Eu estrelo você

19 O encontro dos olhares


Vinícius POV

— Aconteceu alguma coisa ? Vocês dois estão estranhos. — Falei.

— Hã ? Não, não aconteceu nada. — Falou Verônica, enquanto empurrava os óculos pra cima com o dedo.

— É verdade, eu estou falando praticamente sozinha aqui. — Disse Isabel.

Pedro deu uma garfada em sua refeição, e pareceu estar nos ignorando completamente.

— E você também Guilherme, você tá quieto demais. — Afirmei. — Você não é tímido assim, nem pra falar com estranhos.

— É que... Bem... — Murmurou ele, olhando indiscretamente pra Pedro. O garoto fofinho percebeu o olhar "diferente" de Guilherme, e tentou disfarçar algo.

Mas o que diabos... ?

— De qualquer forma, eu irei caçar o Nell de novo. — Afirmou Verônica, enquanto se levantava e deixava o prato interminado pra trás.

— Eu também. — Afirmou Pedro, seguindo a garota jornalista.

— Nell é aquele garoto do sharingan ? — Perguntei.

Guilherme pareceu esquisito após ouvir o nome de Nell, mas tentou disfarçar.

Caramba, o que houve nessa semana que eu faltei ? Aliás ! O que houve de ontem pra hoje ? Estão todos muito esquisitos.

— Sim. — Respondeu Isabel, que também se mostrava um pouco pensativa.

— Ué... — Murmurei, enquanto enfiava uma garfada de macarrão na boca.

— Vinícius, tenho que te perguntar uma coisa, cara. — Disse Guilherme, enquanto parava de comer.

— O que ?? — Perguntei.

— As minas da minha sala estavam comentando que viram um vídeo seu, onde você chupava um vibrador. — Respondeu ele. — É verdade isso ?

Engasguei com o macarrão imediatamente.

— Cof, cof, cof, cofff !

Isabel arregalou os olhos, mas mesmo assim me ajudou dando um tapa bem forte nas costas. Aliás, isso nem pôde ser chamado de ajuda, pois ela destroncou meus ossos ! E outra :

COMO ASSIM VIRAM UM VÍDEO DE EU CHUPANDO UM VIBRADOR ? SÉRIO !? NÃO PODE SER VERDADE ! AQUELE VÍDEO É...

— Vinícius, será que é o mesmo vídeo ? — Perguntou Isabel.

— Então é verdade mesmo ? Esse vídeo existe ? Caraca véi. — Disse Guilherme. — Eu estava calado porquê não queria comentar sobre isso na frente daquela jornalista, mas ao mesmo tempo não conseguia deixar de pensar se isso era mesmo verdade ou não.

— Não sei Isabel, não sei, mas não devia ser possível, eu sou o único que tem aquele vídeo, ele está no meu tablet. — Falei.

— Você não deletou aquele troço ainda ? Que burro ! — Exclamou Isabel. — Por que você guarda aquilo ??

— Aaaaaahhh, eu não sei ! — Exclamei. — Mas é impossível alguém ter.

— Pior que é difícil ser uma coincidência, considerando o que as garotas estavam falando no banheiro... — Disse ela.

— Mas então, como ? Na minha casa só tem eu, a Maria, meu avô, minha mãe e a minha prima, Thalia. — Falei. — A Thalia não estuda aqui, e a minha família nunca faria isso.

— Teve alguma pessoa, que mexeu no seu tablet além de você ?

— N-não t... — Eu fui falar, mas calei-me, pois me lembrei de uma coisa.

Flashback ON ~~ Dias atrás, após eu enfrentar minha mãe com o Gabriel

— Hoje eu passei o dia com sua mãe né, e eu tive acesso ao seu tablet... Lá eu encontrei um vídeo que estava bem escondido, de você chupando um vibrador. — Disse ele.

— Q-Q-QUÊ ??? VOCÊ VIU AQUILO ??? — Perguntei.

— Você colocava e tirava ele da boca, e fazia um barulho tipo : "Nhmmmmmmm". — Disse Gabriel, me imitando.

— COMO ??? A GALERIA TAVA COM SENHA !

— Que feio Vini, afinal, quem é Dan ? Você fez o vídeo pra ele, não foi ? Porque você dizia esse nome várias vezes : "A-aiin Dan, nhmmmmmm" — Contou ele.

