Notas iniciais
Fala-me como alguém que me viu tão de frente / que eu não posso saber se é o meu próprio retrato / num espelho clarividente é um trecho do poema “Fala-me agora, que estou cansado”, de Cecília Meireles.
“Como eu me odeio! O Frank ia me beijar, por que fiz aquilo?”, pensava durante o café da manhã. “Agora ele vai me odiar para sempre!”.

- Pensando em quê? – perguntou Gerard.

- Nada... – respondeu Helena, sem vontade de brigar.

* * *

Distraída e cabisbaixa, ela saiu do quarto com um livro de poesias na mão.

- Ei, olha por onde anda!

A pele branca e macia de Gerard estava a poucos centímetros dela. Seus cabelos pingavam, as gotas escorriam pelo peito e mais abaixo, somente uma toalha.

Helena enrubesceu ao perceber que passara alguns segundos olhando o peito descoberto do irmão.

- Desculpe...

Caminhou em direção à escada.

“Quase perdi o fôlego”, pensou ela. “Ele é realmente bonito”.

Foi sentar-se lá fora, no gramado.

Abriu o livro na página que havia parado a leitura e sentiu as palavras de seus poemas preferidos.

“Será que ele percebeu alguma coisa? Como sou boba, só faltou tocá-lo mesmo”.

Levantou um pouco os olhos e notou um par de sapatos a sua frente.

- Oi, Frank.

- Oi.

- Pensei que não fosse falar mais comigo...

- Não... Fiquei chateado, mas... passa.

Sentou-se de frente para ela.

- Não sei o que deu em mim.

- Você gosta de outro?

- ...

- Pode falar, porque pra mim é óbvio.

- Okay... Amo uma pessoa, mas é impossível, não pode acontecer.

- Por quê?

- Porque... não pode.

- Eu conheço?

- Sim... e não. Olha, não quero falar sobre isso, ainda mais com você. Não quero te magoar.

* * *

- De namorico com Frank Iero?

Helena assustou-se. Havia acabado de fechar a porta da sala.

Gerard estava sentado no sofá, assistindo TV.

- Não é da sua conta.

- Não responde pra mim!

- Blah, blah, blah! – provocou.

Saiu correndo quando percebeu que ele iria atrás dela. Subiu a escada e trancou-se no quarto.

- Espera você sair daí, vai ter o que merece!

Helena passou o tempo lendo. Algumas lágrimas caíam de vez quando ao ler um poema triste de amor.

“Acho que agora já dá para sair”.

Colocou a cabeça para fora, nenhum sinal de Gerard. Saiu nas pontas dos pés.

- Peguei você!

- Me solta, Gerard!

- Não até eu lhe dar uma lição.

- Vou chamar a mamãe!

- Chama, eles saíram.

Conseguiu soltar-se, mas logo em seguida ele a agarrou novamente. Pressionou-a contra a parede.

- Pede desculpa.

- Não!

- Pede!

- Não tenho de que me desculpar.

- Vai ficar aqui até pedir.

Apertou-a mais.

Fala-me como alguém que me viu tão de frente

que eu não posso saber se é o meu próprio retrato

num espelho clarividente.

(Cecília Meireles)

- Helena, pede desculpa – disse, fitando-a.

“Esses olhos verdes... Por que ele faz isso comigo?”

Num impulso, levou os lábios aos dele; durou um segundo.

Mal teve tempo de pensar qual seria sua reação, Gerard simplesmente tomou sua boca inteira.

- Eu odeio gostar de você... – murmurou ela.

.FIM.

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