Eu Sei Quando Você Mente
6 Sustos e sussurros
Sabrina não gostava do cheiro que a casa do rancho ficava depois de tanto tempo fechada. A esposa do caseiro até que limpava lá frequentemente, mas, por ficar vazia a maior parte do tempo, o aroma subia abafado e impregnava em todas as paredes e móveis.
Assim que chegou, correu para abrir o máximo de janelas que podia para deixar o ar circular. A casa nem era sua, mas sabia do apreço da dona pelo local por ela, então tentava evitar que Hélio, com seu descuido todo, estragasse o refúgio de campo de seus pais.
A garota jogou mais uma lata de cerveja vazia dentro da pia da cozinha. A pilha aumentava a cada hora e parecia até que tinha dezenas de pessoas ali. Mas preferia amontoar todas do que deixar espalhadas por cima das mesas e aparadores de madeira maciça.
— Eles te expulsaram de lá também? — uma voz feminina surgiu atrás de Sabrina, vinda da entrada do cômodo, que fazia divisão com uma copa ampla e espaçosa.
— Não — a garota loira respondeu um pouco desapontada, mas tentando disfarçar. — Deixa eles falarem as asneiras deles.
— Acho que são negócios, Sabrina — juntou-se ao lado de Sabrina na pia e olhou para a mesma direção que ela encarava: pela janela, via-se um entardecer alaranjado banhando um horizonte amplo e bem florestado.
A casa ficava no topo de uma das colinas mais altas da região. Bem distante, dois fios se destacavam no meio da massa verde: um trecho do rio passando no vão entre outras duas colinas sinuosas e suas águas que refletiam de relance a cor do sol enfraquecido; e outro mais escuro que seguia uma estrada bem distante, onde pequenas luzes vindas dos faróis dos poucos carros que passavam por lá — naquela distância pareciam apenas vagalumes. Uma imensidão que dava à Sabrina a sensação de solidão. Mas ela gostava. Sempre gostou de ir naquele rancho, desde pequena.
— Desculpa, Ma, mas não gosto do seu namorado novo — Sabrina piscou forte os olhos para aliviar a claridão que estava encarando tinha um tempo e virou-se para o lado esquerdo ao que estava. Pela outra janela de vidro, ao lado do fogão à lenha, encarou os quatro rapazes conversando numa mesa ampla de madeira abaixo do alpendre.
Dali conseguia ouvir apenas alguns murmúrios e risadas — mesmo os quatro garotos falando bem alto. Hélio parecia dominar a conversa e fazer os demais se divertirem. Sabrina se referia ao rapaz à frente do seu namorado, que parecia ser mais bem mais velho, tinha tatuagem no pescoço, usava boné vermelho virado para trás e óculos escuros que nunca tirava, nem mesmo de noite. Os outros três eram amigos dele. Estavam sempre juntos.
— Eu também não gostava. — Marília confessou acompanhando a visão de Sabrina mais uma vez. Tirou um chiclete do bolso, ofereceu para a amiga (que recusou) e começou a mascar antes de continuar: — Ele ficava passando com aquela moto barulhenta na frente de casa e eu achava uó. Mas depois percebi que ele queria minha atenção. É meio bruto, mas é um cara legal.
— Que bom pra você — respondeu sem muita animação, mas a garota nem percebeu.
Sabrina percebeu que Hélio puxou um maço de dinheiro e colocou na mesa, em direção ao namorado de Marília, que pegou imediatamente e passou pro rapaz ao seu lado contar. Sabrina virou-se para a janela oposta de novo. Não queria ver aquilo. Deixa pra lá.
Num supetão, foi para o outro cômodo e jogou-se no sofá de couro. Marília a seguiu e ligou a TV grande que ficava dentro de um nicho na parede. Minutos depois, Hélio apareceu, sentou-se do lado dela e passou a mão por trás de seus ombros.
— E aí, gatinha? — Perguntou afundando seu nariz no pescoço da namorada, que rejeitou delicadamente.
— Achei que a gente ia passar o final de semana sozinhos — sussurrou para que Marília não ouvisse.
— Mas vamos — ele respondeu no mesmo tom, mas abrindo caminho entre seus cabelos escorridos para se aproximar do pescoço da garota. — Por que não me espera na casa da piscina? Te encontro lá.
