Eu estrelo você
21 A fúria de Márcia !
Notas iniciais
Gabriel POV
Quinta-feira às 06:47. Fui cedo pra escola na esperança de ver o Nell chegar, mas falhei, pois ele já havia chegado e estava me esperando dentro do pátio.
— Bom dia. — Falou ele.
— Bom dia coelhinho. — Falei.
Ontem, passamos a tarde na casa do Nell ajudando-a andar. Ele conseguiu dar mais passos depois daquele, e comemoramos mais ainda ! Exceto a Márcia, pois ela estava um tanto quanto esquisita.
— Ontem, eu te ajudei com a Márcia quando ela perguntou sobre o motivo de você ter faltado. — Disse ele.
— ... — Fiquei quieto.
— Eu não esqueci não, tá bom ? Você tá me devendo. — Disse ele.
— E o que você quer que eu te dê em troca, por ter me ajudado ?
— Nada material, só quero que você me conte tudo que me esconde. — Disse ele. — Incluindo o verdadeiro motivo de ter faltado ontem.
— Pra que você quer saber ? Não vai mudar nada na sua vida. — Falei.
— Eu quero saber tudo sobre os meus amigos, se possível. E quero que você confie em mim, também. — Disse ele.
— Eu confio em você.
— E por que não me conta ?
— Porquê vai ser problemático, talvez você vai me olhar com outros olhos depois de saber. — Falei.
— Se você não me contar, falarei pra Márcia que você mentiu ontem pra ela. — Disse Nell.
— Mas não fui eu quem menti ! Foi você ! — Exclamei.
— De qualquer forma, ela vai querer saber a verdade, e isso será ruim, não é ?
Realmente. O Nell quer saber sobre as coisas que eu escondo dele. Em outras palavras, eu teria que contar sobre minha sexualidade, e toda a minha história com o Vini.
E não importa o quanto eu olhe pra esse coelhinho, creio que ele nem sequer imagina que eu tenho um... "Lado" assim.
Mas ele me encurralou, a Márcia já estava estranha ontem por algum motivo. Se ela souber que eu me lembrei do Vini, e daquilo tudo, ela vai surtar.
Aaaaaahhhh, droga, eu não queria falar pro coelhinho que eu sou gay ! Agora ele não vai mais querer me abraçar e nem vai deixar eu pegá-lo no colo !
Ele era tão fofinho de se pegar... (Sem malícias, okay ?)
— Tudo bem Nell, eu vou te contar. — Falei à ele. — Mas vamos pra sala, pois é uma longa história.
— Mas se formos pra sala antes da Márcia, ela vai ficar aqui em baixo esperando a gente. — Disse Nell.
— Eu sei, e é por isso mesmo. Não posso deixar ela ouvir. — Falei.
— Hm... Vamos chamar o inspetor então, pra abrir o elevador.
Eu e Nell fomos pra sala de aula, e lá ficamos à sós. Ainda não havia ninguém lá em cima.
— Pronto, pode falar. — Disse ele.
Suspirei, mexi no cabelo, andei um pouco pela sala, coloquei a mochila na minha mesa, e depois falei, sentado em minha cadeira.
— Nell, eu sou gay.
Nell estava no seu lugar, e ao ouvir minhas palavras, fez uma cara de espanto.
— Errr... Sério ? — Perguntou ele.
— Sim, é sério. — Respondi.
— Não parecia. — Disse ele.
— E o Guilherme é bi. — Aproveitei pra contar sobre o Guilherme, e isso sim, causou bem mais espanto no Nell.
— ... — Ele ficou quieto.
Fizemos alguns segundos de silêncio, mas eu logo quebrei esse clima, pois ainda tinha muita coisa pra contar.
— Posso contar o resto, ou você vai desistir de saber só por causa disso ?
— Calma, eu estou espantado, deixa eu respirar um pouco. — Nell virou o rosto e fechou os olhos, rapidamente. — Quer dizer que toda vez que você me pegava, você tinha pensamentos pervertidos ?
— N-não ! Claro que não ! — Exclamei.
— Você é um homem sujo. — Afirmou ele.
— Cruel ! Isso foi cruel ! — Exclamei.
— Certo, irei me corrigir. Você é um verme sujo. — Disse ele. — Ah não, eu não posso te xingar assim, pois você vai falar que é homofobia, não é ?
— ... — Fiquei quieto.
Eu não ia falar que era homofobia, mas, esse modo de pensar do Nell sobre tudo isso é... Tenso...
— Verme, verme, verme. — Repetiu ele, três vezes consecutivas, enquanto abria os olhos e voltava à olhar pra mim.
Será que o Nell é homofóbico, depois de tudo isso ?? Não, não pode ser, eu nunca esperava isso dele. Aliás, não, ele não é homofóbico, porquê se não seria como ele disse. Os gays sempre ligam tudo que acontece com eles à homofobia.
Talvez o Nell esteja me xingando simplesmente por achar que eu era um tarado, quando pegava ele. Se for isso, tudo bem, mas puxa vida... Eu não tinha esses pensamentos...
— HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAAHHAHAHAHHAHA. — Nell morreu de rir, igual um retardado. — S-s-socorro, HHAHHAAHAHAHA.
Mas hein ? Por que ele está rindo ?
— O que foi... ?
— Hahahaha, idiota, eu já sabia que você era gay. — Disse ele.
— Já ? A Márcia te contou ? — Perguntei.
— Não, eu descobri por mim mesmo. — Respondeu ele. — Eu não tinha certeza, mas sentia que você era, sabe ?
— Hm, entendi. E você utilizou essa oportunidade agora pra me fazer gelar na cueca, né ? — Perguntei.
— Exato ! HAHAHAHAHAHAHA. — Ele riu.
