Eu escolho Paris

5 Eu escolho Paris - parte V


Notas iniciais
Boa leitura!

...

Spencer e Hanna se ofereceram para passear com Emily pela praça central, quem sabe passar em algum lugar e comer um hambúrguer. Se ofereceram também para ficar com ela, assistirem um filme juntas. Também ofereceram que fossem as três para a casa de Hanna, fazer uma festa do pijama. E, por fim, sugeriram apenas ficar ali, fazendo companhia a Emily. Apesar de todas as opções anteriores parecerem mais divertidas, Em optou pela última.

Depois de jogarem conversa fora sobre um novo vídeo de alguma banda da moda e de falarem sobre alguns temas recentes, dessas novidades que saem na TV e na internet, mas que, na verdade, ninguém tem realmente interesse, a conversa foi ficando meio tediosa, principalmente porque sabiam que, se quisessem, podiam ter uma conversa de verdade, sobre coisas sérias como trabalho, mudanças, entre outras coisas, e sobre assuntos delicados e doloridos, conversas sobre Toby, Caleb e Alison. Mas Emily não queria mais uma noite de lágrimas, Hanna nem sabia o que pensar sobre isso, pois tem coisas que surgem do nada e se desfazem da mesma forma e com Caleb tinha sido assim, e Spencer, não queria mais dúvidas: “por quê? O que eu fiz para merecer? ”, ela estava cansada disso.

Aquietaram-se finalmente sobre a queen size de Emily. Era apertado para elas três, mas, ao mesmo tempo, era boa a sensação de estar rodeada de amigos, sensação de amor, de presença, de compreensão. Era muito bom que estivessem juntas. Finalmente. Novamente. Era bom ter com quem contar.

...

Quando amanheceu para Emily, Hanna e Spencer já passava da hora do almoço, elas haviam dormido demais, mas havia valido a pena. Fora a primeira vez em muito tempo que Emily dormira profundamente, sem pesadelos, dormira feito uma pedra, quase literalmente.

A Sra. Fields chamou as garotas para que ficassem para o almoço, mas Hanna saiu quase correndo, dizendo que era impossível preparar-se para uma festa às sete da noite se já passava de meio-dia! Spencer decidiu ficar, apenas porque queria conversar mais um pouco com Emily – e também porque adorava os sanduíches de Pam Fields.

– Você me mostraria seu vestido? – Perguntou Spencer a Emily quando acabaram o almoço.

– Na verdade, eu ainda nem o vi. Apenas mandei um vestido que fica bem em mim para que a moça checasse as medidas e fizesse ajustes no vestido que mamãe escolheu. Chegou ontem.

– Oh-meu-Deus! Emily! Este vestido é maravilhoso! – Comentou Spencer quando viu o vestido que Emily acabara de buscar no quarto de sua mãe – vai ficar perfeito em você.

– Não estou muito no humor para me arrumar, na verdade, Spence.

– O que?! Com esse vestido e a bendita combinação dos genes do seu pai e da sua mãe, Em, você pouco vai precisar fazer para ser a mulher mais bonita da festa!

Emily apenas riu. Era tão bom rir um pouco.

– Obrigada – agradeceu sinceramente.

– Já sei – Spencer continuou – você vai pegar suas coisas e nós vamos para a minha casa. Vamos tomar banho quente, lavar os cabelos, passar loção corporal e todas essas coisas que mulheres fazem antes de uma festa. Vou te maquiar, sei que não sou a melhor, mas vai dar certo e vamos ficar maravilhosas para a festa da Alison!

– Para o casamento dela.

– Não, para a festa da minha amiga Alison em que minha amiga Emily, que sempre foi apaixonada pela Ali, vai criar coragem e tomar as rédeas da própria vida e de seus sentimentos e vai arriscar tudo para ficar com a mulher da sua vida.

– Falando parece tão fácil.

– Quando você estiver dona de si dentro desse vestido maravilhoso, vai ser fácil! – Spencer riu – cruzes, estou falando igual a Hanna!

...

Se alguém tivesse ouvido Spencer falar horas antes o quão maravilhosa Emily ficaria naquele vestido, saberiam que as palavras de Spencer não faziam jus a quão deslumbrante ela estava naquela noite.

