Notas iniciais
http://www.youtube.com/watch?v=4AXccg-bDb4 - Burguesinha - Seu Jorge.

Boa Leitura!!!

O Shopping Center do Limoeiro não estava tão lotado no período da tarde, horário que Carmem mais gostava de freqüentá-lo. Podia andar sem a pertinência de crianças choronas ou esbarrando toda hora em suas pernas. Tinha acabado de almoçar com o namorado. Despediram-se na praça de alimentação e ele foi trabalhar. Ela ia para casa, mas jamais com as mãos vazias.

Vai no cabelereiro
No esteticista
Malha o dia inteiro
Pinta de artista

Usava uma blusa preta fresca e um shortinho jeans. Oenorme óculos marrom da Chanel sobre os cabelos loiros completavam seu visual. Um belíssimo vestido vermelho moda verão que estava exposto em uma vitrine chamou sua atenção, não só pela beleza, mas também o preço. Era a peça mais cara da vitrine.

Saca dinheiro
Vai de motorista
Com seu carro esporte
Vai zoar na pista

Nada que o poderoso cartão de débito não resolvesse, a vendedora já lhe conhecia apenas abriu um sorriso para confirmar.

- Temos vermelho e verde, vai querer qual?

Carmem – Vermelho e verde, pode embrulhar os dois querida, enquanto vejo outras coisas... – Desce o óculos e afasta-se deixando a vendedora festejando sua comissão.

Burguesinha, burguesinha
Burguesinha, burguesinha
Burguesinha
Só no filé

Escolhe mais algumas coisas e entrega o cartão para a vendedora passar. Assim que as compras estão embrulhadas liga para o motorista busca-la. Airton sai da loja carregado. As atendentes comentam.

- Essa aí tem vida boa...

- A vida que pedi a Deus... – Comenta a outra.

Burguesinha, burguesinha
Burguesinha, burguesinha
Burguesinha
Tem o que quer

Os enormes portões da mansão dos Frufru se abriram quando Airton , já citado segurança particular de Carminha acionou o botão do controle remoto. O confortável veículo deslizou macio para dentro do casarão.A loirinha no banco de trás admirava a bela paisagem da piscina e dos jardins entediada como sempre. Ao seu lado as comprinhas do shopping. Tinha do até lá só para não voltar cedo para casa. O motivo? O mesmo de sempre, não aguentava mais ver aqueles dois brigando. Airton lhe abriu a porta oferecendo a mão em um gesto cavalheiro. Desceu e ordenou que levasse as compras para dentro, como estavam próximos a cozinha entrou por aquela porta mesmo. Parou para pegar uma água na geladeira quando ouviu os gritos vindos da sala. Seu Cornélio e dona Regina, pais de Carmem mais uma vez discutiam.

- NÃO SUPORTO MAIS VOCÊ!!!!

-E POR QUE NUNCA FOI ATRÁS DE COISA MELHOR?!!! – Retrucou Cornélio. – QUEM NÃO SUPORTA MAIS ESSA VIDA SOU EU E É POR ISSO QUE ESTOU BOTANDO UM PONTO FINAL!!!

-Ponto Final? – Repetiu Carmem sem entender as palavras. “Será que... Não, não pode ser!!!” Correu para sala e a imagem que viu era o veredicto final. Cornélio com duas malas prontas e preparadas para sair. Dona Regina jogada numa poltrona parecia inconsolável.Com um copo nas mãos estava tremula. Carminha apenas olhou para o pai, confusa.

- Filha!!! Que bom que chegou... Cadê o motorista, assim não preciso pegar o táxi!!!

- O que esta acontecendo? – Perguntou Carmem lentamente. Seu

Cornélio já não a escutava. Estava falando no celular, cancelando o táxi que tinha pedido e saiu atrás do motorista. A loirinha olhou para a mãe suplicando por alguma informação que naquele momento era dispensável. Regina não respondeu só se fazia chorar, desesperada Carmem pergunta outra vez.

- O que esta acontecendo? – Começa a sacudir Regina para a outra ter alguma reação. – Por favor me fala, me fala alguma coisa e...