— E-E-E-ESSE V-VIDEO F-FOI PRA UM MENINO Q EU GOSTAVA À UM TEMPÃO ! É UM V-VÍDEO ANTIGO QUE EU E-ESQUECI DE APAGAR ! — Exclamei.

— Que feio.. — Disse ele, enquanto fazia um tom de decepção.

Flashback OFF

— O Gabriel, ele viu o vídeo lá em casa, e também teve acesso ao tablet. — Falei à ela.

— Será que ele pegou o vídeo ? — Perguntou ela.

— Só se ele enviou pra ele mesmo, usando o meu tablet. — Respondi. — Mas sério, não acho que ele tenha feito algo assim. Ele não é esse tipo de pessoa, e eu acredito que ele não faria isso nem que me odiasse ao máximo.

— Verdade, ele não é esse tipo de pessoa. — Afirmou Guilherme, como se já conhecesse o Gabriel. — Se ele te odiasse ao máximo, encheria seu corpo de grampos.

— Cara, eu não sei, pelo que você me disse, vocês tiveram uma briga feia no parque. — Disse Isabel. — E se ele pegou raiva de você ?

— Não, ele me disse algo como : "Agora eu não consigo sentir mais nada por você, nem amor, nem raiva e nem nada, eu não sinto nada." — Falei.

— Uau, isso foi muito frio. — Disse ela.

— Eu sei.

— Haha, bem a cara dele falar esse tipo de coisa. — Guilherme soltou um deboche, como se aquilo que estava acontecendo não fosse nada.

— Quer que eu vá falar com a Márcia sobre isso ? — Perguntou Isabel. — Talvez ela saiba de algo.

— Não, deixa, não vamos nos precipitar, ainda nem sabemos se é o mesmo vídeo. — Falei, como se estivesse desviando os olhos da verdade.

— Certo. — Concordou ela.

Márcia POV

Eu e Nell estávamos sossegados na biblioteca, conversando com o Kaio, até que dois incômodos chegaram.

— NELL ! Por favor ! Aceite dar a entrevista hoje ! — Exclamou Verônica.

— Não. — Negou ele.

— É pra melhorarmos as condições da nossa escola !

— Desiste Verônica, vai ficar nisso até quando ? Eu já disse que não quero, é muito trabalhoso. — Falou Nell, enquanto fechava o livro que segurava, com força.

Tsk... Vai ser todo o dia essa ladainha ?

— Ei Márcia... — Murmurou Kaio.

— Oi ?

— N-não, não é nada, deixa quieto. — Disse o garoto com o cabelo arrepiado, enquanto virava o rosto pro lado.

Gabriel POV

Acordei e vi as horas no relógio da parede. Eram mais ou menos 09:47 da manhã de terça-feira.

Decidi faltar hoje na escola, pois minha cabeça ainda estava girando por causa de ontem.

Meu pai quando chegou, pensou que eu tivesse ficado louco por quebrar o espelho e machucar as mãos. Se bem que foi tipo isso, eu fiquei louco, insano.

Eu acabei tendo que lhe a verdade. Disse que tinha me lembrado do pouco que faltava, e que lembrei também que havia esquecido algo muito importante.

Ele entendeu, e eu pude deixar a história vaga mesmo. Porém ele me deu um sermão enorme e roubou o monitor do meu pc, pra me deixar de castigo.

— Aaah... — Bocejei de sono, enquanto me espreguiçava.

Levantei da cama e coloquei minhas pantufas de pato, que faziam um "quáck" sempre que eu pisava no chão.

Fui pro banheiro e me olhei no espelho de lá (pois o da lavanderia estava em pedaços.)

Minhas mãos estavam enfaixadas por causa dos cortes de ontem. Sinceramente, aquilo doeu pra cascalho depois que eu me acalmei. Sim, foi tanta dor que é até merecido o uso do palavrão censurado. Tsk, eu nunca uso um palavrão censurado, então é a prova de que o motivo foi demasiadamente grande !

Vini... Como pude me esquecer de tudo que aconteceu entre nós ? Como pude me esquecer da nossa história cheia de mágoas, porém, importante ?

Agora que me lembrei, vejo que era melhor ter permanecido sem me lembrar.

Também me lembrei que antes, eu ansiava por esquecer o Vini de uma vez por todas.