Emily cruzou o enorme espaço gramado do buffet de braços dados com Spencer a caminho do pequeno duplex todo decorado que ficava ao fundo, onde Alison deveria estar fazendo os últimos retoques em sua roupa e maquiagem para, então, descer para encontrar seu noivo que a esperaria ao pé da escada principal, como era de praxe em festas de casamento naquele buffet – o único buffet da cidade de Rosewood. Por onde passava, rostos se voltavam para ver de quem se tratava, Emily recebeu sorrisos de antigos conhecidos, recebeu leves meneios de cabeça em forma de cumprimento de pessoas que ela nunca havia visto, mas que pareciam reparar nela, e percebeu que Spencer tinha razão, aquele vestido realmente tinha ficado bem nela.

– Vocês estão maravilhosas – a morena ouviu a voz de Hanna falar ao aproximar-se dela e tomá-la pelo braço.

– Estão deslumbrantes. Especialmente você, Em – comentou Aria ao se aproximar e enfiar-se entre Spencer e Emily – que saudades de você – falou, enquanto a abraçava meio de lado.

Pararam no meio do grande jardim e abraçaram-se as quatro, Hanna e Spencer abraçaram-nas sobre o já apertado abraço de Emily e Aria.

– Você não cresceu um centímetro sequer, hein – gargalhou Emily.

– Ah, isso não é justo – resmungou Aria, mas também ria – vocês precisam ir lá em cima! Alison está tão nervosa! Não sei... é um grande passo. E acho que com tudo que você falou ontem, Spence... ela ficou assustada.

– O que você falou? – Emily perguntou, já imaginando que Spencer poderia ter falado qualquer coisa sobre ela e seus sentimentos.

– Não foi nada sobre você, especificamente.

– É, realmente. Não foi nada sobre você – reforçou Hanna.

– Não acredito que vocês fizeram isso! – Emily reclamou com uma expressão quase desesperada – vocês não podiam ter feito isso! Eram meus sentimentos, só eu poderia decidir se queria falar sobre isso. E Alison está a minutos de seu casamento! Você não podia ter bagunçado a cabeça dela, Spencer!

Sem reclamar mais, pois sabia que não resolveria a bagunça que suas amigas já tinham causado, Emily disparou para a escada lateral do duplex para conversar com Alison e desculpar-se pela atitude de Spencer e dizer a ela que fosse em frente com seu casamento, que ela merecia ser feliz.

– O que foi aquilo? – Aria perguntou com uma grande interrogação em sua expressão facial.

– Emily acha que falamos para Alison que ainda é apaixonada por ela – explicou Spencer.

– Só que nós não falamos – completou Hanna.

– E agora Emily vai lá falar com Alison como se todos os seus sentimentos já estivessem expostos – captou Aria – como vocês pensaram nisso?

– Não pensamos. Você falou sobre o nervosismo de Alison, sobre o que eu falei, e sei lá... eu só quis dar um pouco a entender! Só um pouquinho – sorriu amarelo – Emily estava precisando de um empurrãozinho – soltou Spencer.

– E eu só segui a história — continuou Hanna.

– Mas bem que não foi um empurrãozinho. Foi um empurrãozão.

– Você acha? – Perguntaram Hanna e Spencer ao mesmo tempo, preocupadas.

– Mas também – Aria tentou amenizar – era agora ou nunca, não é?

As três tocaram as mãos em um círculo, torcendo para que, qualquer que fosse o desfecho daquele pequeno empurrão, Em e Ali não ficassem chateadas com elas e também que nenhuma delas, por nenhuma entenda-se Emily, saísse machucada. Emily já havia passado por tanta coisa e sofrido tanto por causa de Alison, ela já estava tão calejada, mas, ao mesmo tempo, parecia ainda tão frágil quando o assunto era seu amor pela amiga. Elas só ficaram ali de mãos dados, pedindo a todas as divindades possíveis que desse tudo certo.

...

Emily subira cada passo da escada bem devagar, ensaiando tudo que falaria a Alison para acalmá-la. Um discurso sobre amor, sobre não desistir, sobre não deixar que o medo ou as dúvidas a atrapalhassem. Um discurso que na teoria era maravilhoso, mas que na prática era tão difícil: ela era a prova viva disso.

