— E aí, você fez o que? — a garota de olhos de jabuticaba perguntou ansiosa pelo desfecho da história que ouvia, mas sua contadora disfarçou e abaixou um pouco o tom quando outros dois alunos passaram perto delas.

— Fiquei meio sem reação, né? — a outra garota respondeu se certificando que eles já estivessem longe o suficiente. — Primeira vez que alguém chora depois que me beija. E, Larissa, não conta pra ninguém, ok?

Horas depois do ocorrido que relatava, Miriam até se sentiu um pouco mal. Ficou se perturbando internamente com a possibilidade de ser rejeitada, de ser muito feia ou beijar mal para desencadear uma reação daquelas. Mas, já no dia seguinte, processou melhor as ideias e entendeu que, na verdade, o problema era o garoto chorão, e não ela. Ele que deveria estar um pouco mal das ideias. Só não entendia por que, se fosse esse o caso, ele chamaria ela para sair? Talvez para esquecer a outra garota. Era isso, batata.

— Você não lembra mesmo o nome da garota que ele te chamou? — Larissa perguntou ainda mais curiosa. Ignorou completamente o pedido de segredo, o que deixou Miriam levemente receosa.

— Não lembro — mentiu.

— Achei que isso só acontecia em filme. E durante o sexo, ou quando vai falar que ama. Mas foi só um beijo, sabe? Te chamar por outro nome assim, bizarro — Larissa retrucou. Era engraçado como ela tinha sempre opinião já formada sobre tudo. Falava enquanto tirava de sua mochila um pequeno espelho e o batom para retocar. Ele era do tom dos seus lábios negros, talvez um pouco mais escuro e brilhoso. Aproveitou e ajeitou o cabelo alisado. Não parecia muito hidratado.

— Pois é — Miriam refletiu. — Ele chorou por, tipo, um minuto. Depois deu pra perceber que ficou envergonhado, tentou se recuperar, pediu desculpa e foi embora.

— Quem diria que um gótico todo metido a durão como o Dário seria tão marica — zombou guardando os pertences de volta na mochila surrada. Depois pegou seu celular, abriu para olhar a tela e fechou. Miriam se perguntava como Larissa tinha arranjado dinheiro para comprar seu Motorola V3 rosa, um aparelho tão caro.

— Ele não é gótico — Miriam se justificou por ele, como se precisasse. — É... como é mesmo a palavra? Passou até no Fantástico esses dias... Emo! Isso, ele é emo.

— Que merda é essa?

— É tipo um gótico só que mais sensível, delicado — explicou pacientemente.

— Deu pra ver mesmo... — Larissa revirou os olhos em desdém e continuou a zombar: — Podia mandar uma carta pra ele. "Adorei o sabor das suas lágrimas..." Tá na semana do Anônimo ainda. Dá tempo.

— Não. Deixa ele, coitado — Miriam se levantou na cadeira quando o sinal do colégio tocou, avisando o início da primeira aula. Estavam no canto da cantina e começaram a se ajeitar. — E não entendo essa brincadeira de vocês.

— É nossa tradição — Larissa se justificou.

— Essa é a única cidade que morei que tem isso.

— É só sua primeira vez. Depois já vai entrar na vibe. Ano que vem vai curtir mais. Faz nem três meses que cê chegou, as pessoas ainda tão te conhecendo. Não fica chateada por não ter recebido carta ainda.

— Não estou chateada — a novata foi incisiva. Buscou no bolso de fora de sua mochila um papel rosa dobrado e entregou para a garota negra. — Se for pra receber esse tipo de merda, prefiro ser ignorada mesmo.

— "Cabelo bonito, facha" — Larissa leu sem entender muito bem; — O que é facha?

— Lésbica.

— Ah. Ainda não entendi.

— O meu cabelo — disse apontando para os curtíssimos fios castanho-claro. — Recebi a carta no final do dia que cortei. Alguém achou engraçado mandar isso.

— Faz parte — Larissa menosprezou, devolvendo o papel. — Sou a única menina preta de todas as salas do segundo ano. Acha que a maioria das minhas cartas são sobre o que?

— Imagina se fosse parte de mais uma minoria, igual eu — um garoto surgiu ao lado de Miriam e se juntou no caminhar das duas pelo pátio. Ele também puxou da bolsa uma carta. Uma não, quatro. Entregou para as duas e elas leram.

— "Pretinho boiola" — Miriam leu. — Que horror.

— "Viado pau no cu" — foi a vez de Larissa.

— Esse aí não imagina que é disso mesmo que eu gosto — zombou pegando os papéis de volta. Ele era só um pouco mais baixo que as duas garotas. Usava roupas bem largas, jeans surrado e o cabelo preto era arrepiado para cima com gel.

— Devia mandar pra polícia, Felipe — Miriam pediu preocupada.

