sala.
Francamente, me sinto um vilão, mas acho que vou rir muito disso, algum dia.
— Aiiiiiiii, mas o que dia... — Gui foi falar, mas eu o interrompi com o simples gesto de apertar o grampeador no ar, fazendo um grampo cair.
— Ele sacou na hora o porquê de eu querer trazê-lo pra cá, então tive que fazer da maneira antiga. — Falei.
Horas depois. Às 13:11, eu, Márcia e Guilherme estávamos na casa do Nell, dentro de seu quarto.
Ele estava tomando um banho rápido no banheiro, com o auxílio de uma das empregadas.
Eu, Gui e Márcia estávamos sentados um do lado do outro, na cama do coelhinho. Eu estava no meio dos dois.
Gui ligou para a sua tia antes de vir, e falou que não iria voltar cedo.
Márcia ligou para a casa dela também, e eu, bem, nem preciso.
— Fiquei surpreso com a mãe do Nell não te reconhecer, Gui. — Falei.
— Se você ver uma foto minha de quando eu era criança, cara, você vai dizer que é mentira. — Disse ele.
— Imagino. — Disse Márcia.
— Mas e aí, qual a sensação de voltar aqui após tanto tempo ? — Perguntei.
— Sei lá, estou achando a casa bem diferente. — Respondeu Gui. — Antes não tinha essa harpa e nem esse tanto de livro.
— Hm... — Murmurei. — A propósito, você não ficou chateado por causa do que eu fiz hoje na escola, né ?
— Cara... Aquilo foi muita mancada, sério. — Disse ele. — Você tem sorte que minha paciência é bem grande, se não eu nunca te perdoaria.
— É verdade, como assim você assediou ele, hein !? — Perguntou a Márcia, inconformada.
— Eu não assediei ele do jeito que você está pensando. — Falei. — Apenas fingi querer me declarar.
— Foi muita mancada. — Disse Gui, também inconformado. — E ele ainda me disse umas coisas bem cruéis.
— Eu disse pra você deixar de ser convencido.
— Mas foi você quem fez eu ficar convencido ! — Exclamou ele.
Bem, é verdade, não importa o que eu diga, o errado nessa história fui eu. Não tenho nenhuma desculpa pra dar.
— Me perdoe então, eu realmente errei, mas foi pra recuperar a amizade de você e do Nell. — Falei, me reprimindo. — Eu não farei nada do tipo de novo, nunca mais.
— Que garantias eu tenho ? — Perguntou ele.
— Hm... Fecha os olhos. — Pedi, e ele rapidamente obedeceu.
Fui até o Gui, e dei um beijinho em sua testa.
— Desculpa, mas também não tenho nenhuma garantia, o máximo que posso te oferecer é esse gesto de desculpa. — Falei, me mostrando arrependido.
Sim, acho que eu estrapolei com ele. Infelizmente.
Essa é uma mania ruim minha. Com certeza sou mais arrogante que o Nell.
Márcia POV
Gabriel deu um beijinho na testa do Guilherme, e ele se mostrava bastante chateado.
Acho que ele se arrependeu do que fez hoje na escola ao Gui.
Mesmo assim, precisava de um beijinho na testa ? Ele nunca fez isso comigo.
Por que o Gabriel é tão carinhoso com os garotos, mas comigo não ? É porquê eu sou menina e ele é gay ? Só por causa disso ? Mas mesmo assim, eu ainda sou a melhor amiga dele... Não sou... ?
Gabriel POV
Tenho medo de isso me fazer perder amizades, no futuro. Tenho que parar.
Puxa, puxa... Quanto mais penso nisso, mais arrependido eu fico.
— Voltei. — Disse Nell, adentrando o quarto. Ele estava com o cabelo molhado e todo cheiroso. Também havia tirado o uniforme da escola e colocado roupas comuns.
— Ei Nellzinho, o que é aquilo ? — Perguntou Gui, apontando pra umas barras que haviam ali no quarto do Nell.
Aliás, talvez eu não tenha mencionado antes, mas o quarto do Nell é bem grande e possui uma porta de vidro, que dá numa pequena sacada. Da sacada da pra ver a piscina e o jardim da casa.
Ou seja, o quarto do Nell é bem iluminado, e quando a porta de vidro fica aberta, uma corrente de vento bem agradável circula pelo local.
— Aquelas são umas barras às quais eu usava pra treinar antes. Voltar a andar, sabe ? — Perguntou ele.
— E existem essas chances ? Sério ?
— Sim, mas sempre tentei e nunca consegui, daí desisti. — Disse ele.
— Que tal tentarmos agora ? — Sugeri.
— É inútil, só vai ser trabalhoso. — Disse Nell, de uma maneira pessimista.
— Para, dessa vez nós estamos aqui, seus amigos. — Falei. — Não é Márcia ?
