Notas iniciais
Oi pessoal! Eu Sei Quando Você Mente já tá entrando na reta final, uuuuh. Mas calma! Já comecei a publicar minha nova história: Por Onde Andou Eichler? e me dedicarei à ela assim que terminar tudo por aqui. Só queria convidar vocês para acompanharem essa também, vai ser bem legal :) Muito obrigado e bom capítulo! https://fanfiction.com.br/historia/811417/Por_Onde_Andou_Eichler/

— Achava de verdade que me apaixonei só porque é filho do prefeito? — Paloma disse para Marcos antes de beijar o canto da sua boca.

— Enteado — ele corrigiu, mas com carinho. Corrigia toda vez que ela provocava. Eram muitas porque ela gostava de deixá-lo irritado. E ele de deixá-la com ciúmes.

— Você fica mais fofo quanto tá putinho — ela justificava quando fazia.

— E você quando tá com ciúmes — ele devolvia.

Nos finais de quinta-feira o garoto sempre a esperava deitado na grama abaixo de uma grande e velha árvore de acerola. Conforme o ritual ia se repetindo, ele pegou a mania de, horas antes, limpar o gramado do pomar para tirar as frutas que caíam do pé durante a semana.

Na primeira vez, a empregada do casarão insistiu em fazer aquilo por ele, mas Marcos pediu para deixá-lo em paz. E ela enfim deixou. Nunca tinha visto ele fazer nada por aquela casa, então não ia se meter mais. E ele só queria um gramado limpo e fresco para poder olhar o pôr do sol com Paloma.

Quem diria que aquele moleque turrão e mimado se esforçaria tanto por alguém. E quem diria que aquela garota metida e nojentinha torceria tanto o braço por um cara.

— Eu odeio acerola — ela comentou abaixo da sombra e eles deram risadas.

Foi difícil para Marcos entender o que era real e o que era alucinação. As horas seguintes foram agitadas e seu cérebro parecia não estar muito disposto a se prender aos acontecimentos ao seu redor. Aqueles inúmeros remédios fortes estavam mexendo demais com ele.

Ficar internado no hospital já estava deixando-o impaciente. Mas era sua mãe quem mais estava sofrendo. Já tinha ouvido gritar com o médico no corredor umas duas vezes antes de, de fato, forçar a sua alta.

Teria toda a estrutura para que o filho fosse bem cuidado em casa, ela insistia. Não duvidava que tivesse pedido para seu padrasto também mexer uns pauzinhos e fazer Marcos finalmente voltar para aquele rancho que detestava.

A primeira dama usava da influência do marido sempre que podia. Mas antes a perua conseguia o que queria com muita insistência e alguns barracos caso precisasse.

Quando percebeu a movimentação no quarto, Marcos ainda estava bem disperso. Era meio da tarde, tinha acabado de receber algumas frutas e sucos de lanche. Quando o médico perguntou sobre dores nos cortes, mentiu que estava tudo bem e melhor.

Não doía mais como no dia anterior, mas ainda sim era bem incômodo, principalmente enquanto se movia para fazer suas necessidades ou quando mudava a posição na cama. Por isso o médico não acreditou muito no seu relato. Antes de prepará-lo para ir até a ambulância, administrou algum remédio bem forte para que o rapaz desse uma apagada.

Nem viu muito do percurso dentro do transporte e só deu uma leve despertada quando foi retirado de lá. Sentiu o sol quente de fim da tarde pincelar seus olhos e foi inevitável ser trazido de volta do seu sono, mesmo que ainda não totalmente lúcido.

Remexeu a cabeça para os lados e sentiu os trancos das rodinhas da maca sobre a entrada de paralelepípedo do casarão do rancho. Abriu os olhos tímidos para não queimar com o sol e reconheceu as paredes de tijolo à vista da fachada da casa da fazenda.

Odiava aquele lugar. Odiava a casa grande e arejada, a sala com TV gigantesca, o quintal milimetricamente bem cuidado, o açude refrescante, o lindo lago e a plantação de pés de laranja que se estendia pelo horizonte da janela do seu quarto amplo, que também odiava.

Odiava porque tinha. E tinha porque seu padrasto deu. O homem que lhe dava tudo, anos antes tirou a sua família e levou seu pai à amargura de um suicídio quando se viu como corno e à beira de um divórcio. Sua mãe preferia o fazendeiro com ambições políticas. Ainda seria a primeira dama do Brasil, ela dizia aos quatro ventos. Adorava instigar a inveja de suas amigas peruas, madames e esposas de políticos com essa.

