Eu escolhi você!
4 Capítulo 4
Notas iniciais
Capítulo 4
No dia seguinte, tudo estava preparado para o sorteio dos Distritos. Os filhos e filhas dos prefeitos tiveram de acordar bastante cedo para participarem. E toda a transmissão do evento iria acontecer ao vivo, como era de costume.
– Eu tô falando sério, cara... — Cochichou Finnick para Peeta. Eles estavam sentados em cadeiras dispostas em uma linha reta no fundo do palco. — Se o meu Distrito for sorteado, eu vou fugir com a Anne. Já tenho tudo esquematizado para hoje à noite mesmo.
– Cara, isso não tem como dar certo. — Peeta cochichou em resposta. — Vocês logo serão pegos e punidos. Sabe muito bem que a pena para esse tipo de crime é a morte.
Finnick esboçou um sorriso de lado.
– Se isso acontecer, tenho certeza que a última coisa de que me lembrarei é dos lábios dela.
– Meu Deus, Finnick, isso é sério!
– Assim como o meu amor por ela. — Rebateu Finnick, de imediato.
Peeta revirou os olhos e já ia argumentar, se não fosse ter sido interrompido por uma voz robotizada vinda de uma das caixas de som.
– Senhoras e senhores, queiram receber com muito entusiasmo nosso mais querido apresentador... Ceasar Flickerman!
– Bom dia, Panem! — Gritou Caesar para a platéia, dando o melhor de seus sorrisos. — Vocês estão preparados para o sorteio? — A platéia respondeu gritando, com um sonoro "sim". E ele continuou: — Então, queiram receber com muito aplauso, a nossa linda e irresistível... — Estendeu o braço para um lado do palco e continuou. — Effiiiiie... Trinkeeeeet!
Quando Effie entrou munida com outro microfone, a platéia ficou em polvorosa, chegando a aplaudí-la de pé. Ela era muito amada pela Capital, e até mesmo pelos Distritos.
– Muito obrigada pela recepção tão adorável, querido Ceazar! — Cumprimentou Effie após receber um beijo carinhoso do apresentador, em sua mão. Em seguida, se dirigiu para o palco e para uma das câmeras. — Bem vindos! Sejam todos bem vindos ao sorteio mais esperado do ano! E que a Sorte esteja sempre ao seu favor! Tenho certeza que todos aqui estão bastante ansiosos para saber qual dos Distritos irá participar dos Jogos Vorazes desse ano. — Comentou Effie e a platéia gritou em resposta.
Então foi a vez de Ceasar voltar a se pronunciar.
– Com certeza, Effie. — Os dois se entreolharam sorrindo com cumplicidade. — Assim como eu não tenho dúvida de que nossos tributos também não vêem a hora disso acontecer, não é mesmo?
A câmera focalizou os tributos que não demonstraram nenhum tipo de entusiasmo. Effie e Ceasar acabaram ficando sem graça. Imediatamente, alguém dos bastidores pediu para que o câmera deixasse de focalizá-los, pois isso acabaria estragando o programa.
– Então, Effie, vamos ao que interessa. — Comentou Ceasar se referindo ao sorteio. — Queira fazer as honras! — Segurou a mão de Effie, como um perfeito cavalheiro, conduzindo-a até uma bola de vidro que se situava no meio do palco.
Ela sorriu em resposta e, sem mais delongas, enfiou o braço dentro da bola de vidro e, depois de fazer um pouco de suspense, pegou um dos papéis. Então depois de abrí-lo, falou ao microfone com voz estridente.
– E o Distrito que irá participar dos Jogos Vorazes desse ano é o... — Pausou e olhou para a platéia, fazendo ainda mais suspense. — Distrito... Quatro!
Peeta arregalou o olhar. Aquele era o Distrito de Finnick, seu melhor amigo, que acabara de dizer que cometeria uma loucura se fosse sorteado.
Virou o rosto para o amigo, e percebeu que ele permanecia imóvel em sua cadeira. Seu olhar vidrado em alguém que estava no meio da platéia... Anne, que naquele instante, encontrava-se chorando, inconsolável.
Então foi aí que tudo aconteceu. Em um segundo, Peeta estava sentado em sua cadeira enquanto presenciava a cena de um casal que estava prestes a se separar. E no outro, ele estava caminhando em direção ao centro do palco, numa tentativa maluca de reverter tudo aquilo.