— Não gostei dessa brincadeira,foi desagradável. — Falei. — Por um momento, achei que você fosse passar à me odiar, e nossa amizade iria para o ralo.
— Não seu besta. Eu não ligo pra sua sexualidade, ou pra do Gui. — Disse ele. — Agora vai, conta o resto.
— Agora eu é quem preciso me recuperar, do susto. — Falei.
No fim, contei pro Nell exatamente tudo, desde quando eu conheci o Vini até os dias de hoje. Contei os detalhes da minha amnésia e tudo mais, absolutamente tudo.
— Entendi, deve ter sido horrível pra você. — Disse ele. — Então você entrou em choque quando se lembrou do tal Vini, não é ? E por isso socou o espelho ?
— Isso. — Afirmei. Algumas pessoas já haviam adentrado a sala.
— Agora eu entendo o porquê de você não querer que a Márcia saiba. — Disse Nell. — Mas mesmo assim, você foi muito infantil, deveria ter me contado essa história mais cedo. Eu com certeza iria te ajudar.
— Me desculpe, mas é difícil contar essas coisas.
— Eu imagino. — Concordou ele. — Mas e aí, você vai voltar à falar com esse Vini ?
— Não sei, pela nossa briga no parque, provavelmente não. — Respondi.
— Mas você gosta dele, ainda ?
— Não sei Nell, eu estou muito confuso.
— Entendi. — Disse ele.
— Quando eu me lembrei de tudo, fiquei muito contente pela Márcia, pois ao me ver com amnésia, ela pôde fingir que nada aconteceu, e voltou imediatamente à falar comigo. — Falei.
— Sim, talvez ela tenha se arrependido. — Disse Nell. — Mas sabe o que eu acho ?
— O que ?
— Depois de tudo isso que você me disse, eu só consigo imaginar que a Márcia gosta de você. — Afirmou ele.
— Quêêê ? Será ??? Eu já pensei nisso, mas acho muuuito difícil. — Falei. — Ela sempre soube que eu sou gay.
— Da mesma maneira que os gays conseguem se apaixonar pelos héteros, os héteros conseguem se apaixonar pelos gays. — Afirmou Nell.
— E você ? Qual a sua sexualidade ? — Perguntei, de uma maneira casual.
— Eu sou hétero, nunca tive esse tipo de atração por outros meninos não. — Respondeu ele.
— Hm... Okay.
— Mas, voltando à falar da Márcia. O que são aquelas cicatrizes no braço dela ? — Perguntou Nell, curioso. — Eu também queria saber mais sobre ela.
— Aquilo faz parte de uma história muito obscura, seria uma traição minha te contar. — Falei. — O passado da Márcia não deve ser remexido.
— Mas eu quero saber, estou curioso.
— Pergunta pra ela então, ué.
— Ela não vai me falar.
— Eu sei.
— Se você não me contar, eu vou no tal Vinícius e falo que você lembrou dele. — Disse Nell.
— Chantagem ! — Exclamei. — Mas você não vai conseguir. Sua visão é ruim, e você não sabe quem é.
— Verdade, é impossível. — Falou o garoto. — Há não ser que eu peça pra Verônica me mostrar ele.
— Você não faria isso... — Murmurei.
— Você não sabe do que eu sou capaz, Biel. — Disse ele.
— Para Nell, eu não posso falar, sério. Seria uma traição. — Falei.
— O que seria uma traição ? — Perguntou Márcia, ao se sentar atrás de mim.
Eu e Nell estávamos tão distraídos, que nem vimos que ela já estava chegando.
— N-nada. — Falei.
— Eu estava conversando com o Gabriel sobre as marcas nesse seu braço, e ele não quis me contar. — Disse Nell.
— Ah, era isso. — Falou ela. — Pode contar se quiser.
— Quêêê ?? Sério ?? Mas... — Falei.
— Eu não ligo, contanto que seja pro Nell. — Disse ela. — E eu tenho certeza que ele te convenceria à falar, de uma maneira ou de outra.
— Isso foi cruel. — Falei. — Eu não ia falar. Você me pediu sigilo absoluto.
— Tá tá, conta logo. — Disse ela, num tom arrogante.
A Márcia está estranha, até agora. Será que ela está naqueles dias ?
Bem, se ela me permitiu contar a história pro Nell, então eu contarei. Vou tentar resumir, pra poupar tempo. O professor logo chega.
— A mãe biológica da Márcia abandonou ela quando era criança, e a deixou sob os cuidados do pai. — Falei. — Mas ele também não a quis, e a entregou pros avós dela cuidarem.
— ... — Nell ficou quieto, só escutando.
— Ela morou com os avós até os três anos de idade, lá no Pernambuco, mas "algo" aconteceu e eles trouxeram ela de volta pra São Paulo, a deixando com o pai dela de novo. — Falei. — O pai dela não a quis pela segunda vez, e a entregou pra adoção, já que não tinha ninguém pra cuidar dela.
Márcia enquanto eu contava sua história, permaneceu calada, sem dizer um piu.
Nell ficou prestando bastante atenção, e provavelmente já achava muito ruim isso tudo que eu contei.
Ninguém quis a Márcia, ela foi abandonada pela mãe, pelos avós, e duas vezes pelo pai.
— Ela ficou um ano no orfanato, e depois foi adotada por um casal de classe média alta. — Contei à ele. — Essa época foi boa, não foi Márcia ? Eles cuidaram bem de você até os 9 anos de idade, né ? — Perguntei.
— 10. — Respondeu ela.
— Sim, isso. Quando ela tinha dez anos, esses pais adotivos dela morreram num acidente de carro. — Falei. — E ela retornou ao orfanato.