A porta de madeira maciça entregou Marcos à sala principal do casarão. Agora protegido do sol, abriu melhor os olhos para olhar ao redor. Os enfermeiros eram apenas borrões ao seu lado.

Apesar do ódio, era bom estar em casa e não no hospital. Principalmente depois de um ataque. Ali era seguro, talvez.

— Marcos é BV! Marcos é BV! — Paloma cantarolou para provocar. Estava no canto da sala, escondida atrás de uma cortina alta e, logo depois, saiu correndo e saltando para o corredor que dava para a sala de jantar.

— Paloma... — ele resmungou. Sabia que estava morta, mas não questionava sua presença. Eram duas realidades se chocando e ambas pareciam possíveis.

A garota espiou pelo batente do arco e deu uma risadinha. Marcos piscou os olhos e ela sumiu de sua visão. Na verdade, nem ele mesmo estava mais na sala. Apertou as mãos sobre os lençóis quentes de sua cama. Estava ali há algum tempo. Horas, talvez. Mas só de corpo. Sua mente tinha sido traiçoeira e ido longe.

Limpou a baba que escorria pelos cantos da boca e percebeu que sua vista ainda era embaçada e o movimento dos seus braços meio molenga.

— Ele vai ficar bem — sua mãe comentou para uma segunda pessoa no quarto, talvez a meia-irmã de Marcos. — Ele vai ficar bem...

Marcos nem tinha percebido que estava com companhia. Virou a cabeça para a direção de onde vinha a voz, mas viu apenas aparelhos médicos apitando e uma enfermeira desconhecida. Piscou e estava sozinho novamente.

Olhou para o lado oposto e conseguiu ver parte da copa do pé de acerola pela janela do quarto.

— Acho que já te vi por aí — a garota comentou quando ficaram sozinhos no quintal, ao lado do pé de acerola. Ela parecia meio esnobe e olhava Marcos dos pés à cabeça.

— Eu também — Marcos respondeu meio abobalhado e com vergonha. Quando a viu sair do carro acompanhada de seu pai, ficou encarando-a olho a olho por quase um minuto inteiro. E ela correspondeu. Mas foi esquisito.

O prefeito chamou o pai da garota para entrar e tomar alguma coisa. Eram amigos há anos, mas Marcos nunca tinha visto sua filha de perto. E não sabia bem como reagir depois que o fez.

Depois virou comum ela estar pelo rancho. Seus pais se reaproximaram e as famílias viviam fazendo churrascos juntos. Paloma e Marcos não se bicavam muito, mas viviam trocando olhares. Demorou quase meio ano para começarem a conversar bobagens, já que eram forçados a ficar juntos enquanto os pais se divertiam na casa da piscina.

— Marcos é BV! Marcos é BV! — Paloma cantarolou para provocar. Ele correu atrás dela para pegá-la. Queria derrubar no chão para sujar seu vestido, ou qualquer outra coisa que a fizesse parar. Ele foi um bobo quando caiu na lábia dela e acabou confessando a informação.

— Marcos é BV! — Ela continuou cantarolando e contornando o pé de acerola. Dias depois, estavam os dois novamente abaixo daquela sombra. Desta vez, ela não estava com aquele olhar de provocação. Estava mais solta e encantada. Tinha lido há poucas horas a carta que Marcos mandou para ela se confessando, no Dia do Anônimo.

E foi ali embaixo daquela árvore que deram o primeiro beijo e continuaram se encontrando todas as quintas, quando o pai de Paloma, agora delegado da cidade, se reunia com o prefeito em seu escritório para conversar sobre coisas de adultos ocupados.

Sabia que se não fosse pela amizade entre o padrasto e o delegado, Marcos jamais teria se aproximado dela. Mas ainda sim ressentia algo. O pai de Paloma era superprotetor, tinha um ciúmes ávido da filha. Com o tempo, Marcos começou a olhar para aquele comportamento de outra forma, principalmente porque percebeu que a própria Paloma não era muito afeiçoada ao pai. Havia algo estranho ali, mas não sabia desenvolver muito bem as suas ideias.

Quando o próprio delegado foi preso depois da morte da Paloma, tudo fez um pouco mais de sentido. E Marcos jurou que realmente fora ele o responsável. Ver o padrasto jogando o seu amigo próximo na fogueira para salvar sua campanha até o satisfez por um tempo. Era bom ver um culpado sendo punido. Até entender o que estava acontecendo de verdade e relacionar a sua carta com a dela. Então só ficou mais claro ainda o quanto o prefeito era inescrupuloso e cruel.