- EU PEDI PARA O SEU PAI SAIR DE CASA!!! – Explode. — EU NÃO AGUENTO MAIS!!!!NÃO AGUENTO MAIS TANTA PREPOTENCIA EM UMA PESSOA SÓ... – Emocionada. – Desculpa, filha?

Era mesmo a mãe que lhe falava aquilo? – Pergunta-se. Como resposta recebeu um abraço comovido da progenitora.

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Do Contra chegou na sala da coordenação do colégio do Limoeiro meia hora atrasado. Era corrido sair da escola, tomar um banho almoçar e voltar de novo para o colégio. Assim que entrou reconheceu a coordenadora que tinha lhe atendido. A magrela, alta velha com cara de bruxa. Seu nome: Madalena. Assim que viu o garoto não se conteve e em um gesto arrogante olhou o relógio de pulso, em seguida para medir o metaleiro de cima a baixo. Não fazia questão de esconder que o visual rock de Do Contra não a agradava.

- Atrasado mocinho...

Do Contra – é que fica meio corrido para almoçar, tomar banho e vir de volta em uma hora e...

- Sei... – Respondeu em um suspiro. – Bom... Vamos a sala... – Fez um gesto para que a acompanhasse. Atravessaram um corredor cumprido, cheio de classes, Do Contra podia ouvir o barulho que a criançada fazia. Pararam na ultima sala.

- Essa é sua sala rapaz, crianças de 5 a 7 anos...Damos aula de reforço escolar e alguns até alfabetizamos, trabalhará como assistente da responsável. — Entrega a Do contra um jaleco branco. – Use isso... – Abre a porta da sala e entra puxando o garoto pelo braço. As crianças que corriam de um lado para o outro são freadas com seus berros. Todos se acomodam nos devidos lugares. – Bem melhor assim... – Faz uma pausa, percebe que os baixinhos olham o garoto com curiosidade. Do Contra também partilhava dessa sensação. Tirando a época que fora criança, não tinha mais contato com elas. – Este rapaz vai trabalhar na classe de vocês como assistente da responsável, o nome dele é... – Lê a ficha, parece meio encafifada. – Antônio.

- Não, é Antônimo mesmo. O escrivão errou na hora de bater e ficou... – Antes de completar a explicação de que o escrivão errou seu nome de Antonio para Antônimo e por isso o apelido de Do Contra, a classe inteira desata a rir com a história.

Madalena avessa a risos fechou a cara e lhe aconselhou, de forma ameaçadora:

- Sem gracinhas rapaizinho... Ou entrego seu nome na diretoria e veto você do projeto!!! – Do Contra sabia que se recebe mais algum chamado da diretoria poderia resultar em um convite para sair do colégio do Limoeiro. – Bom serviço rapaizinho, a responsável logo deve chegar!!! Com licença... – Sai batendo a porta com força deixando um espantado Do Contra na mão de mais 20 crianças. Após o choque da bronca, o garoto veste o jaleco branco e comenta em voz alta.

- Bruxa!!!

Mais risadas pela classe surpreendem Do Contra que fica meio perdido.

- A professora de vocês não vem?

- Ela tá aí, só que disse que ia atrasar um pouquinho porque ia conversar com uma amiga pra acertar umas coisas da festa... – Respondeu uma gordinha sentada na primeira fila.

Do Contra – Festa?

- É a festa do Projeto Social, tem todo ano... A professora disse que esse ano vai ter uma peça de teatro até. – Um garotinho negro, informou. Do Contra fez apenas um movimento afirmativo com a cabeça.

Do Contra – Tá legal... E o que a professora de vocês tava passando de lição?

- Ela mandou todo mundo fazer recorte em revista. – A mesma gordinha falou. Do Contra faz um movimento afirmativo com a cabeça. Ia falar qualquer coisa mas o celular começa a tocar.

- Oi? Toni? Fala aê... – Tempo. – To sussa... Encontrar agora?! Tá na frente do colégio.? Ok, to indo aí, tchau!! – Desliga. Ás crianças.- Vou dar uma saída, peguem a tesoura e façam os recortes que a professora deu ontem. – Sai da sala e caminha para frente da escola, logo vê o cabeludo Tony montado em sua moto, assim que o loiro vê Do Contra desata a rir.