— Nossa... — Murmurou Nell.
— Adivinha quem apareceu pra adotar ela no orfanato ? — Perguntei ao Nell.
— Quem ?
— O pai dela. O biológico. O mesmo que a abandonou 2 vezes. — Respondi.
— Por que ele quis ela à essa altura do jogo ? E como ele soube que os pais adotivos dela tinham falecido ?
— Os pais adotivos deixaram sua herança pra ela, que era uma casa bem bonita e luxuosa, aqui nesta cidade mesmo, e aí o homem quis reaver os direitos sobre ela, pra por as mãos nessas coisas que ela herdou. — Falei.
— Nossa...
— Mas, os parentes da família adotiva da Márcia brigaram brutalmente contra o homem nos tribunais, e ele perdeu. No fim, a Márcia foi adotada pelos irmãos da sua mãe adotiva. — Falei.
— Só que eles não quiseram ela no começo também, não foi ? Pois os pais adotivos dela morreram, e ela foi enviada pro orfanato ao invés de ser adotada pelos outros membros da família. — Disse Nell.
— Sim... — Falei, com uma expressão triste no rosto.
— ...Que droga... — Disse ele.
— Aí, alguns dias depois dela ser adotada pelos irmãos da mãe adotiva, o pai biológico dela invadiu a casa, e sequestrou ela. — Falei.
— Caramba ! — Exclamou Nell. Márcia parecia distraída com outra coisa, pois estava querendo ao máximo não prestar atenção na história que eu estava contando.
— Ele levou ela pra uma casa em algum lugar (A Márcia não me falou que casa, e aonde era), e ele manteve ela lá por uns 5 dias. — Falei. — Ele bebia muito e não bastava a casa estar um caco, ele vivia destruindo tudo.
— Ninguém foi procurar ela ?? — Perguntou Nell.
— Calma, depois eu chego nessa parte. — Respondi. — Depois desses cinco dias, o velho endoidou de vez, e foi pra cima dela com más intenções, totalmente bêbado.
— Quê... ?? Sério... ?? Não me diga que... — Murmurou Nell.
— Se você está pensando que ele estuprou ela, você está... Errado. — Falei. — É verdade que ele tinha essas intenções, e realmente tentou estupra-la, mas... Ela pegou um caco de vidro de uma garrafa quebrada, que havia no chão, e......
— e....... ?
— Matou ele. — Falei.
— ..........
Márcia POV
Gabriel falou ao Nell que eu matei o meu pai, e aquelas lembranças me vieram à cabeça. Por mais que eu tentasse me distrair, simplesmente não conseguia, quando o assunto era aquele.
Flashback ON ~~ Seis anos atrás, nessa tal casa abandonada, em algum lugar.
— Tá quieta hoje por quê, cabrita ? — Perguntou o meu "pai."
— ... — Eu estava sentada num canto da parede, abraçando as minhas pernas.
— ANDA, FALA, É PRA RESPONDER QUANDO EU PERGUNTO CARALHO ! — Exclamou ele.
— A-aaahhhh ! — Me assustei com o grito dele, e gritei também.
Ele pegou uma colher de metal e jogou com força em minha direção. Esta atingiu a minha cabeça, com tudo.
— Aaaahh... Aaaaii... Aaah... — Comecei a chorar por causa da dor, enquanto me contorcia no chão.
— Ah não, eu não acredito que tu vai voltar à chorar agora ! Porra ! — Exclamou ele, enquanto dava o último gole de pinga da garrafa.
Ele veio até mim segurando a tal garrafa de pinga, e me pegou pelos cabelos.
— Para de chorar ! — Ordenou ele, apontando a garrafa pra mim. — Se você não parar, vou quebrar ela na sua cabeça.
— N-n-n-não... Por favor... Para... — Pedi, em prantos.
— OLHA QUE EU QUEBRO, HEIN ! EU QUEBRO ! — Disse ele, ameaçando com a garrafa.
— Aaaaaaaaahhhh.... — Continuei à chorar, por causa do medo.
Ele bateu a garrafa com tudo no chão, bem do meu lado, e a mesma se quebrou em vários cacos, fazendo um barulho muito alto.
O barulho me deu um susto e eu fiquei com muito medo. O susto foi tão grande que eu consegui engolir o choro.
— Isso, cê viu né ? Boa, fique quietinha. — Disse ele, enquanto se agachava na minha frente e me acariciava no rosto.
— Tu cresceu bastante cabrita, tá até boazinha pra mim já. — Disse ele, enquanto abaixava as calças. — Vou te mostrar uma coisa bacana.
Fechei os olhos pra não ver aquilo, pois já tinha noção do que havia dentro de suas calças.
Ele começou à passar a mão no meu corpo, e rasgou minha camiseta mais do que já tava rasgada.
— Vai, tira a saia. — Ordenou ele.
Abri os olhos, e vi que ele ainda estava de cueca, apenas com a calça abaixada.
— N-não... — Neguei.
Ele me deu um tapa com muita força na cara, e eu bati a cabeça na parede com um forte impacto, caindo no chão em seguida.
— Não negue nada pra mim não cabrita, EU SOU TEU PAI, VADIA ! — Exclamou ele, enquanto começava à mexer nas minhas partes baixas.
Como estava caída, peguei um dos cacos de vidro da garrafa que ele quebrou, e enfiei bem rápido em seu pescoço, me sentando.
Aquele vermelho começou à escorrer... A expressão facial dele ficou assustadora, e...
Eu chutei. Fiquei molhada com aquele vermelho. Ele caiu. Na minha frente. Morreu. Eu fugi. Andei por um matagal à noite. Banhada de vermelho. Fedendo à ferro. Apavorada. Com aquele caco na mão. E depois. Fiz três cortes no meu braço. Um em cima do outro. Para que a dor física se tornasse. Maior. Que a sentimental. E por fim. Desmaiei. Ali. Naquele lugar.