E a verdade era que Paloma foi ameaçada por um segredo de seu próprio pai. O Anônimo humilhou e assassinou a vítima de toda essa história. Por que ele não ameaçou e matou o delegado? Ele quem a estuprava desde pequena.

Mas nem era esse o fato que mais ferveu na mente de Marcos naquele momento.

— Eu devia é ter mandado ele te molestar mais! Pra aprender a parar de ser pirralho — o prefeito surgiu na porta do seu quarto e ficou repetindo várias vezes.

— Eu devia é ter mandado ele te molestar mais!

Por que seu padrasto tinha mandado seu jagunço matar Paloma? Por que o jagunço e o prefeito estavam brincando de Anônimo? Marcos não entendia. Nada fazia sentido naquele dia. Mas levantou-se da cama cambaleando para resolver aquilo.

— Eu devia é ter mandado ele te molestar mais!

Seu padrasto tinha mandado matar Paloma. Marcos tinha convicção disso. Avançou para a saída do quarto e a imagem do prefeito desapareceu entre um piscar ou outro.

A casa estava escura e silenciosa. Só a luz da lua que entrava pelas janelas iluminava suas pegadas tortas. Mas seu destino não era longe. Virou à direita no corredor e se escorou com o braço bom no corrimão para voltar ao primeiro andar. Seu outro braço estava imobilizado e, depois que levantou, começou a sentir pulsos de dor no local da facada. Mas não importava. Ia desmascarar aquele velho de uma vez por todas.

— Me salva, Marcos — Paloma pediu escondida atrás de um aparador. Ela estava sangrando. O vestido claro todo manchado de vermelho. Soluçava desesperada.

Puxou a porta de correr com o máximo de cuidado que pôde para abrir e fechar. O ambiente estava quente. Notou que a lareira tinha brasas acinzentadas já apagadas, mas ainda emanando calor. Na frente delas havia duas poltronas de veludo verde-escuro sobre um tapete que preenchia quase todo o amplo espaço. Sobre ele, perto do vitral de uma janela larga, havia uma mesa de escritório robusta de madeira maciça com uma poltrona de couro escorada.

Penduradas na parede ao lado de fotografias tinha pinturas de cavalos correndo em campinas no pôr do sol. Abaixo delas, um aparador que servia de bar, com copos, taças e muitas garrafas de bebidas, principalmente whisky. Todo aquele ambiente forçava o estereótipo de homem-macho de negócios do campo.

Marcos pendeu o corpo em direção da mesa, puxou a cadeira de couro e se jogou nela antes que espatifasse de fraqueza no chão. Tinha que achar qualquer coisa que entregasse seu padrasto e o jogasse na lama.

Começou a puxar as várias gavetas da mesa e tatear com as mãos desesperadamente em busca de coisas que ele não sabia bem o quê. Já na terceira gaveta, do lado esquerdo, sentiu no toque dos dedos algo gelado. Só por essa sensação já imaginou o que podia ser e colocou sobre a mesa a pequena pistola que havia encontrado. Mas ignorou-a por hora e continuou na busca.

Antes que voltasse a focar nas gavetas, chacoalhou os inúmeros papéis e pastas sobre a mesa para ver se não havia nada abaixo deles. Estabanado, acabou derrubando no chão algumas canetas e pequenas estátuas de cavalos que beiravam toda a madeira maciça. Tentou ler alguns dos papéis que tateava, mas a visão turva não deixava seu olho focar nas letras miúdas por muito tempo. No geral, a maioria era de documentos com textos complicados de ler e entender.

Voltou sua atenção para as gavetas do lado direito da mesa e sentiu o refile de vários papéis grosseiros deslizarem pela sua digital. Agarrou-os com dois dedos e puxou para fora. Quando notou a cor, sua espinha gelou. A mão perdeu a força e quase deixou as folhas pretas caírem ao chão. Mas recuperou a força para poder ler uma a uma.

"Dar por dinheiro vale a pena?", dizia a primeira carta do pequeno monte.

Folheou uma a uma com ânsia para ler. Forçou a visão turva para conseguir ver melhor.

"Seu segredo vai te matar", "Como vão os momentos gays com seu professor?", "Roubar dos negócios do seu pai é feio", "Como é namorar dois ao mesmo tempo?", "Sentiria vergonha de vender droga numa escola".

Tentava imaginar os remetentes conforme lia, mas suas capacidades lógicas não estavam nas melhores condições para isso.