- Hahahahahahahaha !!! Que uniformizinho ridículo véi!!! Qual o próximo passo? Virar escoteiro?! Hahahahahahaha – Disse enquanto segurava a barriga que doia de tanto rir. Do Contra apenas soltou um riso amarelo, levou um “pedala” amigável. – E aí tudo sussa mesmo?!

- Você não saiu de casa só pra saber se tava tudo sussa comigo.

-Não... – Concordou Toni. – Queria terminar o papo de ontem. – Oferece um cigarro, Do Contra não aceita. – Lembra o que tava falando contigo antes do pangaré do teu irmão chegar?

Do Contra – Lembro... Você fumou não sei o que e veio com aquele papo de diamante... – Pensa nas palavras que vai usar. – Isso não tem chance de dar certo.

Toni – Deixa de ser do contra, Do Contra... Eu tenho um esquema todo armado... Só preciso de um cara de confiança...

O rosto de Do Contra se contrai em uma expressão de dúvida, já se meteu em muitos rolos nos últimos dias.

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-AAAHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!!!!!!!! – Quinzo ouviu o grito saído do Bardoka na esquina, quando saltava a lotação. Chegava da faculdade e pelo jeito o bar não estava naquela costumeira calmaria da tarde. Correu até a porta. A cena era cômica se não fosse trágica. Carmem, sentada em um dos bancos altos do balcão, debulhava-se em lágrimas e gritos. Seu Joaquim vermelho de nervoso tentava acalmá-la sacudindo um pano de prato engordurado. Todo esforço em vão. Titi tentava convencer um casal a ficar, mas os namorados incomodavam-se com o chororô de Carmem.

- O QUE É ISSO??? Da rua parece que tão sagrando um porco!!! O que foi Carmem?

Carmem – O Jê... Eu saí pra almoçar e fui no shopping e cheguei em casa e... – Caiu novamente no choro misturado com gritos, á voz embasbacada transformava a explicação em grunhidos. O portuguesinho olhou para o pai a procura de alguma resposta.

- Eu não estou entender paçocas do que essa gaja fala... – Respondeu o vermelho seu Joaquim com um sotaque mais carregado que o de costume, sinal que estava nervoso.

- E daí? Eu também não entendo nada que o senhor fala!!! – Respondeu com a voz embargada.

Titi – O ultimo casal foi embora e ainda tive que dar desconto pra eles...

- Aí Jesus!!! – Joaquim disse já sentindo as dores no bolso e quase chorando como Carmem. Começa a massagear o coração.

Quinzo – Paiê!!! Calma... Não vai ficar com inveja da Carmem e ter chilique aqui não!!!! Foi só dois clientes... – Vai até Carmem. – O que aconteceu?

Carmem – Os meus pais e... – Volta a chorar desesperadamente, Marina vem da cozinha trazendo água com açúcar. – Eu fui no shopping e...

Marina – Que bom que chegou Quinzo... A Carmem, ela...

- O que aconteceu com a Carmem?

Carmem — Eu fui ver o o Jê e meus pais e... AHHHHHHHHHHHHHHH — Chora deseperada escondendo o rosto com as mãos.

-Bebe logo essa água e explica o que tá acontecendo Carmem... – Ordena a impaciente Marina, a garota da uma golada.

Titi – Já que a Carmem espantou todos os fregueses, posso tirar a tarde de folga?!

- NÃO!!! – Marina e Quinzo respondem em uníssono. – E você fala logo o que tá acontecendo Carmem!!! – Exige Marina.

Carmem – Eu sai para almoçar com o Jê e fui até o shopping fazer umas compras... Quando eu cheguei em casa e...

E? – Quinzo, Titi, Marina e Seu Joaquim perguntaram curiosos.

-E... – Carmem ia prosseguir e desata a chorar, frustrando todos que ficam impacientes.

- Que mais me falta acontecer? – Pergunta-se Quinzo.

