Eu estrelo você
15 Dores inquestionáveis
Notas iniciais
Gabriel POV
— Vocês não devem conhecer, é um antigo amigo nosso. — Falei.
— É um loirinho desse tamanho ? — Perguntou Verônica demonstrando a altura dele com a mão.
— Sim. — Falei.
— Então deve ser o mesmo. — Disse a líder do clube de jornalismo.
— Hm, certo, estamos indo. — Falei.
— Esperem, me conte, como vocês conheceram o Vinícius ? — Perguntou ela.
Pergunta um tanto quanto fútil, tentarei responder de uma forma natural pra não gerar suspeitas.
— Nós somos amigos de infância, porém hoje raramente nos falamos. — Respondi.
— Ei, Riquelme... — Cochichou Márcia.
— Tá tudo bem Márcia. — Cochichei de volta.
— Hm... — Murmurou Verônica.
— E vocês ? Conheceram ele como ? — Perguntei.
— Conhecemos ele ocasionalmente semana passada, no refeitório. — Respondeu ela. — Porém nos falamos apenas uma vez. Não o conhecemos muito.
— Ah, entendi. — Falei.
— Ele é gay ? — Perguntou a jornalista.
— OXIIIIIIII VERÔNICA ! — Exclamou o garoto fofinho lá atrás, com o rosto corado.
— Sim, ele é. — Respondi friamente.
— Como você sabe ? — Perguntou ela.
Tsk... Essa Verônica, ela não vai parar com as perguntas ?
— É bem óbvio que o Vinícius é gay, basta saber que ele dança Gay-pop rebolando mais que uma centopeia. — Falou Márcia friamente enquanto me puxava pra fora dali. — Agora precisamos ir.
Eu e Márcia deixamos Verônica pra trás e fomos procurar pelo Nell na biblioteca.
— Por que você perguntou pra ele sobre o Vinícius !? — Perguntou Pedro, à Verônica.
— Eu queria te ajudar bobo. — Respondeu ela, enquanto fechava a porta.
— Tenho certeza de que não foi só por isso... — Disse Pedro. — Eu te conheço muito bem.
— Esse menino, Gabriel, com certeza tem algum tipo de laço com o Vinícius. — Disse a garota, enquanto coçava o queixo.
— E daí ? O que isso tem haver com a gente se eles eram amigos de infância ? — Perguntou Pedro.
— É verdade, eles eram amigos de infância porém eu nunca os vi andando juntos na escola. — Respondeu Verônica.
— Oxi, mas tá certo, o menino aí disse que eles raramente se falam hoje. — Disse Pedro. — Devem ter brigado, ou sei lá.
— Sim, devem ter brigado, mas como será que foi esse briga ? Se considerarmos que o Vinícius é gay, talvez este Gabriel fosse namorado dele ou coisa do tipo. — Disse Verônica. — Eles terminaram ? Por que ? E o que essa garota Márcia tem haver com tudo isso ?
— ... — Pedro ficou quieto por um instante, mas logo decidiu falar. — Não é da nossa conta.
— Por enquanto ainda não é, mas e quando você começar à namorar com seu crush ? Como vai ser ? Agora sabemos que ele é mesmo gay, e você deve ter chances com ele. — Disse ela.
— Deixa que eu cuido dos meus crushs ! — Exclamou ele.
Verônica foi até o Pedro e apertou as bochechas dele, por trás.
— Não seja tão bobinho, eu sou sua amiga e estou aqui para te ajudar. — Disse ela.
— Me solta oxi ! — Exclamou ele.
Verônica o soltou e se sentou numa cadeira, retirando seus óculos.
— Mas não nego, agora estou interessada nesta história. — Falou Verônica. — Talvez acabemos ganhando mais um furo.
— Você tá brincando, né ? — Perguntou ele.
Verônica deu um sorrisinho e não respondeu.
— Verônica, pode ler isso aqui ? — Perguntou uma garota, que foi até Verônica e a entregou uma pasta.
— O que é isso Larissa ? — Perguntou ela, enquanto colocava os óculos.
— É aquela pesquisa sobre o ebola que você pediu para eu fazer. — Respondeu Larissa.
— Ah, entendo, muito bem. — Disse ela.
Eu e Márcia adentramos a biblioteca e procuramos por Nell.
Ele estava sentadinho em sua cadeira de rodas, na frente de uma prateleira lendo um livro.
— Desculpa a demora Nell, eu tive que ir ver uma coisa. — Falei.
— Tá. — Disse ele, meio que me ignorando e mantendo sua atenção no livro.
Peguei o livro da mão dele, sem sua permissão.
— O que foi ? Devolve. — Disse ele.
— Devolvo, se você pedir por favor. — Falei.
— Você rouba o livro da minha mão e depois manda eu pedir com educação ? — Perguntou ele. — Que coisa banal.
Bati o livro de fraco na cabeça dele e devolvi.
— Mimimimimi. — Falei. — Por sua culpa eu e a Márcia tivemos que ir pedir desculpas pra Verônica.
— Vocês fizeram isso ? Não era necessário. — Disse ele.