"Espero que o mendigo não tenha amassado seu carro importado", reconheceu como sendo sua. Idêntica. Por um momento até achou que fosse a exata mesma carta que recebeu. Mas sabia que a original estava muito bem escondida num lugar que só ele poderia encontrar.

Mas não deixou de ser uma surpresa. Leu a frase novamente e sentiu o gosto, o cheiro e o baque do momento que ela citava. A memória resgatava com precisão toda vez que lembrava. Por mais que, a cada dia, vinha se forçando a não lembrar.

O ácido do vômito ao ver o corpo no meio da estrada com o pescoço e pernas quebrados. Suas mãos encharcadas depois de tentar impedir que aquele pobre homem se afogasse no próprio sangue. Os gritos inconformados do padrasto resmungando aos quatro ventos e incessantemente que não aguentava mais subornar pessoas para livrar a cara do moleque.

Piscou os olhos com força para fazer as lembranças sumirem no ar, mas o que leu em seguida não ajudou em nada a melhorar.

"Vamos brincar de filhinha e papai?". Sentiu uma pontada na cabeça imediatamente. Uma dor de raiva começou lá em cima e desceu para o corpo todo até suas pernas ficarem bambas. A tontura voltou e imaginou que Paloma retornaria em forma de ilusões. Mas, quando fechou os olhos, foi o pai dela que viu.

Ele entrou pela porta de correr vagarosamente e com olhar atento e analítico para Marcos. Fechou a porta com calma e ficou olhando para ele quase colado com a parede na frente da lareira. O garoto se levantou da cadeira e deixou-a rodar para trás até encostar no vidro da janela alta.

Marcos não o via há tempos. Nem no enterro da filha ele pôde ir, pois teria sido escorraçado por todos os presentes. Também queria xingar e confrontar o ex-delegado ali mesmo. Mas preferiu outra coisa: rapidamente usou a mão boa para alcançar a pistola sobre a mesa e apontou para o homem. E, para mostrar que sabia o que estava fazendo, tirou a trava de segurança da arma com facilidade.

— O que você tá fazendo? — o pai de Paloma perguntou, mas não foi a voz dele que saiu da boca do homem. Marcos ouviu o tom grave e intimidador de seu padrasto.

Quando se deu conta, o pai de Paloma tinha desaparecido. No lugar dele estava o prefeito. De pijama cinza, segurando metade de um charuto aceso, descalço e com uma cara meio de espanto, meio de raiva.

— Abaixa essa porra — o prefeito Olavo pediu tentando manter a serenidade. Marcos não obedeceu. Talvez nem tenha entendido o que disse, pois ainda assimilava a figura do homem na frente da lareira. — Olha o seu estado, moleque.

O prefeito havia apontado para o garoto. Mais precisamente para o seu lado direito do corpo. Marcos olhou para si mesmo para conferir e encontrou toda a atadura que imobilizava seu braço machucado banhada de sangue. Só nesse momento percebeu o quanto o perímetro ardia em dor.

— Senta, moleque — ele pediu com mais calma e fazendo sinal para a poltrona ao lado de Marcos. — Senta e abaixa essa arma.

Não obedeceu. Continuou de pé, com as pernas tremendo, braço doendo e cabeça gotejando suor frio entre os cachos desgrenhados.

— Por que mandou matar a Paloma? — foi tudo o que conseguiu perguntar. Queria chorar, mas não podia fraquejar na frente daquele homem. Principalmente quando queria intimidá-lo com uma arma.

O prefeito baixou a cabeça, desapontado. Respirou fundo antes de falar:

— Acha mesmo que tenho alguma coisa a ver com essa merda toda?

Marcos usou um gesto como resposta. Recuperou todas as cartas pretas com dificuldade, usando a mão do braço imobilizado e jogou sobre os papéis da mesa.

— Essas coisas não são minhas — o prefeito respondeu imediatamente e um pouco mais irritado. — Eu posso explicar.

— Não têm o que explicar, porra! — Marcos gritou, raivoso. — As cartas tão aqui! Você mandou pra gente!

— Pra gente? Você tem uma dessas? — ele perguntou depois de raciocinar um pouco. — Quem mais recebeu essa merda?

— Não desvia do assunto, seu filho da puta — Marcos levantou ainda mais a voz e apertou e chacoalhou a arma apontada para o padrasto.

— Pensa direito na merda que você vai fazer com isso... — pediu tentando aliviar os ânimos mais uma vez.