Achava um absurdo aquela história toda. Uma mulher foi assassinada vinte anos atrás, ameaçada e humilhada, e agora ela e seus colegas precisavam ser humilhados anonimamente. Mas as pessoas da cidade lidavam com aquilo de uma forma tão natural que ela se segurava um pouco ao questionar. Já havia mudado de cidade vezes o suficiente para saber que precisava se esforçar para manter alguns contatos e uma vida social aceitável.

— Pra eles me chamarem de tchola também? Tô de boa — revirou os olhos e parou para amarrar os sapatos. As duas esperaram por ele. — E não liga sobre o cabelo. Ficou um arraso.

Miriam sorriu. Foi a primeira pessoa a elogiar o corte. Nem ela mesmo tinha gostado, mas foi necessário. Quando lembrou da cena, arrepiou-se inteira. Precisou respirar fundo para voltar pra realidade. Mas foi naquilo que ficou as aulas todas pensando.

— Sapatona — ouvia sua mãe gritar no fundo do quarto. — Sapatona!

Não esperava aquela reação. Nunca havia visto sua mãe tão alterada naquela maneira, mesmo nas suas condições mais recentes.

— Deixa só o seu pai ver a merda que você fez no cabelo! — a mulher esguia continuou criticando com sangue nos olhos. Sua reação era completamente descabida pra Miriam. A filha notou o tique na mão esquerda. Abria e fechava várias vezes e depois fincava as unhas — agora extremamente curtas para evitar machucados — na palma da mão, que já tinha diversas feridas se fechando.

— Ele já viu. E nem falou nada! — foi a primeira vez que ela respondeu desde a primeira ofensa da mãe. Tocou seus cabelos lisos agora na altura dos ombros. Minutos antes, tinha passado pelo espelho da sala e se sentido muito bonita.

— É porque ele é um frouxo! — respondeu depois de pensar um pouco. Se aproximou mais da filha. Miriam não reagiu. Havia prometido que não teria mais medo da mãe quando ela estivesse em crise. Precisava acalmá-la e apoiá-la. — O que vai fazer depois? Fugir com uma sapatona? Uma caminhoneira?

— Mãe... Respira — Miriam pediu calmamente. Também falava aquilo para si mesma. Era a crise de regresso. A mãe voltava com a mentalidade de alguma época qualquer do passado. No caso, para uma mais conservadora. Logo, logo, não reconheceria que Miriam era sua filha por causa do seu tamanho: começaria a procurar por alguma garota criança pela casa, acusando a Miriam de verdade de ser uma farsa que queria enganá-la.

Miriam ia anunciar que desceria na copa buscar os remédios que tinha comprado antes de voltar do salão, mas a mulher avançou contra a garota, agarrando-a pelos cabelos.

— Para! Tá me machucando!

Elas lutaram e Miriam tentou afastar a mãe dela, mas havia grudado com muita força nos seus fios. Mesmo assim, tomava cuidado para não machucar a mulher. Seu corpo era tão frágil e seco...

E foi assim que subestimou-a. Não percebeu que havia conseguido apanhar uma tesoura em seu kit de costura sobre a cama e cortado uma mecha inteira sobre sua orelha direita. Podia ouvir o som das lâminas se fechando.

Miriam voltou para o presente quando Larissa, na carteira de trás, chutou de leve sua cadeira para chamar sua atenção. A garota olhou ao redor e percebeu que todos na sala estavam com a atenção voltada para ela. Estava viajando nos pensamentos enquanto mexia no seu cabelo agora ainda mais curto e rente.

— Quantos anos durou a guerra de cem anos, Miriam? — O professor carrancudo perguntou com insistência, como se já tivesse repetindo a fala pelo menos umas duas vezes.

A garota respirou, retomou a concentração e respondeu corretamente.

Não gostava muito, mas saiu para o intervalo sem a bolsa e deixou-a na parte de baixo da sua carteira. Pegou apenas um dinheiro para um salgado e saiu da sala acompanhada de Felipe e Larissa.

— Você vai no velório da Paloma? — o garoto perguntou para Larissa.

— Daquela branquela metida? Dispenso — respondeu com desdém.

Miriam não se intrometeu na conversa. Não conhecia a garota. Na verdade, nunca tinha ouvido falar. Estudava em uma escola particular da cidade.

— Coitada. Você não viu como ela morreu? — Felipe insistiu no assunto, preocupado.

— É, coitada — Larissa deu o braço a torcer. — Espero que peguem o ladrão logo. Imagina que merda ser o delegado da cidade e ter que investigar a morte da própria filha? Se aquele bairro de gente metida tem um assalto desse jeito, imagina o nosso muquifo.