— Claro que era coelhinho, foi como eu te disse mais cedo, não sabemos do que essa gente é capaz. — Falei.
— Não sou um coelhinho, grrr. — Falou Nell.
— É sim, não é Márcia ? — Perguntei.
Ué, cadê a Márcia ? Ela sumiu.
Olhei pra fora das prateleiras e vi a Márcia conversando com o Kaio, eles estavam sentados em uma das mesinhas que haviam na biblioteca da escola.
— Quem é aquele ? — Perguntou Nell.
— O garoto que é apaixonado pela Márcia. — Respondi.
— Ele é seu amigo ?
— Não, ele pensa que eu considero ele como um amigo, mas longe disso. — Falei.
— Por quê ? Você não gosta dele ?
— Não é que eu não goste, mas eu tenho certeza de que se a Márcia der um pé na bunda dele, ele vai parar de falar comigo. — Falei. — Ele só começou a falar comigo porquê queria se aproximar da Márcia, ele nem gosta de mim.
— Entendo. — Disse Nell, com um olhar chateado. — Eu realmente entendo.
— Hm... — Murmurei.
— E ela sabe que ele gosta dela ? — Perguntou Nell.
— Não, ainda não. — Respondi. — Mantenha segredo.
— Tá. — Disse ele.
Kaio saiu da biblioteca e Márcia veio até nós.
— Desculpa Riquelme, é que o Kaio me parou ali na entrada. — Disse ela.
— O que ele queria ? — Perguntei.
— Saber porque a gente deixou ele rodando pano aquela hora. — Falou ela. — Ele fez o maior drama, aff.
Então ele ainda não se declarou, que lerdo.
— E aí Nell, tudo bem ? — Perguntou ela.
— Sim. — Respondeu ele, enquanto continuava à ler o livro.
— Márcia, sabe aquele garoto que fica junto com a Verônica, o Pedro ? — Perguntei.
— Sei, o que tem ele ?
— Acha que ele é gay ?
— Com certeza, ele tem jeitinho meio afeminado e a voz dele é de gay mesmo. — Disse ela.
— Sim, eu também notei isso. — Falei. — Parece que o Vinícius terá um novo namoradinho.
— Isso te incomoda ? — Perguntou Márcia.
— Nem um pouco. — Respondi.
— Por que isso te incomodaria, Gabriel ? — Perguntou Nell. Ele estava tão concentrado no livro que até esqueci que ele estava ali. — Quem é Vinícius ?
Droga, o que eu respondo ? O Nell é muito esperto, tenho certeza de que não convencerei ele com uma resposta comum ou com uma mentira.
Será que devo contar logo pra ele que sou gay ?
— O Gabriel não gosta do Vinícius, ele está com medo dele fazer algo que prejudique o Pedro e a Verônica. — Contou Márcia.
— Ah, certo então. — Disse ele, se mostrando convencido com a resposta.
A Márcia conseguiu ? Enganar o Nell com uma mentira tão ridícula dessas ? Que inesperado.
O Sinal que indicava o término do intervalo tocou, e os alunos começaram a subir.
— E agora ? Vamos esperar o inspetor vir buscar o Nell pra subirmos com ele ? — Perguntou Márcia.
— Aham. — Respondi.
Nell nem prestou atenção na gente, ele estava totalmente abduzido pelo livro.
O livro era "A tempestade", de Shakespeare.
— Coelho ? Alô ? — Chamei por ele. — Vamos subir ?
— Hã ? O sinal já bateu ?
— Hahahahahahaha. — Márcia deu risada. — Que lerdo, ele tá no mundo da lua.
— Estou surpreso, eu sabia que você gostava de Shakespeare e pensei que você já tivesse lido todas as obras dele. — Falei.
— Eu já conhecia essa, mas nunca tive vontade de começar à ler. — Disse Nell. — Agora que leio, consigo ver o quanto é incrível.
— E não é ? — Perguntei.
— Shakespeare ? Romeu e Julieta ? — Perguntou Márcia.
— Isso. — Respondi. Ela só conhece Romeu e Julieta ? Como esperado da Márcia, que não se atrai nem um pouco por literatura ou teatro.
Subimos pra sala de aula junto com o Nell pelo elevador, e ficamos discutindo sobre o trabalho de biologia que foi passado na segunda aula.
— O trabalho pode ser feito até em quarteto, por que você não faz com a gente, Nell ? — Perguntou Márcia.
— Não quero, eu vou fazer sozinho. — Respondeu ele. — Nos conhecemos hoje, não quero levar estranhos pra minha casa.
— Que rude ! — Exclamei. — É só fazermos na minha casa então. O meu pai fica fora o dia inteiro.
— AHHHHH NÃO ! — Exclamou Márcia. — A casa do Riquelme fica no fim do mundo, eu não vou lá nem que me paguem.
— Que preguiçosa você, vai engordar se continuar com esses pensamentos. — Falei.
— Para, eu quase morri quando fui aquela vez na sua casa. — Disse ela.
— Hm, verdade, não vou negar, você realmente quase morreu. — Falei. — Mas foi muito dramático da sua parte, eu vou e volto todos os dias de boa.