– Eu me ofereço! — Peeta quase gritou, chamando a atenção de Effie, Ceasar e de toda uma platéia. — Eu me ofereço para tomar o lugar do Distrito Quatro!
Ceasar arregalou o olhar e seu sorriso foi de um canto a outro de seu rosto.
– Ora, ora, mas que reviravolta, heim, platéia! Pela primeira vez na história dos Jogos Vorazes, temos um voluntário. — Ceasar disse já segurando o ombro de Peeta. E a platéia vibrou. — Será que você pode nos dizer a que Distrito você pertence, meu rapaz?
– Doze. — Peeta respondeu mirando uma das câmeras. Ele estava nervoso e com uma pontinha de arrependimento pelo que fez. Contudo, era tarde demais para voltar atrás. Por isso, repetiu com convicção: — Eu pertenço ao Distrito Doze.
Mas quem não gostou nenhum pouco dessa idéia de voluntariado foi uma certa garota que assistia a tudo, sentada no sofá de sua casa, juntamente com sua mãe e irmã.
– Mas o que esse idiota pensa que tá fazendo?! — Esbravejou Katniss, que se levantou de supetão.
– Calma, Kat! — Disse Prim, segurando a mão da irmã com carinho. — Talvez você nem seja selecionada. Tenha esperança!
A mãe de Katniss concordou com a cabeça. E também segurou a mão da filha, como se, apenas com esse simples gesto, pudesse consolá-la.
A companhia tocou, desfazendo aquele momento de cumplicidade entre as três. E Katniss foi atender.
– Gale?!
Gale olhou para ela com uma expressão aflita. E estava com as mãos enfiadas nos bolsos.
– Posso entrar? — Pediu.
– Claro. — Respondeu Katniss se afastando para dar espaço.
Eles foram para sala onde Prim e sua mãe ainda se encontravam. Gale cumprimentou-as com um sorriso não muito animador e pediu educadamente para ficar a sós com Katniss. As duas saíram, compreensivas.
Então por alguns segundos, ambos permaneceram em silêncio. Até que Gale tomou a iniciativa.
– Katnip, você sabe porque eu estou aqui, não sabe?
Katniss baixou o olhar. E suspirando, respondeu:
– Acho que sim.
Gale deu um passo em sua direção e a abraçou forte. Katniss foi pega de surpresa e quase não soube como reagir.
– Ainda dá tempo, Katniss! Só basta você aceitar. — Gale sussurrou em seu ouvido se referindo ao seu pedido de casamento.
– Gale — Katniss falou, segurando o rosto do garoto entre as mãos. E olhando profundamente em seus olhos, continuou: — A gente já falou sobre isso. E eu achei que tinha entendido. — Gale olhou de um lado para o outro, envergonhado. — Além disso, eu posso nem ser selecionada. Mas... Se eu for, eu posso te pedir uma coisa?
– Qualquer coisa.
– Quero que cuide da minha mãe e da Prim. Eu sei que elas ganharão muitas regalias enquanto eu estiver lá. Mas estarão sozinhas. — Afirmou com uma expressão preocupada. — Tenho medo que não saibam como lidar com a minha ausência.
Gale deu um sorriso amigável e fez uma carinho em seu rosto.
– Pode deixar... Farei o que me pede. — Prometeu.
E Katniss teve certeza de que ele cumpriria. Por isso, sem pensar nas consequências de seu ato, levantou o queixo dele com os dedos, se ergueu nas pontas dos pés, e tascou um beijo singelo em seus lábios.
– Melhor você ir agora. — Katniss pediu com carinho. — Daqui a pouco os pacificadores entrarão aqui para me levar.
Gale deu um suspiro longo e entristecido. Mas assentiu com a cabeça.
– Se você for embora, tenta não me esquecer, tá certo?
Katniss deu um sorriso iluminado.
– Nunca. — Prometeu. E ia completar com um: "Você é o meu melhor amigo". Mas achou que se dissesse isso, o magoaria. Pensou ser mais prudente se calar.