Sabrina não pensou duas vezes. Ficaria longe dos rapazes de quem não gostava e ainda teria mais privacidade. Levantou imediatamente e interrompeu o beijo que Hélio dava abaixo de seu ouvido em sinal de que, apesar de ter acatado sua ordem, ainda não estava totalmente satisfeita. Encarou-o antes de sair pela porta da sala para provocá-lo.
A piscina ficava na parte de baixo da área do rancho, depois do açude. Então precisava de alguns minutos caminhando pela trilha de pedras batidas. Quando foi para a área externa, no lado oposto onde os outros estavam, viu as luzes de fora da casa principal se acenderem automaticamente, provavelmente por causa de sensores que detectaram que o sol já estava bem fraco.
O começo da trilha era íngreme, então tinha alguns degraus para facilitar a descida. Aos poucos as risadas espalhafatosas iam diminuindo e deixando a garota mais contente. Os postes de luzes que faziam o caminho eram bem espaçados, então tinha alguns momentos muito claros, e outros um pouco escuros. Passou pela casinha onde guardavam as ferramentas para cuidar do terreno e entrou numa parte em que o caminho de pedras cortava uma pequena plantação de milho.
Naquela altura onde ficava o rancho o vento era um pouco mais forte. Ela cruzou os braços para protegê-los da friagem. As risadas exageradas deram lugar para o roçar das folhas do milharal. Parou para ver as plantas. Estavam altas e com pequenas espigas crescendo aqui e ali.
Lembrava-se claramente da primeira vez que comeu pamonha. O milho fresco foi colhido dali mesmo. A mãe de Hélio, junto com a sua, iam preparando as espigas para formar o curau e a massa para a pamonha enquanto ela, Hélio e seu irmão brincavam na piscina. Parecia um ritual das duas mulheres, o de cuidar dos milhos. Iam cantarolando, conversando e dando risadas debaixo da sombra de uma mangueira antiga que tinha ao lado de onde futuramente viria ser a casa principal do rancho.
Um som abafado veio do meio dos pés verdes. Sabrina esticou o pescoço para tentar ver entre os vãos das fileiras das plantas, mas não encontrou nada sobre a terra vermelha. Encarou apenas as folhas se açoitarem ainda mais forte e repentinamente por causa de uma rajada fria que abateu elas e seu corpo. Acelerou o passo para buscar abrigo. Alguns metros depois, chegou numa área concretada que dava espaço para uma piscina ampla, com águas cristalinas e uma alta cascata desativada.
Ao lado havia uma casa no mesmo estilo da principal: ampla e repleta de portas e janelas altas de vidro. Do lado de fora, um alpendre com mesas e cadeiras de tomar sol. Dentro, uma sala de TV, uma pequena cozinha e uma suíte que normalmente era usada como quarto de visitas. Mas, recentemente, era lá que Hélio e Sabrina se hospedavam quando a família toda do namorado ia para o rancho.
Arrastou o blindex para passar pela sala e acender todas as luzes de dentro e de fora. Olhou para cima e viu, distante, a casa principal brilhando como uma lua num céu escuro. Só assim se deu conta da solidão que estava naquele momento.
Além da casa da colina, havia somente outro local próximo com algum sinal de vida: a casa do caseiro do rancho. Mas ficava na outra extremidade do terreno. Para além da área da piscina, havia uma imensidão de gramado seguido por uma pequena mata e, depois, um amplo rio. Se fechasse os olhos e se concentrasse, podia ouvir as águas violentas correndo por ele bem ao fundo.
Pensou em voltar para cima, mas analisou o caminho de volta e um arrepio subiu a sua espinha. Não queria passar por lá sozinha de novo. Apenas foi para o quarto e desejou que Hélio chegasse logo.
Para ter um pouco mais de tranquilidade, fechou o blindex e trancou a porta do quarto. Deitou na cama e alcançou o celular para ver se havia alguma mensagem, mas a tela indicou que nem tinha sinal por ali.
Alcançou no criado mudo um porta-retratos antigo. Uma foto de Hélio criança ao lado do irmão mais velho brincando no cercado de areia do rancho. Sabrina esboçou um sorriso lembrando, mais uma vez, da infância ao lado dele. Jamais imaginaria que um dia namorariam.
Hélio era uma criança muito agitada e um pouco pentelha, ao contrário de Sabrina, que era quieta e amuada. Se não fosse a amizade de longa data de suas mães e a forçação de barra para que os dois fossem amigos e convivessem muito, jamais teriam se aproximado, nem mesmo na primeira infância, onde era mais simples se relacionar e construir laços.