— Eu não quero ir na casa de um pervertido. — Falou Nell. — Ainda mais se os pais dele não estiverem lá !
— Que rude ! — Exclamei de novo.
— É é, a casa do pervertido está fora de cogitação, vamos na minha. — Disse Márcia.
— ... — Ignorei o "pervertido".
— Não quero também, nunca fui na casa de uma garota antes. — Disse Nell.
— Que bobeira coelhinho, basta agir naturalmente, nós somos todos amigo afinal. — Falei. — Não me diga que você se apaixonou pela Márcia ?
— Quê !!!!?? — Ela se espantou.
— Não, eu não me apaixonei por ela. — Disse ele. — Nunca tive esse tipo de sentimento por ninguém.
— Você ainda é BV ? — Perguntei.
— Sou. — Respondeu ele, friamente.
— Eu também. — Falei.
— Droga, sou a única que já beijou alguém aqui. — Disse Márcia. — Me sinto a verdadeira pervertida do grupo.
— Quanto drama. — Falei. — Nós é que deveríamos nos sentir constrangidos.
— O trabalho é pra segunda-feira que vem, ainda teremos cinco dias pra pensar à respeito. — Disse Márcia. — Talvez você mude de ideia se nos conhecer melhor até sexta, que tal ?
— Talvez, quem sabe. — Disse Nell.
Quando o dia de aula acabou, eu fui andando pra minha casa sozinho, afinal eu tomava um caminho diferente do de Márcia, e o Nell foi de carro com o pai dele pra não tomar sol.
Albinos não podem tomar muito sol, porquê acaba machucando eles. Suas peles são muito sensíveis.
— Espera, você anda muito rápido. — Disse uma voz, enquanto vinha por trás de mim e começava a caminhar do meu lado.
— Hã ? O que você quer ? — Perguntei friamente.
— Hoje eu estou vindo por aqui porquê preciso passar na casa da minha tia. — Respondeu ele.
— Tá, mas isso não responde a minha pergunta. — Falei. — Nós não somos amigos, então por que você está vindo falar comigo tão naturalmente, Guilherme ?
O garoto ficou quieto por um tempo, mas logo decidiu falar.
— Queria me desculpar com você por ter sido um ignorante. — Disse ele.
Parei de andar e fiquei olhando pra ele de trás, até que ele parou de andar também e se virou para mim.
— O que foi ? — Perguntou.
— Nada, só estou infinitamente surpreso. — Respondi. — Isso é algo que eu nunca esperava que fosse acontecer.
— Por quê cara ? Não entendo o motivo do espanto.
— Não pensei que você fosse do tipo que se desculparia comigo, depois de saber que eu durmo no quarto do seu namorado. — Falei. — Você parecia ser o típico ciumento e pervertido, que na verdade não sente ciúmes, apenas tem medo de tomar um par de chifres.
— Porra ! Como você pensava isso de mim se nem nunca nos falamos ? — Perguntou ele.
— Você demonstrou isso agindo daquele jeito ué, ao meu ver você é um brutamontes covarde. — Respondi. — É culpa sua.
— Tá tá, beleza, foi mal de novo. — Disse Guilherme.
— Ainda não me convenceu. — Falei. — Por que está se desculpando comigo ? Qual é o seu objetivo ?
— Só me arrependi e quis me desculpar cara, não quero nada de você não, relax. — Disse ele.
— Hm, tá bom. — Fingi acreditar.
— O Vini ficou bolado comigo porque deixei ele sozinho com a mãe dele. — Disse Guilherme.
— Uau ! Então você percebeu, que coisa, pensei que sua insignificância era tanta que você mal conseguiria descobrir algo simples assim. Acho que te subestimei. — Falei.
— Isso tudo aí é raiva é ? De boa então, já entendi. — Disse ele, enquanto começava à andar na direção oposta.
Droga, peguei pesado demais, a Márcia bem que disse que eu tinha um lado arrogante, e conhecer o Nell por esse lado foi uma má influência pra mim. Estou virando um ultra arrogante, essa não, maldito coelho.
— Espera, me desculpa, eu não quis te ofender. — Falei.
O garoto me ouviu e voltou até mim. Continuamos andando juntos, seguindo nossos caminhos.
— Eu também fui muito grosso com você, respondi violência com violência e te machuquei. Desculpa. — Falei.
— Beleza mano. Tá suave. — Disse ele.
— Mas e aí, agora que você descobriu o motivo do Vinícius ter ficado chateado com você, o que você fará ? — Perguntei.
— Não sei cara, eu demorei um bocado pra perceber, acho que ele não vai me perdoar não. — Disse ele.
— Eu acho que você deveria tentar. — Falei. — Se você tem forças pra vir aqui e me pedir desculpa, com certeza vai conseguir conversar com ele.
— Mas e você ? Vocês não tinham algum tipo de relação ? — Perguntou ele.
— Não tínhamos "esse" tipo de relação, nós éramos apenas colegas. — Respondi. — Nós já tivemos uma forte amizade no passado, porém isso não existe mais.
— Vixi, quantos rolos. — Disse ele.