Então os dois voltaram a se abraçar. E em meio ao abraço, Katniss teve a sensação de que estava se despedindo. Isso a assustou profundamente. Por isso, apertou-o mais contra o peito. Ele não compreendeu de imediato, mas logo compreenderia...
Depois disso, ele foi embora. E ela rumou escada acima a fim de trocar de roupa.
Mais tarde, todas as garotas estavam concentradas em frente ao palco improvisado, que ficava diante do Edifício da Justiça quando Effie — recém chegada da Capital — Dirigiu-se até o microfone.
– Olá! Olá! — Cumprimentou, Effie, mais borbulhante e enfeitada do que antes. — Sejam todas bem vindas à Seleção. E que a sorte esteja sempre ao seu favor!
Sem querer prestar atenção, Katniss olhou em volta, a procura de sua família. E de Gale. Encontrou-os, todos juntos, em sua lateral esquerda, se espremendo entre a multidão de pais e irmãos que também estavam ali pelas suas filhas. Notou que eles queriam chegar ao menos na corda que rodeava e isolava o local. Mas infelizmente todos ali, tinham o mesmo objetivo. E era impossível chegar até lá. A sorte é que Gale teve a brilhante idéia de colocar Prim em seu pescoço, assim sua irmã poderia assistir a tudo. Isso deixou Katniss mais tranquila e até mesmo mais segura para seguir o seu destino, seja lá o que ele viesse a ser.
– Sem mais delongas, vamos ao sorteio! — Effie disse ao microfone, retirando Katniss de seus pensamentos, que voltou a encarar o palco.
O primeiro papel foi retirado de dentro da bola e lido em voz alta.
Para alívio de Katniss, não foi o seu nome. Então ela olhou de novo para a sua família em busca de apoio. Eles sorriram e mexeram os lábios sem emitir som, como que dizendo que ia dar tudo certo. Katniss acreditou naquilo. De verdade. E foram lidos mais oito nomes. Sua esperança ficava cada vez maior. Afinal, agora se tratava do último nome, e se ela escapasse, adeus jogos vorazes!
– E nossa última selecionada. Mas não menos importante é... — Katniss ouviu atentamente Effie anunciando e, apertou os olhos, torcendo em seu íntimo para que não fosse o seu nome.
Infelizmente, por ser o último nome, Effie quis fazer um pouco de suspense. O que aumentou ainda mais a sua ansiedade.
– É... — Repetiu. E sorrindo, abriu o papel. O último. Aquele que selaria o destino da última garota selecionada. E Katniss torceu para que não fosse o dela. Chegou até a cruzar os dedos, mesmo não acreditando nesse tipo de tolice. Mas para seu desespero... Effie finalmente voltou a falar.
E foi o seu nome.
– "Katniss Everdeen"
Então por alguns instantes, seu nome ecoou em seus ouvidos. Em alto e bom som. E como queria que tudo aquilo não passasse de um sonho ruim. Mas não. Era verdade. Ela era a última selecionada. Portanto, agora seu destino pertencia à Capital.
Um filme retratando toda a sua vida até ali passou pela sua mente. Tanto dos bons momentos como também dos maus. E ela se deu conta tarde demais do quanto, apesar de tudo, era feliz.
Maldito garoto! — Pensou ela, com fúria. Inventou de dar uma de voluntário, e agora quem pagaria as consequências era ela e mais nove "coitadas". Odiou aquele garoto com todas as suas forças. Por isso, naquele momento prometeu a si mesma que ele jamais teria o seu perdão. E muito menos o seu amor!
– Venha, minha querida! — Effie chamou, gesticulando com uma mão. E só aí Katniss voltou de seu estado de paralisia. — Venha! Não seja tímida.
Então, pé ante pé, Katniss caminhou até o palco, sendo recebida por Effie com um abraço "fingido". Depois disso, a mesma pediu para que Katniss se juntasse às demais garotas. E foi o que ela fez, os olhos brilhando pelas lágrimas que já se formavam. Mesmo assim, olhou para frente com a cabeça erguida, e avistou Prim se debatendo nos braços de Gale, tentando se soltar dele para chegar onde ela se encontrava.
Sua irmãzinha estava desesperada... Aos prantos. E isso acabou com o resto de confiança que ainda lhe restava.