Flashback OFF
Gabriel POV
— Meu Deus... — Murmurou Nell. — Ela mesma que se cortou no desespero...
— No fim, quando ela foi encontrada, descobriu que os novos pais dela nem estavam dando muita atenção em procura-la. — Falei. — Ela mora com eles até hoje, com os irmãos da mãe adotiva.
— As coisas melhoraram, ao menos... ? — Perguntou ele.
— Sim, ela está levando uma vida normal agora. — Respondi.
— Agora que soube de tudo isso, vi que era melhor não ter insistido em saber. — Disse Nell. — Mas encontraram o corpo do pai dela ?
— Aham, mas censuraram o caso e ela saiu ilesa pois foi provado que ela o matou em legítima defesa. — Falei.
— Tenso Márcia. — Disse Nell. — Eu lamento...
— A Márcia possui um passado três vezes pior que o nosso. — Falei.
— Acho que sim... — Disse ele.
— Tanto faz. — Falou ela, de uma maneira fria.
As três primeiras aulas foram bem tensas, eu fiquei o tempo todo conversando com o Nell, e a Márcia se isolou, por algum motivo.
O que será que ela está pensando ? Acho que não foi uma boa ideia tocarmos no passado dela...
No intervalo, às 09:32 :
A Márcia desceu na frente, disse que iria ver o que estava dando no refeitório, pois estava com fome.
Eu e o Nell esperamos o inspetor vir abrir o elevador, e descemos com ele.
— Aonde iremos ? — Perguntei ao Nell.
— Na biblioteca, como sempre, não ?
— Melhor não, vai estar chato lá. — Falei. — A Márcia hoje foi pro refeitório. Por que não vamos lá com ela ? E o Gui vai estar lá também.
— E a VERÔNICA também, só pra variar. — Disse ele.
— Ela vai te seguir de qualquer jeito, haha. — Falei. — Nem adianta.
Facilmente convenci o Nell, e fomos pro refeitório.
Deixamos sua cadeira de rodas na secretaria, e eu o levei nas costas. É quase impossível entrar no refeitório com aquela cadeira.
Guilherme estava almoçando ao lado de Vini e Isabel, já a Márcia, estava no fim da fila.
— Aonde ele tá ? Não consigo ver. — Disse Nell.
— Ele está sentado, comendo. — Falei.
— Vamos lá ?
— Não sei se é uma boa ideia, ele está junto do Vini e da Isabel.
— Vamos, vamos, eu quero conhecê-los. — Ele disse num tom animado.
— Você só está pensando em você ! E eu, não conto não !? — Perguntei. — Você acha que eu consigo chegar lá e sentar ao lado do Vini, como se fosse normal ?
— Mas o Gui vai estar lá também. — Disse Nell.
— Não, sem chances, eu não vou.
— EIIII GUIII, CADÊ VOCÊ ?? — Gritou Nell, sem enxergar onde o Gui estava por causa da sua visão ruim.
Os três olharam pra nós, e eu provavelmente fiquei com uma cara esquisita.
— Maldito... — Murmurei. Agora não tenho opção se não levar ele lá.
Levei o Nell até eles, e o coloquei sentado ao lado do Guilherme.
Eu fiquei em pé, de costas pra fila.
— Então... Você é Vini ? — Perguntou Nell, enquanto olhava pro Vinícius que estava sentado à sua frente, comendo. Isabel estava do lado dele.
— Vinícius. Sim, sou eu. — Respondeu ele.
— Bem que o Biel disse que você não gosta de ser chamado de Vini, haha. — Riu Nell.
Nell maldito... Aposto que ele quer se divertir me usando assim ! Droga, ele quer me deixar com cara de totem !
— Ah, então o "Biel" fala do Vinícius pra você ? — Perguntou Isabel, como se estivesse colocando lenha na fogueira.
— Fala, bastante, é "Vini, Vini" direto. — Respondeu o coelho maldito.
Guilherme ficou quieto, apenas escutando enquanto comia.
— Cala a boca Nell, é mentira Isabel, a primeira vez que falei do Vini pra ele, foi hoje. — Falei.
— Hm... — Murmurou Isabel.
— B-bem, de qualquer m-maneira, vou deixar o Nell com vocês. — Falei. — Gui, depois você leva ele ? Obrigado.
Saí zunindo do refeitório e adentrei a biblioteca.
O Kaio havia faltado, ufa, pelo menos poderia pensar um pouco.
Cara, isso foi difícil, conhecendo o Nell, aposto que ele faria de tudo pra me provocar.
Me sentei em uma das mesinhas da biblioteca e fiquei de cabeça baixa.
— Riquelme. — Ouvi uma voz feminina vindo por trás de mim, e quando olhei pra ver quem era, era Márcia. Aliás, dava saber que ela era só por ouvir me chamarem de "Riquelme".
— Ué ? Você saiu da fila ? — Perguntei.
— Você se lembrou. — Afirmou ela.
Me lembrei ? Me lembrei do que ? Que afirmação é essa ? Ou será uma pergunta ? O que a Márcia está dizendo ? Será que ela descobriu ? Como ? É impossível. O Nell contou pra ela ? Não, eu duvido, ele não faria isso.
— Você se lembrou do Vinícius, não foi ? — Perguntou ela.
— ... — Fiquei quieto.
— Vamos, responda. — Pediu ela.
— Uhum... — Falei.
— Sabia. — Disse ela. — Ouvir você chamando ele de Vini foi a peça que faltava. Eu notei seus olhares esquisitos pra ele.