- E aí povo?!!! O que que tá rolando? – Denise pergunta entrando animada

Titi – Isso responde sua pergunta, Quinzo?!

Denise vê a cena.

- Que babado é esse gente? Cadê os fregueses, movimento, Marina andando neurótica pelas mesas, Titi paquerando qualquer rabo de saia que entre por aquela porta.

Titi – Sua querida amiga espantou todos...

- Insensível – Carmem retruca.

Marina – Agora que você esta mais calma, responda o que aconteceu, Carminha...

Carmem – Eu sai da escola e fui almoçar com o Jê...

Marina – E depois foi no shopping fazer compras e foi pra casa? – Carmem afirma com a cabeça. – O que aconteceu depois disso?

Carmem – Eu cheguei em casa e... – Volta a chorar aos gritos, mais deseperada do que nunca.

Marina – Me ajuda aqui Denise... Faz alguma coisa... Fala com ela e...

Denise – Quer que eu tire sua sorte nas cartas Cacá?

Marina (Censurando) – Denise!!!

Carmem (Calma) – Eu quero!!!- Disse surpreendendo a todos, Denise tira as cartas, Carmem começa a cortar o baralho.

Quinzo ia falar reclamar alguma coisa, mas Marina intervém.

- Deixa elas ali no cantinho... Pelo menos não espanta mais fregueses. – Um casal entra no bar, Titi vai receber, junto a Marina. Quinzo tenta abrir a boca para queixar-se com o pai, mas é interrompido pelo português.

- Quem mandou abrir bar?!!! Só gruda desocupado, não te falei? – Censurou olhando meio de banda para Denise e Carmem.

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Do Contra – Só to sendo realista... Cara, sabe o quanto vão falar se isso acontecer? A polícia não vai dar descanso, nem o dono da joalheria nem...

Toni – Pensei que você era o cara, mas não passa de um pipoca... – Termina seu cigarro. – Seguinte Do Contra, esquece essa história... Não te falei nada, ok? Volta lá pros teus pirralhos.

O metaleiro faz apenas um movimento afirmativo com a cabeça. Antes ser pipoca do que presidiário. Leva um tapinha nas costas e um “até mais” de Toni que parte com a moto fazendo um barulhão. Observa dobrar a esquina e faz o caminho de volta. Chega na porta da classe e ouve a barulhada e o monte de alunos, entra correndo.

- O que tá acontecendo? – Pergunta preocupado. Mete-se no meio da rodinha e vê o garotinho negro caído no chão, com as mãos sobre um dos braços. – O que aconteceu? – Repetiu nervoso.

- Você mandou a gente pegar a tesoura e o Samuel subiu pra pegar e caiu lá de cima. – Disse apontando de um armário de quase dois metros, onde era guardada as tesouras.

- Caraca... – Tentou pegar no braço e percebe a expressão de dor do garoto. –Será que quebrou?

-Quebrou o que? – Uma voz feminina disse vindo da porta de entrada. Conhecia aquela voz, mas não era da bruxa da coordenadora. Uma voz que já ouviu várias vezes. Virou-se para ter certeza.

- Dorinha? – Perguntou-se espantado. – O que você tá fazendo aqui?

Dorinha — Eu sou responsável por essa classe!!! Sou voluntária do projeto social... Fui conversar com a Mônica sobre a peça que ela e o colega dela vão apresentar na nossa festa... Mas o que você veio fazer aqui, Do Contra?

Do Contra – Eu... vim...

- Tia, o Samuel quebrou o braço quando o foi pegar as tesouras no armário!!

- Que? –Dorinha pergunta preocupada, tenta achar onde esta o garoto. – Samuel?!

-Aqui tia – Diz o menino um pouco melhor. Estende o braço, Dorinha agarra o garoto, vê que esta melhor.

- Por que você subiu? Não sabe que sempre peço pra algum adulto pegar as coisas lá em cima.

- Mas o tio que mandou a gente pegar porque ele saiu... – O garoto disse.

-Que?! Isso é verdade, Do Contra?! – Perguntou em um tom nada amigável.

Notas finais
Espero que tenham gostado, bjus e comentem!!