— Sim, e eu já voltei pra minha casa. — Falei. — Só aconteceu de eu ficar lá porquê fiquei com amnésia, mas agora as coisas já se concertaram.
— Tendeu, beleza então. — Disse. — Agora eu estou indo, vou virar aqui.
— Certo, então até mais. — Falei.
— Amigos ? — Perguntou ele.
— Não somos tão próximos pra sermos amigos, mas se nos tornarmos colegas... Então tudo bem. — Falei.
— Belê, haha. — Disse ele, com um sorriso no rosto.
Nos embolamos na hora de nos despedir, ele tentou me abraçar e eu tentei dar um toque na mão dele.
Ficamos envergonhados e nos afastamos um do outro.
— O que você está pensando ?? Um abraço é muito ! — Exclamei.
— A-ah, foi mal, foi instinto. — Disse. — Me despeço dos meus amigos e amigas com um abraço.
— T-tá, então tudo bem. — Falei.
Demos um toque na mão um do outro e seguimos cada um pro seu lado.
Depois de andar por mais alguns minutos, finalmente cheguei em casa, todo soado.
— Droga, preciso comprar um anti transpirante decente. — Falei sozinho.
Uma das coisas ruins de ser garoto é soar demasiadamente. Será que as meninas soam bastante também ?
Nunca vi a Márcia soando antes, ela sempre está com a pele lisinha e cheirando a creme.
Dois dias se passaram desde então, nesses dias, eu e Márcia nos aproximamos mais do Nell e até o convencemos de fazer o trabalho com a gente.
Também os ajudamos à ser mais gentil, e seu sorriso começou à aparecer com mais frequência.
Kaio conseguiu se aproximar um pouquinho mais da Márcia nesses dias, e Guilherme começou à voltar pra casa comigo todos os dias, ele disse que havia começado à fazer tarefas importantes na casa da tia.
Vinícius faltou todos os dias da semana.
Sexta-feira às 14:30, dois dias depois, eu estava procurando pela casa do Nell.
Olhei no meu celular e chequei o endereço.
Sim, o próprio Nell nos convidou pra irmos fazer o trabalho na casa dele. Ele cedeu rápido.
Estou na rua certa, mas, qual é a casa ? Nunca vim pra esse lado da cidade antes.
Fui procurando pelas casas atentamente, olhando pelos números.
Número 1648... 1650... 1652...
Achei, 1654.
Havia uma cerca de folhas, err, não, acho que esse não é o nome... Devo chamar de muro vivo ? Acho que não...
Merda, qual é o nome disso ? Eu me esqueci.
Vou chamar em inglês mesmo, um Hedge.
A casa do Nell é cercada por um Hedge, tendo um portão prateado enorme na frente.
Não da pra ver o que tem lá do outro lado.
Toquei o interfone e uma pessoa falou :
— Quem é ? — Perguntou.
— Gabriel, sou o amigo do Nell. — Respondi.
— Gabriel ? Amigo do Nell ? Aonde vocês se conheceram ? — Perguntou.
— Mãe, ele é da minha escola, ele veio fazer o trabalho de biologia comigo junto com uma outra amiga nossa, deixe ele entrar. — Ouvi a voz do Nell.
— Por que você não me avisou filho ? Essas coisas a gente marca com antecedência ! — Exclamou a mulher, provavelmente era a mãe dele.
— Desculpa. — Disse Nell.
O grande portão de metal começou à se abrir.
— Entra Biel. — Falou Nell, pelo interfone.
Nell não avisou da nossa ida ? Por quê ?
Ao passar pelo portão, me deparei com andarilhos que ficavam por cima do gramado.
Fui andando com cautela por cima deles. Não havia teto algum no local, dava-se pra ver o céu e as nuvens.
Também havia uma "pista" asfaltada na lateral direita do corredor, provavelmente foi construída pro Nell.
Fui até o fim do longo corredor, e ao chegar lá me deparei com uma visão nostálgica.
Haviam duas casas na extensa área, ambas eram casas luxuosas.
Também havia uma piscina, um jardim e até mesmo uma sorveteria ! Sim, uma sorveteria !
Quê diabos é isso ? O Nell é rico ?
— Biel, você está ai ? Vem. — Disse ele, que estava parado em sua cadeira de rodas, na entrada de uma das casas.
— Estou sim ! — Exclamei.
Fui até ele.
— Caramba Nell, você nunca nos disse que era rico. — Falei.
— Não somos ricos, somos classe média alta. — Disse ele.
— Estou mega surpreso ! — Exclamei.
O tempo estava nublado, porém a temperatura ambiente estava alta.
Adentrei a casa dele, aquela porta dava na cozinha.
Me deparei com uma empregada que estava cozinhando algo.
— Oii. — Falei, enquanto ia cumprimentar a mulher, dando-lhe um abraço.
— Oi. — Disse ela, parecendo surpresa.
— Ué ? Você cumprimentou a empregada ? Haha, você é estranho. — Falou Nell, dando um sorriso.
— Por quê ? — Perguntei.
— De todos que vi entrar nesta casa, você foi o primeiro que vi fazer isso. — Respondeu ele.