— Desculpa por não ter contado. — Falei.
Verdade, a Márcia estava na fila do refeitório e eu estava de costas pra ela. Não devia tê-lo chamado de Vini antes de olhar pra trás.
— Por que você não contou ? Eu sou sua melhor amiga. — Disse ela. — Deveria ter me contado.
— Porquê... — Eu ia responder uma mentira, mas ela me interrompeu com uma verdade.
— Foi porquê você se lembrou "daquilo" também, não foi ?
... Daquilo ? Ela está falando... "Daquilo" mesmo ? Como ela está conseguindo associar tudo isso ?
— Pode dizer, eu sabia que você ia se lembrar mais cedo ou mais tarde. — Disse ela. — Eu não ia conseguir esconder isso pra sempre, também.
— B-bom Márcia, eu me lembrei, mas vamos deixar aquilo pra lá. — Sugeri à ela. — Não faz importância agora, e quando eu perdi a memória você veio me ajudar como se nada houvesse acontecido. Você também tentou deixar pra lá, não foi ? Então pronto, eu também quero isso. Vamos continuar sendo amigos.
— ... — Ela ficou quieta, por alguns segundos. — Agora que você se lembrou do Vinícius, o que você vai fazer ?
— Como assim o que eu vou fazer ? Que pergunta besta, Márcia. — Falei.
— Você vai querer ser amigo dele de novo ?
— Não, eu não vou. Você acha o que ? Que eu vou simplesmente ir lá, e do nada voltar à falar com ele ? — Perguntei.
— Foi isso que pareceu agora à pouco. — Respondeu ela.
— Para, eu não vou fazer isso. E daí que eu me lembrei ? Nada vai mudar. — Afirmei.
— Vai sim... Eu sei que vai... — Murmurou ela, enquanto me deixava ali sentado e ia até o meio das prateleiras da biblioteca.
Eu a segui imediatamente.
— Márcia, por favor, não faça uma tempestade à toa de novo. — Falei.
— Tempestade ? Você acha que eu faço... "Tempestades?". Francamente, é isso que eu ganho por sempre tentar te proteger.
— Proteger ?
— Eu tentei ao máximo manter você e o Vinícius afastados, pois a única coisa que ele sabe fazer é te destruir. — Afirmou ela. — Eu estava te protegendo, eu não queria que você sofresse mais, mas mesmo assim... Parece que quanto mais eu tento te proteger, mais você tenta se soltar e ir pra jaula do leão.
Eu consigo entender o raciocínio dela, sim, faz sentido o que ela disse. Eu sempre fiz burradas, sempre deixei o sentimento me levar e sempre virei alvo dos ataques do Vini.
— Me desculpe. — Falei.
— Do que adianta você só se desculpar, e depois voltar à falar com ele ?? — Perguntou ela. — Ele só vai te fazer mal de novo, Riquelme !
— Márcia, chega, eu sei que você quer me proteger do Vini, mas eu não preciso disso. Você está igual a família do Nell. — Falei. — Está se tornando uma obcessão.
— Não é não Riquelme, eu só não quero que você sofra ! Você não viu ? Naquele dia eu falei com você sobre isso, e o que deu ? Você bateu a cabeça, perdeu a memória e sofreu mais ainda nas mãos do Vinícius ! — Exclamou ela.
— O que aconteceu já não importa mais. Eu conversei com ele naquele parque e colocamos um fim em tudo. — Falei.
— Um fim ? Por favor, não importa o quanto vocês briguem, toda hora voltam à se falar de uma maneira ou outra. — Afirmou Márcia.
Naquele dia em que eu perdi a memória na frente da casa do Vini, muita coisa aconteceu. Três dias antes, eu havia tido um sonho muuuito bonito com ele. Daqueles que você nunca mais esquece, sabe ? E, considerando o bobinho que eu sou quando apaixonado... Aquele sonho foi o início pra desencadear tudo.
O sonho me deixou morrendo de saudades do Vini, e eu achava que era um sinal, um sinal de que algo iria nos unir, após tanto tempo afastados.
Eu liguei pra Márcia e fui na casa dela, lá nós conversamos sobre isso.
Flashback ON
— Márcia, eu tenho certeza de que agora eu vou voltar à falar com o Vini, esse sonho me mostrou tudo. — Falei.
— Como foi o sonho ? — Perguntou ela.
Fiquei um tempão contando o sonho, cheio de detalhes.
— E aí no final, ele me levou nas costas num caminho beeem bonito, cheio de flores. — Terminei de contar.
— Fantasioso demais, onde é que tem um lugar cheio de flores, hoje em dia ? — Perguntou ela.
— Deve haver em algum lugar, ué. Com certeza tem, esse mundo é grande. — Respondi.
— Foi um sonho Riquelme, ele não vai se tornar realidade, pare de ser esquisito. — Disse ela.
— Vai sim Márcia, vai sim ! Eu acredito ! — Exclamei.
— Você acha que se os sonhos se tornassem realidade, eu estaria aqui hoje ??? Claro que não ! Eu estaria morando num palácio de cristais na antártica, se fosse assim. — Disse ela. — E conseguiria controlar o gelo, vivendo imortalmente.
— Mas você vê frozen demais. O meu sonho pode se realizar, ele não é tão fantasioso assim. — Falei.
— Só o fato do Vinícius gostar de você no sonho, já o torna mais fantasioso que o meu. — Disse ela.
— Nossa..... — Murmurei.
— Coloca isso na sua cabeça Riquelme ! O Vinícius não gosta de você, ele não da a mínima, nem se quer lembra de você nesse tempo em que vocês estão afastados ! — Exclamou ela.
— Não é verdade... Mesmo que ele seja um pouco idiota, sei que ele não é tão insensível assim.