Estudaram na mesma escola durante toda a vida. Não eram da mesma sala, mas se trombaram no intervalo. Era nos churrascos e viagens que acabavam se vendo mais. No começo da adolescência acabaram se estranhando e se afastando mais.
Naquele período, Sabrina acabou se apaixonando intensamente por Marcos. E foi assim que começou sua desavença com Paloma, sua então melhor amiga. Do dia para noite, as duas começaram a se estranhar e seu grupo de amigas rachou completamente, deixando Sabrina um pouco isolada. Hélio percebeu rapidamente e se reaproximou. Apresentou-a para seus novos amigos e a distraiu da situação chata que estava passando. Sabrina percebeu, então, que aquele moleque pentelho tinha virado um garoto simpático e preocupado. Não demorou muito para se aproximarem de verdade, agora de outra forma.
Foi com o porta-retratos em mãos que Sabrina, sem perceber, tombou a cabeça para o lado e acabou caindo no sono.
—
Felipe tinha um certo receio do elevador de seu prédio. Não era antigo, mas a qualidade era detestável. Preço por morar em um dos únicos três prédios da cidade. Nas últimas semanas, seu vizinho tinha ficado preso e a equipe de manutenção precisou vir de outra cidade para arrumar e tirá-lo de lá. Foram três horas de sufoco e escuridão. Toda vez que pensava nessa possibilidade, Felipe se arrepiava todo.
Percebeu que um pouco de líquido do saco de lixo que carregava escorreu e pingou até seus dedos do pé, melando a havaianas azul.
— Que nojo! — ele resmungou esfregando um pé no outro, mas acabando mesmo por espalhar mais ainda o chorume. No fim, aceitou a situação deplorável.
Saiu pela porta do elevador e alcançou logo uma outra à sua frente. Tinha saído no subsolo, onde ficava a garagem. Depositou o saco de lixo na lata grande. Aquele vão cheirava mal por causa do lixo de todos os moradores. Ficava no primeiro lance das escadas, abaixo do primeiro.
O teto era bem baixo, o que dava certa agonia por causa da falta de espaço. A única fonte de luz era uma lâmpada fraca que já estava começando a piscar.
Felipe estava se preparando para sair do local quando ouviu um barulho ecoar pelas escadas. Parecia a porta do andar de cima se abrindo e fechando. Provavelmente seria o senhor do apartamento trezentos e dois, que tinha costume de usar as escadas para subir e descer várias vezes durante o dia e fazer exercícios.
Tentou voltar para o que estava fazendo, mas foi interrompido de novo, desta vez por sua visão. Percebeu, no canto do olho esquerdo, que a luz do lance de escadas acima de onde estava tinha sido acendido automaticamente, anunciando que havia alguém vindo.
Olhou para o primeiro lance e ficou esperando para ver quem era, mas ninguém apareceu. Estranhou, mas deu de ombros e tentou, pela terceira vez, voltar a sair do local. Sem sucesso.
Desta vez, um vulto lhe encheu os olhos, vindo do topo do primeiro lance de escada. Felipe se assustou e deu um leve pulo para trás, escorando-se na parede gelada. Se acalmou quando viu quem era, mas não deixou de ficar desgostoso.
— Que susto, seu filho da puta! — Felipe resmungou para o homem que vinha se aproximando dele, degrau a degrau.
— Tava te procurando lá em cima — Rômulo respondeu. Já estava perto demais de Felipe, mas não parou de se aproximar. Até que prensou o garoto na parede e beijou seus lábios.
Felipe não correspondeu com a mesma efervescência que o professor de inglês e primo de Dário. Na verdade, fechou bem seus lábios para evitar que a língua de Rômulo entrasse em sua boca. Delicadamente, apertou o homem pelos braços e o afastou de seu corpo.
— Qual é? — Rômulo pediu decepcionado.
— Aqui não — Felipe repreendeu com voz baixa.
— Não curte o lixo? — Rômulo esnobou apontando para as lixeiras ao lado. — A gente já fez em lugar pior.
— Mas é você que fica pedindo pra ter cuidado, pra gente não ser visto — Felipe relembrou.
— Aqui não dá nada — Rômulo insistiu, mas tomando ainda mais espaço para se escorar na parede oposta. — Se encontrarem a gente, vão ver só dois moradores do prédio levando o lixo pra fora.