— Mesmo sendo empregada, ela ainda é gente, sabia ? — Perguntei, de uma maneira rude.
— Eu sei, eu adoro a dona Nice também. — Respondeu ele.
— Sim, o Nell é um amor com a gente. — Disse a dona Nice. — Eu mesma cuido dele desde quando era pequeno.
Uffa, por um instante pensei que o Nell fosse daquele tipo metido que despreza os empregados.
— Ah. — Falei. — A Márcia já chegou ?
— Ainda não, ela está atrasada. — Respondeu ele. — Vem, vamos pro meu quarto.
Passamos pela sala de estar e eu vi a mãe dele conversando no telefone.
— Oi. — Falei de longe, pra não atrapalhar.
— Ah, oi. — Disse ela.
A mãe do Nell também é albina, o cabelo dela é branco que chega a cegar, e sua pele tem uma coloração rosada.
Os olhos dela não são vermelhos.
Pegamos um elevador bem apertado pra subirmos pro segundo andar da casa. Era tão apertado que quase tive que sentar no colo do Nell.
— Desculpa pelo aperto, esse elevador foi feito só pra eu usar. — Disse ele.
— A-ah... Percebi. — Falei.
Ao sair do elevador, nos deparamos com um corredor e no fim dele, chegamos ao quarto do Nell.
— ISSO É ! — Exclamei, ao ver algo sensacional dentro do quarto dele.
Ele ficou parado na entrada, me olhando.
UMA HARPA ! O NELL TEM UMA HARPA ! É A PRIMEIRA VEZ QUE VEJO UMA DE VERDADE !
Fiquei dando voltas em torno do instrumento, analisando-o. Deve ter custado uma fortuna !
— Tá, o que tem ? Por que você parece tão surpreso ? — Perguntou ele, enquanto vinha pra perto de mim.
— É uma harpa ! Você tem uma harpa ! E nunca nos falou ! — Exclamei. — Você consegue tocar ? Que incrível ! — Chacoalhei ele enquanto falava.
Me sentei no banquinho e tentei dar uns acordes, mas eu não fazia ideia de como tocar.
O som saiu todo distorcido pois apenas fui puxando as cordinhas aleatoriamente.
— Trim trim trim ! Tram tram tram ! Trum trim trum ! — Exclamei.
— Mas que hiperatividade é essa ? Esse seu lado entusiasmado eu desconhecia. — Disse Nell.
*Flashback ON*
Eu estava andando na rua, ao lado de alguém.
— Vini ! Você viu aquele computador !? Que demais ! Você viu as peças que tinha dentro dele ? Ele deve conseguir rodar o jogo à 80 fps ! — Exclamei entusiasmado, com um sorriso incontrolável no rosto. — Eu quero muito aquele computador, muito !
— Aff, para. — Disse ele.
— Hã ? Com o que ?
— Com essa animação toda, tá muito gay. — Falou o garoto loiro. — Estamos na rua e tá todo mundo olhando pra você, aff, aff.
— A-ah... Desculpa. — Falei.
*Flashback OFF*
— Biel ? O que houve ? Por que ficou sério de repente ? — Perguntou Nell.
— Porquê eu fico feio quando contente, é algo ridículo, não ? — Perguntei.
— Não ué, só me assustei porquê nunca te vi hiperativo desse jeito. — Disse ele. — Mas se você está feliz, então não tem problema em demonstrar.
— Espere um pouco, eu estou um pouco confuso. — Falei.
Me levantei do banquinho e me sentei na cama do Nell.
O que foi essa memória ? Quem era que não gostava de me ver alegre ?
Eu o chamei de Vini ? Era o Vinícius ?
Estou voltando à me lembrar dele ?
— A-ai... — Murmurei.
— Está tudo bem ? — Perguntou Nell, preocupado.
— Só uma dor de cabeça. — Respondi, pois de fato, minha cabeça começou a doer.
— Pode me dar uma ajudinha aqui ? — Perguntou ele.
— Com o que, Coelhinho ?
— Quero que você me coloque na cama. — Disse. — Acha que consegue ?
— Acho que sim. — Falei.
Tirei o Nell da cadeira de rodas e fiquei "abraçadinho" com ele.
Pude olhar seus olhos do mais perto que dava.
— Vai demorar muito ? — Perguntou ele.
— Há, desculpa. — Respondi, enquanto o colocava sentadinho na cama, do meu lado.
— Sabe, você e a Márcia são estranhos, até agora não me perguntaram como eu perdi a capacidade de andar. — Disse ele.
— Eu e ela já conversamos sobre isso, mas resolvemos não te perguntar porquê poderíamos cutucar uma ferida. — Falei.
— Hm... — Murmurou Nell. — Mas vocês querem saber, não é ?
— Sinceramente falando, sim. — Falei.
— Então eu irei contar. — Disse ele.
— Conte. — Pedi.
— Como você pôde ver, a minha mãe também é albina. — Falou ele. — Albinismo é uma doença genética, causada por uma "falha" no DNA, é algo semelhante à síndrome de down, porém o nosso corpo apenas não produz ou distribui melanina, você sabe o que é, né ?