— Então vai lá pra ele te dar um suco na cara, igual da última vez. Ou você já se esqueceu ?
— Para... Você só tá dizendo tudo isso porquê tem inveja. — Falei.
Márcia se levantou da cama dela inconformada, e falou :
— Há, há há, eu com inveja ? Até parece ! E de quem eu teria inveja ? De você ? Eu não ! Eu tenho é pena ! Gostar de alguém tão ruim assim, credo. — Disse ela.
— Não Márcia, você tem inveja do Vini, só porquê eu pareço gostar mais dele do que de você.
— Cala a boca ! Eu te conheci faz pouquíssimo tempo, há poucos meses ainda. — Disse ela. — Você não tá com o ego um pouco inflado, não !?
— Mas é isso mesmo, se não você não seria tão obsessiva comigo.
— Eu só falo essas coisas, porquê eu tento te proteger daquele TRASTE. — Falou a Márcia.
— Eu nem sei porque você chama ele de traste ! Você só sabe dele por causa das coisas que EU conto ! — Exclamei.
— Não importa, você já me contou o suficiente pra fixar na minha cabeça que ele é um desgraçado. — Disse Márcia. — Você precisa procurar outra pessoa, alguém que cuide de você e te ame.
— Outra pessoa !? E essa pessoa seria quem !? VOCÊ !??? — Perguntei.
Márcia me deu um tapa na cara, bem forte. O barulho ecoou pelo cômodo, e depois, a marca da mão dela ficou estampada no meu rosto.
— VOCÊ NÃO SABE DE NADA ! PARE DE FALAR ESSAS COISAS EGOÍSTAS ! — Exclamou ela. — VOCÊ ACHA O QUE ? QUE EU SOU APAIXONADA POR VOCÊ É ? SE ENXERGA RIQUELME, VOCÊ É HORROROSO !
— ... — Fiquei quieto.
— Olha esse seu cabelo ! Todo bagunçado ! Nem se dá o SA-CRI-FÍ-CI-O, sim, porquê pra você é um SACRIFÍCIO pentear o cabelo. Você anda com a camiseta toda amassada e vai com a mesma calça todos os dias pra escola ! — Exclamou ela.
— Verdade... S-será que o Vini não gosta de mim, por causa dessas coisas... ? — Perguntei. — Preciso mudar o meu estilo então...
— OLHA O QUE VOCÊ TÁ FALANDO, CARA !! NINGUÉM MUDA POR NINGUÉM !! VOCÊ NÃO PODE MUDAR PELO VINÍCIUS ! ELE TEM QUE GOSTAR DE VOCÊ DO JEITO QUE VOCÊ É !
— ME DEIXA ! Mesmo que eu tenha que mudar muito, mesmo que eu tenha que fazer o impossível, pra um dia o Vini me amar, eu farei qualquer coisa !
— INGÊNUO, FANTASIOSO ! — Exclamou ela.
— Pode me chamar de ingênuo ! Eu não ligo !
— SABE O QUE VOCÊ DEVERIA FAZER ? IR LÁ NA CASA DELE, E JOGAR TUDO NA CARA DELE SOBRE O QUE ELE TE FEZ ! — Exclamou ela. — VOCÊ DEVIA FALAR PRA ELE O QUANTO ELE É DESPREZÍVEL, E DEVIA FALAR TAMBÉM O QUANTO ELE TE FEZ MAL !
— M-mas...
— O PRINCIPAL MOTIVO DE VOCÊ INSISTIR COM ESSA DROGA, É QUE ATÉ HOJE VOCÊ NUNCA DESABAFOU COM ELE, E VIVE COM ESSES SENTIMENTOS INTALADOS ! — Exclamou ela.
— ..... — Fiquei quieto, eu tinha que concordar com aquilo. Talvez Ela tivesse razão naquele ponto.
— Aff, você é muito idiota ! — Exclamou ela.
— Eu vou pra casa. — Afirmei, enquanto me levantava e saía do quarto dela.
Márcia me seguiu até a calçada, e lá me falou :
— Eu realmente espero que você vá na casa dele e jogue tudo na cara. Esqueça esse sonho de merda, ele nunca vai se realizar ! — Exclamou ela. — Diga que ele é um traste, diga que ele só te fez sofrer, e conte também que você não precisa mais dele !
— Eu vou fazer o que EU quiser, e falarei o que EU quiser ! — Exclamei.
— Então ÓTIMO, VAI LÁ COM O "VINI", E NÃO PRECISA MAIS FALAR COMIGO TAMBÉM ! — Exclamou ela.
— PODE APOSTAR ! EU VOU IR LÁ NA CASA DELE E FAREMOS AS PAZES DE NOVO ! EU TENHO CERTEZA QUE ELE VAI... — Fui falar, mas a Márcia fechou a porta de sua casa e me interrompeu. Fiquei sozinho do lado de fora.
— Ser meu amigo de novo... — Terminei a frase, mas sem ninguém ouvir.
Flashback OFF
Depois dessa briga tensa, eu fiquei três dias inteiros trancado dentro do quarto, pensando e pensando. Eu esqueci até mesmo de comer, e no fim decidi que iria até a casa do Vini, fazer o que a Márcia sugeriu.
Eu decidi ir lá, jogar tudo na cara dele, e dizer o quanto ele me fez sofrer.
Eu ia contar sobre o sonho que eu tive com ele, e que este nunca poderia se realizar, por culpa dele !
De alguma maneira, a Márcia me induziu... Mas, quando eu cheguei lá... Fiquei muito confuso.
Eu fiquei oscilando entre desabafar e me declarar mais uma vez. Eu queria contar do meu sonho pro Vini de uma maneira alegre, do modo que ele ficasse feliz ao saber que eu sonhei com ele, mas, a voz da Márcia martelava na minha cabeça.