– Vamos lá, todos juntos! Quero uma salva de palmas para as nossas lindas selecionadas! — Gorjeou Effie.
Mas para inteira decepção da apresentadora, o silêncio foi a resposta da platéia. E para piorar, todos, um por um, começaram a tocar os três dedos médios de suas mãos esquerdas em seus lábios. Para em seguida esticarem o mesmo braço em direção às garotas, em um claro sinal de protesto e admiração.
Em agradecimento, todas as meninas seguraram nas mãos uma das outras e levantaram. Então, aí sim, o aplauso veio. E Effie com medo das consequências daquele ato, tratou de apressar logo as coisas fazendo sinal para que os pacificadores empurrassem as meninas para dentro do Edifício da Justiça.
Meia hora depois, Katniss se encontrava em uma das salas aguardando para se despedir de sua família. O único que não poderia ir era Gale, afinal, daquele dia em diante, ela era prometida ao filho do prefeito. Portanto, nunca mais poderia ter contato com ninguém do sexo masculino com idade suficiente para seduzí-la e afastá-la de suas obrigações.
– Katniss! — Gritou Prim, correndo para se jogar no colo de Katniss, quando finalmente a porta se abriu.
– Patinha. — Disse Katniss, segurando o rosto dela entre as mãos. Ambas chorando.
Em seguida, sua mãe entrou e abraçou as duas ao mesmo tempo.
Katniss deu um beijo no rosto de cada uma antes de começar a falar.
– Escutem as duas! Eu vou ficar um bom tempo longe de vocês. Em compensação, vocês receberão muitos mantimentos. Quero que se alimentem bem, se fartem mesmo. Mas guardem o máximo que puderem porque quando eu voltar, a gente vai dar um jeito de fugir daqui. Estou cansada desse sistema e de todas as suas imposições. Por isso, vou tentar ficar o máximo de tempo possível na competição para que vocês possam juntar o suficiente. Entenderam?
– Sim, Kat! — Prim respondeu, convicta. — Pode deixar. Mas estou preocupada com você...
– Não fique. — Katniss disse. — Eu estou bem. E vou ficar. Prometo. — Ela olhou para as duas. Sua mãe estava calada. Katniss sabia que era segurando o choro. Ficou preocupada. Com medo que ela se ausentasse da vida de Prim como fez da última vez. Mas confiava em Gale. E ele disse que cuidaria das duas. Ele era o único "bote salva-vidas" dela.
– Kat, eu quero que fique com isso. — Prim estendeu um broche de tordo para Katniss, que arregalou o olhar. — Pra te dar sorte!
Imediatamente, katniss fechou a mão de sua irmã, recusando o presente.
– Não, Prim. Esse broche... Foi o papai quem te deu antes de morrer e...
– E... Ele ia querer muito que eu te desse. — Completou ela com carinho. — Tenho certeza!
Um sorriso de gratidão e amor se formou no rosto de Katniss. E depois de pegar o broche e guardar no bolso de seu vestido, voltou a abraçar a irmã. Só que agora com toda a força de seu coração. Prim era a única pessoa que ela tinha certeza absoluta que amava. E ficar longe dela, mesmo que por alguns meses, seria extremamente difícil.
– Kat, você chegou a ver o filho do prefeito na tv? -Prim perguntou com inocência.
– Só de relance. — Katniss respondeu, fungando — Por quê?
– Por que... Ele é bem bonito. E não sei, mas... Tenho pra mim que você vai acabar se apaixonando por ele.
Katniss deu uma risadinha.
– Pode ser. — katniss deu esperança para sua irmã, mesmo sabendo que aquilo era impossível, ou melhor, que ela estava disposta a tornar impossível. — Vai saber, não é? O destino, ás vezes, gosta de nos pregar peças bem estranhas!
Depois disso, Katniss se voltou para sua mãe. Abraçou-a forte e tentou convencê-la a ser forte para lutar contra a depressão e cuidar de Prim.
No final, um dos pacificadores, que se encontrava na porta, assinalou o fim da visita. A mãe de Katniss saiu de bom grado, mas Prim teve de ser arrancada dos braços dela, pois não se conformava em deixá-la. E isso foi de partir o coração.
Uma hora depois disso, Katniss embarcou no trem junto com suas mais novas "amigas", rumo à Capital.
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