— Sim, é a substância que dá cor aos olhos, pele e cabelo. — Falei.
— Isso. — Disse ele. — Eu nasci com o tipo de albinismo mais grave, o albinismo oculocutâneo, por isso tenho olhos vermelhos e problemas na visão.
— Deve ser difícil. — Falei.
— A doença em si não é a pior coisa... — Murmurou Nell. — O pior de tudo é o quanto as pessoas ao seu redor se tornam super protetoras.
— Já assisti um filme mega fofo, chamado "hoje eu quero voltar sozinho". — Falei. — O protagonista dele é cego, e os pais dele o impedem de fazer tudo, com medo de acontecer algo.
— Não conheço este filme. — Disse ele. — Qual o gênero ?
— B-bem, não importa. — Falei. — Continue contando.
— Minha mãe desde que eu era pequeno, sempre me impediu de sair sem ela ou sem meu pai, e quando eu ia pra escolinha, ela mandava uma das empregadas junto comigo. — Disse ele. — Eu me familiarizei muito com a dona Nice por causa disso, ela era a única que deixava eu fazer o que eu queria, ignorando o fato de eu ter uma visão fraca.
— Bem, isso é normal no seu caso. — Falei.
— Na época eu ainda andava, aliás eu ainda não contei, mas nasci sim com a capacidade de andar, tudo direitinho. — Disse ele.
— Hm, e o que houve pra você não conseguir mais andar ? — Perguntei.
— Uma vez quando eu possuía 8 anos, o único amigo que eu tinha veio me chamar pra ir jogar futebol com ele, na rua. — Contou Nell. — Mas eu disse : "não, não posso ir, minha mãe não me deixa sair". E ele foi embora.
— E depois ?
— Ele vinha todos os dias na minha casa, e sempre pedia a mesma coisa. — Disse Nell. — Eu era pequeno e morria de vontade de jogar futebol, então acabei cedendo. Um dia saí de casa escondido com ele, e fomos brincar na rua.
— Aonde você morava na época ? — Perguntei.
— Aqui mesmo, eu sempre morei nesta casa. — Disse Nell. — Mas prosseguindo...
— Hm... — Falei.
— Num segundo que eu me distrai pra descer a rua correndo, perseguindo a bola com medo dela sair do meu campo de visão, um carro "surgiu" do nada na minha frente, e se chocou comigo. — Disse Nell.
— Nossa. — Falei.
— Foi preciso um segundo de descuido, um único e maldito segundo. — Disse ele. — Eu poderia ter notado o carro mesmo com a minha visão daquele jeito, mas... O trânsito não tem piedade, um leve e pequeno descuido, por mais pequeno que seja... Pode custar a sua vida. — Foi a primeira vez que vi o olhar do Nell tão sério. Até me assustei com a seriedade em suas palavras.
— Nem sei o que dizer. — Falei.
— Apenas me prometa Biel, por favor, nunca se descuide na rua, olhe sempre pros lados quando for atravessar e nunca se distraía com nada. — Disse ele. — Você me promete ? Você definitivamente me promete ? — O garoto se aproximou muito, quase caindo em cima de mim na cama.
— Sim, eu prometo. — Falei, e ele se afastou.
— Certo. — Disse Nell.
— E o que aconteceu depois ? — Perguntei.
— Depois do acidente eu perdi minha capacidade de movimentar as pernas. — Disse ele. — Meus pais jogaram toda a culpa no meu amigo, e processaram impiedosamente a família dele.
— ... — Fiquei quieto, apenas escutando.
— Eles não tinham condições financeiras muito boas,quase não conseguiram pagar o advogado creio eu, e meus pais conseguiram provar que fora o garoto quem me influenciou à sair de casa naquele dia. — Contou Nell. — Uma indenização enorme caiu sobre eles, os coitados tiveram que vender a própria casa pra pagar, e depois se mudaram.
— E o garoto ? — Perguntei.
— Eu fiquei duas semanas em coma, só fui saber de tudo assim que recebi alta. — Falou ele. — Já era tarde demais, tudo já havia acontecido e eu não pude fazer nada. Meu amigo e sua família já haviam saído do mapa.
— Nossa Nell, você teve uma vida difícil. — Falei.
— O pior de tudo é saber que, mesmo que eu tivesse acordado enquanto todo o processo acontecia, eu não poderia fazer nada, porquê uma criança de 8 anos não teria influência alguma em tudo aquilo. — Disse ele.
— Sim, seus pais iriam te reprimir. — Falei, enquanto coçava minha perna. — Os adultos são assim, nessas horas de espanto, sempre ignoram os sentimentos das crianças.
— Olhe, está vendo aquilo ? — Perguntou ele, enquanto apontava pra duas espécies de "barras", que haviam no quarto.
— Sim, o que tem ?
— Os médicos me disseram que eu poderia recuperar o movimento nas pernas, embora fosse muito difícil. — Contou ele. — Eu tentei muito no começo, mas acabei desistindo.
— Hm. — Falei.