— Eu vou é enfiar uma bala na sua cara, seu velho filho de uma puta! — nunca imaginou dizer aquilo para aquele homem. Principalmente sendo verdade e segurando uma pistola.

— Seu moleque... — Olavo retrucou baixo, depois levantou a voz para continuar tentando acalmar o garoto e apontado para as cartas: — Eu não tenho nada a ver com isso, porra. Recebi essas porras aí junto com o jornal de hoje. "O Anônimo está de volta..." Sei! Anônimo deve ser a porra do Paulo Gusmão! Não vê que é tudo uma armação pra mim, moleque? Tão tentando acabar com minha campanha! Querem enfiar essa merda no meu cu!

— Cala a boca! — ameaçou com a arma mais uma vez. — Seu psicopata de merda.

— Tão tentando foder comigo — Olavo passou a falar mais baixo para não irritar Marcos. — E você tá ajudando eles, porra! Você tá ajudando a acabar...

Marcos parou de ouvir o que o homem dizia. Encarou aquela cara enrugada com bigode grosso falar e falar, mas não ouvia sua voz mais. Sua atenção foi para o lado da porta do escritório. Paloma estava lá, de novo. Parada, triste e com o vestido ensanguentado.

— Me ajuda, Marcos — ela disse, chorosa.

Ele levantou um pouco mais a pistola para mirar e puxou o gatilho. Sua mente estava tão confusa que mal ouviu o som alto e invasivo do disparo. Nem os grunhidos do prefeito tentando estancar o buraco de bala no canto direito do seu pescoço. Ele perdeu o equilíbrio com o baque e susto. Sua cara amarrada agora era de dor, confusão e surpresa. Escorou-se no batente da lareira e parecia perder ainda mais o equilíbrio conforme o sangue brotava do pescoço e escorria entre seus dedos.

— Seu... Moleque — ele resmungou com a voz atormentada. Deixou o charuto cair sobre o tapete e pendeu com o corpo para trás e para baixo. Caiu com a escápula direita dentro da lareira e Marcos ouviu o tintilar das cinzas sobre parte da pele de seu braço, nuca e do tecido do pijama. O sangue também encontrou-se com o calor e fez levantar uma fumaça preta de suas costas, que invadiu o ambiente. Um cheiro de carne queimada assolou o escritório e fizeram os olhos de Marcos arderem.

O garoto esfregou seu rosto para espantar a sensação de ardência e, quando abriu os olhos novamente, viu a porta do escritório se abrir. Desta fez, entregando uma figura confusa e alerta.

— Senhor Olavo? Que barulho foi esse que eu... — o jagunço comentou logo que entrou e parou no momento em que olhou para o lado e viu o homem corpulento estirado no chão com metade do corpo sobre o tapete, e a outra metade dentro da lareira quente.

Manuel olhou para Marcos para assimilar a cena e encontrou com a visão a pistola na mão do moço. Então se jogou sobre o corpo do seu chefe e tentou pressionar o ferimento da bala, mas o homem já estava sem vida.

— O que cê fez, pivete? — Manuel perguntou inconformado para o garoto parado atrás da mesa.

O jagunço fez um movimento rápido para levar sua mão direita para a parte de trás da cintura para alcançar sua arma. Marcos percebeu o braço com uma tatuagem de serpente verde se mover e instintivamente atirou contra ele duas vezes.

A primeira bala acertou seu quadril e a outra a barriga. Seu corpo remexeu-se e deu um passo para trás, mas se esforçou para não perder o equilíbrio. Foi tempo o suficiente para tirar sua arma da cintura e apontar para o Marcos. Era a última coisa que conseguiria fazer, mas o garoto foi mais rápido e atirou uma terceira vez sobre seu peito.

A mão do jagunço vacilou e derrubou sua arma no chão. O corpo tombou para frente e caiu sobre ela, ao lado do prefeito.

No dia seguinte, a capa do jornal forjada pelo prefeito foi por água abaixo. A história de que ele e sua família eram igualmente vítimas da violência da cidade, e não a causa, perdeu foco para outra: o prefeito e candidato à reeleição foi assassinado em sua casa pelo próprio enteado.

Notas finais
Oi pessoal! Eu Sei Quando Você Mente já tá entrando na reta final, uuuuh. Mas calma! Já comecei a publicar minha nova história: Por Onde Andou Eichler? e me dedicarei à ela assim que terminar tudo por aqui. Só queria convidar vocês para acompanharem essa também, vai ser bem legal :) https://fanfiction.com.br/historia/811417/Por_Onde_Andou_Eichler/