Flashback ON
Estou em frente ao portão da casa do Vinícius, e meu dedo está a poucos centímetros da campainha.
E-eu não vou conseguir... Eu definitivamente não vou conseguir... ! Faz tempo que não nos falamos, e eu vir aqui de repente é muito... Eu não posso... Eu nunca conseguirei dizer isso à ele.. Vini...
N-não !! Gabriel !! Você tem que conseguir !! Você fez muita força para chegar até aqui na casa dele !! Seria tudo em vão se você voltasse agora !! Vamos... Falta pouco... T-toque a campainha !
V-Vini... Eu tenho que te dizer isso... É muito importante... Você precisa saber... E-eu não estarei fazendo isso por você, mas sim, por mim... Eu preciso te falar isso... E-eu preciso ! Será o único jeito de eu me libertar e seguir em frente ! Eu tenho que desabafar tudo que estou sentindo agora, para que possa me soltar dessas correntes ! Você tem que saber o quanto me fez mal !
Não Gabriel !! Mesmo que você a toque, ele não irá te ouvir. O Vini só vai brigar com você como se ele tivesse toda a razão !! Você sabe que ele é uma pessoa má, ele NUNCA se importou com você, e não é agora que ele vai se importar !
Mesmo que ele brigue comigo... Mesmo que ele me bata... Mesmo que ele faça o que quiser... E-eu terei dito... E isso já será o suficiente. Ele irá entender que ELE é quem sempre foi o vilão da história !
Mentira ! Não será o suficiente ! Você não quer apenas que ele te ouça... Tudo que você deseja é o...
— Amor e o carinho do Vini... — Sussurrei pra mim mesmo, enquanto aproximava meu dedo em 1 centímetro pra perto da campainha.
G-Gabriel... Falta muito pouco... Consiga ! Seja forte ! Toque a campainha !!
— T-toque... A-a campainha... — Sussurrei. Meu dedos estavam todos trêmulos, inúmeras lágrimas escorriam dos meus olhos e eu sentia uma dor enorme dentro de mim.
T-tudo que o Vini me fez à um ano atrás... Eu nunca entendi o motivo daquelas coisas... Têm que haver uma explicação... E-eu preciso que ele me diga.. ! Eu preciso saber o porquê dele ter me magoado tanto, e dito todas aquelas coisas ruins !
Mentira ! Não há explicações, o Vini fez tudo aquilo porquê ele nunca se importou comigo, ele sempre só pensou nele mesmo... Tudo que ele quer é um seme bem forte pra ele, eu aposto...
Aquele besta possui todos os defeitos do mundo, fala muito palavrão e é um completo idiota !
M-mas mesmo assim... Eu não consigo controlar... M-meus sentimentos...
V-Vini... E-eu...
— Eu estrelo você... — Murmurei, enquanto tocava a campainha.
No momento em que ouvi o barulho da campainha, senti uma tontura fortíssima e uma enorme dor dentro de mim. Tudo começou a girar e a se apagar deixando minha visão totalmente obscura.
Flashback OFF
Eu devo ter desmaiado porquê fiquei três dias sem comer, e a consequência disso, foi bater a cabeça na guia da calçada e perder a memória.
Foi isso que aconteceu.
— Márcia, se continuarmos assim, iremos acabar igual da última vez... — Falei. — Você quer mesmo encerrar nossa amizade, por causa de um ciúme bobo ?
— NÃO É CIÚMES, CARAMBA ! — Exclamou ela, enquanto dava um soco numa das prateleiras.
— Por que você não entende ?? Eu não voltarei à falar com ele !! Nossa história já se acabou !!
— Mentira ! Eu não confio em você ! — Exclamou ela, enquanto vinha até mim e colocava a mão no meu peito, pressionando as unhas com a intuição de me arranhar.
— Não confia... ? — Perguntei.
— Em relação ao Vinícius não ! Pois eu tenho certeza de que agora que você recuperou a memória, aquele Gabriel bobo e apaixonado vai ir saindo lentamente de dentro de você ! —Exclamou ela. — É só uma questão de tempo até você voltar à falar com o "Vini" !
— E DAÍ ?? SE EU VOLTAR À FALAR COM O VINI, SERÁ PROBLEMA MEU, E NÃO SEU ! VOCÊ É UMA PARANÓICA CIUMENTA E POSSESSIVA ! SERÁ QUE VOCÊ NÃO ENTENDE, MÁRCIA !? VOCÊ NUNCA VAI ROUBAR O LUGAR DO VINI DENTRO DO MEU CORAÇÃO ! — Exclamei.
— Eitaaaa, que gritaria é essa aí !!??? — Perguntou a tia da biblioteca, de lá da frente.
Fiquei com a respiração acelerada por causa do grito e da mudança de estado. Estava até ofegante.
— ... Certo, eu já entendi. Seja feliz. — Disse Márcia, enquanto ia pra saída da biblioteca.
Eu deixei ela ir, e não a segui. Seria melhor assim.
Não, eu não quis seguir ela. Apenas falei a verdade, e eu estava certo.
— ... — Fiquei quieto, ali parado.
Vinícius POV
Eu estava no refeitório com o Guilherme, com a Isabel e com o "Nell". Ele é legal até, pensei que ele fosse mais esquisito pra conversar.
O estranho é que a Verônica e o Pedro ainda não vieram falar com a gente. Aliás, eles sequer entraram no refeitório hoje.
— Verônica ainda não veio atrás de mim hoje, que estranho. — Comentou Nell.
— É verdade, ela sempre sai daqui bufando atrás de você. — Falei. — E agora quando você está aqui, ela não vem. Que estranho.