Mexi nos meus cabelos bagunçados e pretos, e me encarei no espelho, olhando dentro de meus olhos.

Acho que ninguém nunca percebeu, mas ao me olhar bem de perto, percebe-se que meus olhos são negros. Completamente negros, uma escuridão absoluta.

Eu possuo o segundo tipo de cor mais raro no mundo, se tratando de olhos. Perco apenas para o coelhinho com aqueles olhos vermelhos.

Nenhum dos meus amigos notou que meus olhos são negros. O Vini mesmo, sempre dizia que eram castanhos quando me descrevia.

Nem mesmo a Márcia, nem mesmo o Vini, nem mesmo o Nell e nem mesmo o Guilherme. Creio que ninguém nunca notou isso em mim.

Também, a cor dos meus olhos não são importantes. É algo irrelevante.

Empurrei minha franja negra e ondulada pra cima da cabeça, e a prendi com um grampo.

— Que gay fica, hahahahaha. — Ri de mim mesmo. — Mas vou deixar assim, já que não tem ninguém em casa.

Escovei os dentes, lavei o rosto e depois voltei pra minha caminha fofa.

Será que estão sentindo minha falta hoje na escola ? Será que o Vini foi ?

Vini... Eu disse umas coisas muito cruéis pra ele naquele parque. Será que um dia ele me perdoaria ? Nahhh, ele não tem que me perdoar, eu estava com a absoluta razão. A culpa foi toda dele, aquele idiota. Pelo menos eu creio que finalmente consegui fixar isso na cabeça dele.

Será que ele está se sentindo culpado ? Eu queria saber, puxa...

Fiquei o dia, a tarde e a noite inteira refletindo sobre essa história, pois eu estava sem meu monitor. Quando meu pai chegou, nós jantamos juntos e depois fomos dormir.

No dia seguinte, quarta-feira às 06:10 eu acordei, com o meu pai fazendo barulho na cozinha.

Fiz as necessidades e fui pra escola. Cheguei lá muito adiantado, às 06:40. Cheguei primeiro até do que o Nell. O portão estava fechado.

Me sentei em um dos banquinhos que ali haviam, e fiquei esperando o tempo passar.

Será que perdi muita coisa ontem ? Acho que não.

Vi um carro bem bonito parando do outro lado da rua, e a mulher que dirigia saiu do mesmo. Era a mãe de Nell.

Ela retirou a cadeira de rodas do garoto, do porta malas, e depois abriu a porta do banco de passageiros.

Rapidamente fui até eles, na esperança de ser útil.

— Oi dona Stella, oi Nell. — Cumprimentei-os.

— Oi Gabriel. — Disse ela.

— Oi Biel.

— Sei que você odeia, mas posso ajudar em algo ? — Perguntei.

— Claro, segura a cadeira que eu pego ele. — Respondeu Stella (mãe de Nell), no lugar do garoto.

— Não, mãe. Já que o Biel quer tanto ajudar, deixe que ele me pegue. — Disse ele, falando de dentro do carro.

Sério isso ? Ele está tentando me dar trabalho ? Ou será que realmente quer que eu o pegue ?

— Não, é muito perigoso, eu n... — Stella foi falar, mas Nell a interrompeu.

— Mãe, a gente já falou sobre isso antes. — Disse ele.

A mulher albina suspirou, e logo falou :

— Tudo bem. — Disse, enquanto adentrava o carro no banco do motorista.

Fiquei olhando pra dentro do carro e vi Nell com os braços estendidos em minha direção, e com um sorrisinho no rosto.

— O que é isso ? — Perguntei.

— Vamos, me pegue. — Pediu ele, ainda com o sorriso no rosto.

— Estou sentindo uma aura maligna se esvaindo de você. O que estás tramando, coelho !? — Perguntei.

— Aura maligna ? Deve ser sua imaginação. — Disse ele.

Fiz uma cara de quem achava suspeito, mas logo fui e o abracei lá dentro, por puro deboche.

— Errr... O que você está fazendo ? — Perguntou ele, com o rosto sob meu ombro.

— Você estava com os braços estendidos ué, pensei que quisesse um abraço. — Respondi, ainda abraçando-o.

Nell fechou seus braços, e me abraçou também.

Tá, o abraço era só uma trollagem minha, então eu nunca esperei que ele realmente fosse retribuir.