— Estou me sentindo super segura nessa cidade nova — Miriam comentou ironicamente. Não morava num bairro tão distante quanto os dois amigos, mas, mesmo assim, bateu um receio. A cidade era muito pequena. Nem duas horas caminhando a pé e você facilmente atravessaria ela de ponta a ponta. E ainda era toda rodeada por plantações de cana-de-açúcar e soja. Quilômetros de vazio verde do agronegócio. Um pouco claustrofóbico.

— Mas não conhecia o suficiente pra ir no velório — Larissa continuou dizendo para concluir.

— Eu não gosto de velórios — Felipe disse inocentemente.

— Ninguém gosta — Miriam e Larissa zombaram dele em uníssono.

No caminho para a cantina, Miriam notou Dário vindo em sua direção. Ao vê-la, o garoto vestido de preto hesitou, abaixou a cabeça e mudou de percurso, que era o mesmo que o dela. Sentiu até pena dele.

Foi só no final da última aula, quando estava guardando os últimos cadernos na mochila, que Miriam notou um novo envelope — entregue da mesma maneira que o anterior: enroscado na parte interna do bolso maior.

Puxou-o com curiosidade e logo abriu para ver o que tinha dentro. Era um cartão do tamanho de sua palma. O papel era preto, fosco e tinha uma pequena frase em branco escrita com verniz localizado por cima.

"Seu segredo ainda vai te matar". Não havia assinatura, para variar.

Na primeira vez que leu, pôde jurar que ouviu no pé de seu ouvido o tintilar da tesoura cortando seus fios de cabelo. Sentiu também o arfar desesperado e raivoso de sua mãe no pescoço.

Releu umas duas vezes, confusa. Não sabia se tinha entendido.

Aquilo falava sobre sua mãe? O que teria a ver? Quem saberia daquilo? Não entendia nem se esse caso era realmente um segredo, tipo, secreto, mesmo. Não escondia a condição de sua mãe das pessoas, não tinha nem ao menos vergonha. Não era um tópico que ficava contando e relatando para qualquer um, mas era algo íntimo da família. Só que não chegava a ser um segredo.

Então concluiu que poderia ser um flerte. Só uma ameaça vazia para colocar medo. Afinal, quem não tem um segredo profundo que pode eventualmente te ruir ou gerar qualquer medo de que tenha uma consequência ruim na sua vida? Genérico demais.

No caso, ela não se recordava de ter um segredo. Seu remetente tinha escolhido a pessoa errada para assustar. Comigo não funciona, pensou. Quando percebeu, havia ficado tempo demais paralisada olhando para o papel. Tempo o suficiente para sobrar apenas ela na sala de aula.

Juntou a mochila e, ao invés de ir para a saída do colégio, foi para a área da secretaria bem decidida. Não ia deixar aquilo em branco, sendo tradição daquela cidade, ou não.

Entrou de supetão no hall que antecedia a sala da coordenadora do ensino médio, mas deu um passo trôpego para trás quando percebeu que a mulher estava ocupada atendendo outra aluna em sua mesa. Encarou-a de costas, com cabelos loiros bem longos e escorridos sobre os ombros. Esgueirou-se para o lado a fim de não ser vista pela coordenadora.

— Se eu fosse dar queixa de toda brincadeira tonta que envolve essas cartas, não faria mais nada da minha vida — a mulher velha comentou para a garota loira. Tinha voz cansada.

— Mas é um absurdo ficar recebendo esse tipo de coisa — a garota reclamou levemente exaltada. Parecia forçar um pouco a tristeza na voz para tomar mais compaixão da coordenadora. — Isso que eu recebi é uma ameaça!

Miriam inclinou a cabeça para o lado porque queria analisar melhor a loira. E então pôde ver ela balançando na frente da mulher uma carta: envelope cinza com um cartão pequeno preto e fosco.

— Sabrina... — a coordenadora retirou os óculos fundo de garrafa e repousou sobre a mesa para que o rosto ficasse livre para ela coçar a testa enrugada. — Se quiser, podemos ir atrás de um boletim. Mas sabe que não dá em nada, também. Até a polícia tá acostumada com essa brincadeira.

— Então uma aluna é ameaçada na sua escola e você não faz nada? — Sabrina aumentou a indignação na voz, mas recebeu apenas uma encarada exausta da coordenadora. — A Paloma foi assassinada ontem!

— Calma — a mulher repreendeu. — Paloma foi vítima de um latrocínio. Não misture as coisas.

— Mas temo pela minha vida de qualquer jeito! — resmungou.

— Sei que é desconfortável receber essas cartas. Até tentei acabar com essa brincadeira uns anos atrás, mas vocês jovens sempre dão um jeito... — a coordenadora realmente estava vencida.

— Ok. Tudo bem — Sabrina levantou-se e começou a se preparar para sair. — Vou falar com os meus pais. Não vão ficar nada felizes.