— Talvez ela esteja ocupada fazendo alguma coisa, no clube dela. — Disse Guilherme.
— Querem que eu vá lá falar com ela ? — Perguntou Isabel.
— NÃO ! Pode ficar aí, muito obrigado. — Respondeu Nell.
— É que ela estava muito estranha ontem. Ela e o Pedro. — Falou Isabel. — Acho melhor eu ir ver sim.
— Vai lá Isabel, a gente fica aqui. — Falei.
Isabel se levantou e saiu do refeitório, nos deixando lá.
— Não se preocupa não Nellzinho, se ela vier aqui, eu te protejo dela. — Disse Gui.
Estranho, tudo está muito estranho ultimamente.
Agora não sinto apenas que tem algo faltando, como também sinto que tem algo de errado acontecendo. Uma sensação ruim, sei lá.
Isabel POV
Fui até o clube de jornalismo e bati na porta.
O que será que eles tão fazendo aí dentro ? Será que conseguiram uma notícia muito importante ? É a única explicação coerente.
Verônica e Pedro estavam muito estranhos ontem e hoje na entrada.
Bati na porta de novo e esperei mais um minuto, mas ninguém abriu, então eu abri por conta própria.
Quando entrei lá dentro, vi Verônica, Pedro, e mais três garotas também do clube, assistindo á um vídeo numa televisão que ali havia.
Era o vídeo do Vinícius... Chupando aquele vibrador...
— Verônica... ? — Perguntei.
— Isabel ! — Exclamou ela, ao virar pra trás e se assustar ao me ver.
Saí correndo dali e voltei pro refeitório.
Vinícius POV
— Vinícius ! Eu vi ! — Exclamou Isabel, ao chegar correndo no refeitório, esbarrando em todo mundo.
— O que foi ?? Calma mulher ! — Exclamei.
— A Verônica e o Pedro estavam assistindo aquele vídeo seu, lá no clube deles ! — Exclamou ela.
Meu vídeo ? Não acredito. Então era mesmo o meu vídeo que estava circulando por ai ? O vergonhoso vídeo de eu chupando um vibrador !? Mas por que a Verônica tem ele ??
DROGA ! O PEDRO ESTÁ ASSISTINDO TAMBÉM !? O QUE ELE VAI PENSAR DE MIM !? E AGORA, CARAMBA, TÁ TUDO LASCADO !
Não é só isso, eles são do clube de jornalismo ! Eles vão publicar o meu vídeo pra todo mundo ver !!?? Não, não pode ser !! Eles são meus amigos !!
— É sério !! Era realmente o seu vídeo !! Eu vi !! — Exclamou ela.
— Vixi... — Disse Guilherme.
— O que ? Que vídeo ? — Perguntou Nell.
— Não falem pra ele ! — Ordenei ao Gui e à Isabel, enquanto me levantava.
— Aonde que você vai, Vinícius !? — Perguntou ela.
— Irei na fonte de tudo isso ! — Respondi, demonstrando raiva.
Exato ! Eu e a Isabel conversamos muito sobre isso, e só há uma pessoa que pôde ter feito isso comigo !!
O único que brigou comigo e no fim, desenvolveu ódio por causa de tudo que eu fiz. Aquele garoto inteligente que tenta controlar os outros enquanto fica só assistindo. Aquele que sabe fazer jogos psicológicos e sabe muito bem prever a ação das pessoas.
Adentrei a biblioteca e vi o Gabriel sentado lá sozinho, parecendo um pouco triste.
— Gabriel. — Falei num tom sério, enquanto batia em sua mesa.
— Vini ?? — Ele pareceu surpreso, e fez um olhar de gato encurralado.
— Agora você vai me contar, tudo que sabe ! — Exclamei.
EU FAREI ESSE MALDITO DESEMBUCHAR TUDO ! EU TENHO CERTEZA DE QUE ELE É O CULPADO !
Isabel POV
Saí do refeitório e deixei o Gui sozinho com o Nell.
Tenho certeza de que o Vinícius foi atrás do Gabriel, e por garantia, se ele não conseguir arrancar nada daquele garoto espertinho, eu conseguirei arrancar de outra pessoa. Tudo indica que foi o Gabriel que mandou o vídeo pra Verônica e pros demais, e se ele realmente fez isso, há uma pessoa que vai saber me dizer muito bem.
Procurei na escola toda: no banheiro, na biblioteca (vi o Vinícius e o Gabriel lá), na quadra, no pátio, na área aberta, mas não obtive sucesso em encontra-la.
Se ela não está aqui em baixo, só pode estar lá em cima.
Subi a escada que passa do lado da sala do clube de jornalismo, e rapidamente tive a visão da Verônica saindo da mesma.
Procurei no primeiro andar mas não achei nada, porém obtive sucesso em uma das salas no segundo andar.
Márcia estava lá, sozinha em sua sala de aula, sentada no fundo e se mostrando bem pensativa.
— Márcia ! — Exclamei.
— O que... ? — Perguntou ela.
— Agora você vai me contar TUDO !! —Exclamei.
— Contar o quê, Isabel ? Não tenho nada pra contar. — Disse ela, num tom muito desanimado.
Verônica POV
Segui a Isabel até o segundo andar, pois queria explicar à ela sobre o vídeo. Mas ela de repente adetrou um sala, fechando a porta em seguida.
Coloquei a cabeça encostada na porta e tentei ouvir as vozes. Isabel falava num tom bem zangado.
Márcia e Isabel, né ? Elas vão brigar ?
Aposto que descobrirei coisas muito úteis ao ouvir essa briga.
Permaneci encostada na porta do lado de fora, apenas ouvindo o que elas falavam.
Continua no capítulo 22.
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