Notas iniciais
Boa leitura!!!

Sala de espera de um hospital. Magali cochilava sentada em um das cadeiras, com uma revista no colo. Estava lá há quase uma hora. Cascão no fim do não comentou que se inscreveu em um campeonato de skate em nada mais, nada menos que Tókio. Depois de convencer Dona Lurdinha que a viagem lhe faria um bem cultural, com a ajuda de Tikara, foi para o outro lado do mundo. Ficou um mês no Japão. Estavam há 37 dias sem se ver. A competição acabou para Cascão quando caiu e bateu a cabeça. Dona Lurdinha quase teve um enfarto. Mesmo chegando em São Paulo bem, a mãe do garoto fez passar por uma clínica médica para tirar raio X e uma ressonância magnética. Depois dos exames e saber que ele estava bem o que mais queria era vê-lo!!! Mas não resistiu foi vencida por quase uma hora de chá de cadeira e o pegou no sono.

- Magali!!! – sacudiu levemente dona Lurdinha. – Acorda!!!

Magali – Ãh? – Sonolenta. – Dona Lurdinha?

Lurdinha – Vai lá ver ele, filha... O Cascão tá no quarto te esperando...

Foi só falar no namorado que a menina despertou e se pôs de pé. Ajeitou os cabelos comajuda do reflexo do vidro da janela e arrumou melhor o sutiã. Lurdinha sorriu ao perceber a insegurança da comilona

- Eu to bem? –Questionou ainda em dúvida.

Lurdinha faz um movimento afirmativo.

- Ele vai adorar... Vai lá até o quarto... Eu vou trazer o carro aqui mais pra perto do hospital e já busco vocês... Ele já teve alta...

Sai e deixa a garota que segue em direção a porta do quarto contando os passos. Para e dá três leves toques na porta que se abre. Não ouve nenhum barulho e nem ninguém no quarto.

- Cascão? – Entra, vai até a cama nenhum sinal. – Cascão?!

- Fominha... Você tá linda!!! – Diz o garoto vindo do banheiro.


A voz dele parece música em seus ouvidos. Levemente ele toca seus ombros. Ela fecha os olhos sentindo seus dedos ásperos.

Quando soube da viagem sentiu o mesmo frio na barriga como foi com Quinzo. Falaram-se quase todos os dias por meio de msn, cams, orkut, sms, telefone. Mas a tecnologia perde feio quando se fala em contato de pele de dois apaixonados, recém namorados com um mês inteiro sem se tocar.

Vira-se em câmera lenta.

Ao ver seu rosto o garoto não contém um sorriso apaixonado e logo um cai nos braços do outro.


- Eu te amo!!! – Dizem em uníssono. Dão um riso e trocam o primeiro beijo da volta de viagem.

O Sujinho recebe milhares de beijos enquanto a ergue no ar. Terminam por cair um em cima do outro na confortável poltrona de acompanhantes do hospital. Entre gargalhadas Cascão comenta.

- Tava morrendo de saudade de você...


Magali – Saudade é?! – Começa a desferir alguns tapinhas de leve em seu peitoral que de tão fracos chegam a ser cócegas para seu namorado. – Não falei pra você tomar cuidado?!

Cascão (Rindo) – Não foi nada... – Defendendo-se do ataque de tapas. – Seis pontinhos...

Magali (Preocupada) – Nada mesmo? Não dói? – Coloca a mão no curativo para verificar. O menino que afasta com uma expressão de dor. – Desculpa...

Cascão – Dói um pouco... Mas o médico disse que a cicatriz vai ser bem discreta...

Magali (Rindo) – Que bom... Ficar mais feioso que já é... – Cascão mostra a língua desdenhando da opinião da garota e faz ela rir mais ainda. Maga pega um sacola que tinha trazido e perdeu na confusão da poltrona. – Pra você... Presente...

Cascão (Tenso) – Ihhh... E hoje é dia do que? Primeiro beijo? Primeiro sorriso? Primeiro sorvete? Primeiro... – Sempre esquecia essas datas irritando a comilona. Mas dessa vez ela foi amena.

Magali – Dia de nada, burro... Não posso comprar presente pro meu namorado?

Cascão – Cara sortudo esse namorado... – Abre o embrulho é um boné de seu gosto. – Caraca maluco, cabuloso hein?! Esquece Magali na poltrona e coloca o boné, se ajeita no espelho. Fazendo poses de rapper. – Olha, já é... Éh Nóiz, Queroiz!!! – Mais poses.

Magali – Aí Cascão... Fala uma língua que eu entendo. De cinco palavras que você fala, três são gírias e uma é palavrão...