— Não vão ficar felizes se lerem o que têm escrito ai... Se for verdade, no caso.

A garota não respondeu, apenas olhou indignada para a mulher.

— Desculpa. Eu não devia ter dito isso... — a coordenadora se justificou, desapontada consigo mesma. — Tive um dia ruim, é isso. Me procura de novo se precisar.

Sabrina revirou os olhos e saiu em fúria da pequena sala. Mas deu tempo suficiente para Miriam se afastar, voltar uns passos e fingir que, na verdade, estava chegando no hall. E não que estava ali o tempo todo ouvindo a conversa. A garota loira passou por ela mal parecendo notá-la.

Bem, Miriam tinha ouvido o suficiente para entender que não teria ajuda alguma da coordenadora, então voltou e correu atrás de Sabrina. Ainda no pátio, chamou por ela.

— Ei, ei! — foi só na segunda vez que Sabrina se deu conta de que era com ela. Virou-se com tudo para Miriam e encarou-a de cima para baixo.

— O que você quer? — perguntou ainda irritada.

— Seu cartão. É igual ao meu — Miriam foi direta e disse apontando para a mão delicada de Sabrina, que segurava o envelope e o cartão. A loira olhou para ele e depois para Miriam, meio ainda sem entender.

— Aqui — Miriam retirou o seu do bolso e mostrou para ela, de longe, com cuidado para não revelar demais.

— E o que têm isso? — Sabrina perguntou e a outra garota se surpreendeu com sua lerdeza.

— Posso ver se são iguais mesmo? — pediu sem vergonha alguma.

— Não vou deixar ver, sua maluca — deu um passo para trás, como se Miriam estivesse fedida ou emanando radiação.

— Não preciso ver tudo o que tá escrito, só quero ver o papel e a letra — a novata se justificou. Observou os olhos de Sabrina vacilarem pra lá e pra cá, pensando meticulosamente. Até que ela cobriu quase toda a frase com o dedão e virou sua face para Miriam, revelando apenas uma letra "o" antes de um ponto final.

— É, parece a minha. Mesmo papel, impressão e tipografia. — Miriam concluiu e Sabrina rapidamente guardou sua carta de volta. Agora Sabrina pareceu finalmente entender:

— Pode ter sido a mesma pessoa que mandou? — questionou.

— Talvez. A minha carta é uma ameaça. E a sua? — Miriam perguntou. Na verdade, não achava sua carta uma ameaça, e sim um verde. Mas queria extrair um pouco mais de Sabrina.

— É... — a loira confessou. Mas, no segundo seguinte, caiu em si que estava entregando demais para uma garota que nunca nem tinha percebido na escola. Então mudou sua postura radicalmente. Aproximou-se do rosto de Miriam e sussurrou com raiva: — Se contar isso pra alguém, eu quebro a sua cara.

Virou-se com tudo, fazendo seus cabelos baterem no rosto de Miriam e saiu pisando forte.

A abordagem não tinha sido das melhores, mas Miriam conseguiu o suficiente. Sabia por onde começar a procurar para tentar descobrir quem enviou aquelas cartas. Perto da saída, viu que um rapaz alto e forte a esperava encostado na parede. Quando Sabrina se aproximou, ele passou o braço largo pelas suas costas para acompanhá-la, encarando Miriam por cima do ombro. Não dava para ver direito por causa da distância, mas jurava que ele estava com a cara bem fechada.

Era Hélio, o maromba burro da sala da Miriam. Ainda não tinha percebido que ele namorava alguém. Antes de chegar perto dele, Sabrina escondeu a carta no bolso de trás com muita delicadeza para não ser notada.

— Miriam! — uma voz esbaforida soou ao fundo, meio ofegante. Trocou a imagem de Sabrina sumindo pelo portão por Larissa meio cansada — Cê não vai acreditar. Babado forte.

Não conseguia imaginar o que seria de tão interessante para a garota voltar para dentro do colégio e procurá-la para contar.

— O pai da Paloma foi preso agorinha — a garota anunciou. — O delegado da cidade foi preso!

— Por que? — Miriam perguntou sem muita empolgação.

Se era esse o assunto, não tinha interesse. A maioria das cidades que morou eram pequenas, então entendia bem que qualquer acontecimento levemente fora da curva era um grande tópico para todo mundo e poderia durar semanas. Mas não conseguia se empolgar com eles, de onde fossem. Não conhecia as pessoas envolvidas, não se importava com elas e sabia que dali pouco tempo seu pai seria transferido de novo. Era perda de tempo pra ela.

Larissa insistiu na dramatização do assunto para puxar uma reação impactante de Miriam, que continuava neutra até ouvir sua próxima declaração:

— Ele é suspeito de matar a própria filha!