— Pronto, já teve seu abraço, agora me leve. — Pediu ele. Eu não pude ver seu rosto, pois ele estava com ele sob meu ombro.

— Vão logo, o povo já ta começando à vir. — Afirmou Stella. — Vai ser ruim se chegar muita gente e o Nell não conseguir entrar.

— Verdade. — Falei, enquanto pegava o Nell nos braços e o levava até a cadeira de rodas, no lado de fora do carro.

Surpreendentemente, Nell se agarrou bastante ao meu corpo, e momentaneamente fechou os olhos enquanto era carregado por mim, permanecendo com seu sorrisinho no rosto.

O garoto colocou o cinto da cadeira de rodas, e falou :

— Você não devia ter faltado ontem.

— Por que ? Aconteceu algo ?

— Não, não aconteceu nada, mas eu queria que você tivesse vindo.

— Ah, desculpe.

— E o que são essas faixas nas mãos ?

— N-nada não. — Falei. — Vamos logo ?

— Vamos.

Eu e Nell nos despedimos de Stella, e adentramos a escola.

Ficamos perambulando pelo pátio, pois ainda era 06:50.

— A Márci ficou muito preocupada por você ter faltado ontem. — Contou ele. — Foi por causa da dor de cabeça, Biel ?

— Também. — Falei. — Ela está doendo hoje também.

— Você precisa ir no médico ! — Exclamou ele.

— Logo passa, bobo.

— Estamos preocupados, e se for um tumor por causa da pancada ?

— Credo ! Aí seria o meu fim ! — Exclamei.

— Por isso mesmo ! Você precisa ir no médico !

— Tudo bem, eu vou amanhã.

— Vai hoje !

— Não, eles só atendem de manhã.

— Então vai amanhã mesmo, quer que eu vá junto ? — Perguntou.

— Não precisa se dar o trabalho. — Respondi.

Eu e Nell encostamos nas grades que separam a quadra do pátio, e ficamos ali parados. Aliás, apenas eu me encostei, porquê né.

Minha dor de cabeça já passou na verdade, desde que eu me lembrei do Vini. Mas eu preciso mentir, se não eles vão querer saber o motivo de eu ter faltado ontem. E tem a Márcia, ela NÃO pode saber que eu me lembrei do Vini, de jeito nenhum !

— Mas... — Nell foi falar, mas eu tapei a boca dele, pois precisava atrasar suas perguntas, de alguma maneira.

— Calado, coelhinho.

Nell num movimento abrupto, mordeu minha mão bem forte.

— AIIIIIII !! — Gritei de dor. As feridas de ontem ainda não haviam sarado, e a mordida de Nell doeu muito, mesmo por cima da faixa.

— Tá, isso foi estranho, eu mordi fraco. — Disse ele. — Está na hora de você me revelar, o que houve com suas mãos ?

Droga, me entreguei. Vou ter que falar a verdade pra ele.

— Eu as cortei ontem, pois eu soquei o espelho. — Falei.

— Sério ?

— Sim.

— E por que você socou o espelho ?

Márcia veio até nós com um rosto sorridente, e nos cumprimentou com um beijo no rosto.

— Oii Riquelme, oi Nell. — Disse ela.

— Oi. — Falamos.

— Por que você faltou ontem ? — Perguntou Márcia. — E por que suas mãos estão enfaixadas ?

Que problemático... O pior de tudo é que não consigo mentir pra Márcia.

Se eu falar "por nada", ela vai achar vago e vai investigar. Se eu falar que faltei porquê estava com dor de cabeça, ela vai me arrastar amanhã pro médico. Se eu falar a verdade, então..... Será um desastre. Segunda-feira, além de me lembrar do Vini, me lembrei também do motivo de eu ter ido na casa dele, no dia em que bati a cabeça. Basicamente, a culpa foi da Márcia, e algo muito tenso entre nós aconteceu naquele dia.

Eu não posso deixar ela saber que eu me lembrei até mesmo daquilo.

— Ele faltou porquê o pai dele pegou folga, e o levou pra comprar roupas novas. — Contou Nell. — Essas faixas na mão dele foram algo que ele comprou lá, por ser um otaku estranho e ter interesse nesse tipo de acessório.

— Ah, entendi. — Disse Márcia. — Gostei das faixas.

— B-brigado.— Falei.

O Nell me salvou, ufa, mas sei que isso não vai me sair barato.