— Mas o que tá rolando? — Felipe recobrou a consciência. — Achei que você não queria mais me ver.
— Eu sei... — ele se explicou. — Mas eu não resisti. E faz tempo, né?
— Tempo desde que recebi a carta? — Felipe indagou.
— É. Não vai dar nada — Rômulo disse para Felipe. Mas, na verdade, parecia estar falando aquilo para si mesmo. Tentando se convencer de que podia ficar relaxado com o assunto.
Felipe engoliu a seco lembrando de Larissa.
A falta de resposta deixou o homem receoso. Limpou a garganta e aumentou um pouco o tom:
— Ninguém vai ficar sabendo da carta, né? Da gente.
Felipe analisou o corpo de Rômulo crescer para cima dele. Encarou bem seus olhos escuros e brilhantes. E então decidiu acalmá-lo:
— Se depender de mim, não.
— Beleza. Isso fica entre a gente.
Felipe não teve certeza, mas sentiu certo tom de ameaça em sua fala. Rômulo mudou a postura, ficando mais relaxado. Esboçou um sorriso e roubou um selinho do garoto, ainda prensado contra a parede.
— Eu te mato se descobrirem — Rômulo sussurrou em um tom de brincadeira. Virou-se e subiu as escadas.
—
Nem se deu conta, mas Sabrina acabou caindo no sono por sabe-se lá quanto tempo. Só percebeu pela janela que já estava totalmente de noite. Acordou com um som longo vindo do lado de fora do quarto. Demorou para processar, mas entendeu que era o blindex que limitava a sala e a piscina sendo aberto.
Sentou na cama, esfregou os olhos e conferiu no espelho se a maquiagem ou o cabelo tinham resistido bem ao cochilo. Depois de se certificar, destrancou a porta do quarto e saiu para fora.
Imediatamente percebeu que as luzes da parte de fora da casa estavam apagadas, ao contrário do que tinha deixado. O blindex estava todo aberto, dando um vão que praticamente não criava divisão nenhuma entre a sala e o alpendre. Olhou ao redor e não encontrou Hélio.
Caminhou rapidamente até o interruptor e acendeu as luzes de fora. Um clarão atingiu seus olhos e protegeu-os com o braço por um instante. Quando se acostumou, voltou a olhar para o lado de fora e encontrou a casa principal toda iluminada enquanto fechava o blindex novamente.
Se Hélio talvez tivesse chegado na piscina, por que teria deixado as luzes lá de cima ainda acesas?
Quando pensou nisso, um novo arrepio lhe subiu a espinha. Virou-se para dentro da casa para olhar meticulosamente cada canto em busca do namorado. Mas não encontrou nada. Só percebeu que havia mais alguém ali quando ouviu uma batida no vidro atrás dela. Deu um pulo de susto, afastou-se do vidro e olhou para ele.
Respirou fundo quando viu Hélio escorado no blindex e puxando-o para abrir.
— Quase me matou do coração! — ela reclamou enquanto ele entrava na casa.
— Foi mal — pediu, aproximando-se dela e acenando para o que carregava nas mãos. — Fui buscar cerveja na dispensa lá fora pra deixar gelando aqui.
Hélio caminhou até a pequena cozinha que tinha no canto da sala e guardou o engradado na geladeira.
— Esqueceu as luzes da casa acesas — Sabrina repreendeu, trancando o blindex com a chave. — Mas agora vai deixar assim mesmo. Não quero ficar sozinha aqui de novo.
— Que foi? Tá com medo? — perguntou de costas para ela, ainda ajeitando as garrafas.
— Tô, né! — assumiu. Foi até ele e se encostou no balcão. — Não quero ser a próxima.
— Ah. Faz duas semanas que a Larissa morreu. Se o maluco das cartas fosse matar mais alguém, teria feito já.
— Não dá pra saber.
— Ele deve ter fugido já. Deve tá bem longe.
— A gente também tá longe — ela brincou, já que o raciocínio do namorado tinha funcionado para acalmá-la.
— Longe do jeito que eu gosto — foi até a namorada e a agarrou pela cintura. — Eu disse que esse final de semana aqui no rancho ia te fazer bem e esquecer dessa história.
Algo na visão de canto de olho de Sabrina chamou sua atenção. Se assustou a ponto de se afastar de Hélio e encarar rapidamente a direção de onde veio.