De nada serviu levar quase 10 minutos para subir dois lances de escada, pois quando entrou no quarto e viu Alison naquele vestido longo e branco com detalhes em pedrarias miúdas e delicadas. Deus! Ela estava tão linda. Seus cabelos dourados estavam quase totalmente presos em um coque lindamente desleixado, alguns fios ondulados caiam sobre seus ombros, combinando perfeitamente com sua pele clara, mas bronzeada. O vestido marcava cada detalhe no corpo lindo de Alison. Não, não era um corpo de modelo, era o corpo da mulher que Emily amava, com todas as suas marcas e voltas e características tão específicas e únicas, tão dela.

Alison tampouco pôde deixar de reparar que o vestido azul escuro da cor da madrugada caía perfeitamente sobre as curvas leves de Emily. A pele cor de oliva de Emily brilhava debaixo de alguma loção corporal que cheirava a alguma fruta tropical que Alison não reconhecia, dessas que é tão difícil de encontrar na América do Norte. Mas era tropical. Era quente. Como um delírio, pisando em um mar de areia branca e quente de uma praia da América do Sul em pleno meio-dia, com a brisa tocando seu rosto e balanceando aquela sensação: calor e liberdade.

Quando os olhos das duas mulheres no quarto finalmente se cruzaram, as palavras faltaram, faltou o chão, até o ar precisou ser buscado com mais afinco, mesmo sendo o ato de respirar algo tão natural e básico, elas esqueceram-se de como fazia. Os olhos incrivelmente azuis de Alison chegaram a sorrir ao cruzar com os olhos escuros e um tanto entristecidos de Emily. Aquela conexão. Há tanto tempo aqueles olhares não tinham o prazer de cruzar-se que decidiram parar ali mesmo, perder-se um dentro do outro, por minutos a fio, pareciam um casal a namorar, independentes e concentrados. Por mais que Emily ou Alison quisessem desviar, não era possível.

Aproximaram-se quase inconscientemente e Alison finalmente conseguiu falar qualquer coisa. Apenas o nome de Emily saiu sussurrado de seus lábios. Em um tom rouco, mas ao mesmo tempo tão suave, um tom doce que só a voz de Alison tinha. Emily sentiu um calafrio percorrer seu corpo, começando na nuca e descendo até a ponta de sua coluna, fazendo-a tremer. Não saberia nem seu próprio nome se lhe perguntassem, não sabia o que viera fazer ali e não lembrava as coisas que viera dizer.

– Senti saudades de você – Alison falou novamente, ainda em um sussurro, como se fosse um segredo.

– Eu sei – respondeu Emily finalmente – eu sei.

Abraçaram-se como há anos não faziam. Abraçaram-se e apenas ficaram ali abraçadas. O cheiro tropical de Emily e o cheiro de flores e frutas vermelhas de Alison confundiam-se e as deixavam um pouco embriagadas em meio àquele contato tão simples, tão íntimo e tão profundo. Era tudo ao mesmo tempo. Tudo de bom que se podia ser. Parecia que não havia nem nunca houvera uma gota de sofrimento, de decepção, de distância entre elas.

– Eu estou com tanto medo.

Emily continuou abraçando-a sem saber exatamente o que responder a Alison, sem saber se deveria abrir a boca para dizer algo. Tinha medo também. Medo de que, ao abrir os lábios, tudo que não deveria dizer a Alison quando ela estava a poucos minutos de seu casamento, saísse sem que ela pudesse controlar.

– Estou assustada – Alison falou depois de algum tempo – será que sou muito jovem? Será que é muito cedo?

– Você o ama? – Emily perguntou calmamente. Com a calma que não tivera até hoje para tomar decisões racionais sobre seu sentimento por Alison.

– Eu...

Por um momento, Emily acreditou que podia ouvir Alison confessar seu amor pelo seu noivo, mas, no segundo seguinte, percebeu que não. Ela não podia, ela não queria e ela não iria ouvir o que Alison tinha a dizer, não sabendo que os sentimentos dela por seu noivo podiam machucá-la ainda mais do que já estava machucada por todos esses anos de solidão e saudade. Era a vez dela de falar. Uma vez na vida Emily precisava falar. Ela precisava. Já chegara até ali, metade de tudo já fora dito em palavras, em beijos, em cartas, em sonhos, ela só precisava olhar nos olhos de Alison e falar. Só precisava falar.

Notas finais
Comentários para mim neste estágio quase final do conto? :3