Encarei o garotinho e vi que seus olhos vermelhos estavam prestes à me engolir, junto de seu sorrisinho de boca fechada. Aposto que ele vai querer algo bem tenso em troca, por ter me salvado da Márcia.

— Biel, você sabia que seus olhos são negros ? — Perguntou o coelhinho.

O Nell descobriu da cor dos meus olhos ? Uau.

— Sim, claro que eu sabia. — Respondi.

— Eu reparei isso no dia que você foi lá em casa. — Contou o garoto. — Eu o invejo, queria ter olhos pretos.

Nossa, ele reparou naquele dia ?? Estou realmente surpreso.

— E eu queria ter seus olhos vermelhos. — Falei.

— Quer trocar ? Assim você vai ver como é ter a visão ruim, também.

— É mesmo, acho que prefiro os meus olhos negros.

— Boa escolha. — Disse.

— Nossa, é verdade. — Falou Márcia. — Eu jurava que seus olhos eram castanhos, Riquelme.

— Todo mundo pensa, a cor negra não é muito chamativa, sabe ?

— Sei. — Disse ela.

Vi o Vini adentrando o pátio, com sua mochila preta nas costas.

O cabelo loiro dele se destacava bastante no meio da multidão. O destaque dele só perdia pro Nell e pra menina de cabelo roxo, do terceiro ano.

Vini...... Será que ele vai vir falar comigo...... ?

O garoto encostou nas grades que separavam a quadra do pátio, e ficou esperando por alguém, provavelmente por Isabel.

Além de mim, Márcia e Nell também estavam encostados, então Vini estava a mais ou menos, 4 metros à nossa direita.

Vini olhou para o nosso lado rapidamente, e pareceu um pouco curioso em relação às minhas faixas.

Tsk, tinha que ser... Ele só olhou pra mim por causa dessas faixas malditas. Se fosse apenas eu, sem nenhum detalhe novo, ele não olharia nem a pau. Aposto que pensaria : "ah, é só o Gabriel."

— Riquelme ? Alô ? — Perguntou Márcia, falando comigo.

— Quê ?

— Vamos subir ?

Duas garotas se encostaram na grade também, entre nós e Vini. Tentei procurar por um ângulo onde conseguia vê-lo.

— Quê ? — Perguntei, automaticamente.

— Vamos subir ? — Repetiu Márcia.

— Não, agora não. — Falei.

— Por quê ?

— Ahhhh, porquê nããão. — Falei num tom dengoso, como se ela estivesse me atrapalhando.

Não importa qual ângulo tentasse, eu não conseguia ver o Vini, tsk, malditas garotas.

Tentei um ângulo diferente, e para isso precisei dar um passo à frente, me desgrudando da grade.

Quando fui olhar, me deparei com o Vini igualmente se esforçando, pra olhar pro meu lado.

Nossos olhares se cruzaram, e eu logo voltei pra trás.

— Você está bem... ? — Perguntou Nell.

— Sim, não é nada, vamos logo pro elevador. — Falei.

Márcia fez um olhar de desconfiada, mas logo veio com a gente.

Tsk, cometi um deslize muito grande. Quem imaginaria que o Vini estaria olhando ? E o pior é que a Márcia vai ficar desconfiada.

Tenho que agir normalmente.

Aliás, por que eu estava olhando pro Vini ? Tsk, tsk, eu não devia ter olhado, aff.

Vinícius POV

O Gabriel estava tentando me olhar também ? Por quê ? Isso é muito suspeito.

Ele está agindo diferente de anti ontem, e por algum motivo, faltou ontem. Por quê ? Muito estranho.

Se o vídeo que algumas pessoas viram, for realmente o meu, então minha única escolha será culpar o Gabriel, pois é realmente estranho. Ele faltou justamente no dia em que o vídeo foi mandado, e agora, está agindo todo esquisito.

Não foi ele quem disse... "É o fim"... ?

— Cheguei vadia, tá com saudades ? — Perguntou Isabel.

— Ah, claro, to morrendo de saudades. — Respondi, de uma maneira irônica.

Gabriel POV

Nós três chegamos na sala de aula, mas já haviam muitas pessoas lá dentro, o que era raro.

Se o Vini estava tentando olhar de novo pra mim, então ele não queria ver as faixas, mas sim à mim... ? Será que é possível ? Eu não me lembro dele me olhando, antes.