Cascão – Ah porra qual é maluco, nem é... – Percebe a mancada. – Ok, muito obrigado amorzinho... Adorei o boné... – Dá um selinho. – Melhor?

Magali – Bem melhor... – Dão mais um beijo. – Fico lindo... Depois você me conta tudo do Japão, hein?!

Cascão – Ok. E minha mãe?

Magali – Daqui a pouco tá... – Batem na porta. Maga se levanta Completa. – Aí... – Cascão abre a porta.

Lurdinha – Pelo jeito vocês já estão prontos, e o médico já passou dando alta... Vamos embora?

Cascão rápido, pega sua mochila.

- Agora!!! Até nunca mais hospital... – Coloca a mochila e desliga a luz do quarto. Sai abraçado com a namorada e dona Lurdinha vai mais atrás, observando o casal de jovens.

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Mônica chega em casa um pouco antes do jantar. Sua mãe falava no telefone com uma amiga e o pai estava entretido no Jornal Nacional. Uma notícia sobre uma quadrilha de diamantes. Como não tinha nada de interessante para fazer foi para o quarto, tirou a roupa e separou o pijama de bichinhos para o banho. Abriu a mochila da escola para pegar um creme hidratante que tinha comprado no caminho de volta a biblioteca quando estava na companhia de Flavinho. Du com os livros da pesquisa e o tal creme. Fechou a mala e foi para o banheiro. Terminou de tirar as peças de roupa e abriu o chuveiro, molhava os cabelos enquanto pensava nos acontecimentos do dia.

Como Cebolinha era grosseirão. Ela faz a pesquisa quase toda, Flavinho dá uma super mão porque é mais velho e fazia faculdade de ciências e o idiota da um show daqueles. Mal agradecido. Se ficou tanto tempo esperando porque não ligou no celular.Ele andava tão resmungão, tão chato ultimamente. Nem parecia mais aquele mesmo garoto de seis meses atrás que era inteligente e ingênuo ao mesmo tempo. Que com aquele jeitinho meio torto quase fez ela por uma amizade de anos em jogo.

Agora tinha virado aquela velha coroca reclamona. Por um lado era bom, pois tinha certeza que seu sentimento por ele só poderia ser amizade e a tentação de um dia pensar em ficar com ele passava longe. Jamais conseguiria ficar com o Cebola dos dias de hoje. Mas por outro lado sentia uma falta do Cebola de antes. Cheio de defeitos sim, mas ainda um fofo.

Bom... De fofos não podia reclamar. Sua vida estava cheia deles. Ricardinho, Reynldinho, Fabinho, Eduardinho, Fernandinho, Flavinho entre outros. Gostava deles, mas só nada sério e muito menos vulgar. Apenas curtição mesmo. Já tinha perdido a esperança de surgir um príncipe, mas queria sim um garoto. Mas nenhum desses. Um especial. E enquanto o especial não chegava que tem demais curtir os que surgiam?!

Demorou só o tempo de tirar o xampu e desligou o chuveiro, quando ia começar a passar o hidratante ouviu a campainha do celular avisando que tinha mensagem. Enrolou-se na toalha e saiu correndo para ler o torpedo. Não era nenhum garoto, mas sim uma velha conhecida.

DE: Aninha

Para Mô

Oi Mô, só mandei mensagem pra lembrar que no fim de semana tem noite das garotas. Carminha, Dê, Maga, Irene e Cascuda me confirmaram, só falta você, Marina e Dorinha, bjos me liga, tchau!!!

Claro que ia. Todo segundo fim de semana do mês as meninas arrumavam um jeito de se reunir. Ou era na casa de uma delas ou alguma balada, mas sempre se reuniam. E agora que o grupo ficou maior com a presença de Carmem e Irene estava mais animado. Não ia deixar de ir. Ficou mexendo no aparelho até que viu nove ligações perdidas. Todas do mesmo número. Cebola. Então ele ligou, mas... Não o celular estava bem no fundo, não ouviu nenhuma vez se quer. Dessa vez o Troca Letras tinha razão. Ela pisou feio. Aproveitou que sua página no orkut estava aberta e deixou um recado para o menino.

Vi suas ligações agora. Dá pra gente falar amanhã na aula?!!! Bjos.

Embaixo de seu recado tinha de uma menina, mas não se interessou em ler e deslogou. Fechou a página na internet. O fundo de plano do computador era uma foto dos dois junto com Cascão e Magali.* Ficou um tempo encarando o retrato, principalmente o rosto de Cebola que sorria. “ Porque eu sou tão pavio curto com você hein?!” – Ficou um tempo pensativa até sua mãe chamar para jantar. Desligou o PC e foi se reunir a família.