— Tem alguém lá em cima — disse quase se desesperando. — Eu vi a luz da casa piscar!
— Calma, gata — Hélio se aproximou dela novamente. — São os caras. Tão lá ainda.
Sabrina suspirou em alívio, mas ainda não se deu por satisfeita:
— Eles não foram embora ainda?
— Não, eu deixei — explicou. — Eu deixei eles continuarem curtindo e dormir lá. O Rafa tá bêbado demais pra dirigir de volta pra cidade.
— Podia ter me avisado, né?
— Ué? Avisar por que? A casa é minha.
— Mas eu tô aqui com você — disse indignada e afastou o corpo dele de perto do dela. — E tinha prometido que a gente ia ficar de boa aqui. Nem me avisou que eles viriam também, pra começo de conversa.
— Tenho que te falar tudo agora? — Ele também não parecia mais tão satisfeito.
— Têm! — foi imperativa.
— Eu te deixo de boa pra fazer seus rolês — foi até a geladeira e pegou uma cerveja para abrir -, não preciso dar satisfação de tudo, não.
— Pra algumas coisas precisa, sim! — ela insistiu.
— Ah, é? — Hélio cerrou os olhos e a encarou em silêncio por alguns segundos antes de perguntar: — E a sua carta?
Sabrina engoliu em seco: — O que têm ela?
— Não quer me dar satisfação do que têm escrito nela? Cê pareceu bem zica quando recebeu.
Sabrina não soube bem o que responder de imediato. Não tinham falado abertamente sobre o assunto ainda. Era algo velado. Sabiam e entendiam que cada carta tinha um segredo de ambos, mas não precisavam entrar em detalhes sobre o conteúdo. Apenas entendiam que era algo sensível individualmente.
— Mas você não falou da sua, também — Sabrina tentou se descomprometer devolvendo a provocação para o namorado.
Hélio deu um gole na cerveja sem tirar os olhos da garota loira.
— Eu falo. De boa — ele flertou. — Se me falar a sua, eu falo também.
De pronto e feito, Sabrina pensou em mentir. Mas preferiu não fazer. O namorado sabia onde havia guardado sua carta e não queria correr o risco dele encontrar antes que pudesse dar um fim nela.
— Deixa quieto — ela pediu, murchando os ânimos. Desviar seria a melhor estratégia naquele momento. O namorado continuou encarando ela, pensando. Ele fez que não com a cabeça e continuou:
— Cê não confia em mim?
— Claro que confio.
— Então me fala o que tem na carta.
— Não precisa disso.
— Tá com medo de alguma coisa? — Hélio colocou a garrafa de cerveja com certa força em cima do balcão. O estalo do vidro sobre o mármore era previsível, mas, mesmo assim, Sabrina hesitou com o susto.
O olhar do namorado estava diferente. Embargado, caído e certeiro. A garota leu certa raiva em suas pupilas. Hélio avançou para cima dela num supetão. Foi tudo rápido, mas a mente de Sabrina conseguiu fantasiar aquele mesmo rapaz fazendo o mesmo movimento para Paloma e Larissa. E depois as matando a facadas.
Ela afastou-se instintivamente para o lado e colocou os braços sobre seu rosto para se proteger. Virou a cara para o lado, encolhendo-a sobre sua clavícula. Fechou os olhos o mais forte que pôde.
Ao contrário do que imaginava, não sentiu Hélio agarrar seu corpo por causa da raiva que emanava. Depois de uns segundos, desfez a postura e olhou para ele. Ainda mais próximo dela, mas não tanto quanto deslumbrou.
— Achou que eu ia fazer o que? — ele perguntou um pouco decepcionado com a namorada. Ela continuava o encarando e demorou para dizer algo. — Te bater?
Sabrina se sentiu mal pela sua reação. Sabia que foi instintivo, mas tinha passado uma mensagem errada.
— Cê tá com medo de mim? — Hélio insistiu. Naquele momento, sim, ele parecia estar à beira do nível de raiva que Sabrina achava que estava antes.
Sabrina não respondeu e o silêncio o deixou ainda mais revoltado. Num movimento rápido, deu um tapa na garrafa do balcão e a fez voar contra a parede. O líquido explodiu e respingou até nos olhos de Sabrina, que logo os esfregou para limpar. Hélio deu uma bufada alta e se trancou no quarto.
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