— Uhum... — Murmurou ela.
— O que foi ? Por que você tá quieta ?
— Nada não...
— Vai, vamos fazer o coelhinho andar ! — Exclamei, enquanto levantava da cama de Nell e ia até ele.
— Sério Biel, acho que não vai funcionar... — Murmurou ele.
— Para, olha só pra você, está doidinho pra tentar que eu sei. — Falei.
Nell deu de ombros, e logo estendeu os braços para que eu o pegasse.
— "Às vezes anseio por me tornar recluso dentro de uma casca de noz, e nunca mais sair de lá." — Disse Nell.
— Você e seu Shakespeare, né ? — Perguntei. — Se bem que, ser recluso é algo bem desagradável.
— Hihihihi,eu sei, estou brincando. — Respondeu ele.
— Gui, vem cá, pega o Nell. — Pedi.
Guilherme veio até mim, e eu entreguei o Nell pra ele.
Fui pro fim do "trajeto" das barras, e fiquei encarando Nell e Guilherme, que estavam do outro lado.
— E agora ? — Perguntou Gui.
— Agora você me coloca em pé ali no meio das barras. — Respondeu Nell.
Gui colocou o coelhinho em pé, mas permaneceu logo atrás dele por segurança.
Nell se apoiou nas barras com seus braços, fazendo força, mas suas pernas ficavam caídas tocando o chão, como se estivessem mortas.
As mãos do garoto tremiam, por causa da força que ele fazia pra se segurar.
Nell POV
Eu sabia, não vou conseguir, isso já era de se esperar. Minhas pernas se parecem com as pernas de um espantalho de palha. Ficam caídas e não demonstram nem um pouco de movimento.
— Tente se concentrar Nell, fique olhando pros seus pés e imagine que tem uma mosca em cima do seu dedo. — Sugeriu Biel.
Muita coisa mudou desde a primeira vez que eu tentei voltar à andar. Daquela vez, meus pais estavam comigo, porém faziam uma cara triste e não demonstravam a menor esperança.
Quando eles olhavam pras minhas pernas, julgavam impossível que eu conseguisse realizar quaisquer movimentos.
— Cara, calma, toma cuidado pra não cair. — Disse Gui.
Fiz o que eles sugeriram, e fiquei olhando pros meus pés, me concentrando neles.
— Uma mosca, imagine a mosca. — Falou Gabriel.
— Pera, vem cá Gabi. — Disse Gui.
Gabriel se mostrou um pouco zangado por causa do "Gabi", mas logo veio até mim e ficou no lugar do Gui.
O Gui pegou alguma coisa na estante, e logo voltou até nós.
— Pronto. — Disse ele, ao colocar uma bolinha de gude entre os meus dois dedos do pé. — Você consegue sentir essa bolinha ?
— N-não sei... Um pouco... — Respondi. — É estranho.
A diferença de hoje pra antigamente, é que hoje tenho pessoas que colocam fé em mim, e que tentam me ajudar o máximo possível.
Esses três, podem ser chamados de amigos verdadeiros.
— Vai lá do outro lado Gui, deixa que eu fico aqui. — Falou Biel.
— Tá. — Guilherme foi do outro lado do caminho.
— Vai Nell, força. — Falou Gabriel, sussurrando no meu ouvido.
Consegui de repente, mover o meu dedão do pé direito, e a bolinha de gude caiu no chão. No momento em que ela caiu fazendo aquele barulho, eu me desequilibrei com os braços, e pra tentar recuperar o equilíbrio, sem querer movi o meu pé esquerdo pra frente, dando um passo.
Senti que meu corpo estava caindo, e a única coisa que consegui ver foi o Gui vindo correndo em minha direção.
Gabriel me segurou pelos dois braços antes que eu me esborrachasse no chão, e me levantou.
— Você conseguiu Nell ! Você deu um passo ! — Exclamou ele.
— É cara, você conseguiu, aeeeeeeeeeeeeeeee ! — Exclamou Guilherme.
— E-eu..... C-consegui..... — Falei, não acreditando.
Foi tudo tão rápido, eu sem querer movi o meu pé esquerdo porquê vi que eu ia cair. Quer dizer que a situação de perigo me ajudou... ? Não sei, não sei ! Mas não importa ! Eu consegui dar um passo !
— Eu consegui... E-eu vou voltar à andar... — Falei.
— Sim, você vai. — Afirmou o Biel. — Pode chorar agora, coelhinho.
— E-eu não vou chorar, d-droga... — Falei.
Gabriel me virou pro lado dele e me deu um abraçou. Eu apoiei minha cabeça em seu ombro, como de costume, e retribuí o abraço.
Guilherme foi atrás da bolinha de gude, que foi parar no outro lado do cômodo.
Márcia POV
Riquelme... Eu não sou importante, pra você... ?
Continua no capítulo 21.
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