Foi um milagre ! Um acontecimento divino ! Só pode !

— Riquelme. — Disse Márcia, cochichando no meu ouvido por de trás de mim.

Nell estava sentado em seu lugar (na fileira ao lado), distraído enquanto lia a apostila.

— Sim ?

— Hoje vamos levar o Nell até o Guilherme ? — Perguntou ela.

— É mesmo, bem lembrado, já está na hora de fazer acontecer o reencontro dos dois. — Respondi.

— Será que vai dar tudo certo ?

— Não sei, tomara que sim. — Falei. — Aposto que será ótimo para os dois se puderem voltar a serem amigos.

— Como faremos ? Você vai simplesmente levar o Nell no refeitório ? — Perguntou ela.

— Essa é a maneira mais fácil, porém eu gostaria de evitar uma discussão dessas num lugar tão cheio. — Respondi.

— Verdade, então aonde poderíamos ficar, que é vazio e ninguém atrapalharia ? — Perguntou ela.

— Na biblioteca... ? — Sugeri.

— Na biblioteca tem o Kaio.

— Ah, é verdade. — Concordei com ela. — Então, que tal aqui na sala ?

— Acho que não, pois o inspetor vai vir buscar o Nell, e ele terá que descer. — Falou Márcia.

— É só dizermos que vamos ficar aqui em cima. — Falei.

— Será que ele deixa ?

— Vamos tentar ao menos. Se nós não conseguirmos, aí tentamos um plano B.

— E quanto ao Nell ? Será que ele vai aceitar ficar aqui em cima no intervalo ?

— Vai, com certeza, pois aí a Verônica não virá atrás dele. — Falei.

— Hahahahahahha. — Márcia deu risada. — Mas tem um problema maior: como você vai convencer o Guilherme à vir aqui ?

— Hm...... Eu sei a maneira perfeita. — Falei.

Márcia POV

Algumas horas depois, no intervalo :

Eu e Nell estávamos na nossa sala de aula, aguardando o Riquelme voltar. Todos os alunos já haviam descido,e estávamos sozinhos. O inspetor havia permitido que ficássemos ali, e nosso plano corria muito bem, até que...

A porta se abriu com tudo, e uma pessoa caiu voando dentro da sala. Era Guilherme.

Pude ver o Riquelme adentrando a sala tranquilamente em seguida, com um grampeador e um transferidor em mãos.

— Aiiiiii, mas o que diab... — Guilherme foi falar, mas Riquelme apertou o grampeador no ar, fazendo um grampo cair. Esta ação colocou medo no Guilherme, e ele calou-se.

— Ele sacou na hora o porquê de eu querer trazê-lo pra cá, então eu tive que fazer da maneira antiga. — Disse Riquelme.

— Maneira antiga !? Como você trouxe ele a força se tem um monte de gente no caminho ? Com certeza os inspetores te parariam ! — Exclamei.

— Não não, primeiro eu assediei ele mentalmente, e o levei até o primeiro andar. — Contou Riquelme.

— ISSO F... — Guilherme foi falar, mas o Riquelme apertou o grampeador de novo no ar, calando-o. Mais um grampo caiu no chão.

— Mas aí ele caiu muitíssimo bem no assédio e quase me estuprou, então tive que reagir brutalmente. — Contou ele. — Ali já podia, pois os andares são vazios, incluindo o primeiro.

— E COMO ASSIM ASSEDIOU !? VOCÊ NÃO É ESSE TIPO DE PERVERTIDO !! — Exclamei.

— Do que está falando, Márcia ? Não existe um garoto que não seja pervertido em plena puberdade. — Disse ele, fechando a porta.

Nell estava absurdamente calado, apenas observando a gente.

— Desculpe Gui, você sabe que fiz isso por um bom motivo, né ? — Perguntou Riquelme, enquanto tirava o transferidor da mão, e a estendia pra Guilherme.

O garoto pegou na mão do Riquelme e se levantou.

— Cara, isso foi uma mancada muito grande.

— Considerando que você quase roubou o meu primeiro beijo, não foi. — Disse ele.

— Desculpa, mas... O que está havendo ? — Perguntou Nell.

Riquelme apontou seu grampeador pro Guilherme e falou :

— Este garoto é o Guilherme da sua infância.

Continua no capítulo 20.