— Eu tentei de tudo no começo pra voltar à andar, sempre me esforçando, noite e dia, dia e noite, com a esperança de poder um dia tomar conta do meu próprio nariz, sem depender dos outros. — Disse Nell. — Mas meus pais começaram à brigar comigo por causa do meu treino em excesso, afinal havia dias que eu dormia no chão, pois caía e não conseguia mais me levantar.
— Por que você não chamava por.. — Fui perguntar mas desisti, pois já sabia a resposta.
Nell não queria depender dos pais dele, se ele os chamasse, seria o mesmo que admitir derrota.
— Eles me compraram a harpa e vários livros, para que eu pudesse passar o resto do meu tempo tocando ou lendo. — Disse ele. — Queriam que eu fizesse atividades que não usassem as pernas, até contrataram um professor particular pra me ensinar à tocar.
— Hm. — Falei.
— Eu me apaixonei pelo instrumento e pelos livros, e quando menos percebi, havia desistido de voltar à andar. — Disse ele. — Mas sabe, até hoje eu odeio que "cuidem" de mim em excesso, odeio que se preocupem comigo, odeio que queiram saber sobre mim e odeio que se encantem comigo, pois eu não sou legal, ser albino é horrível, não há motivo pra encanto.
— Bem, já que você se abriu comigo, acho que posso me abrir com você também. — Falei.
— Hm... ? — Perguntou ele.
— Eu sou o oposto de você, ao invés de odiar que as pessoas cuidem de mim ou se preocupem comigo, eu anseio por isso, eu quero carinho, quero me sentir importante e especial, quero ser mimado e cuidado por alguém. — Falei à ele.
— Sério ?? Por que você quer isso ? — Perguntou Nell.
— Quando eu era pequeno, minha mãe sempre cuidava de mim, ela me mimava muito e me fazia muito carinho. — Falei. — Ela não trabalhava e usava todo o seu tempo pra fazer coisas pra mim ou pra passear comigo. Era a mãe perfeita...
— Ela era muito protetora ? — Perguntou Nell.
— Não tanto quanto a sua, minha mãe fazia tudo o que eu pedia pra me agradar, então se eu pedisse pra ir jogar bola, ela com certeza deixaria. — Falei. — Ela sonhava em ter um filho e eu fui o fruto desse sonho. Eu recebi todo o amor do mundo e mais um pouco.
— Legal. — Disse ele.
— Mas um dia, de uma hora pra outra ela morreu de ataque cardíaco, aos 45 anos. — Contei. — Eu me senti muito desorientado depois disso e claro, eu desabei de tanto chorar.
— Imagino.
— Com o passar do tempo eu fui me afastando dos outros, meu pai passou à trabalhar o dia inteiro e eu comecei à ficar sozinho em casa, sem fazer nada. — Falei. — Também tive que aprender à fazer tarefas domésticas, e me virei sozinho até ele arrumar uma namorada, que se mudou pra casa e passou à cuidar de mim.
— Sua madrasta, é ? Ela era legal ? — Perguntou Nell.
— Muito, embora não fosse como minha mãe obviamente. — Respondi. — Mas, ela morreu também, ficou internada por três meses por causa de um câncer e depois acabou subindo ao céu.
— Entendi, você lidou com muitas perdas. — Disse ele. — Ninguém próximo à mim chegou a morrer ainda, então não entendo sua dor.
— O mais forte foi o meu pai, que lidou com as mortes da própria mãe, irmão, mulher e depois da próxima mulher. — Falei.
— ... — Nell ficou quieto.
— Pouco tempo atrás na aula de filosofia, o professor explicou que nós buscamos a "nossa mãe, ou pai, whatever, a pessoa que cuidou da gente quando pequenos", em outra. — Falei. — Ele explicou que, muitas vezes quando nos atraímos por alguma garota na adolescência, estamos buscando a "nossa mãe" nessa garota, almejando que ela cuide da gente e nos dê todo o amor e carinho.
— Já ouvi sobre isso. — Disse ele.
— Eu então perguntei ao professor, o que acontece quando a mãe faleceu, e ele disse : "nesse caso, você é forçado à aceitar, seu cérebro entende que sua mãe não está mais neste mundo". — Falei.
— Sim, é isso mesmo.
— Eu refleti bastante sobre isso, e me perguntei : e se eu for uma exceção à regra ? E se eu for tão frágil que até hoje procure a "minha mãe" em outra pessoa ? Almejando que ela cuide de mim e me dê todo o amor que minha mãe me deu ? — Falei. — E se eu tiver sido tão traumatizado à ponto de, inconscientemente achar que minha mãe ainda está viva ?
— Não sei Biel, não sei. — Disse Nell. — Não sei como é querer que alguém cuide de você. Eu já te disse, eu odeio isso, cresci com as pessoas cuidando e se preocupando comigo.
— Sim, você não entende. — Falei.
A porta do quarto se abriu e Márcia adentrou o mesmo.
— Desculpa a demora ! Eu tive que passar num lugar antes de vir pra cá. — Disse Márcia. — OLHA, UMA HARPA !
— O Nell sabe tocar ela Márcia. — Falei.
— Sério ? Toca pra gente ? — Pediu ela.