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Chico Bento participava da roda de viola que os roceiros faziam animadamente. Uma garrafa de pinga rodava entre a peonada, ofereceram a Chico, mas ele passou a outro. Apenas gostava de curtir a fogueira e ficar ouvindo a voz de Zé da Roça que nesse momento tocava Tristeza de um Jeca* a pedido de um dos trabalhadores. Zé Lelê acompanhava com o violão de sempre. No fim da música aplausos.

Zé da Roça- Agora escóie uma homenageado... Manda um nome e nóis toca a música procê Chico...

Chico – Ará... Qualquer uma... Escoíe ocês mesmo...

Um dos roceiros resolve manifestar a favor de Chico.

- Ocês tinahm que fazê uma música em homenagem ao Chico...

Chico (Modesto) – Ará quero música nenhuma em minha homenagem...

Uma moça que estava próxima a roda e já estava de olho em Chico a algum tempo resolveu arriscar.

- E um beijo?

A moça era Viviane. Ruiva, corpo escultural, mulherão, olhos verdes. Muito conhecida na Vila Abobrinha. Filha mais nova do delegado. Quatro anos mais velha que Chico, tinha 23 anos. Foi expulsa de casa porque se entregou a um rapaz que foi embora da cidade. A garota não deixando se abater foi atrás dele. Ficou alguns meses foram e se tornou assunto na boca dos fofoqueiros da cidade. Por ser muito bonita e usar roupas provocativas sua reputação não era bem vista. Ganhou fama de mulher fácil, regateira. Muitos homens da vila Abobrinha desejavam Viviane embora mal a cumprimentassem na luz do dia. Zé Lelê, Chico, Zé da Roça eram um dos poucos que lhe tinham um certo pudor com a moça. A proposta dela deixou Chico vermelho.

- Eu tenho compromisso firme, Viviane...

Viviane – Ará Chico, mas beijinho num tira pedaço... – Provocando, chegando perto de sua face, mas sem beija-lo. — No rosto...

O roceiro eu tinha dado a idéia da música em sua homenagem mais uma vez quis agradar Chico.

- Diacho Chico, é só brincadeira... A Rosinha nem tá aqui... – Chico olha para Zé Lelê e Zé da Roça pedindo socorro.

Zé Lelê – Bom... Num tem nada dimais se é ó brincadeira né?! – Disse para não indispor com Viviane.

Zé da Roça (Sacana) – É acho que num tem nada não... E até desfeita com a moça num aceitá Chico, ocê num vai quere ofende né?

Chico sem graça.

- Não... Craro que não... Mas é que...

Viviane – Então senão tem problema... – Inesperadamente sela seus lábios com os do garoto que fica sem reação até ouvir uma voz bem conhecida.

- FRANCISCO BENTO?!!!! EU NUM CRÊDITO!!! OCÊ COM ESSA SIRIGAITA?!

Empurra Viviane no ato e quase tem uma sincope ao dar com o semblante irritadíssimo da garota que estava mais arrumada que o de costume. O penteado o mesmo da infância. Só que agora com uma franjinha na testa. As feições a mesma de menina, só o corpo ganhou formas adultas. Usava um vestido de chita que ia até o joelho e botinas de cano longo. Um chapéu de vaqueiro preso no pescoço caia em suas costas. Os olhos chispavam toda sua ira. Partiu para cima dando tapas no garoto que era inocente e em Viviane que revidava.

Viviane – CAIPIRONA!!! GROSSEIRA!!!

Rosinha – REGATEIRA!!! SIRIGAITA!!!

Engalfinharam-se no chão. Os peões tentavam separar sem sucesso. Zé Lelê levou um tabefe de graça e Zé da Roça conseguiu segurar Rosinha a muito custo enquanto outro peão se debatia com Viviane e Chico no meio tentava acalmar a namorada.

Rosinha – ME SORTÁ PRA EU ACABA COM ESSAZINHA ZÉ!!! – Debatia-se Rosinha.

Viviane respondia a altura.

- SORTÁ PRA MOSTRA PRA ESSA COITADA QUEM È A SIRIGAITA!!!

-ARÁ MAS EU JÀ TO VENDO ELA DAQUI!!!

-ME SORTÁÁ!!!

- CHEGA!!! - Chico berra tentando da ordem. Conseguem levar Viviane embora.

Rosinha e solta e também vai embora, Chico corre atrás dela.

- Ocê tem que me iscuita, Rosinha!!!

Rosinha – Iscuitá o que se eu vi ocê e a sirigaita!!! – Dá umtapa na cara de Chico. – Passar bem... – Com desdém. – Francisco Bento!!! – Sai pisando duro.

-Rosinha...

Notas finais
Obrigada pelos comentários e participem mais, beijos!! * Foto do plano de fundo de Mônica = capa da edição 10.