— Tá certo Márci, eu toco. — Concordou ele.
Márcia veio até nós e se sentou na cama também.
— Você se atrasou, vamos ter que começar o trabalho logo, você trouxe a cúpula ? — Perguntei.
— Sim, rodei a cidade toda atrás dela, por isso demorei. — Respondeu Márcia. — Está lá em baixo.
— Certo. — Falei.
— Então não querem mais me ouvir tocar ? Okay. — Disse Nell.
— Claro que queremos ! Temos o dia todo pra montar a cúpula ainda ! — Exclamou Márcia.
— ... Decidam-se.
— Queremos ouvir você tocar sim. — Afirmei.
— Tá, então me leve até o banco. — Ordenou ele.
— Isso foi um pedido, um convite ou uma ordem ? — Perguntei.
— Foi o imperativo inteiro. — Respondeu ele.
Me levantei da cama e peguei o Nell no colo.
O levei nos braços até a harpa, e coloquei ele sentado em cima do banco.
— Que música ? — Perguntou ele.
— Toca a primeira abertura de Sword Art Online ? — Perguntei.
— O que é isso ?
— Ah... Deixa quieto. — Falei.
— Vou tocar "Tower of eternity". — Disse ele.
— Você gostou dessa OST que eu te mostrei ? — Perguntei.
— Sim, eu achei muito bela então passei à escutar. — Respondeu Nell.
O garoto começou a tocar o instrumento, dando leves acordes que geravam uma melodia bela e tranquila.
Me surpreendi por ele ter aprendido à tocar Tower of eternity, como será que ele fez pra aprender ? Será que foi apenas vendo os vídeos no youtube ? Não sei, não me dou bem com nenhum instrumento e não sei ler partituras.
É até irônico eu ser um bardo no jogo.
Nell se parece com um anjo que perdeu suas asas e foi obrigado à viver como um mero humano, passando por dor e desespero, sem perder seu brilho divino.
Um brilho divino que nunca se apaga.
Fizemos a nossa cúpula ambiental após o show de Nell,e quando terminamos ficamos jogando conversa fora.
Eu e Nell também contamos pra Márcia tudo que ele me contou mais cedo, e ela se sentiu espantada ao saber que o Nell passou por tanta coisa.
— E o seu pai ? — Perguntou ela.
— Trabalha bastante, só chega de tarde. — Respondeu Nell. — Ele é dono de uma pequena empresa que se localiza aqui na cidade, mas têm filiais nas cidades vizinhas também.
— Empresa do que ? — Perguntou ela.
— Distribuidora de peças de veículos. — Respondeu Nell.
— Hm... — Disse Márcia. — E por que você veio pra nossa escola ?
— Estamos passando por um momento difícil e ele decidiu cortar gastos, me tirando da escola particular.
— Entendi. — Falou ela.
— E você Márcia ? Como é o seu passado ? Eu notei que há algumas cicatrizes no seu braço. — Disse Nell, indiscretamente.
— Elas não são nada demais. — Disse Márcia.
As cicatrizes da Márcia e o passado dela não são algo que devem ser citados, droga, preciso mudar de assunto.
— Aliás Nell, qual é o nome do garoto que era seu amigo ? Aquele que... Sabe... — Perguntei.
— Não é algo relevante, mas ele se chamava Guilherme. — Respondeu Nell.
Eu e Márcia saímos da casa dele pois já eram 17:00, e fomos indo pra casa juntos até onde dava.
Ela estava bastante pensativa, sem falar absolutamente nada.
— Você está pensando no mesmo que eu ? — Perguntei.
— Não sei... — Respondeu ela. — Você acha que é o mesmo Guilherme ?
— Talvez, e você ?
— Não faço ideia, nunca conversei com ele, só ouço o que você conta. — Disse ela.
— Hunf, o Vinícius não vai gostar de saber que me aproximei do ex dele. — Falei.
— A culpa é dele por faltar a semana toda. — Falou Márcia.
— Amanhã é sábado já, vou ficar o dia inteiro em casa, aff. — Falei.
Enquanto isso, em um campo de futebol que fica na cidade vizinha :
— VAI GUILHERME, VAI, TOCA PRO JULIANO ! — Exclamou um dos garotos.
Guilherme fez o que o outro falou e tocou a bola.
— VAI JULIANO ! — Exclamou Guilherme.
O garoto driblou dois garotos, e tocou a bola pra um outro do próprio time.
— CADÊ ? NÃO DEIXA ELE AVANÇAR ! — Exclamou um garoto do time adversário, enquanto entrava na frente do menino.
O menino tocou a bola pro Guilherme e falou :
— VAI GUI !
Guilherme driblou mais um e o deixou pra trás, caído no chão.
Hesitou por um segundo, mas arriscou e chutou pro gol. O goleiro defendeu.
— UUUUH !!! — Disse Guilherme.
Vinícius POV
Segunda-feira, às 06:58 no portão da escola.
Faltei por uma semana, devo ter perdido muita coisa.
Fiquei olhando dentro da escola, procurando por Isabel mas não a achei.
Cadê aquela doida ?
Continua no capítulo 16.
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